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17 September 2026

"The truth of things is not something I particularly like. I go more for a good story than what really happened. That's just the way I am. I'm a big liar"

27 October 2023

 
(sequência daqui) De resto, a personagem-Tom Waits manter-se-ia em inalterável mutação ("A personagem-Tom Waits? Rouba-se um bocadinho daqui, outro dali. Umas coisas velhas, outras novas, um farrapo de pano azul, o chapéu do pai, a roupa interior da mãe, a moto do irmão, os tacos de bilhar da mana e aí vamos nós. Quer dizer, sou o Frank Sinatra ou o Jimi Hendrix? Ou o Jimi Sinatra? Claro que sou ventríloquo como todos os outros. Ninguém se rala se estamos a dizer ou não a verdade. No nosso ramo de actividade, não me parece que isso seja muito importante"), com um pé na realidade ("O mundo está a arder e eu às vezes penso que raio de vida é a minha a fazer joalharia para os ouvidos. Quando foi a última vez que numa sala toda a gente cantou a mesma canção? Há muitas coisas que têm de acontecer antes de se ligar um giradiscos. Roupa e alimentos. Não duvido do poder da música mas parece-me que uma ideia exagerada de nós mesmos e do valor daquilo que fazemos pode fazer-nos acreditar que escrever uma canção é capaz de mudar o mundo") e outro nunca se saberá bem onde: "Em Hermosillo, uma prostituta anã subiu para o meu banco no bar, sentou-se-me ao colo, pediu um Double Suicide para beber e contou-me como tinha assassinado o chulo dela, a sangue frio, no Bali-Hai de Tijuana. Isso tinha-se passado há 30 anos, desde então tornara-se cristã 'born again' e queria que eu a ajudasse a juntar dinheiro para ir a Fátima". (Desde 6 de Outubro, Swordfishtrombones, Rain Dogs, Franks Wild Years, Bone Machine e The Black Rider, remasterizados a partir das "master tapes" analógicas originais, foram reeditados em vinil e CD)

23 October 2023

(Franks Wild Years, na íntegra aqui)

(sequência daqui) Ao longo de Rain Dogs (1985), Franks Wild Years (1987) Bone Machine (1992) e The Black Rider (1993), Waits montaria, peça a peça, uma improvável escultura sonora feita dos escombros de Kurt Weill, Harry Partch, Captain Beefheart, aromas de New Orleans, folk irlandesa, blues, tango e rascunhos de Tin Pan Alley, em busca do essencial: "É verdade que a minha música se tem tornado cada vez mais despojada. Até se reduzir quase só a uma frase. Sinto necessidade de qualquer coisa rudimentar, fundamental. Actualmente, prefiro escrever sem nenhum instrumento, só com a minha voz. E estalando os dedos. Isso liberta-me da tirania do teclado ou da escala da guitarra. Repare na pop: actualmente, parece o Exército de Salvação, uma troca de trapos velhos. O que faz falta são canções. O que é superficial desaparecerá. No hip-hop, uma bateria e um órgão podem chegar. São simétricos, satisfatórios. E quais são as raízes do hip-hop? Os blues". (segue para aqui)


20 October 2023

Bone Machine (álbum integral aqui)
 
(sequência daqui) Se, entre Closing Time (1973) e Blue Valentines (1978), ele se imaginava como a encarnação de uma personagem da ficção de Kerouac, Damon Runyon ou Raymond Chandler cambaleando por entre coreografias de jazz desmoronado ("Para a maioria dos músicos, há o 'onstage' e o 'backstage'. Eu cresci mais ou menos em público. Tinha vinte e dois anos quando gravei o primeiro disco. Ainda andava a tropeçar pelas escadas abaixo. Não fazia ideia do que estava a fazer mas sabia que iria ser músico. Há pessoas que aparecem logo completamente formadas, como um ovo. Comigo, não aconteceu assim. Fui juntando as peças pelo caminho. Uma 'persona' de palco é muito diferente daquilo que somos. De facto, uma 'persona' é algo que não acreditamos ser mas que tentamos desesperadamente convencer os outros que somos"), a partir daí, contando com Kathleen como insubstituível braço direito, tudo se transformaria: "Escrever canções com a minha mulher é assim: um segura no prego e o outro bate-lhe com o martelo. Colaboramos em tudo. Ela escreve mais inspirada por sonhos e eu pelo próprio mundo. Quando escrevemos, navegamos pelo meio da escuridão e não sabemos a direcção certa. Cinco minutos a mais e pode dar-se cabo de uma canção. Por isso, o tempo também participa do processo. Temos o nosso negociozinho familiar. Eu sou o prospector e ela cozinha. Eu trago o flamingo para casa e ela corta-lhe a cabeça. Eu meto-o na água e ela depena-o. Depois, ninguém lhe apetece comê-lo. Agora, o meu ponto mais forte é pegar numa coisa, combiná-la com outra com que não tenha nada a ver e conseguir que isso faça sentido. Digamos que procuro formas diversas de usar um guarda-chuva. A maior parte dos instrumentos são quadrados mas a música é sempre redonda e a verdade é que não gosto de linhas rectas". E, reforçando o louvor público, "Eu sou a Ingrid Bergman e a Kathleen é o Bogart. Ela tem um brevet de piloto de aviação e, antes de nos casarmos, estava para ser freira. Pus um ponto final nisso. Ela sabe de tudo desde reparação de motos até à alta finança e é uma excelente pianista. Uma das maiores autoridades mundiais acerca da violeta africana. É feita de material muito rijo. É como a Super-Mulher, com a capa a flutuar ao vento. Funciona. Já andamos nisto há muito tempo". (segue para aqui)

 
"I Don't Wanna Grow Up" (real. Jim Jarmusch)

15 October 2023

(sequência daqui) The Black Rider (1993) seria o último dos cinco álbuns que gravaria para a Island após o abandono da Asylum Records. As relações com o patronato nunca seriam, aliás, fáceis e ele não o disfarçaria: "As grandes editoras assemelham-se mais a países do que a empresas. Ou a alforrecas. Não possuem anatomia própria. Mas ferram. Perderam o interesse em apoiar o crescimento de um artista. Querem que comeces a dar leite a partir do momento em que assinas com elas. Mas, assim que a teta seca, mandam-te para o churrasco. Devemos lutar a todo o custo pela nossa independência e liberdade. Continuamos a viver no regime das plantações de algodão. Uma editora discográfica é apenas um banco que te empresta uns dinheiritos para fazer um disco e que fica proprietária de ti para toda a vida. Nem sequer somos donos do nosso próprio trabalho". O primeiro volume da era-Island, Swordfishtrombones (1983) tinha, entretanto, inaugurado um novo capítulo no universo de Tom Waits. (segue para aqui)
 
