Showing posts with label Philip K. Dick. Show all posts
Showing posts with label Philip K. Dick. Show all posts

29 October 2019

SERENA ALUCINAÇÃO

  
Brian Eno, ateu confesso, afirmou uma vez que “o budismo é uma excelente religião para ateus”. Só se enganava num pequeno mas importante detalhe: não se trata, de facto, de uma religião – o conceito de “deus” é-lhe totalmente alheio – mas de uma filosofia de vida e, em particular no Zen, onde todos os ensinamentos de Siddhārtha Gautama se descobrem finamente decantados, um eficaz método de lubrificação mental. O próprio Siddhārtha aconselhava os discípulos a não desperdiçarem tempo com especulações metafísicas. Numa famosa parábola do Canone Pali, um monge dirige-se-lhe, inquieto, por nunca lhe ter escutado uma palavra acerca de se o universo é finito ou infinito, limitado ou ilimitado, ou se a alma é distinta do corpo. E o Buda, amavelmente enfastiado, pede-lhe para pensar num homem atingido por uma flecha envenenada: “Se, quando a família e os amigos chamassem um médico, ele se recusasse a ser tratado antes de saber quem o havia ferido, a que casta pertencia, qual a altura e côr da pele, e que arco, flecha e veneno tinha utilizado, decerto morreria antes de conhecer tudo isto. Seja o universo eterno ou não, a morte, a velhice, o sofrimento e a infelicidade continuarão a existir e só nesta vida poderão ser eliminados. Se não te expliquei todas essas coisas é porque elas são inúteis e não conduzem à libertação”. 



 
Inevitavelmente, porém, a popularização dos ensinamentos do Buda acabaria por transformá-los numa religião quase idêntica às outras com toda a corte de espíritos, amuletos e superstições, especialmente evidente na variedade do budismo tibetano, caldo de cultura de onde surgiu o Bardo Thodol ou Livro dos Mortos Tibetano – escrito no século VIII e redescoberto no século XIV –, um guia de viagem para as almas nos 49 dias que se seguem à morte. Songs From The Bardo, reune Laurie Anderson, Tenzin Choegyal e Jesse Paris Smith (filha de Patti Smith) para uma leitura musical de 80 minutos do texto tibetano (que já fertilizou o Ubik, de Philip K. Dick, em versão lisérgica, The Psychedelic Experience, de Timothy Leary e, por via deste, Tomorrow Never Knows", dos Beatles), num exercício de serena alucinação sonora e poética que, tal como poderia acontecer se fosse baseado nas mais febris escrituras da tradição judaico-cristã e gnóstica, faz as palavras levitar - “Dancing with a crescent knife and a skull full of blood, gesturing and gazing at the sky” –, por entre a evaporação dos timbres de violino, piano, violoncelo, gong, flauta, alaúde e taças de cristal.

24 July 2019

Rutger Hauer (1944 - 2019)

The Hitcher (real. Robert Harmon, 1986)

Sin City (real. Robert Rodriguez, 2005)

Blade Runner (real. Ridley Scott, 1982)

30 October 2018

TRADUZIR


“A arte é sempre um processo de tradução, uma partilha entre pessoas, de um século para outro. Não sei qual o objectivo mas é um conforto que continue a existir. Porque gravei este disco? Não sei. É um refúgio para mim? Não, não sei o que é. Mas temos de continuar a traduzir”. Julia Holter traduziu, então. Antes de mais, para o idioma musical: “Mesmo quando existe texto, não funciona como se se tratasse da linguagem habitual.As palavras transformam-se em música”. À autora e artista visual libanesa-americana, Etel Adnan, furtou uma frase : “I found myself in an aviary full of shrieking birds”. Sob a sombra de Hitchcock, achara o título – Aviary – e um esboço do plano para a exploração da “cacofonia mental num mundo em dissolução”. De muitos séculos atrás, colheu a ideia de, na Idade Média, os pássaros serem símbolos da memória (“Aviary seria como um bando de aves esvoaçando dentro da cabeça”) e elaborou uma lista de pássaros associáveis a cada canção. Trouxe também ecos de polifonias medievais, farrapos do Inferno, de Dante, ziguezagues entre "langue d’oc" e inglês sobre memórias trovadorescas e a ambição de imaginar como poderia ser uma banda sonora medieval para Blade Runner: “O filme é de 1982 mas o futuro de 2019 que ele desenhava continua a soar muito mais futurista do que o nosso presente. Sei bem que é um cliché abordar cenários apocalípticos mas, observando tudo o que se passa no mundo, pareceu-me bastante apropriado. Por todo o lado há governantes autocráticos que ameaçam os direitos humanos. Não será nada de novo mas está a acontecer de uma forma diferente”. 



