(sequência daqui) No novo Love In Exile, é como se essa singularidade se acentuasse mais ainda buscando, paradoxalmente, a dissolução nas ondas sonoras que, com o pianista e compositor Vijay Iyer e o multi-istrumentista Shahzad Ismaily – gente da intimidade estética de Laurie Anderson, Lou Reed, Tom Waits, Jolie Holland, Laura Veirs, Bonnie Prince Billy, Faun Fables, Secret Chiefs 3, John Zorn ou Elysian Fields –, conduz por um puzzle de estrofes em Urdu cerzidas por uma teia de melismas encantatórios. “Fomo-nos escutando uns aos outros e conduzimo-nos por caminhos que desconhecámos. Sem nunca nos perdermos”.
07 June 2013
TOP DE ÁLBUNS - 2006 (revisão da década anterior - VII)
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11 May 2013
LADO B
Logo ao princípio, fica-se na dúvida: será Sandy Denny ou Linda Thompson? Mas, imediatamente a seguir, na primeira entrada do refrão, com a totalidade do "ensemble" intrumental e as harmonias corais, tudo parece indicar que se trate de Richard & Linda Thompson. Embora, escutando melhor, também não seria impossível estarmos a ouvir os Fairport Convention, numa versão alternativa de "Meet on The Ledge". Ou algo próximo disso. A verdade é que a canção que Bonnie ‘Prince’ Billy e Dawn McCarthy interpretam é "Breakdown", quinta faixa daquele álbum de Kris Kristofferson (The Silver Tongued Devil and I, 1971) que, em Taxi Driver, Travis Bickle/Robert de Niro oferece a Betsy/Cybill Shepherd depois de ela o ter descrito através de uma frase de outra canção ("The Pilgrim, Chapter 33") desse disco: “He's a prophet, he's a pusher, partly truth and partly fiction, a walking contradiction”. Mais à frente, dir-se-ia claramente termos sintonizado os Jefferson Airplane, por volta de 1967, aplicando a "Somebody Help Me" – tema do jamaicano Jackie Edwards a que, um ano antes, o Spencer Davis Group também se havia atirado – o mesmo tratamento que daria origem a "Somebody To Love". E, pouco antes do fim, os primeiros 60 segundos de "Poems, Prayers and Promises", de John Denver, são puros Simon & Garfunkel do tempo em que Paul e Art tinham desistido de se chamar Tom & Jerry, sua adolescente encarnação inicial sob a magna inspiração dos Everly Brothers.
O que vem imensamente a propósito uma vez que What The Brothers Sang, terceiro capítulo da colaboração de Bonnie ‘Prince’ com a cantora e compositora dos sobreexcelentes Faun Fables (urgência máxima para a escuta de Family Album, 2004, The Transit Rider, 2006, e Light Of A Vaster Dark, 2010) após The Letting Go (2006) e Wai Notes (2007), reúne a sua dupla visão de treze temas de Phil e Don Everly, anunciada no final do ano passado pelo single "Christmas Eve Can Kill You" (instantâneo tudo menos tradicionalmente feliz da noite de 24 de Dezembro). Correcção: como o título, de facto, aponta, estas são algumas das canções que os irmãos Everly cantavam porque só raramente eram eles os autores do próprio reportório. O que concedeu a Will Oldham e Dawn McCarthy a total liberdade (de que mui liberalmente tiraram partido) para relerem as composições dos atrás referidos e ainda de Felice e Boudleaux Bryant, Karl Davis, Goffin/King, Tony Romeo e vários outros artífices da indústria musical de maior ou menor relevo, sem se sentirem excessivamente obrigados a manter no radar a característica sonoridade pop/folk/rock/country + harmonias vocais em terceiras paralelas dos Everly Brothers. Fazendo ainda questão de não optar pelo modelo revisão de "greatest hits": escusam de procurar que não encontrarão aqui "All I Have To Do Is Dream", "Bye Bye Love" ou "Wake Up Little Susie". Mas, em contrapartida, numa espécie de rememoração da história evolutiva da música popular dos últimos 60 anos com desvios, mutações genéticas e hibridações inesperadas – este não é mais um caso clínico de “retromania” – permite-nos espreitar para o lado B dos Everly Brothers e vê-lo como nunca imaginámos.