"Clap Hands" (de Rain Dogs, na íntegra aqui)

13 October 2023

(sequência daqui) E ele terá também tanta consciêndia disso que, em 2008, enviaria para a Anti Records, um texto promocional constituido por uma entevista que fizera a si mesmo. A introdução era esclarecedora: "Tenho de reconhecer, que antes de me encontrar com o Tom, tinha ouvido tantos boatos e rumores que estava com algum medo. As dívidas de jogo, o magnetismo animal, o desprezo pelos sentimentos dos outros... a requintada colecção de armas, a fúria consumista, as operações plásticas, as estâncias de ski, as rusgas por posse de drogas, as centenas de quartos da sua mansão. Estava nervoso por ir encontrá-lo. Mas acabei por achá-lo amável, inteligente, aberto, brilhante, disponível, bem humorado, bravo, audacioso, loquaz, asseado e reverente. Na verdade, um autêntico escuteiro e um grande homem. Acompanhem-me agora numa olhadela ao coração de Tom Waits. Descalcem os sapatos e é proibido fumar" (segue para aqui)

"Underground" (de Swordfishtrombones, na íntegra aqui)

14 October 2020

HEMORRAGIA LENTA


Na lista das experiências formativas essenciais, Tom Waits inclui ter sido empregado de mesa, em San Diego, na Napoleone's Pizza House: “O que San Diego tinha de bom era haver muitas lojas de tatuagens. Tenho o mapa da Ilha de Páscoa nas costas. E o menu completo da Napoleone's Pizza House na barriga. Quando lá trabalhava, a partir de certa altura, desistiram de imprimir os menus. Eu ia até às mesas e levantava a camisa”. Matt Berninger não anda muito longe disso quando recorda como, nos anos 80, era entregador de pizzas, em Cincinnati: “Fazia pouco mais do que viajar pela cidade, fumando e ouvindo uma estação de rádio, a 97X, Foi o emprego mais musical que tive”. E, à “Uncut”, acrescenta: “Depois, trabalhei num campo de golfe, como cortador de relva, e ouvia os Smiths, enquanto aqueles imbecis ricos tentavam acertar-me com as bolas. Foi a minha educação musical”.
 

Após 20 anos a bordo dos National, publica, agora, o primeiro álbum a solo – Serpentine Prison – e anuncia que se trata de uma nova etapa na aprendizagem de escrita de canções. Tudo terá começado com a adaptação do Cyrano de Bergerac, por Erica Schmidt, para o Daryl Roth Theatre, de Nova Iorque (“Metade escrita de canções e metade paraquedismo”, explicaria Berninger) mas, concluída a experiência de “entrar na cabeça das personagens e exprimir as suas emoções”, pareceu-lhe que era altura de “voltar a chafurdar no meu próprio lixo e isto foi a primeira coisa que daí saiu”. Na verdade, houve uma tentativa anterior de um álbum de versões (Velvet Underground, The Cure, Morphine e Beastie Boys faziam filinha para o abate) que o produtor convidado, Booker T “Green Onions” Jones, desencorajou ao escutar os originais de Berninger co-escritos com Scott Devendorf, Andrew Bird, Walter Martin (Walkmen), Mickey Raphael e Gail Ann Dorsey. E fez muito bem: no mesmo registo acolchoadamente (des)confortável que, desde há dois álbuns, é o dos National, Serpentine Prison é melancolia outonal, hemorragia lenta e quase feliz, um afago resignado antes de encarar o precipício.

07 May 2014

A SOBREMESA 


Numa das inúmeras efabulações que Tom Waits dispara mal lhe colocam um interlocutor à frente, contava ele que, uma noite, numa loja de donuts, na esquina de Ninth e Hennepin, em Minneapolis, “o Chuck E. Weiss e eu estamos a beber café ao balcão quando somos apanhados no meio de uma guerra entre dois chulos de treze anos. (...) As balas acertam no fogão, numa nota de dólar emoldurada e num cão de porcelana. O Chuck e eu atiramo-nos ao chão no momento em que a 'jukebox' começa a tocar 'Our Day Will Come' da Dinah Washington. Todas as balas que lhe acertam mudam a selecção da 'jukebox' e cada canção é mais comovente que a anterior”. Conhecemos Chuck E. Weiss através de pouco mais do que episódios destes, por Waits o referir em "I Wish I Was In New Orleans" (e haver co-assinado com ele "Spare Parts", em Nighthawks At The Diner) e Rickie Lee Jones ter escrito "Chuck E’s In Love". Fora disso, para o mundo, Weiss é virtualmente inexistente, apenas uma personagem secundária nas biografias de outros.



E, aparentemente, dá-se bem com isso: se, pelo fim da década de 60, já tinha acompanhado lendas como Lightnin’ Hopkins, Muddy Waters ou Willie Dixon, durante os anos 70, deambulou pela cena do Tropicana Motel, de Los Angeles, em 1981, apercebeu-se que, lhe tinham publicado um álbum de demos que, imediatamente, excomungou e, durante os 18 anos seguintes, confessa candidamente, “andou distraído”. Talvez alarmado pela proximidade do fim do milénio, em 1999, gravou a estreia oficial, Extremely Cool (era mesmo) e, vertiginosamente, 2 anos depois, Old Souls & Wolf Tickets. Descansou 6 anos antes de 23rd & Stout e precisou de 7 para o actual Red Beans And Weiss. Não é, definitivamente, desta massa que se constroem os grandes impérios mas Weiss nunca jurou fidelidade a Max Weber. Basta-lhe – e ninguém reclama – ir apurando infinitamente o tempero da grande caçarola de blues, cajun, rockabilly, boogie, jazz e mariachi, cuidar dos três gatos domésticos e de mais meia dúzia de vadios, exibir as afinidades, à moda de Sgt.Pepper, na capa do álbum (de Rimsky-Korsakov a Lester Young, Hank Williams, Bessie Smith ou... os gatos) e, como respondeu a Waits quando este lhe perguntou que parte de uma refeição era ele, imaginar-se como “uma sobremesa: depois, a seguir, ainda há o café e, se calhar, a repetição”. 

