29 April 2016


... mariquinhas... nem uns bufardos nem nada...
(o que faz falta é um Salazar!)


PC




O pavor “politicamente correcto” perante a possibilidade de ofender, chocar ou, sequer vagamente incomodar sensibilidades nacionais, étnicas, de género, religiosas, ideológicas ou outras, não só conduz ao patrulhamento da linguagem e de todo e qualquer acto potencialmente “infractor” como gera o reflexo de protecção obrigatória e imediata de todas as infinitamente vulneráveis vítimas, à mercê dos descuidados ou mal intencionados agressores. No ano passado, a Oxford University Press já tinha avisado os seus autores de livros infantis de que não deveriam utilizar linguagem que incluísse referências a porco e enchidos para que isso não perturbasse jovens mentes judias e muçulmanas e o parlamento sueco decidira poupar os/as seus/suas visitantes feministas ou islâmicos/as à visão do peito seminu da Juno do pintor barroco GE Schroder. Seria fácil alongar desmedidamente a lista mas bastará acrescentar dois exemplos muito recentes. Há cerca de uma semana, a propósito da descoberta, em Toulouse, de uma possível obra perdida de Caravaggio (Judite e Holofernes, aliás, um episódio bíblico), o site da BBC ostentava o aviso: “The paintings featured below depict a graphic image”. O que, depreende-se, não tardará a ser prática adoptada por centenas de museus possuidores de peças tão ou mais aterradoras.


A outra história surge a partir de "Community Of Hope", a primeira canção do novo álbum de PJ Harvey, The Hope Six Demolition Project: referindo-se ao que, com o fotojornalista Seamus Murphy, observara quando se deslocou à zona do Ward 7, de Washington, D.C., como “just a drug town, just zombies (...), the highway to death and destruction”, desencadeou uma instantânea vaga de indignação. Porque, ao fazê-lo, se tinha limitado a dar relevo ao lado socialmente degradado da área e não prestara a devida atenção ao projecto de requalificação Hope VI – em boa medida, apenas mais uma manobra de gentrificação e exclusão –, assim “ofendendo e rebaixando os habitantes locais”. Pior, nem sequer “procurara espaço para dar respostas ou propôr soluções”. O que, para além de demonstar que, mais do que o horror real, intolerável é a “má imagem”, provavelmente, acabará, um dia, por obrigar músicos, autores ou jornalistas defensores de pontos de vista controversos, a incluirem, juntamente com as denúncias, respeitosas propostas de melhoramentos.
Grande momento nacional da

FUTEBOL 
(modalidades olímpicas VI)




Ali Krieger - EUA

27 April 2016

WAKEBOARDING
(modalidades olímpicas V)


Dallas Friday - EUA

GINÁSTICA



Aly Raisman - EUA
... uiii... até mete medo: Menezes, Big MAC, Relvas (só falta o 44 para compôr o bouquet perfeito)!
Estive a ouvir com toda a atenção e posso garantir que não é esganiçada: é contralto ou, no mínimo, mezzo soprano


ENTRE OS ESCOMBROS 


Harriet Tubman foi uma negra norte Americana, ex-escrava e abolicionista que, no século XIX, participou em treze missões de libertação de escravos usando o Underground Railroad, uma rede de activistas anti-esclavagistas que oferecia o apoio indispensável à fuga para o Canadá. Na sua biografia, conta como "Wade In The Water" – um dos espirituais negros que eram utilizados na qualidade de mensagens cifradas contendo instruções acerca das precauções que deveriam ter no arriscado caminho para a liberdade –, avisava os fugitivos para preferirem rotas que atravessassem rios de modo a dificultar a perseguição pelos cães dos esclavagistas. Em "River Anacostia", a quinta canção de The Hope Six Demolition Project, de PJ Harvey, "Wade in The Water" é entoada segundos antes das primeiras palavras (e, no final, em jeito de coda): “Oh, my Anacostia – do not sigh, do not weep – beneath the overpass your saviour’s waiting patiently, walking on the water that flows with poisons from the naval yard”. Mas, aqui, o código refere-se ao Anacostia, afluente infecto do Potomac, em Washington, D.C., um dos três destinos (juntamente com o Kosovo e o Afeganistão) escolhidos por Polly Jean para a exploração dos últimos círculos do inferno contemporãneo. A leste do Anacostia, concentra-se a maioria dos bairros social e economicamente devastados da capital dos EUA: “this is just drug town, just zombies (...), the highway to death and destruction, South Capitol is its name, the school looks like a shit hole (…), here’s the old mental institution, now the Homeland Security base, here’s God’s Deliverance Centre, a deli called M.L.K.”