Durante todo o ano passado, uma frase apossou-se dela: “Everyday is an emergency”. A primeira metade dos 7’45” da peça a que deu origem dir-se-ia uma versão de Ligeti do concerto para buzinas de automóveis que, em 1972, Laurie Anderson, dirigiu num parque de estacionamento, em Rochester. Anderson paira também sobre "I Shall Love 2" e "Underneath The Moon" (“I see no beginning, no middle, no end”) e um Ligeti desmantelado por Alice Coltrane ocupa todo o espaço de "Turn The Light On". "Colligere", aguada impressionista electroacústica, oferece, enfim, a chave: num labirinto submerso, coleccionar e organizar todos estes vestígios e sedimentos, colocá-los em contiguidade com Meredith Monk, Safo, e transcrições fonéticas de cânticos budistas, contra o aterrador pano de fundo de um mundo ameaçado pela peste. Onde os andróides já nem sonham com carneiros eléctricos.

24 October 2017

REQUIEM


David Lynch sabe do que fala quando, sobre as particularidades da banda sonora no cinema, afirma: “Há efeitos sonoros e efeitos sonoros abstractos; há música e há música abstracta. E, algures por aí, a música converte-se em efeito sonoro e os efeitos sonoros em música. É uma área um pouco estranha”. Se, evidentemente, isso se aplica a toda a obra de Lynch, Blade Runner, de Ridley Scott (1982), transformou-se num caso particularmente exemplar de como essa “área estranha” pode assumir um papel determinante na definição profunda da natureza de um filme. Vencedor, no ano anterior, do primeiro Oscar para uma BSO maioritariamente executada em sintetizadores (Chariots of Fire), seria Vangelis o autor da partitura – a ilustração de uma densa e húmida atmosfera de pesadelo urbano neo-noir, feita de despojos do romantismo, farrapos de jazz e electrónica ambiental – que vivia tanto da música como convencionalmente a entendemos quanto da constante polifonia de computadores, néons, zumbidos de electricidade estática e de todo o tipo de ruídos de uma metrópole sci-fi pós-apocalíptica, tal como Philip K. Dick e Scott imaginaram que ela seria em 2019. 


Em Blade Runner 2049, Dennis Villeneuve, Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch, não fizeram tábua rasa do riquíssimo legado do capítulo inicial mas – ainda que de modo imperfeito – amplificaram-no desmedidamente: K, aliás, Joe K (um Josef K desqualificado?), deambula por um mundo de (raras) árvores petrificadas, de desertos calcinados côr de fogo habitados pelos destroços das estátuas do “Ozymandias”, de Shelley, durante um teste psicológico recita um poema extraído de Pale Fire, de Nabokov, voluntariamente ou não invoca e materializa os espectros de Marilyn Monroe, Elvis Presley e Frank Sinatra (que, em "One For My Baby", lhe canta “Set 'em' up Joe, I got a little story I think you oughtta know”), e, quando activa Joi, a namorada virtual, faz soar os dois primeiros compassos de Pedro e o Lobo, de Prokofiev. Mesmo quando não é inteiramente aparente, já há aqui muita música. Mas Zimmer e Wallfisch, ultrapassando a sua condição de pistoleiros a soldo da indústria dos "blockbusters" – assim acontecera também com o Vangelis pomposamente "new age" –, oferecem-lhe uma moldura sonora implacável, sinistra e descarnada, um uivo mecanicamente sufocado, qual requiem agreste, por vezes quase ligetiano, por uma civilização dizimada e já incapaz de identificar a linha que distingue o humano do não humano.

10 May 2013

Sãozinha, a menina tem de começar a ler um bocadinho de Philip K. Dick (ele até era meio místico, vai gostar de certeza): "Reality is that which, when you stop believing in it, doesn't go away" (How To Build A Universe That Doesn't Fall Apart Two Days Later)

16 March 2011

ANTES DO DEBATE DO PEC NO PARLAMENTO,
ERA DE TODA A CONVENIÊNCIA SUBMETER A
ESTRELA DA REVOLUÇÃO LÍBIA AO TESTE
VOIGHT-KAMPFF
PARA ACABAR COM AS DÚVIDAS



Blade Runner (real. Ridley Scott. 1982)

... mas, como se pode ver, seriam indispensáveis apertadíssimas medidas de segurança.

(2011)

14 March 2011

DAQUI A MINUTOS, A ESTRELA DA REVOLUÇÃO LÍBIA
VAI CONTAR TUDO SOBRE A LICENCIATURA, O FRIPÓR
E O FACE OCULTA E, BENZENDO-SE, RECLAMAR QUE
"QUEM NUNCA ERROU, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA!..."