16 March 2011

TOM WAITS NO HALL OF FAME






















"Songs are really just interesting things to be doing with the air. I love working with tunes. I love music, but we really want music to love us. Neil [Young] was saying the other night, he said, 'When there's a song approaching it's kind of like there's an animal in the room, and you don't want it to run off'. You know, how did it get in?

I was fifteen and I snuck in to see Lightnin' Hopkins. I put white-out in my hair and I drew on a mustache and I put on an overcoat and I stood there and I said,
'Ticket for one'. Amazing show. Every time he opened his mouth, that orchestra of gold teeth was just devastating. And then I saw him leave the show and he walked through a door and slammed the door behind him. And on the door, it said, I swear to God, 'KEEP OUT. THIS ROOM IS FOR ENTERTAINERS ONLY'. And I knew at that moment that I had to get into show business as soon as possible. So that was a real big one for me. And I've had the pleasure and the privilege of playing with a lot of great musicians over the years. Some of you are here and some of you are not here. Some of us are on the wrong side of the dirt, as they say. But any day on this side of the dirt is a good day, for me and for all of us. (...)

They say I have no hits and I'm difficult to work with, and they say that like it's a bad thing. The only thing I really can compare this to is I was given the key to the city of El Paso several months ago. It was a really kind offer. They told me there's only one key to the city, but I found out later there were a whole lot of them, and they fit nothing. So, I'm just hoping there are some fringe benefits that go along with this baby".
(aqui)

(2011)

12 August 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXVIII)



“Eu não era mais estranho do que os outros putos. Simplesmente, cresci sem vigilância. Aos nove anos, fumava dois maços de cigarros por dia. Aos dezassete já me tinha casado e divorciado duas vezes. Agora que tenho filhos, pergunto-me como puderam deixar-me fazer tais coisas, como é que a América me autorizou a ser assim? Mas nasci dela, como dizia o Bukowski. Estamos todos encurralados na nossa própria vida... é impossível sair. Andava à procura do meu lugar. Era o caracol a tentar atravessar a estrada.

(...)

"A verdade é que a maioria das coisas que as pessoas sabem acerca de mim é tudo invenção. A minha vida pessoal decorre nos bastidores. Por isso, aquilo que se ‘sabe’ sobre mim foi aquilo que eu permiti que se soubesse. É como um número de ventríloquo. E é também uma forma de mantermos a nossa vida pessoal em segurança. O que é saudável e essencial. Não sou daquelas pessoas que os tablóides perseguem. É preciso apagar esse cheiro – é como sangue na água para os tubarões. E eles sabem-no e apercebem-se de que estamos de acordo com isso. Não sou desses. Invento cenas. Não há nada que se possa dizer que volte a ter o mesmo significado quando é repetido. Antes de existirem gravações, tudo era submetido à folclorização. Fazíamos todos parte da composição, da evolução e da migração das canções. Esquecíamo-nos de um verso, mudávamos o género ou, se estávamos a cantar para miúdos, eliminávamos um verso menos apropriado... acontece o mesmo com as anedotas – como é que elas chegam até nós? Inverter o percurso e descobrir-lhes a origem, isso é que seria fascinante.

(...)

2006

(2008)

23 June 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXVII)



True Confessions - Tom Waits entrevista Tom Waits

I must admit, before meeting Tom, I had heard so many rumors and so much gossip that I was afraid. Frankly, his gambling debts, his animal magnetism, coupled with his disregard for the feelings of others... His elaborate gun collection, his mad shopping sprees, the face lifts, the ski trips, the drug busts and the hundreds of rooms in his home. The tax shelters, the public urination... I was nervous to meet the real man himself. Baggage and all. But I found him to be gentle, intelligent, open, bright, helpful, humorous, brave, audacious, loquacious, clean, and reverent. A Boy Scout, really (and a giant of a man). Join me now for a rare glimpse into the heart of Tom Waits. Remove your shoes and no smoking, please.

Q: What’s the most curious record in your collection?

A: In the seventies a record company in LA issued a record called The Best of Marcel Marceau. It had forty minutes of silence followed by applause and it sold really well. I like to put it on for company. It really bothers me, though, when people talk through it.

Q: What are some unusual things that have been left behind in a cloakroom?

A: Well, Winston Churchill was born in a ladies cloakroom and was one sixteenth Iroquois.

Q: You’ve always enjoyed the connection between fashion and history... talk to us about that.

A: Ok let’s take the two-piece bathing suit, produced in 1947 by a French fashion designer. The sight of the first woman in the minimal two piece was as explosive as the detonation of the atomic bomb by the U.S. at Bikini Island in the Marshall Isles, hence the naming of the bikini.

Q: List some artists who have shaped your creative life.

A: Okay, here are a few that just come to me for now: Kerouac, Dylan, Bukowski, Rod Serling, Don Van Vliet, Cantinflas, James Brown, Harry Belafonte, Ma Rainey, Big Mama Thornton, Howlin’ Wolf, Lead Belly, Lord Buckley, Mabel Mercer, Lee Marvin, Thelonious Monk, John Ford, Fellini, Weegee, Jagger, Richards, Willie Dixion, John McCormick, Johnny Cash, Hank Williams, Frank Sinatra, Louis Armstrong, Robert Johnson, Hoagy Carmichael, Enrico Caruso.



Q: List some songs that were beacons for you.

A: Again, for now... but if you ask me tomorrow the list would change, of course. Gershwin’s second prelude, “Pathetique Sonata”, “El Paso”, “You’ve Really Got Me”, “Soldier Boy”, “Lean Back” , “Night Train”, “Come In My Kitchen”, “Sad Eyed Lady”, “Rite of Spring”, “Ode to Billy Joe”, “Louie Louie”, “Just a Fool”, “Prisoner of Love”, “Wang Dang Doodle (all night long)”, “Ringo” , “Ball and Chain”, “Deportee”, “Strange Fruit”, “Sophisticated Lady”, “Georgia On My Mind”, “Can’t Stop Loving You”, “Just Like A Woman”, “So Lonesome I Could Cry”, “Who’ll Stop The Rain?”, “Moon River”, “Autumn Leaves”, “Danny Boy”, “Dirty Ol’ Town”, “Waltzing Matilda”, “Train Keeps a Rollin”, “Boris the Spider”, “You’ve Really Got a Hold On Me”, “Red Right Hand”, “All Shook Up”, “Cause of It All”, “Shenandoah”, “China Pig”, “Summertime”, “Without a Song”, “Auld Ang Syne”, “This is a Man’s World”, “Crawlin’ King Snake”, “Nessun Dorma”, “Bring it on Home to Me”, “Hound Dog”, “Hello Walls”, “You Win Again”, “Sunday Morn’ Coming Down”, “Almost Blue”, “Pump It Up”, “Greensleeves”, “Just Wanna See His Face”, “Restless Farewell”, “Fairytale of NY”, “Bring Me A Little Water Sylvie”, “Raglan Road”, “96 Tears”, “In Dreams”, “Substitute”, “Good Time Charlie’s Got The Blues”, “Theme from Rawhide”, “Same Thing”, “Walk Away Rene”, “For What it’s Worth”, theme from “Once Upon A Time In America”, “Nowadays Clancy Can’t Even Sing”, “Oh Holy Night”, “Mass in E Minor”, “Harlem Shuffle”, “Trouble Man”, “Wade in The Water”, “Empty Bed Blues”, “Hava Nagila”

Q: What’s heaven for you?