10 March 2013
TOP DE ÁLBUNS - 2004 (revisão da década anterior - V)
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26 September 2012
FANTASIAS NA PERIFERIA
David Byrne & St. Vincent - Love This Giant
Jherek Bischoff - Composed
“Que tipo de condições deve verificar-se para que ocorra uma grande transformação musical ou reavaliação cultural como a que aconteceu em Nova Iorque no final dos anos 70, início de 80? Um aspecto importante é que a economia deva estar de gatas. Estamos quase lá, portanto, essa parte está mais ou menos resolvida. O outro aspecto é um pouco mais difícil: recuando um pouco na memória, recordo-me da sensação de, nessa altura, praticamente nenhuma da música pop comercial ter alguma relevância para mim ou para os meus amigos. Actualmente, continua a haver muitos nomes grandes que não me interessam a encher estádios mas, igualmente, bastantes outros músicos e bandas excitantes – como os Dirty Projectors, St. Vincent ou tUnE yArDs – que se fazem ouvir e sobrevivem bem melhor do que poderiam fazer há trinta anos”, dizia, no último número da “Uncut”, David Byrne, com Annie Clark/St. Vincent ao seu lado. E, justificando o título (“The Triumph of Art Rock”) do post de 5 de Maio de 2009, no seu blog, aquando da sua participação no álbum/concerto Dark Was The Night, acrescentou: “A ambição desta geração de músicos não é a de serem estrelas, destruírem aparelhos de televisão e andarem de limusina. O que os motiva (e a mim) é criar óptima música”.
Quando o primeiro álbum dos Talking Heads foi publicado (1977) Annie Clark (28.09.82) ainda não tinha nascido. Mas, não apenas David Byrne tem toda a razão como se pode afirmar ainda que, de um modo muito particular, ele e St. Vincent são a cara e a coroa daquela moeda estética que se sente especialmente à vontade a injectar fantasias experimentais na periferia da pop e a virar do avesso formas e conceitos tradicionais sem, por isso, perder o pé naquele terreno que não tem horror à aprovação pública. E, desde que, nesse concerto de Dark Was The Night, se conheceram e, por extensão, se voltaram a encontrar durante a apresentação de Björk com os Dirty Projectors para uma iniciativa da Housing Works (uma organização civil de luta contra a Sida) onde foram convidados a colaborar também, o conceito de Love This Giant começou a emergir. Como na sua participação numa das conferências TED (“How architecture helped music evolve”) Byrne explicou – e desenvolve, agora, no recém publicado livro How Music Works –, o contexto físico decidiu de boa parte das opções: na livraria onde o duo actuaria, o espaço não abundava pelo que, por sugestão de St. Vincent, apenas eles os dois e uma secção de sopros deveriam chegar bem para as encomendas. Assim, o conceito “Beauty and the Beast” – mas ao contrário: David seria a "Beauty" de plástico e Annie a "Beast" feroz –, fundido com a inspiração em Walt Whitman a quem o álbum tomou o título de empréstimo (‘I Should Watch TV’, em que Byrne, em modo antropológico, canta “I used to think I should watch TV, I used to think it was good for me, wanted to know what folks are thinking, to understand the land I live in”, está repleta de citações do poema "Song Of Myself"), num período de três anos e muita troca de emails com ficheiros sonoros, assentou estacas e cresceu.
