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21 June 2026

DAS MARGENS PARA O CENTRO

Quando, em 1993, Johnny Cash estava a trabalhar no seu memorável 81º álbum, American Recordings, o produtor Rick Rubin sugeriu-lhe convidar um grupo de compositores criteriosamente selecionados. Assinalando um ressurgimento na carreira de Cash, American Recordings excluiria qualquer tipo de produção sobrecarregada, deixando-o sozinho com uma guitarra e as letras. Para capturar o som na sua forma mais crua, o álbum seria gravado entre a sala de estar de Rubin e a cabana de Cash no Tennessee. Para além das cinco faixas escritas por Cash, o álbum incluiria, então, igualmente uma coleção de canções assinadas por um grupo eclético de artistas, de que faziam parte Nick Lowe, Kris Kristofferson, Leonard Cohen.e Loudon Winright III. Tom Waits também foi convidado a contribuir com uma canção. Mas, como ele contaria a Jim Jarmusch no substack "Every Tom Waits Song", havia apenas “Down There By the Train” que, até à altura, "ninguém quisera gravar. E também não conseguimos encontrar uma forma de o fazer que nos satisfizesse, por isso deixámo-la para trás. E lá ficou ela, à espera". (daqui; segue para aqui)

 

Lucinda Williams - "Hang Down Your Head"

09 March 2026

 
 
(sequência daqui) Não esqueçamos, pois, que (ainda que jure "Não hei-de morrer. A vida é demasiado boa. Não pode acabar”) lidamos com o autor do mais singular requiem de sempre: "Dress sexy at my funeral, my good wife, for the first time in your life, wear your blouse undone to here and your skirt split up to there, and when it comes your turn to speak before the crowd, tell them about the time we did it on the beach with fireworks above us" (de Dongs of Sevotion, 2000). My Days Of 58 revela um Bill Callahan reflexivo desenhando paisagens emocionais com a mesma precisão seca de um diário. Ainda que os espectros de Lou Reed e Leonard Cohen (a somar a John Lee Hooker e, menos detectavelmente, aos vestígios de free-jazz que reivindica) nunca se ausentem, não há aqui nenhuma grande reflexão, Apenas fragmentos, cenas domésticas, pensamentos passageiros. (segue para aqui)

08 December 2025

(Post que deveria ter sido publicado na sequência deste)

"Hallelujah" (L. Cohen) 

(sequência daqui) Não menos decisiva foi a omnipresente ausência da figura do pai, Tim Buckley. A busca de Jeff da sua própria identidade — tanto como artista como enquanto pessoa — estava irremediavelmente presa ao legado dele. Na verdade, se o jovem Buckley tentava distanciar-se do estilo musical de Tim, It's Never Over, Jeff Buckley mostra como a sombra da influência de Tim Buckley ainda o assombrava. Tanto pelo crescente assédio editorial ("As editoras começaram a infestar os meus concertos, andavam todos a tentar farejar o novo Tim Buckley. Odiava aquilo!") como pela forma como diversos testemunhos colocavam o problema: "Ele andava em busca das respostas de um fantasma, as respostas do pai". Interrogava-se acerca da sua real valia ("Precisei de 27 anos para gravar Grace. Irei precisar de outros 27 para o que vier a seguir?") mas outras figuras do passado recente assombravam-no igualmente. Caso do primeiro instante em que franqueou as portas de entrada da Sony, em Nova Iorque, e "a coisa em que imediatamente reparamos é na fotografia de um belíssimo Bob Dylan suspensa na parede"; depois, Miles, Thelonious Monk, Duke Ellington...", uma espécie de guarda de honra intimidatória que o obrigava a recordar quais os padrões com que iria ser avaliado. Tarefa para a qual, segundo o compositor e maestro Karl Berger (íntimo de Ornette Coleman, Lee Konitz, Anthony Braxton Carla Bley, Bill Laswell, John McLaughlin, Natalie Merchant) ele não se acharia insuficientemente preparado: "Ele ouvia Bill Evans, Shostakovich... conhece algum músco pop que saiba sequer quem foi Shostakovich?" (segue para aqui)