A: Me and my wife on Rte. 66 with a pot of coffee, a cheap guitar, pawnshop tape recorder in a Motel 6, and a car that runs good parked right by the door.

Q: What’s hard for you?

A: Mostly I straddle reality and the imagination. My reality needs imagination like a bulb needs a socket. My imagination needs reality like a blind man needs a cane. Math is hard. Reading a map. Following orders. Carpentry. Electronics. Plumbing. Remembering things correctly. Straight lines. Sheet rock. Finding a safety pin. Patience with others. Ordering in Chinese. Stereo instructions in German.

Q: What’s wrong with the world?

A: We are buried beneath the weight of information, which is being confused with knowledge; quantity is being confused with abundance and wealth with happiness. Leona Helmsley’s dog made 12 million last year... and Dean McLaine, a farmer in Ohio made $30,000. It’s just a gigantic version of the madness that grows in every one of our brains. We are monkeys with money and guns.

Q: Favorite scenes in movies?

A: R. De Niro in the ring in Raging Bull. Julie Christie’s face in Heaven Can Wait when she said, “Would you like to get a cup of coffee?” James Dean in East of Eden telling the nurse to get out when his dad has had a stroke and he’s sitting by his bed. Marlene Dietrich in Touch of Evil saying “He was some kind of man”. Scout saying “Hey Mr. Cunningham” in the scene in To Kill A Mockingbird. Nic Cage falling apart in the drug store in Matchstick Men... and eating a cockroach in Vampire’s Kiss. The last scene in Chinatown.



Q: Can you describe a few other scenes from movies that have always stayed with you?

A: Rod Steiger in The Pawnbroker explaining to the Puerto Rican all about gold. Brando in The Godfather dying in the tomatoes with scary orange teeth. Lee Marvin in Emperor of The North riding under the box car, Borgnine bouncing steel off his ass. Dennis Weaver at the motel saying “I am just the night man”, holding onto a small tree in Touch of Evil. The hanging in Oxbow Incident. The speech by Rutger Hauer in Blade Runner as he’s dying. Anthony Quinn dancing on the beach in Zorba. Nicholson in Witches of Eastwick covered in feathers in the church as the ladies stick needles in the voodoo doll. When Mel Gibson’s Blue Healer gets shot with an arrow in Road Warrior. When Rachel in The Exorcist says “could you help an old altar boy, father?” The blind guy in the tavern in Treasure Island. Frankenstein after he strangles the young girl by the river.

Q: Can you tell me an odd thing that happened in an odd place? Any thoughts?

A: A Japanese freighter had been torpedoed during WWII and it’s at the bottom of Tokyo Harbor with a large hole in her hull. A team of engineers was called together to solve the problem of raising the wounded vessel to the surface. One of the engineers tackling this puzzle said he remembered seeing a Donald Duck cartoon when he was a boy where there was a boat at the bottom of the ocean with a hole in its hull, and they injected it with ping-pong balls and it floated up. The skeptical group laughed but one of the experts was willing to give it a try. Of course, where in the world would you find twenty million ping-pong balls but in Tokyo? It turned out to be the perfect solution. The balls were injected into the hull and it floated to the surface, the engineer was elated. Moral solutions to problems are always found at an entirely different level; also, believe in yourself in the face of impossible odds.

Q: Most interesting recording you own?

A: It’s a mysteriously beautiful recording from, I am told, Robbie Robertson’s label. It’s of crickets. That’s right, crickets, the first time I heard it... I swore I was listening to the Vienna Boys Choir, or the Mormon Tabernacle choir. It has a four-part harmony it is a swaying choral panorama. Then a voice comes in on the tape and says, “What you are listening to is the sound of crickets. The only thing that has been manipulated is that they slowed down the tape”. No effects have been added of any kind except that they changed the speed of the tape. The sound is so haunting. I played it for Charlie Musselwhite and he looked at me as if I pulled a Leprechaun out of my pocket.

Q: You are fascinated with irony, what is irony?

A: Chevrolet was puzzled when they discovered that their sales for the Chevy Nova were off the charts everywhere but in Latin America. They finally realized that “Nova” in Spanish translates to “no go”. Not the best name for a car... anywhere “no va”.



Q: Do you have words to live by?

A: Jim Jarmusch once told me “Fast, Cheap, and Good… pick two. If it’s fast and cheap it wont be good. If it’s cheap and good it won’t be fast. If it’s fast and good it wont be cheap”. Fast, cheap and good… pick (2) words to live by.

Q: What is on Hemmingway’s gravestone?

A: “Pardon me for not getting up”.

Q: How would you compare guitarists Marc Ribot and Smokey Hormel?

A: Octopus have eight and squid have ten tentacles, each with hundreds of suction cups and each have the power to burst a man’s artery. They have small birdlike beaks used to inject venom into a victim. Some gigantic squid and octopus with one hundred foot tentacles have been reported. Squids have been known to pull down entire boats to feed on the disoriented sailors in the water. Many believe unexplained, sunken deep-sea vessels, and entire boat disappearances are the handiwork of giant squid.

Q: What have you learned from parenthood?

A: “Never loan your car to anyone to whom you’ve given birth” - Erma Bombeck

Q: Now Tom, for the grand prize... who said, “He’s the kind of man a woman would have to marry to get rid of”?

A: Mae West.

Q: Who said, “Half the people in America are just faking it”?

A: Robert Mitchum (who actually died in his sleep). I think he was being generous and kind when he said that.

Q: What remarkable things have you found in unexpected places?