... e, como na piada do JC e a mulher adúltera, um calhau lhe acertará imediatamente na testa sob a pertinente justificação "O quê? Errar? Desta distância?!!!..."

Edit (20.43): 1) previsão, essencialmente, confirmada; 2) a última geração dos replicantes Nexus, da Tyrell Corporation - ainda que com o ocasional gaguejo -, é practicamente perfeita; 3) a chegada de Rick Deckard a Portugal é, dia a dia, mais urgente.

(2011)

29 August 2010

THE BOX - REAL. RICHARD KELLY



Uma matryoshka infinita concebida por M.C. Escher. Sartre em versão sci-fi realizada por David Lynch. The Third Man reescrito por Philip K. Dick. Lulu On The Bridge em colisão frontal com The Day The Earth Stood Still. O Milgram Experiment (sort of) redesenhado por Arthur C. Clarck. O mito de Adão e Eva a flutuar entre Barton Fink e The Shining. Uma "morality play" em formato "mindfuck" dirigida por Richard Kelly mas sem coelhos gigantes. Muito provavelmente, um mau filme. Se calhar, ridículo. E absolutamente fascinante. Com uma magnífica banda sonora de Win Butler, Régine Chassagne e Owen Pallett (sim, esses mesmos).

(2010)

14 February 2010

OS DOIS LADOS DA QUESTÃO



Fanfarlo - Reservoir




Owen Pallett - Heartland

A propósito de Reservoir, houve já quem tivesse escrito que a última coisa de que o mundo precisa é de bandas de rock orquestral, derramando épicos insuflados à la Arcade Fire sobre o povo desprevenido. Acontece que, por motivos absolutamente diferentes, tenho exactamente a opinião inversa: tal como sucedeu no histórico caso Doors vs Bunnymen – em que o modelo foi claramente suplantado pelos copistas –, todas as supostas (e reais) derivações recentes da banda canadiana, se lhe têm tomado de empréstimo o template estético como ponto de partida, no final do processo, apresentam-no consideravelmente emagrecido de excessos, limpo de arrebatamentos histriónicos e higienicamente a salvo da embaraçosa aura de messianismo litúrgico. Mumford & Sons e Noah & The Whale estão aí muito à mão para o demonstrar e, agora, os londrinos Fanfarlo encarregam-se de fornecer o derradeiro QED.



Um empregado sueco da Beggars Banquet (Simon Balthazar, voz, guitarra, teclados, bandolim, sax, clarinete, glockenspiel), um livreiro (Justin Finch, voz e baixo), um editor de uma revista de viagens (Leon Beckenham, trompete, teclados, melódica), uma professora de Inglês (Cathy Lucas, violino, teclados, bandolim, voz, serra friccionada) e um conselheiro vocacional de estudantes universitários (Amos Memon, voz e percussão), autodenominados a partir de uma novela de Baudelaire, inventam o género de música que, tendo, indiscutivelmente um ou dois dedos de um pé na pop “barroca” tal como Butler & Chassagne a praticam, vê os movimentos disciplinados por meio das justíssimas chibatadas correctivas aprendidas no manual-VU, lido segundo a tradução dos Talking Heads (Balthazar, por outro lado, também é algo mais do que apenas um discípulo de David Byrne explicado às massas pelos Clap Your Hands Say Yeah), e deixa-se temperar com as “etnicidades” recomendavelmente fake adquiridas na tendinha Beirut, de Zach Condon, e um ou outro subliminar psicadelismo da marca Neutral Milk.



Owen Pallett – ele, o orquestrador dos Arcade, mas, igualmente, dos Grizzly Bear, Beirut, Pet Shop Boys, e, heteronimamente, Final Fantasy – contribui com o outro ângulo da questão: entregue a si mesmo, aquilo que, nos Grizzly e Beirut, enriquece o tecido musical, é aqui somente a mesma pompa e decorativismo florido com que encadernou Funeral e Neon Bible. Conceptual e grandiloquente, Heartland pertence aquela família de grotescos empadões narrativos de que Ys, de Joanna Newsom, é um dos mais notórios exemplos: Lewis, “a young, ultra-violent farmer”, dialoga com o seu criador na terra de Spectrum, habitada por personagens de nomes The Butcher, Cockatrice, No-Face e Blue Imelda (uma espécie de Lewis Carroll que partilhou psicotrópicos com Philip K. Dick e a coisa correu mal a ambos), enquanto, à sua volta, a Czech Philarmonic Orchestra, Nico Muhly e "tutti quanti" debitam em piloto automático o catálogo integral de lugares comuns do sinfonismo “moderno” arrebicado de bruitage electrónica. Em curtas palavras: não é Andrew Bird nem Sufjan Stevens quem quer, só quem pode.

(2010)