Se o método adoptado foi o de “pensar a música como um enigma cuja forma teríamos de decifrar no processo de construção”, o resultado, como só acontece nos melhores casos, é algo que nem um nem outra, sozinhos, poderiam ter realizado. Lugar de viagem (“the song is a gift, a song is a road, a road is a face, a face is a time and a time is a place“) entre géneros, em vários sentidos, tanto passa pelos mesmos pontos por onde Byrne e a Dirty Dozen Brass Band caminharam em Music For The Knee Plays (1985) como se socorre de "hoquetus" medievais enquanto motivo decorativo de ansiedades (“my heart beating, still the perilous night, the bombs burtsting air but my hair is alright”, "The Forest Awakes"), serpenteia entre jazz, funk e vocabulário clássico ("I Am An Ape", "Outside Of Space And Time" ou "Ice Age") e, com inexcedíveis elegância e impertinência e a ocasional colaboração dos Dap Kings e Antibalas, coloca-nos um espelho à frente (“I am an ape, I stand and wait, a masterpiece, a hairy beast”, “I am a shaky ladder, intergalactic matter outside of space and time”) e, sem aviso, puxa-nos o tapete debaixo dos pés (“Tanks outside the bedroom window, we’ll be fine with the curtains closed”).
Composed, de Jherek Bischoff, é outra história bem sucedida de colaborações (também com a participação de Byrne), mas, aqui, de modo artesanal: esboçadas as canções em ukulele, Bischoff deslocou-se a casa de todos os instrumentistas que escutamos para que violinos, violoncelos et alia gravassem as respectivas partes tantas vezes quantas as necessárias até que, no final, soassem como uma orquestra. Repetição do processo para com as vozes (Carla Bozulich, Caetano Veloso, Mirah Zeitlyn, Dawn McCarthy, Byrne...) e palmas para esta singular variação contemporânea sobre o modelo Song Cycle, de Van Dyke Parks, em registo Phil Spector-meets-Danny Elfman.
26 January 2008
A ASSINATURA INSTÁVEL
Bonnie “Prince” Billy - Ask Forgiveness
Dawn McCarthy & Bonny Billy - Wai Notes
Quando, em 2004, numa entrevista à “Mojo”, perguntaram a Will Oldham qual o tipo de relação criativa que mantinha com a música de ilustres predecessors da sua linhagem como Bob Dylan e NeilYoung, ele – aparentemente sem pestanejar – respondeu: “Se eu gravasse um disco que se assemelhasse a alguma coisa deles, isso só poderia ser exactamente da mesma forma que um western de Sergio Leone se assemelha a outro de John Ford”. Dupla vénia: a formulação não poderia ser mais correcta e, para além disso, em meia dúzia de palavras, sintetiza implicitamente duas ou três ideias que dá sempre jeito não esquecer. Aquela, por exemplo, que defende que, se para a pop (e não apenas aí) é absolutamente indispensável o “mainstream” de uma linguagem estabilizada e reconhecível, não menos necessário é que, fora do seu perímetro, nas margens ou em pleno centro (retomando a comparação de Oldham: os western-spaghetti de Leone não aspiravam propriamente à condição de rupturas radicais ou de manifestos de vanguarda), corroendo a sua matéria mesma ou infectando-a de corpos estranhos exteriores, o processo de implosão dos códigos de uso corrente esteja já em marcha.
É aqui que se torna obrigatório recordar que, sob as várias declinações de Palace (Brothers, Songs, Music, somente Palace) ou utilizando o “nom de disque” Bonnie “Prince” Billy, Will Oldham nunca foi realmente militante de cartão de nenhuma “alt.country”, “Americana”, “new-country”, “free-folk” ou de qualquer outro dos pequenos partidos que, supostamente, conspirariam para a queda do velho império da música popular norte-americana de pele mais clara. A razão para a instabilidade da assinatura, aliás, desvenda a atitude e o método: “Quando temos um nome para um grupo ou um artista, ficamos à espera que o próximo disco, se vem sob o mesmo nome, inclua os mesmos músicos. E eu reparei que, de todas as vezes, gravava sempre um tipo de álbum diferente, com pessoas diferentes, temas diferentes e sonoridades diferentes. Por isso, pareceu-me importante atribuir-lhes nomes distintos de modo a que se pudesse prestar atenção a essas diferenças. Não desejo que quem compra os meus discos fique decepcionado porque cada um não soa como o anterior”. Isto é, Bonnie Prince, não praticando nenhum género musical excessivamente hermético ou inacessível mas gozando de uma ampla liberdade de movimentos, pelo simples efeito da deslocação “por impulso” entre estilos e géneros, é bem capaz de ter feito pela transfiguração de vários deles bastante mais do que os respectivos fiéis das várias capelinhas.