A:

1. Real beauty: oil stains left by cars in a parking lot.

2. Shoe shine stands that looked like thrones in Brazil made of scrap wood.

3. False teeth in pawnshop windows - Reno, NV.

4. Great acoustics: in jail.

5. Best food: Airport in Tulsa Oklahoma.

6. Most gift shops: Fatima, Portugal.

8. Most unlikely location for a Chicano crowd: a Morrissey concert.

9. Most poverty: Washington D.C.

10. A homeless man with a beautiful operatic voice singing the word “Bacteria” in an empty dumpster in Chinatown.

11. A Chinese man with a Texan accent in Scotland.

12. Best nights sleep-in a dry riverbed in Arizona.

13. Most people who wear red pants - St. Louis.

14. Most beautiful horses, N.Y.C.

15. A judge in Baltimore MD1890 presided over a trial where a man who was accused of murder and was guilty, and convicted by a jury of his peers… and was let go - when the judge said to him at the end of the trial “You are guilty sir... but I cannot put in jail an innocent man”. You see - the murderer was a Siamese twin.

16. Largest penis (in proportion to its body) - The Barnacle.



Q: Tom, you love words and their origins. For $2,000... what is the origin of the word bedlam?

A: It’s a contraction of the word Bethlehem. It comes from the hospital of Saint Mary of Bethlehem outside London. The hospital began admitting mental patients in the late fourteenth century. In the sixteenth century it became a lunatic asylum. The word bedlam came to be used for any madhouse - and by extension, for any scene of noisy confusion.

Q: What is up with your ears?

A: I have an audio stigmatism where by I hear things wrong - I have audio illusions. I guess now they say ADD. I have a scrambler in my brain and it takes what is said and turns it into pig Latin and feeds it back to me.

Q: Most thrilling musical experience?

A: My most thrilling musical experience was in Times Square, over thirty years ago. There was a rehearsal hall around the Brill Building where all the rooms were divided into tiny spaces with just enough room to open the door. Inside was a spinet piano - cigarette burns, missing keys, old paint and no pedals. You go in and close the door and it’s so loud from other rehearsals you can’t really work - so you stop and listen and the goulash of music was thrilling. Scales on a clarinet, tango, light opera, sour string quartet, voice lessons, someone belting out “Everything’s Coming Up Roses”, garage bands, and piano lessons. The floor was pulsing, the walls were thin. As if ten radios were on at the same time, in the same room. It was a train station of music with all the sounds milling around... for me it was heavenly.

Q: What would you have liked to see but were born too late for?

A: Vaudeville. So much mashing of cultures and bizarre hybrids. Delta Blues guitarists and Hawaiian artists thrown together resulting in the adoption of the slide guitar as a language we all take for granted as African American. But it was a cross pollination, like most culture. Like all cultures. George Burns was a vaudeville performer I particularly loved. Dry and unflappable, curious, and funny – no matter what he said. He could dance too. He said, “Too bad the only people that know how to run the country are busy driving cabs and cutting hair”.

Q: What is a gentleman?

A: A man who can play the accordion, but doesn’t.

Q: Favorite Bucky Fuller quote?

A: “Fire is the sun unwinding itself from the wood”.



Q: What do you wonder about?

A:

1. Do bullets know whom they are intended for?

2. Is there a plug in the bottom of the ocean?

3. What do jockeys say to their horses?

4. How does a newspaper feel about winding up papier-mâché?

5. How does it feel to be a tree by a freeway?

6. Sometimes a violin sounds like a Siamese cat; the first violin strings were made from cat gut - any connection?

7. When is the world going to rear up and scrape us off its back?

8. Will we humans eventually intermarry with robots?

9. Is a diamond just a piece of coal with patience?

10. Did Ella Fitzgerald really break that wine glass with her voice?

Q: What are some sounds you like?

A:

1. An asymmetrical airline carousel created a high pitched haunted voice brought on by the friction of rubbing and it sounded like a big wet finger circling the rim of a gigantic wine glass.

2. Street corner evangelists

3. Pile drivers in Manhattan

4. My wife’s singing voice

5. Horses coming/trains coming

6. Children when school’s out

7. Hungry crows

8. Orchestra tuning up

9. Saloon pianos in old westerns

10. Rollercoaster

11. Headlights hit by a shotgun

12. Ice melting

13. Printing presses

14. Ball game on a transistor radio

15. Piano lessons coming from an apartment window

16. Old cash registers/Ca Ching

17. Muscle cars

18. Tap dancers

19. Soccer crowds in Argentina

20. Beatboxing

21. Fog horns

22. A busy restaurant kitchen

23. Newsrooms in old movies

24. Elephants stampeding

25. Bacon frying

26. Marching bands

27. Clarinet lessons

28. Victrola

29. A fight bell

30. Chinese arguments

31. Pinball machines

32. Children’s orchestras

33. Trolley bell

34. Firecrackers

35. A Zippo lighter

36. Calliopes

37. Bass steel drums

38. Tractors

39. Stroh Violin

40. Muted trumpet

41. Tobacco Auctioneers

42. Musical Saw

43. Theremin

44. Pigeons

45. Seagulls

46. Owls

47. Mockingbirds

48. Doves

The world’s making music all the time.



Q: What’s scary to you?

A:

1. A dead man in the backseat of a car with a fly crawling on his eyeball.

2. Turbulence on any airline.

3. Sirens and search lights combined.

4. Gunfire at night in bad neighborhoods.

5. Car motor turning over but not starting, its getting dark and starting to rain.

6. Jail door closing.

7. Going around a sharp curve on the Pacific Coast Highway and the driver of your car has had a heart attack and died, and you’re in the back seat.

8. You are delivering mail and you are confronted with a Doberman with rabies growling low and showing teeth... you have no dog bones and he wants to bite your ass off.

9. In a movie... which wire do you cut to stop the time bomb, the green or the blue.

10. McCain will win.

11. Germans with submachine guns.

12. Officers, in offices, being official.

13. You fell through the ice in the creek and it carried you down stream, and now as you surface you realize there’s a roof of ice.

Q: Tell me about working with Terry Gilliam.

A: I am the Devil in the Imaginarium of Dr. Parnassus – not a devil... The Devil. I don’t know why he thought of me. I was raised in the church. Gilliam and I met on Fisher King. He is a giant among men and I am in awe of his films. Munchausen I’ve seen a hundred times. Brazil is a crowning achievement. Brothers Grimm was my favorite film last year. I had most of my scenes with Christopher Plummer (He’s Dr. Parnassus). Plummer is one of the greatest actors on earth! Mostly I watch and learn. He’s a real movie star and a gentleman. Gilliam is an impresario, captain, magician, a dictator (a nice one), a genius, and a man you’d want in the boat with you at the end of the world.

