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24 September 2008

UM ESCASSO MAPA



Vários - Sif Sifaa: New Music From The Middle East

Cairo, início dos anos 20. "O grupo estava já sobre o palco, dois camponeses vestidos com a longa goubba escura e de turbante, dois cheiks vindos da sua aldeia; em frente deles, ao meio, um rapaz, imóvel, sentado, assustado, com as mãos sobre o ventre, severo como podem ser os adolescentes. Somente eram visíveis as mãos e o rosto redondo que seria quase feio sem aqueles grandes olhos negros. Apesar do calor, uma capa beduína cobria-lhe o corpo e um lenço apertado na cabeça por dois anéis fechava-se-lhe no queixo. Nada se passava, as pessoas conversavam, o miúdo não sabia que fazer. Lançou, subitamente, o canto sobre a multidão. Era a 'faitha', o primeiro versículo do Corão. A voz era juvenil e insegura mas singular, apoiada numa potência pouco comum, um sopro que não cessava de exalar. O rapaz atacou a segunda frase muito baixo e subiu progressivamente, sustendo a nota e fazendo-a vibrar. As pessoas responderam com um murmúrio de aprovação. A voz recitava o texto sagrado, respirando entre as frases, num silêncio que nada perturbava. Aí, retomava o canto, subia aos agudos, ornamentava longamente a melodia. (...) Com os olhos sempre no chão, sem um sinal de conivência com o público, lançou-se de novo e uma onda de calor invadiu-lhe o rosto: os versos que ele pronunciava - "A paixão trai-se pelo olhar" - eram meus, naqueles lábios beduínos. Sorri-lhe mas sentia vontade de me esconder. Havia qualquer coisa no canto daquele adolescente que era estranha. A potência, o timbre, o domínio da respiração, eram notáveis mas aquela voz penetrava-me sem qualquer vergonha, preenchia-me de uma natural indecência, inconsciente do que fazia. No interior de certas notas, uma ligeira rouquidão introduzia um perfume de sensualidade sem véus. Sentia-me muito desconfortável.

Alguns parágrafos mais à frente na leitura de Oum, compreende-se a razão do desconforto do poeta egípcio Ahmad Rami: "o adolescente" não era senão a, então ainda jovem, diva Oum Kalthoum que iniciava uma fulgurante carreira que atravessaria todo o século XX e, ao lado de outros gigantes como Mohamed Abdel Wahab, reestabeleceria as regras da música árabe (após séculos de dominação turca), procurando unificar culturalmente uma nação territorialmente dispersa. E, mesmo que estas memórias confiadas ao jornalista Sélim Nassib sejam confessadamente imaginárias, bastam e sobram para explicar a dimensão de um mito que, soubemo-lo há pouco, vinte anos após a sua morte, continua a dominar as tabelas de vendas do mercado discográfico árabe.


Kazem Al Saher - "Kouli"

Se para escutar as fabulosas vozes de Kalthoum e Abdel Wahab existem os registos de militantes como o Club du Disque Arabe que, na actualidade, continuam a insubstituível missão de não as deixar esquecer, para investigar o que produz, hoje, musicalmente, o Médio Oriente, só há dois caminhos: deslocar-se directamente aos locais e perder-se (é o termo exacto) no seu labirinto de publicações em cassete ou apoiar-se na prestação de serviços das editoras da chamada "world music" que, com todas as virtudes e defeitos, se encarregam por nós dessa selecção e investigação. A Hemisphere, destacamento recente da EMI para o contingente extra-pop-rock-jazz anglo-americano, investiu agora nesse sentido.


Mohamed Fouad - "Fakrak Ya Naseeny"

Para enquadrar a expedição, ensinam-nos que a sif-safaa é uma árvore de muitas raízes que, por todo o Médio Oriente, lança uma imensa sombra na vastidão do calor do deserto e que a escolheram como metáfora para a própria cultura árabe: diversa de país para país mas unificada por uma língua e religião comuns, profundamente enraizadas na tradição. Depois, a audição do disco (que nunca resolve a questão de saber como um ouvinte não iniciado se pode orientar no interior de uma floresta de referências culturais que totalmente ignora - como é, realmente, o al-jil urbano, o que distingue a canção shaabi do ritmo masmoudi?...) oferece doze pistas para a exploração de um mundo - mais precisamente, o Egipto, o Iraque e a Arábia Saudita - que, à excepção do raï argelino, está quase todo por descobrir. Aberta aos ventos da (nossa) modernidade nas faixas de Hanan, Mohamed Mounir ou Mohamed Fouhad, mais tradicional nas de Hamdi Hamed ou Aida Ayubi, de um exacerbado dramatismo romântico quase kitsch na de Kazem Al Saher, ficam os sinais fugidios de uma atmosfera de vozes sensuais envolvidas por violinos serpenteantes, percussões hipnóticas, vertiginosos fraseados de oud e imprevisíveis sintetizadores e guitarras eléctricas. Como quem, inadvertidamente, sintoniza uma emissão de rádio de origem desconhecida, consideremo-nos bem vindos (ainda que com um escasso mapa) ao magnífico mundo árabe.

(1995)

23 September 2008

ORIENTALISM

"The popular music of North Africa exists precariously in the fissure of post-colonial, postmodern in-betweenness. Popular musicians sing against the institutions of the politically powerful, yet depend upon the connections of such institutions to the former colonizing nations, especially the recording industries of Paris and London. (...) No other North African popular music has secured a place as palpably in the postmodern imagination as has raï, which means something like 'a way of seeing' or 'an opinion'. Raï is the music of the urban disenfranchised in North Africa, especially in Algeria and eastern Morocco.


The Fifth Element - real. Luc Besson, 1997

We might also interpret the attraction of raï as stereotipically orientalist. (...) As world music, raï evokes the marketplace of the Muslim city, the harem, the court, and the social gathering where forbidden substances are used. When the producers of the 1997 science-fiction movie The Fifth Element needed a soundtrack to accompany Bruce Willis as he raced through the confused fantasy of the futuristic metropolis, a song by perhaps the most famous raï star, Khaled, fitted the bill. The jumble that raï has absorbed becomes the East writ large. In the mediated world imagined through world beat, the producers of raï have succumbed to the allure of full-blown orientalism" (A Very Short Introdution to World Music de Philip V. Bohlman)

(2008)