27 September 2016

DIABOLUS


Na Idade Média e início do Renascimento, a igreja condenava severamente a utilização, na música sacra, do modus lascivus – o modo grego jónico, aliás, a banal escala de Dó maior – que, por ser vulgar na música popular profana, era inevitavelmente associado a abomináveis comportamentos licenciosos e imorais. Também particularmente mal visto era o trítono – o intervalo de 4ª aumentada –, excomungado na qualidade de diabolus in musica. Uma severa tradição de crítica musical divinamente inspirada que, embora bastantes séculos depois, tornou quase previsível a imprecação contra o rock, de Joseph Ratzinger (futuro papa Bento XVI, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora directa do Tribunal da Santa Inquisição), em 2001, classificando-o como “expressão de paixões elementares que (...) assumiu carácter de culto, ou melhor de contra-culto que se opõe ao culto cristão” e acusando-o de “querer falsamente libertar o homem por um fenómeno de massa, perturbando os espíritos pelo ritmo, o barulho e os efeitos luminosos”

Dmitri Shostakovich: Symphony No.10 - Valery Gergiev dir. Orquestra do Teatro Mariinsky, 2013

Um pouco mais surpreendente (mas não demasiado) é que surgisse enquanto eco simétrico da feroz invectiva que, apenas meio século antes, Andrei Zhdanov, oficiante da igreja do realismo-socialista soviético, dirigira contra os compositores “formalistas” (Shostakovitch, Prokofiev, Khatchaturian...), apontados como responsáveis pelo pecado de “substituirem uma música natural e formosamente humana por uma música falsa, vulgar e com frequência, simplesmente patológica” através da qual “começamos a trespassar os limites do racional, a passar para lá do limite não só das emoções humanas, mas também da razão humana normal (...) Não é certo, não é justo que o som dos pratos e tambores deveria constituir a excepção e não a regra na composição musical? (...) Deixemos que esses criadores de música inacessível fiquem isolados das grandes massas do povo. Ninguém necessita da música incompreensível (...) Exijamos que os nossos compositores nos dêem música humana normal!” Em O Ruído do Tempo, de Julian Barnes (2016), a arrepiante história de génio e auto-humilhação de Dmitri Shostakovich perante a ditadura estética e política do estalinismo é uma tela sobre a qual se projectam as imagens de uma época em que para ser declarado “inimigo do povo” – e sofrer as terríveis consequências – bastava que o grande líder e supremo crítico, em dia não, declarasse que o que ouvira não era música mas “chinfrim”. O diabolus in musica continuava teimosamente vivo.
Experienced economist and not so experienced economist are walking down the road. They get across shit lying on the asphalt. Experienced economist: “If you eat it I’ll give you $20,000!” Not so experienced economist runs his optimization problem and figures out he’s better off eating it so he does and collects money. Continuing along the same road they almost step into yet another shit. Not so experienced economist: “Now, if YOU eat this shit I’ll give YOU $20,000.” After evaluating the proposal experienced economist eats shit getting the money. They go on. Not so experienced economist starts thinking: “Listen, we both have the same amount of money we had before, but we both ate shit. I don’t see us being better off.” Experienced economist: “Well, that’s true, but you overlooked the fact that we’ve been just involved in $40,000 of trade.”
La Nudité Une Arme Politique - Deborah de Robertis

25 September 2016

Balthazar - "Then What"

"Cocaína. Morfina. Penicilina. Colesterol. Álcool. Cicuta. É o que tem em mente quando pensa em produtos naturais? 

São todos naturais, no sentido em que são produzidos por seres vivos sem necessidade de intervenção humana. Frequentemente 'natural' define-se por oposição a 'químico', mas os produtos naturais também são necessariamente produtos químicos, cujos átomos se ligaram através de reacções químicas" (DM)
VINTAGE (CCCXVI)

The Divine Comedy - "Come Home Billy Bird"

24 September 2016

"Demoramos muito tempo em sair da aldeia, da vida controlado por todos, para agora aceitarmos que na 'aldeia global' o mesmo se possa fazer" (JPP)
Pois, mas, disso, o marçano serã tão culpado como os que o antecederam e lhe sucederão

23 September 2016

E, após a emergência da pujante área de estudos da tricologia política, prestemos, agora, atenção à novíssima ornitologia política
 
("DN")
Mas existe, sem dúvida, 
alguma ligação
Glass Harmonica 

Real. Andrei Khrzhanovsky; música: Alfred Schnittke)
A democracia nunca foi lá grande coisa mas há momentos em que, até para afirmar só isso, é preciso uma grande fé...