Q: Give me some fresh song titles you two are working on.

A: “Ghetto Buddha”, “Waiting For My Good Luck To Come”, “I’ll Be an Oak Tree Some Day”, “In the Cage”, “Hell Broke Loose”, “Spin The Bottle”, “High and Lonesome.”

Q: You’re going on the road soon, right?

A: We’re going to PEHDTSCKJMBA (Phoenix, El Paso, Houston, Dallas, Tulsa, St. Louis, Columbus, Knoxville, Jacksonville, Mobile, Birmingham, Atlanta). I have a stellar band: Larry Taylor (upright bass), Patrick Warren (keyboards), Omar Torrez (guitars), Vincent Henry (woodwinds) and Casey Waits (drums and percussion). They play with racecar precision and they are all true conjurers. I’m doing songs with them I’ve never attempted outside the studio. They are all multi-instrumentalists and they polka like real men. We are the Borman Six and as Putney says, “The Borman Six have got to have soul”.

(caro Tom: corrigi-lhe meia dúzia de erros de ortografia; apesar de, nas provas de aferição, aqui em Portugal, apenas contarem para efeitos de estatística, continuam a fazer-me muita confusão; espero que não leve a mal... sempre a considerá-lo)

(2008)

31 May 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXVI)



"É verdade que a minha música se tem tornado cada vez mais despojada. Até se reduzir quase só a uma frase. Sinto necessidade de qualquer coisa rudimentar, fundamental. Actualmente, prefiro escrever sem nenhum instrumento, só com a minha voz. E estalando os dedos. Isso liberta-me da tirania do teclado ou da escala da guitarra. A perfeição é inimiga do bom. Repare na pop: actualmente, parece o Exército de Salvação, uma troca de trapos velhos. Mesmo que se coloque dezassete instrumentos numa canção, ela continuará desencarnada. O que faz falta são canções. O que é superficial desaparecerá. No hip-hop, uma bateria e um órgão podem chegar. São simétricos, satisfatórios. E quais são as raízes do hip-hop? Os blues.

(...)

"Descobri os blues quando era miúdo, ainda que os artistas mais importantes para mim fossem os tipos da country: Johnny Horton, Bobby Bare, Marty Robbins. Foi uma transmissão filial: em San Diego, vivia ao nosso lado uma família de boémios, entre os quais um leiteiro estranho. O meu pai e ele trocavam discos. E o organista da igreja era doido por blues. A música difundia-se através da rádio, do boca-a-boca, dos viajantes. Hoje em dia, é muito mais simples descobrir coisas, na minha opinião, simples de mais até. Sentamo-nos ao computador e podemos encontrar tudo o quisermos sobre qualquer artista. Há muito mais do que o necessário e não é preciso fazer nenhum esforço. Não digo que seja forçosamente mau. Mas, para criar, é necessário batermo-nos por isso, perdermo-nos, dissiparmo-nos. Ser músico é tentar invocar a sorte. Agrada-me muito a ideia de combater um inimigo invisível. Se, ao fim de um dia no estúdio, não estou de gatas e com os cabelos em pé, é porque a coisa não correu nada bem.

(...)



"Encontrei-me com o Bukowski uma ou duas vezes. Foi mais ou menos como quando conheci o Keith Richards, procurei enfrentá-los copo a copo. Mas, ao pé daqueles tipos, é-se sempre um principiante, uma criança. Estamos a beber com piratas de longo curso. É melhor esquecer tudo o que julgamos saber acerca de beber sem cair para o lado. Estava convencido que lhes podia dar luta mas, tanto com um como com o outro, nem lá perto cheguei. São feitos de outra massa. Parecem estivadores. Mas foi muito interessante.

(...)

2006



(2008)

09 May 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXV)


2008 - conferência de imprensa

(2008)

18 March 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXIV)



"Antes de mais, não tenho televisão. É uma grande ajuda. Folheio o jornal. Claro que é impossível lê-lo todo. Adoram meter-nos medo. Toda a gente se assusta com o terrorismo. Mas não tem nada de novo, é apenas a forma actual do medo. Nos anos 50, era o comunismo. Este é apenas o ismo novo. E acredito que, depois deste, apareçam outros ismos. Tento manter-me informado, tenho amigos que procuram manter-me a par do que se passa. Mas, há cerca de um ano, atirei com a televisão para o fundo da piscina e, desde essa altura, não consigo ligá-la. Mas continuo a tentar.

(...)

"Não sei se penso demais. A minha mulher diria que eu não penso o suficiente. Mas, como ela não está aqui, vou-lhe dizer que sim, penso demais e estou a precisar de uma pausa. Sou como toda a gente. A minha vida é como a de um controlador de tráfego aéreo: momentos de aborrecimento interrompidos por momentos de puro terror. Uns dias, deslizo pelo rio abaixo numa jangada florida, noutros, o vento arranca-me a pele. Temos que saber lidar com isso.

(...)



"Ninguém vive de uma forma linear. Há dias em que sinto ter 9 anos e outros em que pareço ter 90. Todos nós andamos sempre a viajar para trás e para a frente. O que acontece é que o nosso passado se vai transformando de um pequeno filme numa fotografia e, a partir daí, tende a parecer-se cada vez mais com um quadro abstracto – quanto mais me afasto do meu passado mais ele se assemelha a uma imagem desfocada ou a um Rauschenberg. Recordo-me de, quando era puto, ir de carro com os meus pais, numa longa viagem para visitar a minha avó. Tínhamos de passar por cima de, para aí, cem linhas de caminho de ferro. Estávamos sempre a ter de esperar que os comboios passassem. E a magia que isso tinha para um puto, ouvir o ding-ding da campaínha, contar as carruagens… Havia ainda outra coisa: sabia que nos estávamos a afastar da cidade quando me começava a cheirar a cavalos. Mal sentia o cheiro, colava a cara à janela, à espera de ver o primeiro cavalo. Era como perfume, para mim – como o cheiro da melancia, do café ou das pipocas. Uma promessa de todas essas coisas grandiosas. Isto passava-se no Sul da Califórnia, La Verne, Pomona. Quem vive lá agora? O Snoop Doggy Dog. É de loucos. Dantes, eram apenas laranjais e uma única estrada, Foothill Boulevard, não era aquela quadrícula que é agora. Eu tinha oito ou nove anos. Era tempo demais para ficar enfiado no carro com a família, sem fumar um cigarro. Só pensava em chegar a casa dos meus avós para poder fumar. Aos onze anos, já fumava dois maços por dia.