31 July 2025

OS 4 PILARES
 
 
Das profundezas do Instagram, Robert Forster esclarece-nos acerca dos 4 pilares sobre os quais assenta o seu último álbum, Strawberries: "É o meu primeiro álbum de 8 canções. Há décadas que desejava gravar um álbum com 8 canções. Há centenas de milhares de óptimos álbuns com 8 canções. Provavelmente, o primeiro verdadeiramente marcante foi Marquee Moon, dos Television. Costumava escutar aquelas 4 canções de cada lado do disco e tudo era belo e perfeito". De seguida, o segundo pilar: "Há 3 bandas de Nova Iorque que sempre adorei: The Lovin' Spoonful, Talking Heads e Vampire Weekend. Para mim, estas bandas, em décadas diferentes, criaram música pop inteligente e corajosa. Consigo ouvir ecos de tudo isso em 'Good To Cry'". Abrindo uma outra via, é a vez de Leonard Cohen: "Neste álbum, evitei escrever na 1ª pessoa. Quis escrever com um narrador diferente e o Leonard deu-me uma ajuda nisso. Neste processo, apenas o usei numa canção, 'All Of The Time'". (daqui; segue para aqui)
 

13 May 2025

OLHAR EM VOLTA
Na madrugada de 10 de Março de 1966, no estúdio A da Columbia, em Nashville, durante 4 horas, Bob Dylan entregar-se-ia por inteiro à gravação das 7 takes de "I Want You" que apenas conheceríamos na íntegra, em 2015, no Bootleg Series Vol. 12: The Cutting Edge 1965–1966. Seria a última faixa de Blonde On Blonde a ser gravada e, como então confessaria, "Não se trata de colar palavras bonitas a uma melodia ou o inverso. Eu quero ouvir o som do que pretendo dizer". Naquela que viria a ser - talvez apenas com excepção de "Love Calls You By Your Name", de Leonard Cohen - a mais perfeita canção de paixão obsessiva, entre um refrão obstinado ("I want you, I want you, I want you so bad, honey I want you") e um desfile improvável de personagens (o "guilty undertaker", o "lonesome organ grinder", a "Queen of Spades", a "dancing child with his Chinese suit", o "drunken politician"), de raspão, enxergava-se a "chambermaid": "I'll return to the Queen of Spades, and talk with my chambermaid, she knows that I'm not afraid to look at her". (daqui; segue para aqui)

14 November 2024

EXÍLIO MEDITERRÂNICO

 
Hydra é uma das ilhas Sarónicas do Mar Egeu na qual, mui civilizadamente, por lei, automóveis e outros veículos motorizados sáo proíbidos, apenas sendo autorizado o transporte por meio de burro, mula e cavalo. A aproximá-la um pouco mais do estatuto de micro-paraíso terrestre (ainda que não a salvo da marabunta turística) existe ainda a população de umas largas centenas de amistosos gatos vadios que se deixam venerar por locais e visitantes. Não espanta, pois, que, a convite de Lawrence Durrell, tenha sido escolhida como refúgio por Henry Miller (que a classificou como ""wild and naked perfection") enquanto escrevia O Colosso de Maroussi (1941) ou por Leonard Cohen que lá - na companhia da amantíssima Marianne Ihlen - comporia "Hey, That's No Way To Say Goodbye","'Bird on the Wire", e "So Long, Marianne". Terá sido, talvez, em busca da mesma inspiração de que se alimentaram tão ilustres antecessores que Nuala Kennedy e Eamon O’Leary optaram pelo aprazível exílio mediterrânico em Hydra, transformando uma oficina de tecelagem do século XVIII com vista para o oceano em estúdio de gravação do álbum que tomaria o nome da ilha. (daqui; segue para aqui)

03 November 2024

"Patterns"
 