Subsídios para uma teoria da conspiração: nos últimos dois/três meses, o "PdC" é regularmente invadido por milhares de visitas oriundas - à vez - de diversas proveniências: Alemanha, China, EUA, França, Rússia, Ucrânia, Roménia... começo a desconfiar que os Illuminati (ou uma qualquer outra conspiração de ciber-porteiras) andam realmente de olho na blogocoisa...
 
Björk por Araki






22 September 2016


"Dans les articles sur ma démarche, il est surtout question de l'aspect scandaleux de celui-ci et trop peu de l'aspect performatif, expérimental ou humoristique de mes vidéos comme si il s'agissait d'un acte impulsif et uniquement militant sans recherche esthétique: En effet la vidéo issue de cette performance n'a rien de scandaleux et c'est avec légèreté et humour que je révèle les mécanismes de censure liés au regard porté sur la nudité féminine dans nos sociétés occidentales et présentes directement et indirectement dans nos institutions artistiques. 'De la fascination à la provocation: quatre œuvres jugées scandaleuses et vandalisées lors de précédentes expositions seront présentées pour questionner les limites de la censure. Montrer Serrano, c’est affirmer les valeurs qui nous fondent. Contre la barbarie et l’intolérance. Contre l’obscurantisme et l’inhumanité'. Tels sont les mots utilisés pour présenter l'exposition de Serrano intitulée 'Uncensored Photographs' aux Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique. J'ai choisie cette photo intitulée 'The Interpretation of Dreams (Triumph of the Flesh)' d'Andres Serrano pour deux raisons: La première, elle nous renvoie inévitablement au sexe de l' Origine du monde de Gustave Courbet; la seconde, cette photo - 'exposant le sexe féminin' - n'éta it pas présente à l'exposition. Si la nudité exposée par un artiste homme a le statut de représenter 'les valeurs qui nous fondent' qu'en est t-il de la nudité exposé par une artiste femme ? Où se situent 'les limites de la censure'? Pour les Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, elles semblent se situer dans le point de vue incarné par le sexe féminin"
JANOTA


Tony Visconti, o produtor de 13 álbuns de David Bowie, conta à “Uncut” que, embora não de uma forma absolutamente inflexível, este levava muito a sério o princípio artístico de não promover em palco a obra passada. O mesmo se aplicava no que respeita à habitual estratégia de reedições sobrecarregadas de demos, faixas inéditas, outtakes: “David tinha uma opinião muito firme de que um álbum concluído era um álbum concluído”. E tudo o que, posteriormente, se lhe acrescentasse seria, invariavelmente, supérfluo. Inevitavelmente, ao longo de inúmeras republicações e mudanças de editora, isso seria muito poucas vezes respeitado. Por maioria de razão, após a sua morte em Janeiro passado, ninguém acreditaria que a Parlophone fosse capaz de travar o impulso para, de acordo com a máxima “the best rock star is a dead rock star” (traduzida por Tom Waits para “o que o show-business tem de mais bonito é que é a única actividade em que se pode ter uma carreira depois de morrer”), tirar o máximo partido do catálogo de Bowie. Não travou.  



Who Can I Be Now? (1974-1976), "box-set" incluindo Diamond Dogs, Young Americans, Station To Station (original e com remistura de 2010), David Live (original e com remistura de 2005), Live @ Nassau Coliseum 1976 e Re:Call 2 (colectânea de versões em single e lados B), centra o grande alarido promocional no suposto facto de conter também “um disco nunca antes editado”, The Gouster. A multidão de fãs ouve falar em "lost album" e, pavlovianamente, saliva. Mas só até se dar conta de que, afinal, não é mais do que a primeira encarnação de Young Americans“os despojos esborrachados da música étnica tal como ela sobrevive na idade do Muzak rock, escrita e cantada por um britânico branco”, Bowie dixit -, antes de ter legado quatro das sete faixas à versão definitiva, havendo, entretanto, as restantes sido integradas, mais tarde, em diversas reedições e compilações.



Vale a pena, porém, conhecer a história do título: em plena “fase americana”, Bowie precisava de uma nova personagem que desse corpo ao que ficaria conhecido como "plastic soul" (para a edificação da qual recrutou os músicos Carlos Alomar, Luther Vandross e Andy Newmark, baterista de Sly and the Family Stone). Descobriu-a no guarda-roupa do trompetista de jazz, Don Cherry (pai de Ava Cherry, namorada da altura e corista da banda), inspirado no estilo "gouster"/janota dos "gangsters old-school" – calças largas, suspensórios e gravata – que uma canção ("The Gouster", 1964) do grupo vocal negro de Chicago, The Five-Du Tones, consagraria. Recorda, agora, Ava Cherry que, no final da digressão durante a qual Bowie vestiu um dos fatos de Don, quando ela lhe pediu que o devolvesse, ele se recusou a fazê-lo: “Nem pensar, isto sou eu!”