24 March 2017

"Há poucos dias, demos pela vinda do pós-humano, quando lemos a notícia de que se realizou com sucesso a primeira implantação, no nosso país, de um coração artificial. Poucos dias depois dessa transformação parcial de um indivíduo humano em cyborg, no Hospital de Santa Maria, pudemos ler, num artigo publicado neste jornal, assinado por Hugo Torres, que 'o próximo estado evolutivo dos computadores pode precisar de ADN'. Informava o autor do artigo que vêm aí os computadores quânticos. Os computadores biologizados e o corpo humano computadorizado: eis a prodigiosa reversibilidade que até agora só os utopistas e futurólogos se tinham entretido a imaginar, quando os computadores, mais agarrados à terra do que à cloud, eram ainda máquinas colossais que não cabiam em nenhum escritório. Mas não parece que nós, ainda tão afeiçoados a um humanismo tradicional e aos seus preceitos morais, estéticos e educativos, estejamos preparados para uma antropologia do artificial, capaz de retirar as devidas consequências de uma versão do corpo humano em que os órgão biológicos são substituídos por peças nanorobóticas. Ainda achamos delirante que uma companhia tenha nomeado um computador para um dos seus órgãos directivos (conta o escritor belga Paul Jorion num livro de 2016, intitulado Le dernier qui s’en va éteint la lumière. Essai sur l’extinction de l’ humanité)" (AG)
Michael Chapman - "That Time Of Night"

A (invejosa) investida calvinista prossegue: copos, mulheres e, agora... tabaco! (mas, por que raio, haveríamos de morrer cheios de saúde?...)





Gajas + gajos + copos + tabaco
Laura Marling - "Wild Fire"

23 March 2017


"Diz Debord: 'num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso' e o espectador alienado é assim o produto ideal desta sociedade pois 'quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo (...) Quando ser absolutamente moderno se tornou uma lei especial proclamada pelo tirano, aquilo que o honesto escravo acima de tudo receia é que possam suspeitar de passadista" (aqui + Guy Debord e a Revolução de Abril)
não restavam dúvidas que The Great Fatima Swindle era, de facto, uma Great, Great Swindle; mas, mesmo assim, o santo Chiquinho, CEO da Vaticano S.A., fez questão de promover todos os protagonistas ao mais elevado nível da multinacional

Saloios trombudos mas iluminadíssimos pela fezada
Hurray For The Riff Raff - "Pa'lante"


Europeu do Sul honorário:


"I spent a lot of money on booze, birds and fast cars. The rest I just squandered" (George Best)

Quem não é Europeu do Sul
(honorário ou não):

Homens homossexuais (podem gastar dinheiro em copos mas não em mulheres);
 
Homens homossexuais abstémios (não gastam dinheiro em copos nem em mulheres);
 
Homens heterossexuais abstémios (podem gastar dinheiro em mulheres mas não em copos);
 
Mulheres homossexuais abstémias (podem gastar dinheiro em mulheres mas não em copos);
 
Mulheres heterossexuais (podem gastar dinheiro em copos mas não em mulheres);
 
Mulheres heterossexuais abstémias (não gastam dinheiro em copos nem em mulheres).

21 March 2017

PA’LANTE!


Stephin Merritt não terá mais razões para se inquietar. Porque, como que em resposta ao que canta em "They’re Killing Children Over There" (de 50 Song Memoir) – “Now that everyone is fat and complacent, I haven't heard a protest in years” –, a música popular norte-americana acaba de gerar o primeiro grande álbum pós-Trump de canções explicitamente políticas. Dirijam-se, então, os aplausos para Alynda Segarra (ou, se preferirem o "nom de plume", Hurray For The Riff Raff), "singer-songwriter" do South Bronx novaiorquino, de ascendência portoriquenha, que, aos 17 anos, na ressaca de uma adolescência punk no Lower East Side, sonhou ser Woody Guthrie: em périplo pelo país (clandestina a bordo de comboios de mercadorias), estacionou em New Orleans onde se embriagou de folk e blues e alinhavou os primeiros registos de atmosfera genericamente “americana”. De regresso a Nova Iorque, mergulhou numa expedição de descoberta interior da identidade e das origens que, 13 anos após a fuga da Grande Maçã, a conduziu, agora, a gravar The Navigator.



O momento eureka, contudo, ocorreu ao aperceber-se que Ziggy Stardust And The Spiders From Mars, de Bowie, lhe oferecia de bandeja o esquema narrativo e conceptual de que andava à procura: o/a "alien" seria, desta vez, o seu alter-ego ficcional, Navita (“Uma versão BD de mim com 17 anos”), criatura entre-culturas e – sufocada pela distopia urbana – combatente contra a pobreza, a gentrificação dos "barrios" e a colonização cultural. Evocando (e invocando) tanto o “dirty realism” do Lou Reed de New York quanto Laura Nyro, a Patti Smith inicial, os ritmos da "bomba" e "plena" afro-caribenhas, e heróis da diáspora de Porto Rico como Julia de Burgos, Pedro Pietri e Sylvia Rivera, a imprecação é feroz (“First they stole our language, then they stole our names, then they stole the things that brought us fame, and they stole our neighbors, and they stole our streets”), os alvos são claros (“Now all the politicians they just squawk their mouths, they said, ‘We’ll build a wall to keep them out’, and all the poets were dying of a silence disease, so it happened quickly and with much ease”) e – em "Pa’lante" (“Em frente”), alusão ao jornal dos Young Lords, irmãos de armas hispânicos dos Black Panthers – o programa não poderia ser mais preciso: “Do your best, but fuck the rest, be something!”.
Dois coelhos de uma só cajadada

Eu também gostava muito de ver o túmulo do Robin Hood, dos Três Mosqueteiros, do Rato Mickey e de outras personagens de ficção (e desejo sinceramente que o lugar do fim da fábula tenha tanta animação quanto o do início)

O Presidente do Eurogel no Cabelo reconhece a superior qualidade do estilo de vida mediterrânico

20 March 2017

17 - Em antecipação do formidável festival
da superstição
   
The Great Fatima Swindle
(patrocinado pelo CEO da Vaticano S.A. e 
acolitado por meliantes vários) 

apresenta-se "Deuzãemim" (ou "Dois em Mim", elogio do "threesome" como deusnossenhor quer), obra superior de dois intelectuais lusos iluminados pela fezada