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18 January 2023

LUGAR DE INVENÇÃO
Há dois anos, na qualidade de metade do duo (com Sima Cunningham), Ohmme - hoje, Finom -, Macie Stewart, a propósito da publicação de Fantasize Your Ghost, explicava como um concerto de Marc Ribot no “Constellation”, de Chicago, lhes tinha transformado por completo a forma como encaravam a música: “Não fazia a mais pequena ideia de que podia tocar-se guitarra assim... Foi o clique. Estávamos um bocado nervosas com a ideia mas também sabíamos que tínhamos conhecimentos de música suficientes que nos permitiam lidar com algo que nos era tão estranho e ser capazes de avaliar se o que faríamos valia a pena ou não prestava”. Não poderia ter mais razão: da mui improvável articulação de perfeitíssimas harmonias vocais com fórmulas como “tratar o feedback como um anel de fumo a que damos forma e expandimos” resultaria um dos mais surpreendentes álbuns de 2020. Para Macie, contudo, havia algo que permanecia por explorar: ela, criatura de formação clássica desde os 3 anos, mas também parte activíssima da cena experimental/"improv" de Chicago, próxima de gente como Claire Rousay, Weather Station, Lia Kohl ou Ken Vandermark, reconhecia que, no interior das comunidades musicais, a “polinização cruzada” era indispensável mas que isso a impedira de se conhecer a ela mesma. (daqui; segue para aqui)
 

10 June 2022

"everything perfect is already here"
 
(sequência daqui) A grande diferença entre ambos é que, enquanto Waits, então, confessava o desejo de “fracturar as canções para não lidar com elas tal como são, tornar mais abstractos os territórios familiares para oferecer-lhes algo como um contexto cubista, não lhes colocar um espelho à frente, dar-lhes antes uma martelada”, a matéria-prima sobre a qual Rousay trabalha são já os estilhaços sonoros do mundo – isqueiros, máquinas de escrever, passos, o piar de pássaros, farrapos de diálogos, o vento – capturados em "field recordings" de percurso aleatório e fluidamente articulados com os violinos de Alex Cunningham e Mari Maurice, a harpa de Marilu Donovan e o piano de Theodore Cale Schafer. Num espaço entre a "musique concrète" e o ilusório silêncio de Cage, Everything Perfect Is Already Here, enquanto projecto de arquitectura sonora virtual, leva-nos a escutar aquilo que o ouvido filtra.

07 June 2022

O QUE O OUVIDO FILTRA

Algures pelo final do século passado, Tom Waits gabava-se da sua receita de galinha de churrasco com molho de manga, limão, alho e gengibre e, se antes já havia associado a escrita de canções a “uma questão de trajectórias e balística” mas também de “cirurgia plástica, biologia, química e física básica”, dessa vez, desenvolveu mais o ponto de vista: “Cozinhar acaba por ser o mesmo que dirigir, arranjar e compor música. È a mesma psicologia de avaliar qual o ingrediente correcto, o que é compatível com o que se utilizou, quanto tempo deixar a apurar e quando voltar a mexer-lhe, se deve fritar-se ou cozer-se”. Vinte e picos anos depois, Claire Rousay, gaba-se do seu frango duplamente grelhado em marinada de amoras e não resiste a observar que “na verdade, é apenas um exercício de improvisação: estamos ali, no momento, de vez em quando provamos, apercebemo-nos de que falta um tempero qualquer, cozinhamos um pouco mais (às vezes, demais) e temos de ir inventando soluções”. (segue para aqui)

"it feels foolish to care"