Acompanhada pelo fotógrafo, Seamus Murphy (com quem já colaborara, há cinco anos, em Let England Shake, e, no ano passado, no livro de fotos e poesia The Hollow Of The Hand), a decisão de viajar até esse amaldiçoado triângulo geopolítico decorreu da necessidade imperiosa de “cheirar o ar, tocar o solo e encontrar-me com as pessoas destes lugares. Recolher apenas informação em segunda mão seria distanciamento demais relativamente aquilo sobre que queria escrever”. Mais ou menos inevitavelmente, tal proximidade determinou que a maioria das canções fosse quase uma variação hiperrealista sobre o modelo enumerativo de "A Hard Rain’s A-Gonna Fall", de Dylan – “Fizzy drinks cans and magazines, broken glass, a white jawbone, syringes, razors, a plastic spoon, human hair, a kitchen knife and a ghost of a girl who runs and hides (…) they’ve sprayed graffiti in Arabic and balanced sticks in human shit, this is the Ministry Of Remains”, “I saw a displaced family eating a cold horse's hoof (...) Air drops were dispersed, I saw people kill each other just to get there first”, “At a junction on the ground an amputee and a pregnant hound sit by the young men with withered arms, as if death had already passed (…) A million beggars silhouettes near where the money changers sit by their locked glass cabinets” –, que tanto pode terminar à beira de citar Elliot (“These are the words written under the arch, scratched in the wall in biro pen, this is how the world will end”) como "Money, That’s What They Want" do bluesman Jerry McCain.



"Field report" de um mundo fracturado com velhíssimas feridas por cicatrizar, espécie de versão aterradora do registo documental dos movimentos humanos tal como os anjos caídos de As Asas do Desejo, de Wim Wenders, o praticavam, Hope Six, terceiro tomo da mudança de pele iniciada em White Chalk (2007), não se fica por esse testemunho do fedor da morte e das iniquidades do poder, da religião, da raça e da desigualdade: caminhando sobre terrenos (literalmente) minados, é também um potentíssimo ciclo de canções, ora coralmente empolgadas, ora incendiadas pelo sax pirómano de Terry Edwards, ora esculpidas em puríssima electricidade, ora tudo isso ao mesmo tempo. Com uma única advertência da repórter de guerra, Polly Jean Harvey, sintetizada em três palavras, escritas por entre os escombros: “Enough is enough”.

26 April 2016

The McLaren Westwood Gang 
(aka Anarchy! The Last Revolution)



"Phil Strongman’s new documentary Anarchy! McLaren Westwood Gang is a politically-fueled, fashion-conscious deeper look at how the English punk explosion was ignited — how the bomb was built and under what circumstances, in other words. Coming in at almost two and a half hours with an incredible cast of characters, Anarchy! McLaren Westwood Gang traces Malcolm McClaren back to his birth with loads of never before seen films and photos, personal information and interviews with family members, friends and others, taking us into the all important mid-sixties where the real nucleus of the Sex Pistols concept begins to form within the Situationist movement, King Mob (the UK equivalent), art school and observing the tribal customs and costumes of rock ‘n roll fanaticism (...)" (aqui)