Sem ser necessário recuar demasiado, The Brave And The Bold, com os Tortoise (publicado precisamente há dois anos), é suficientemente esclarecedor: numa triangulação inesperada entre o pós-rock, a “split-personality” de Oldham e um reportório de versões de autores que iam de Milton Nascimento a Bruce Springsteen, Richard Thompson, Elton John ou os Devo, emergia algo como uma geografia “balcânica”, porém, suficientemente coerente e organicamente viável. O novo EP (ou “short-player” – inclui oito temas), Ask Forgiveness, se, aparentemente, repete a estratégia – Will Oldham acompanhado por Meg Baird e Greg Weeks, dos Espers, entregue à revisão de temas de Björk, Phil Ochs, Danzig, Frank Sinatra, R. Kelly ou de Merle Haggard via-Mekons –, no fundo, inverte-a: todas as canções, uma vez tocadas pela mão e pela voz de Oldham, um pouco à maneira do que sucedia com as interpretações de Richard Thompson em 1000 Years Of Popular Music, apagam tudo o que conhecíamos acerca delas e passam a ser instantaneamente suas, como se nunca de outra forma pudesse ter acontecido. Wai Notes, entretanto, sugere ainda uma outra forma de escutarmos o reportório de Will Oldham (neste caso, o que integrava The Letting Go, de 2006) tal como ele existia “em bruto” – apenas guitarra, a sua voz (a de quem aqui assina “Bonny Billy”) e a de Dawn McCarthy, dos Faun Fables –, antes de ser requintadamente envolvido pelos arranjos de cordas que figuravam na publicação “definitiva”. E, em puro regime de “lo-fi” espectral, é todo um outro álbum que escutamos. (2008)
05 April 2007
Bonnie 'Prince' Billy - The Letting Go
Nas suas diversas encarnações — Palace, Palace Music, Palace Songs, ou com o nome de baptismo, Will Oldham —, Bonnie 'Prince' Billy foi edificando um apreciável culto de farol de uma certa folk intimista e lo-fi, com algo das tonalidades de Neil Young e Nick Drake agarradas à lenda e muita assombração bíblica e poeira "western" a comporem a patine. Mas, se o Belo Príncipe é um notável "songwriter" (que diabo, há que dar crédito a um autor que assinou uma canção com o título "You Have Cum In Your Hair And Your Dick Is Hanging Out"!), nem sempre esteve imune a uma certa auto-indulgência nas incontáveis gravações em que se tem desmultiplicado.
Não é o caso de The Letting Go em que a quase ideal convergência de factores favoráveis — a(s) segunda(s) voz(es) em sombra(s) chinesa(s) de Dawn McCarthy (dos óptimos Faun Fables), a participação dos habituais colaboradores de Björk, Valgeir Sigurdsson e Nico Muhly, os subtilíssimos arranjos de cordas, a consistência da maioria das canções — deu origem a um magnífico álbum que, nos melhores momentos, traz de volta a memória de quando John and Beverley Martyn habitavam o Olimpo. (2006)
NOMEAR O TERRITÓRIO
Faun Fables - The Transit Rider
Quando Will McCarthy (pai de Dawn McCarthy) desistiu da sua profissão de corretor da Bolsa, celebrou essa libertação com um poema: "I no longer wish to compete. I withdraw to niches unoccupied, to hidden places between the rocks or to the porches of high bound caves, or to theaters within hollow trees, or to any other place where the zeal of silence might be". O que, se nos poderia fazer imaginar que, dentro de cada escravo engravatado do Grande Templo do Capital, vive um poeta pagão à espera do momento de quebrar as grilhetas, tratando-se de um elemento do clã McCarthy já não será algo tão inesperado.