(...)

"Escreve-se canções desde o princípio dos tempos. O primeiro tipo na terra provavelmente fez um pote de barro e o que veio a seguir escreveu uma canção sobre o pote. As canções migravam, como as anedotas. As notícias viajavam com as canções. Eram profundas e essenciais. Chegavam até nós de muito longe. Todos lhes metíamos a mão, éramos parte do processo. Aprendíamo-las e, se nos esquecíamos de um verso, inventávamos outro que tivesse mais a ver com a nossa terra. Mudávamos-lhe o género. Eram violentas de mais para os miúdos? Tira-se o homicídio, ele dá-lhe só uma paulada na cabeça. Quando dávamos por isso, já estava toda amarrrotada e todos tinham algo investido nela.

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2006

(2008)

01 March 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXIII)



"Os músicos que escolhemos para The Black Rider tanto provinham da música clássica como tocavam em estações de comboio. A princípio, houve um certo conflito na orquestra. Alguns tipos não sabiam ler música e outros tinham tocado na sinfónica de Berlim; eram um bocadinho peneirentos.

(...)

"As canções são uma coisa difícil porque, se são óbvias demais, entram por um ouvido e saem pelo outro. Se não são suficientemente óbvias, nunca chegam a entrar. Ninguém ouve uma canção como se estivesse a ler um manual de instruções. Entram em nós como se alguém nos estivesse a contar um sonho. Ouvimo-la e relacionamo-la com o nosso próprio sonho.

(...)

"Liberace era o Arthur Rubinstein dos pobres. Tocava em salas de vaudeville. O seu número era 'Olhem para as minhas jóias e para as minhas peles. Com que então saíram do vosso apartamentozeco gelado para virem ao teatro? Vejam lá o que eu tenho para vos oferecer!'

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"Casei-me, despedi o meu manager, e eu e a minha mulher produzimos um disco. Nunca tinha feito nada parecido antes. Ela lançou-me fogo. Nessa altura, eu estava a tentar descobrir a minha verdadeira voz. Até aí, tinha a cabeça assente sobre o corpo de um outro. Sabia do que gostava mas nunca tinha realmente aprofundado isso no que me dizia respeito. Tinha diversas influências musicais irreconciliáveis com as quais não sabia o que fazer. Gostava de Ray Charles e dos Yardbirds. O que é que se pode fazer com isto? Ela desafiou-me a ter a coragem de dizer ‘Porque é que cada canção não há-de soar um bocadinho diferente, como uma compilação?’.

(...)

"Para a maioria dos músicos, há o onstage e o backstage. Eu cresci mais ou menos em público. Tinha vinte e dois anos quando gravei o primeiro disco. Ainda andava a tropeçar pelas escadas abaixo. Não fazia ideia do que estava a fazer mas sabia que iria ser músico. Há pessoas que aparecem logo completamente formadas, como um ovo. Comigo, não aconteceu assim. Fui juntando as peças pelo caminho. Uma persona de palco é muito diferente daquilo que somos. De facto, uma persona é algo que não acreditamos ser mas que tentamos desesperadamente convencer os outros que somos.

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"Sabe o que é o pior de tudo? É quando alguém diz 'Ele não morreu já?’. E, na verdade, não morreu ainda. Mas, como não ouvimos nada dele há muito tempo, assumimos que morreu. Se não publicamos um disco durante uns anos, começam a circular rumores de que temos cancro da garganta. Ou diabetes. E amputaram-nos uma perna. Ou que ficámos sem um olho numa zaragata. É espantoso o que se conjectura.

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2006

(2008)

18 February 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXII)



"Para Alice, tentámos descobrir um theremin mas, localmente, não conseguimos encontrar ninguém que fosse capaz de o tocar bem. A mulher que o tocou na orquestra original de Alice era a bisneta do inventor, o Leon Theremin. Era espantosa. Estávamos à espera que ela viesse com um instrumento realmente sofisticado mas apareceu-nos com uma coisa que parecia uma marmita com uma antena de automóvel a sair. Abriu-a e, lá dentro, todas as ligações entre os circuitos eram feitas com bocadinhos de lata de cerveja apertados à volta dos fios. A tinta estava a cair mas, quando ela o tocou parecia o Jascha Heifetz. Parece que agora andam a fazer experiências com o theremin porque, quando o tocamos, as ondas sonoras terão um certo efeito terapêutico. É qualquer coisa a nível genético que pode curar doenças. E ressuscitar os mortos.

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"O meu filho Casey toca bateria na minha banda. É natural. Se se cresce numa família que tem uma agência funerária, é muito provável que se venha a ser gato-pingado. É praticamente inevitável, tem-se muito mais apoio se entrarmos para o negócio da família. Eu disse-lhe, se quiseres ser astronauta não te vou poder dar muita ajuda...

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"É importante sabermos trilhar o nosso próprio caminho. O conformismo é o paraíso dos imbecis. Tenho influências como toda a gente mas procuro contrariar a tendência para o conformismo.

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"Trabalhar com o Bob Wilson é como participar num bailado subaquático, qualquer coisa entre Freud e a NASA, é como olhar pela primeira vez para uma gota de água através do microscópio e dizer 'Meu Deus, há aqui um mundo inteiro! Vivo! Não sei se devo continuar a beber disto...'

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"Gosto de coisas mal compreendidas. Penso que tenho um problema de processamento auditivo. Gosto de ouvir uma canção num rádio ao longe e não a perceber bem quando é interrompida pelo som de um avião, do vento ou de um tractor. Gosto das peças que faltam. Não gosto das coisas muito arrumadinhas. O Terry Gilliam ouviu aquela frase de 'The Part You Throw Away' onde canto 'In a Portuguese saloon' e julgou que eu estava a dizer 'On the porch the geese salute'. Fica muito melhor assim! Espero que haja muito mais gente que me compreenda mal.

