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23 February 2009

ESMAGADO POR UMA VISÃO


Van Morrison - Astral Weeks Live At the Hollywood Bowl

Escrevendo dez anos depois acerca do seu encontro, no Outono de 1968, com Astral Weeks, de Van Morrison, Lester Bangs, no segundo capítulo de Psychotic Reactions & Carburetor Dung, recordava como, para “o destroço físico e mental” que ele, então, era, esse álbum fora “um farol, uma luz por entre a neblina de costas longínquas, mais do que isso, a prova de que restava algo possível de se exprimir através da arte para além do niilismo e da destruição” e qualifica-o como “o disco de maior significado em toda a minha vida”. Para um ilustre ícone de outro(s) culto(s) – Steven Van Zandt, guitarrista da E Street Band, de Bruce Springsteen, e/ou Silvio Dante, consigliere de Tony Soprano –, a devoção não é menor: “Para nós, Astral Weeks era uma religião”.


Elvis Costello junta a voz ao coro de oficiantes e confessa que esse “continua a ser o álbum de rock mais audacioso de sempre – desde aí, nenhum outro ousou ir tão longe” e, a encerrar provisoriamente o índice de laudas (não seria difícil ampliá-lo indefinidamente), numa entrevista de 2006, Greil Marcus revelava que, em conversa, Martin Scorsese lhe havia confiado que toda a primeira metade de Taxi Driver fora baseada em Astral Weeks. Objectivando estatisticamente um pouco melhor, deverá acrescentar-se que, em inúmeras listas dos “melhores de sempre” – da “Rolling Stone” à “Mojo” e todas as outras que os arquivos da Net abrigam –, Astral Weeks é residente obrigatório e, já agora, que lhe foram necessários trinta e três anos de permanência nos expositores das lojas para que, finalmente, em 2001, atingisse o galardão de “disco de ouro”.



Gravado em três sessões – entre 25 de Setembro e 15 de Outubro de 1968 –, a Astral Weeks colaram-se lendas várias. Falsas, como o boato posto a correr por John Cale (ocupante do estúdio ao lado) que, ao contrário da narrativa oficial, garantia que, porque Van Morrison “era incapaz de trabalhar com quem quer que fosse”, tinha registado guitarra e voz sozinho e todas as restantes partes instrumentais haviam sido overdubbed posteriormente. Verdadeiras, como o facto de não haver dúvidas de que, aos vinte e três anos, o ex-vocalista dos Them, sem um tostão e no meio de um turbilhão de sarilhos contratuais, se fez rodear de um grupo de músicos com currículo ao lado de Eric Dolphy (o contrabaixista Richard Davis), Charles Mingus (o guitarrista Jay Berliner) ou no Modern Jazz Quartet (o baterista Connie Kay), para enorme perplexidade de todos eles, sem sequer se ter devidamente apresentado nem lhes ter fornecido a mais vaga indicação musical, se limitou a dizer-lhes que “tocassem como lhes apetecesse” e, nesse improvável tubo de ensaio, gerou uma indiscutível obra-prima de poesia impressionista e improvisação colectiva verdadeiramente sobrenatural sem antecedentes identificáveis e cuja descendência capaz de não ser arrasada pela comparação se reduzirá a uma ou duas equiparáveis alucinações de Tim Buckley.


Quatro décadas e uma extensa e maioritariamente excelente discografia mais tarde, porém, Astral Weeks nunca havia sido integralmente interpretado ao vivo. Aconteceu em Novembro passado, no Hollywood Bowl (a única testemunha sobrevivente e participante do milagre original era Berliner), e, se o teletransporte até aos momentos e ao lugar que deram origem ao álbum era, naturalmente, impossível, o que ficou documentado neste CD (e em próximo DVD) é, talvez, a mais fiel aproximação hoje viável desses instantes de “estupefacção perante a vida, completamente esmagados, encurralados na própria pele, paralisados pela enormidade do que, numa visão de um segundo, se consegue apreender” (Lester Bangs).

(2009)

16 October 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XVII)



"Ora aqui está uma coisa que descobri na festa de anos da minha filha: friccionei o lado de fora de um balão bem cheio e obtive aquele guincho habitual que os palhaços costumam produzir quando fazem animais com balões. Se pusermos goma de farinha nas mãos e o 'tocarmos', soa muito semelhante a um solo de Eric Dolphy ou aos gritos de um macaco com o pelo a arder.

(...)

"Li recentemente acerca de um cavalheiro de Patterson, New Jersey, que, em vez de mandar o seu velho carro para a sucata, decidiu recuperar todas as componentes e convertê-las em instrumentos musicais. Retirou as janelas deixando apenas a estrutura das portas e encordoou cada uma com cordas de harpa. A capota converteu-se em caixa de ressonância que também encordoou. Resultado: a 'Hood Harp' e a 'Door Harp' e a ressureição de um velho e bem amado carro.

(...)

"Por volta de 1982, a minha mulher, Kathleen, encorajou-me a tentar cantar através de um megafone da polícia para fazer sobressair a minha voz quando integrada num conjunto de instrumentos de timbre semelhante. Claro que é possível fazer o mesmo com um equalizador, mas não há nada melhor do que o som dramático do megafone. Também é interessante explorar os megafones concebidos para crianças que criam vozes de robot, astronauta ou de monstro. Descobri que, se zumbir através de um deles, consigo um som muito proximo do da guitarra dos Blue Cheer em 'Summertime Blues'."

1996



"Parece-me que a maioria dos artistas não é lá muito normal. Desde muito cedo, sofreram quase todos um golpe qualquer, uma morte na família ou o divórcio dos pais que os lançou numa viagem onde, a certa altura, dão consigo de joelhos, em frente ao jukebox, a rezar a Ray Charles. Ou então, vão à procura do pai que abandonou a família quando tinham nove anos e de quem apenas sabem que guia uma carrinha. Sem perceber muito bem como, acabam por se tornar um grande sucesso e aparecem na capa da 'Life'. É uma espécie de desforra catártica.

(...)

"Um amigo meu que era condutor de ambulâncias, quando eu tinha 16 ou 17 anos, ofereceu-me um estetoscópio. Costumava sentar-me sozinho num quarto às escuras, retirava a membrana do estetoscópio e punha-a no buraco da guitarra. Foi esse realmente o primeiro momento em que ouvi a música assim tão de perto.

(...)



" Não ter ligado muito aos Beatles e aos grandes acontecimentos 'revolucionários' dos anos 60, tem um bocadinho a ver com a forma como decidimos apreciar as coisas. Sempre desconfiei muito de grandes grupos de pessoas que vão juntas a qualquer sítio. Um disco é apenas um disco. Se não me apetecer ouvi-lo agora, não o oiço. Oiço-o daqui a 30 anos. Descobriram-se potes de mel nos túmulos dos faraós e o mel continua tão fresco como no dia em que o puseram lá. É o mesmo com os discos. Captam um momento. A caminho daqui, ouvi 'Kicks' do Paul Revere & The Raiders e achei o maximo! E 'Wild Thing' e 'Louie Louie'... No outro dia, também ouvi 'Son Of A Preacher Man' e nem queria acreditar... aquele momento em que a Dusty Springfield canta 'the only one who could ever love me' com uma voz assim rouca e grave, que canção tão sexy! Está tudo aí para ouvirmos quando nos apetecer.

1999

(2007)