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17 March 2015

MUSCULAÇÃO 


Não é preciso recuar até ao comunismo radical da Irmandade do Livre Espírito medieval. Podemos começar por aquele improvável momento do século XVIII em que Thomas Jefferson, inspirado por John Locke, a 4 de Julho de 1776, na Declaração de Independência dos EUA, ao lado da “vida” e da “liberdade”, inscreveu a “busca da felicidade” como um dos três “direitos inalienáveis” de todos os homens. Quase 75 anos depois, na 11ª Tese sobre Feuerbach, Marx declararia que “Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas formas, o que importa é transformá-lo" e, em 1873, nas páginas de Une Saison En Enfer, Rimbaud exigia “mudar a vida”. André Breton, em 1935, ensaiou a síntese (“Transformar o mundo e mudar a vida: para nós, estas duas palavras de ordem são apenas uma”) e, duas décadas mais tarde, os radicais livres de Isou, Debord e Vaneigem, enfim livres de todo o fetichismo do trabalho – “Ne travaillez jamais!”, proclamava Débord em 1952 –, não se contentavam com menos do que “Viver sem tempos mortos e gozar sem limites” porque “nada pode dispensar a vida de ser absolutamente apaixonante”



Desde então, foram muitos os espectros que assombraram a Europa (e o mundo), todos, porém, concentrados na ideia de que a existência humana é demasiado curta para nos satisfazermos em ser apenas peças no tabuleiro de um imenso jogo. Em 2000, os Hefner de Darren Hayman, militantemente politizados à custa de Billy Bragg, cantavam, eufóricos de antecipação, “We will laugh the day that Thatcher dies, even though we know it's not right, we will dance and sing all night”. Treze anos e mais de duas dezenas de álbuns e EP a solo após a separação do grupo, Hayman, em visita ao museu de William Morris – poeta, romancista, pioneiro do movimento Arts & Crafts e socialista britânico do final do século XIX – tropeçou num panfleto com poemas de Morris inspirados na condição operária e pareceu-lhe um óptimo pretexto para a criação de um disco de “canções para situações de emergência” como, não restam grandes dúvidas, são as que, hoje vivemos. O banho ideológico é, naturalmente, obreirista e pré-Situacionista, mas o exercício de musculação política de Chants For Socialists, em registo Pavement "meets" Richard Thompson "meets" Big Star é francamente recomendável.

04 June 2014

FALHAR O TIRO 



Há um ano, reeditada no dia seguinte à morte de Margaret Thatcher, "Ding Dong! The Witch Is Dead", da banda sonora de O Feiticeiro de Oz, em menos de uma semana, trepou ao 2º lugar do top de singles britânico. Em vida, Thatcher fora já alvo dos disparos de Elvis Costello (“When they finally put you in the ground, I'll stand on your grave and tramp the dirt down”), de Morrissey (“The kind people have a wonderful dream, Margaret on the guillotine”) e de inúmeros outros. Duas décadas antes, Dylan amaldiçoara os senhores da guerra (“And I hope that you die and your death 'll come soon (…) and I'll watch while you're lowered down to your deathbed, and I'll stand over your grave 'til I'm sure that you're dead”) e, meia dúzia de anos depois, os Jefferson Airplane, em "We Can Be Together", inspirados tanto pelo poeta negro Leroy Jones/Amiri Baraka (“We want poems that kill, assassin poems, poems that shoot guns”) como por um texto de John Sundstrom, do grupo anarquista norte-americano UAW/MF, depois de se autodefinirem (“We are all outlaws in the eyes of America (…) We are forces of chaos and anarchy, everything they say we are, we are, and we are very proud of ourselves”), apresentavam um programa revolucionário muito pouco pacífico: “All your private property is target for your enemy, and your enemy is we! Up against the wall, motherfuckers!”


É nesta tradição do homicídio político desejado que se inscreve o videoclip de “Horas de Matar”, dos Mão Morta. Mas, neste caso, não só nos apercebemos que tudo se passa em pleno regime ficcional – a que país real se poderia referir Adolfo quando diz “o clamor começa a multiplicar-se com a multidão selvagem a formar um corpo furioso, uma máquina demente sedenta de sangue”?... – como se compreende mal a mini-polémica que gerou sobre a suposta defesa da violência em democracia: infinitamente menos violento, por excesso de literalidade “panfletária”, do que Müller no Hotel Hessischer Hof (1997, dedicado à obra de Heiner Müller) e consideravelmente aquém do trabalho de escavação profunda de toupeira em Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina O Ar Se Tornou Irrespirável (1998, sobre a crítica radical da Internacional Situacionista), o alegado acto poético bretoniano – “sair para a rua com uma arma na mão e disparar ao acaso” – falha o tiro por abdicar da aleatoriedade e identificar demasiado claramente o alvo.

24 December 2012

JINGOBÉ, JINGOBÉ, FUCK CHRISTMAS! (XXIII)

The Blessed Virgin Chastises the Infant Jesus Before Three Witnesses: André Breton, Paul Éluard, and the Painter
(Max Ernst, 1926)