2002

(2008)

11 February 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXI)



"Não sei bem o que são fantasmas mas estar numa sala cheia de máquinas, participar numa experiência musical e, noventa anos mais tarde, muito depois dela ter sido demolida e das pessoas que nela estiveram terem morrido, podermos ouvir o que se passou naquela sala, o que nela foi gravado, é um bocado fantasmagórico. Usamos a palavra 'captar' quando falamos acerca de registar qualquer coisa numa fita. É porque se trata de algo que está vivo. Não se trata de caçar um espécime morto ou vivo. Queremos capturar aquela música naquela fita. Tem mesmo de ser apanhada viva.

(...)

"Ninguém vive uma canção da mesma forma que outra pessoa. Quando escutamos uma canção, misturamos os nossos sonhos e experiências com essa canção. Por isso, é sempre uma coisa única, é a nossa vivência dessa canção, a nossa experiência. É como receber uma carta e misturar a nossa vida naquela poção. É como os desenhos que os nossos putos colocam na porta do frigorífico, passam a ser os nossos desenhos.

(...)


(de Coffee & Cigarettes - Jim Jarmusch, 2003)

"Eu sou a Ingrid Bergman e a Kathleen é o Bogart. Ela tem um brevet de piloto de aviação e, antes de nos casarmos, estava para ser freira. Pus um ponto final nisso. Ela sabe de tudo desde reparação de motos até à alta finança e é uma excelente pianista. Uma das maiores autoridades mundiais acerca da violeta africana. É feita de material muito rijo. É como a Super-Mulher, com a capa a flutuar ao vento. Funciona. Já andamos nisto há muito tempo.

(...)

"Uma vez, fui numa visita de estudo com um grupo de miúdos a uma fábrica de guitarras para lhes mostrar como elas são construidas. Andávamos por ali e eu olhava à volta à espera que alguém me reconhecesse ou dissesse 'Você não é aquele tipo da música? O cantor?' E nada. Ninguém. Ficámos por ali cerca de duas horas a vê-los colocar os trastos nas guitarras e eu à espera, à espera... Uma semana mais tarde, fui com o mesmo grupo de miúdos noutra visita de estudo a uma lixeira e, assim que parei, não me perguntem porquê, tinha a camionete rodeada de gente a pedir autógrafos. Era uma lixeira, por amor de Deus! Parece que nas lixeiras toda a gente me conhece...

(...)

2002

(2008)

24 January 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXX)



"Com a maioria dos escritores de canções podemos perfeitamente descobrir o que eles andaram a ouvir. É como espreitar para as vísceras de um animal e descrever como foram os seus três últimos dias de vida. Mas como conciliar os nossos irreconciliáveis sonhos, desejos, memórias e aspirações? Podemos não ser capazes de fazer algo a partir daí. É-me mais confortável tentar ir visitando lugares diferentes. Não sei se nalguma canção consegui chegar a uma síntese de tudo aquilo de que gosto. Se calhar não as deixo na misturadora o tempo suficiente.

(...)

"As grandes editoras assemelham-se mais a países do que a empresas. Ou a alforrecas. Não possuem anatomia própria. Mas ferram. Perderam o interesse em apoiar o crescimento de um artista. Querem que comeces a dar leite a partir do momento em que assinas com elas. Mas, assim que a teta seca, mandam-te para o churrasco.

(...)

"Quando gravamos uma música, às vezes, acabamos só a escutar as penas e esquecemo-nos do canto do pássaro.

(...)



"Sabia que os mosquitos preferem as crianças aos adultos e as loiras às morenas? Não sei se são capazes de distinguir as loiras naturais das outras mas acredito que alguns já devem ter sido capazes de evoluir até esse ponto.

(...)

"Nunca se escuta canções com tanta atenção como quando estamos a trabalhar nelas. É como uma viagem fantástica pelo interior dos corpúsculos delas.

(...)

"Sou um actor, não haja dúvidas. Neste momento estou a representar, sabia?

(...)

"Estar num estúdio é um pouco como estar dentro de um submarino — após um certo tempo parece-me que sofremos de uma certa privação sensorial... Andamos à procura de algo que não vemos, não cheiramos, não provamos nem tocamos. É como se tivéssemos ido ali parar com o material do Jacques Cousteau à procura de um piano sem partituras no fundo de um lago.

(...)

2002

(2008)

14 January 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXIX)



"O melhor comentário acerca de uma música faz-se habitualmente através de outra música. Os autores de canções não vão à escola para aprender a escrevê-las. Andam por aí e escutam os discos dos outros. Encostamos o ouvido à coluna e tentamos descobrir como é que eles fizeram aquilo. É como estudar pegadas ou pistas em mapas antigos. Normalmente o que se ouve é a tentativa imprecisa de emular alguém e, depois, tentamos emular isso mesmo. Podia-lhe dizer que, neste álbum, estou a tentar fazer a minha melhor imitação de Jimmy Durante ou de Eric Burdon. E você ia pensar 'A sério? Não lhes reconheci o perfil'. E teria toda a razão, porque o meu perfil não tem nada a ver com o deles. Mas, nesse processo, outras coisas se produzem. Porque o que me intriga não é a emulação mas a possibilidade da surpresa.

(...)

"Blood Money é sangue e vísceras, é carnal, terreno, um encontro entre Tin Pan Alley e a República de Weimar.

(...)

"Alice é basicamente acerca de um hipotético romance entre Lewis Carroll e Alice Liddell por muito doentia que pareça a obsessão de um professor de Oxford de cinquenta anos por uma miudinha. Todas as canções nascem a partir daí, dizem todas o mesmo de formas diferentes. É uma história mais feminina, se calhar, mais metafísica, mais aquática. É como tomar a pílula. Alice é um sonho e Blood Money é um pesadelo.

(...)



"Não fazemos a menor ideia do que fazer com a tecnologia. Por isso, fazemos coisas estúpidas. Percebemos a sofisticação dela mas usamo-la como se fosse um martelo.

(...)

"Posso perfeitamente dizer que a espécie humana nada tem de amável mas estou sempre à espera que me surpreendam. Sobreponho umas coisas a outras com sons e imagens. Gosto de ligar três rádios ao mesmo tempo. Provavelmente faço o mesmo com as pessoas quando olho para elas. Vejo-lhes as asas de anjo e também o cabelo a arder.

(...)

"Por vezes, sinto vergonha de fazer parte do género humano que se comporta como uma horda de bárbaros. Mas, para dizer a verdade, a actualidade não penetra no meu mundo musical ainda que me agrade gritar cheio de raiva para o microfone.

(...)

"Não me perguntem qual é o meu método de escrita. São segredos da profissão. Como a fórmula da Coca-Cola.

(...)

2002

(2008)