Sim, porque gente como Dawn McCarthy (e o companheiro Nils Frykdahl e o resto da tribo que integra os Faun Fables) não aparece de geração espontânea. Por alguma razão, o episódio anterior das fábulas se chamava Family Album e não há-de ser outro acaso que, à semelhança de "I No Longer Wish To", o texto de uma das canções ("Earth's Kiss") seja co-assinado pela mãe, Michelina. Todas as peças se encaixam perfeitamente no puzzle: The Transit Rider começou por ser uma peça de teatro musical — descrita como um encontro entre Tom Waits, Frank Zappa, The Twilight Zone e Andrew Lloyd Webber (ou "gipsy Brechtian avant-folk"), onde uma mulher que viaja de metro fantasia um mundo paralelo ao da selva urbana nas entranhas da qual se desloca — e, agora, segregou a sua banda sonora enquanto "song cycle" autónomo.
(álbum integral)
Tal como acontecia já com Family Album, o universo sonoro de McCarthy/Frykdahl é omnívoro e em tudo diferente da sua dieta: Dawn, de canção em canção, tanto faz pensar em Kristin Hersh como em Shirley Collins, Marlene Dietrich, Mimi Goese ou Grace Slick, a música tritura Kurt Weill, a folk-britânica e leste-europeia, Smetana, Buffy Sainte-Marie, Stravinsky, a aura negra de Nico e Bartók, até ao nível das sub-partículas. Num glorioso exercício de ecletismo, coloca frente a frente Cristo e o seu amante, Pã (no tradicional folk inglês "House Carpenter"), recorre às composições do polaco Zygmunt Konieczny ("Taki Pejzaz/Such A Landscape"), recruta sem problemas um tema da "singing nun", Soeur Sourire ("I'd Like To Be") e acaba citando Martin Heidegger: "The song still remains which names the land over which it sings". Os Faun Fables são uma raríssima preciosidade da música contemporânea e The Transit Rider a sua segunda obra-prima indiscutível. (2006)
04 April 2007
QUEBRAR O ESPELHO
Faun Fables - Family Album
Considerem imediatamente como um tesouro, como uma preciosidade rara, aquilo que têm nas mãos (sim, porque não tenho a menor dúvida que vão querer ter nas mãos este Family Album). Isto é o género de disco que, nos tempos que correm, praticamente não existe: música que não se parece com nada e que, ainda por cima, é sobrenaturalmente superlativa. Também não deverão conhecer muitos outros cujo texto de uma das canções ("Poem 2") seja atribuído a um fantasma ainda que isso possa colocar alguns problemas em matéria de "copyright"... Porque o que Dawn McCarthy e Nils Frykdahl aqui concretizam é uma daquelas totalmente improváveis coreografias de referências onde tudo aquilo que, por um momento, evocam, no instante seguinte deixa de se assemelhar a si próprio e se transforma em algo de definitivamente outro.
Em primeiro lugar a(s) voz(es): Dawn McCarthy faz pensar em Mimi Goese (a solo e com os gloriosos e insubstituivelmente desaparecidos Hugo Largo com quem, aqui e ali, Faun Fables tem pontos de contacto), em Kristin Hersh, às vezes, até em Grace Slick; Frykdahl lembra uma impossível combinação do Bowie mais teatral e cabarético com Tom Waits. Não terão reparado mas, um segundo antes de ter colocado o último ponto final, já a enunciação de todos estes nomes deixou de fazer qualquer sentido. Depois a música, ela mesma: se "Rising Din" parece uma reconfiguração de "Ma Mort", de Jacques Brel, "Mouse Song" adapta uma "melodia tradicional suiça", a avassaladora "Carousel With Madonnas" traduz e reinventa sob um temporal uma canção polaca de Zygmunita Koniezcyniego e "Eternal" é a versão de um tema de Brigitte Fontaine. Antes, depois e durante, por entre flautas, violoncelos, guitarras, vibrafones, glockenspiels, orgãos e coros litúrgicos, pairam os espectros da folk-de-sessão-espírita, dos King Crimson, de vozes de crianças italianas num pátio de escola, deste mundo e, literalmente, do outro. Há duas frases de duas canções que poderiam sintetizar todo o disco: uma é "too new to be cautious or wise, falls into danger with an innocent eye", de "Preview"; a outra, "from root to belly, hair to thorn, I break the mirror to be reborn", de "Poem 2". Indiscutivelmente, um dos grandes discos do ano. (2004)