(sequência daqui) Na verdade, não será exactamente assim. Quando Sir Charles William Somerset Marling (o tal 5º baronete de Marling), mal Laura tinha completado 6 anos, se dispôs a ensinar-lhe os rudimentos da guitarra acústica, a primeira canção que aprendeu foi "The Needle And The Damage Done", de Neil Young, mais uma lista de TPC que incluía Bert Jansch e James Taylor e, hoje, se estende até Townes van Zandt e ajoelha perante o intocável Leonard Cohen ("Cohen foi um poeta de extraordinária elegância, um dos raros realistas-românticos, um género a que fui buscar inspiração para as minhas ainda curtas vida e carreira. O universo lírico dele é tão intenso, melancólico e solitário... mas, crucialmente, nunca isolado. É um 'storytelling' moderno, uma turbulência romântica adulta. Sempre o imaginei com 30 e tal anos, de fato completo, sempre olhando amavelmente para o mundo, interrogando-se sobre como caminhar nele, reflectindo sobre a sua última paixão e guardando espaço no coração para a seguinte"). Foi essa a Laura Marling que, aos 16 anos, trocou o Hampshire por Londres, mais exactamente pela nu-folk scene - Johnny Flynn, Mumford & Sons ou Noah & The Whale - que, na segunda metade dos anos 00, fervilhava no microscópico clube Bosun’s Locker, em Fulham. Porém, a pálida musa que, um atrás do outro, foi despedaçando corações no pequeno oásis folk, a partir de determinado ponto, sentiu-se desconfortável com o colectivismo instituido: "Tocar com toda a gente, ao mesmo tempo, tornava tudo demasiado homogéneo. Tinha de fazer coisas diferentes. Senti que a minha música estava a ficar igual à de todos os outros e queria que, para mim, ela fosse especial. Não era capaz de funcionar dentro de um gang, tinha um grande ego. Desejava ser única". (segue para aqui)

13 March 2023

 A LAWLESS LEAGUE OF LONESOME BEAUTY
 
 
Alguém deverá ter-se apossado da "password" que permite o acesso aos meus subterrâneos mentais e me activa instantaneamente determinados reflexos condicionados. E, sabe-se lá como, ela terá chegado às mãos de Stephen Troussé, que, na “Uncut”, acerca de All Of This Is Chance, de Lisa O’Neill, escreveria: “Os pares deste disco poderiam ser Astral Weeks (de Van Morrison), Starsailor (de Tim Buckley), Music For A New Society (de John Cale), New Skin For The Old Ceremony (de Leonard Cohen) e, em particular, Miss America, de Mary Margaret O’Hara. Ela não estaria deslocada entre todos estes fantasmas”. Como se não bastasse, no “Guardian”, Neil Spencer, reforçaria a dose, provocando: “Como outras vozes poéticas singulares - Tom Waits, Björk, Leonard Cohen, a nenhuma das quais ela se assemelha – Lisa O’Neill sempre dividirá as opiniões”. (segue para aqui)

28 September 2022

 
(sequência daqui) “Sempre mantive a música como uma actividade em 'part-time' porque não me parece que seja saudável e artisticamente fértil encará-la como um modo de vida. A melhor forma de não deixar de escrever é continuar a viver do mesmo modo que as pessoas sobre quem escrevo vivem”, explicou Joyner à “Uncut”, revelando os TPC que entregou aos músicos com quem iria colaborar em Songs From A Stolen Guitar para que ficassem com uma ideia do que deles esperava: escutar o terceiro álbum dos Velvet Underground, Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen, Stories, de David Blue, Tim Hardin 2, First Take, de Roberta Flack, e Berlin, de Lou Reed. Ninguém falhou. O método? “I wrote a song on a stolen guitar, I gave it all I could, a thief dressed like a revolutionary, wielding nylon, steel, and wood, it was short, it was long, it was weak, it was strong, it was everything I wanted to say, I wrote a song on a stolen guitar, when I was just learning how to play”.

26 September 2022

PART-TIME
 

15 álbuns de estúdio. 10 ao vivo. Uma dúzia de singles e EP. Mais de duas dezenas de presenças em compilações e colaborações várias. Gillian Welch vê nele “o herdeiro do escuro espelho emocional de Henry Miller, do queixume de três acordes de Townes Van Zandt e do minimalismo de Lou Reed”. Beck incluiu-o num top 10 pessoal para a “Rolling Stone”. John Peel passou um álbum inteiro dele no seu programa de rádio. Kurt Wagner (Lambchop) e Jeff Tweedy (Wilco) persignam-se perante ele. Leonard Cohen, Dylan, Johnny Cash, Neil Young e John Cale são apontados como os padrões face aos quais deverá ser avaliado. Mas, 30 anos após o primeiro álbum (Umbilical Chords), Simon Joyner permanece virtualmente desconhecido e feliz, sem manager, agente ou publicista, ocupado com o seu "day job" (antes, um negócio de antiguidades, agora, em parceria com o amigo e baterista Mychal Marasco, uma loja de discos, em Omaha, Nebraska) e sem nenhuns planos de mudança. (daqui; segue para aqui)

