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26 April 2026

NÃO SERÁ UM ACASO

No início de 2023, aquando da publicação de Anadolu Ejderi, da turca Gaye Su Akyol, foi oportunidade para parar um pouco e reflectir sobre o imenso e maravilhoso mundo que, ao longo dos anos, fomos capazes de ir descobrindo sempre que nos demos ao trabalho de espreitar para lá dos muros do nosso quintal. Recordámos, então, a afegã Elaha Soroor, a saudita-paquistanesa Arooj Aftab e a israelo-iraniana Liraz, o - pelos piores motivos - recém-descoberto universo ucraniano (Folknery, DakhaBrakha, Torbán, Dakh Daughters, Joryj Kloc) ou o inesgotável baú das inúmeras variantes chinesas contemporâneas. Na verdade, era apenas uma actualização do que já antes, em Setembro de 2021, havia sido recenceado: preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, Les Nouvelles Polyphonies Corses, Cocanha, San Salvador, Lankum, John Francis Flynn, Lisa O'Neill e Stick In The Wheel. Podemos, pois - enquanto as occitanas Cocanha não nos revelam o seu último álbum ("Flame Folclòre") e as estonteantes napolitanas La Niña não nos oferecem uma oportunidade de, ao vivo, nos fazer levitar ao som de Furèsta -, ir abrindo uma vaga para o quarteto integralmente feminino Seera, oriundo de Riade, capital da Arábia Saudita, estado islâmico no qual a condição feminina não é propriamente exemplar. (daqui: segue para aqui)

Seera - "Shams"

15 April 2022

 

"Meu Coração Emigrou"

(sequência daqui) Mas como surgiu, afinal, a ideia para um álbum no qual, à excepção de José Salgueiro (percussões e fliscorne) e Catarina Anacleto (violoncelo), apenas se escutam a(s) voz(es) de Amélia Muge sobrepostas no mil-folhas sonoro dos arranjos e cenografia electrónica de António José Martins? “Durante a pandemia quando, aparentemente, não era possível fazer nada e a própria disponibilidade mental nos obrigava a estar quase todo o dia frente à televisão a tentar perceber o que se passava. Por outro lado, parecia que a única coisa que tínhamos era a voz, só contactávamos com as outras pessoas através do telefone. Perante isto, pensei que fazer um novo trabalho era quase uma questão de sobrevivência mental. Por outro lado, o que poderia eu fazer que usasse o mínimo de recursos possivel dado que o contacto com outros músicos seria complicado? Claro que ter o António José Martins é logo possuir os recursos de uma central nuclear. Pensei, pois, no Zé mais as vozes de mim. E foi isso que aconteceu. À medida que se foi avançando com o trabalho, mais eu percebi que trabalhar apenas com esta ideia da voz não era um recurso pequeno, era um recurso enorme. Ligado a toda a experiência e a todas as memórias. Não numa atitude de 'antes era tão bonito, eu podia fazer isto, ai agora já não posso', mas como recurso a retirar de uma experiência vivida que nos permite ir um bocadinho mais além. Isso, articulado com o conhecimento que tenho do trabalho de outros músicos como a Laurie Anderson, as Zap Mama ou, mais recentemente, as Cocanha e os San Salvador. Houve sempre muita gente com quem trabalhei ou que ouvi e que iam tendo um bocadinho a ver com a minha própria experiência. Cada um ouve como pode e como sabe. Sabia que podia diversificar a minha voz em matéria de timbres, de alturas, de ressonâncias. Tinha as minhas experiencias com os outros e o conhecimento daqueles com quem nunca trabalhei mas sempre me inspiraram. Uma voz é feita de muitas vozes”. (segue para aqui)

31 December 2021

06 September 2021

FRONTEIRAS, ORIGENS
 

Desde que, na noite 29 de Junho de 1987, no Empress of Russia (um já defunto pub de Islington, no Norte de Londres), um grupo de representantes de editoras independentes, organizadores de concertos e jornalistas – correndo, embora, o risco de guetização de tudo o que não era ocidental, pop, rock ou jazz – cunhou a designação “world music” para englobar o que, até aí, se chamava “folk”, “trad” ou “roots”, todo um novo espaço se abriu e nos permitiu o acesso mais fácil a preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, a experiências de cruzamento multicultural como Les Nouvelles Polyphonies Corses (de Hector Zazou) ou a muito do que a Real World, de Peter Gabriel, ou a Luaka Bop, de David Byrne, publicaram. Com períodos de maior ou menor fulgor, nos últimos anos, o ritmo de descobertas valiosas tem-se intensificado com os belíssimos álbuns de Sam Lee, Elaha Soroor & Kefaya, Cocanha, San Salvador, The Rheingans Sisters, Lankum, Stick In The Wheel ou até 33EMYBW, Hai Qing & Li Xing, e Guzz da quase totalmente ignorada China. Vulture Prince, de Arooj Aftab, é mais outro óptimo exemplo de uma forma de abordar a música que, se ignora as fronteiras, conhece bem as suas origens. (daqui; segue para aqui)
 
"Mohabbat"

28 March 2021


(sequência daqui) Sim, é uma história de família(s) habitantes na aldeia de Saint Salvadour (menos de 300 almas), na Corrèze, e de transmissão hereditária de sábios conhecimentos: “Temos orgulho em testemunhar através da nossa música que os territórios são reservatórios de línguas e de cultura enriquecidos por sucessivos contributos. O nosso alvo é dizer a modernidade do occitano e a diversidade francesa. Estas músicas reinventam-se há séculos”, explica Gabriel a propósito das vertiginosas polifonias de cortar a respiração que incluiram no álbum de estreia, La Grande Folie: um turbilhão de vozes e percussões, entre canções “de terroir”, uma Meredith Monk anfetaminada, "drones" e microtonalidades hipnóticas, e corais sofisticadamente selvagens, “uma música o mais em bruto possível, como o punk, um jogo de construção e reconstrução de um folclore imaginário”.

26 March 2021

TURBILHÃO
 

Do lado de lá da Mancha, Fairport Convention – com Liege & Lief (1969) – e sua imensa côrte tinham dado o tiro de partida. Em muito pouco tempo, as ondas de choque alcançariam o hexágono gaulês e a descendência revelar-se-ia vasta e riquíssima: do sumo-sacerdote Alan Stivell, a uma legião de bandas – La Bamboche, Mont-Jòia, Le Grand Rouge, Mélusine, Tri Yann, La Chifonnie, Perlinpinpin Fòlc, Malicorne, Maluzerne – totalmente entregue à escavação da tradição musical popular e à (sempre perigosamente escorregadia) busca das identidades locais. Chegaram a ter uma espécie de orgão central do movimento, a revista “L’Escargot Folk” publicada entre 1974 e 1980, e vários de entre eles migraram, literalmente, das cidades para o campo, em regime de dedicação exclusiva à missão de guardiões do património. Olivier Durif, de Le Grand Rouge, foi um desses militantes recolectores que, não apenas chegaria a ser director do Centre des Musiques Traditionnelles du Limousin, como, em modo de John e Alan Lomax, daria ao mundo Eva e Gabriel, continuadores da causa e um dos dois pares de irmãos que, com outro par de primos, viriam a constituir os formidáveis San Salvador. (daqui; segue para aqui)