27 August 2021

Katherine Priddy - "One of Us Cannot Be Wrong" (Leonard Cohen)

"This song was inspired by Nico. Sylvie Simmons sums up the song as follows: 'One of Us Cannot Be Wrong', Leonard’s wryly humorous song, inspired by Nico, about a man battered but unbroken by lust (...) In fact, there was a period when Leonard Cohen was in love with Nico: although he never won her, he was 'madly in love with her'. Besides 'One of Us Cannot Be Wrong', she was also the source of inspiration for lots of other songs. But in 1967, feeling he 'had no skill' and that he 'had forgotten how to court a lady', Leonard went back alone to his hotel room. His thoughts full of Nico, he wrote 'The Jewels in Your Shoulder' and 'Take This Longing', then titled 'The Bells', both of which he later played and taught to Nico. She was both 'the tallest and blondest girl' in the song 'Memories' and the muse for 'Joan of Arc'".

13 May 2021

(álbum integral) 
 
(sequência daqui) The Moon And Stars: Prescriptions For Dreamers é, então, o ponto mais que perfeito para o qual tudo o que o antecedia converge e se magnifica. Entregues aos arranjos de Lester Snell (joalheiro de Isaac Hayes, Al Green e Solomon Burke) e de Tony Visconti (co-piloto de David Bowie que, como Leonard Cohen, Sharon Jones e John Lennon, figura no panteão privado de Valerie June), socorrendo-se das iluminações de Sun Ra, Fela Kuti e Carla Thomas – “Queen of Memphis Soul” e a “fada madrinha do álbum” que também nele participa recitando um provérbio africano e acompanhando Valerie em "Call Me A Fool" –, é um fulgurante e colorido manifesto de música gloriosamente livre (“Não devemos ter de lutar para sermos aquilo que somos. Devemos brilhar, devemos ser irradiantes. Devemos encarnar todos os multi-géneros que, naturalmente, somos sem sentir a necessidade de o explicar”) e que somente obedece a uma única lei: “As canções são os meus professores, são elas que ditam como devo fazer. Não tenho de pensar muito quando escrevo uma canção. Elas vêm ter comigo e eu canto aquilo que oiço. Por vezes, é a voz de um velho, outras vezes, de uma mulher ou de uma criança. Eu só tenho de as ouvir e reproduzir o que me dizem. Agarrar em algo que não pode fisicamente ver-se e apanhá-lo do ar”.

06 April 2021

TOM DE SÉPIA

Em 2015, Lael Neale tinha publicado I’ll Be Your Man (“O título era como se estivesse atrás do Leonard Cohen mas sem nunca poder tocar-lhe”), um álbum de estreia que ficou bastante longe de a satisfazer: “A prática habitual de montar diversas takes de uma canção e criar uma espécie de versão-Frankenstein dela deixou-me sempre com a sensação de que, tal como ao monstro, a vida tinha-lhe sido subtraída. Depois disso, passei anos em diversos estúdios, com diferentes músicos, gravei álbuns inteiros apenas para os atirar para o lixo logo a seguir. As canções ficavam sobrecarregadas de arranjos estéreis e instrumentações supérfluas. Precisava de me despojar de tudo o que era desnecessário ao processo de escrita. A ideia de começar pelo esqueleto era emocionante”. A primeira ferramenta que lhe ocorreu para esse processo de depuração foi o Novachord, um vetusto sintetizador polifónico produzido pela Hammond entre 1939 e 1942, o qual, apesar de ter sido usado em diversas bandas sonoras de filmes de terror e "sci-fi", e também por Kurt Weill, Villa-Lobos e Hans Eisler, não teve vida útil muito longa. Seria, afinal, o produtor Guy Blakeslee a oferecer-lhe a solução: um Omnichord – espécie de "keytar" infantil fabricado pela Suzuki nos anos 80 e abençoado por Brian Eno, Daniel Lanois, David Bowie e Magnetic Fields – e um rudimentar gravador de 4 pistas que instalou no canto de um bungalow nas colinas de Echo Park, em Los Angeles, cenário ideal para a criação de Acquainted With Night. (daqui; segue para aqui)