Holly Herndon: on process
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13 June 2019
27 May 2019
PROTÓTIPO
No passado mês de Março, a Warner Music comunicou ao mundo ter sido a primeira editora a assinar contrato com um algoritmo. Criado pela Endel, um “cross-platform audio ecosystem” especializado na produção de “mood music”, o algoritmo, será responsável pela fabricação de 600 faixas para 20 álbums que serão disponibilizados em plataformas de "streaming". Os cinco primeiros já estão acessíveis e orientam-se para o design de atmosferas propícias â concentração e/ou ao relaxamento. Aparentemente, nada de extraordinariamente novo se recordarmos a vetusta historia da "muzak"/"ambient music" ou, há dois anos, Reflection, de Brian Eno, um projecto de música infinitamente auto-gerada a partir de uma série de algoritmos criados em colaboração com Peter Chilvers. A diferença crucial está no facto de, na qualidade de entidade dotada de poderosa Inteligência Artificial (IA), o algoritmo Endel oferecer igualmente “frequências sonoras personalizadas baseadas em dados pessoais dos utilizadores: a hora do dia, o horário de trabalho, a batida cardíaca, a meteorologia ou o padrão de condução automóvel”. Cândida e inquietantemente, Oleg Stavitsky, co-fundador e CEO da Endel, declara: “Desejamos compreender o contexto do seu dia-a-dia e reconfigurar todo o seu ambiente sonoro”. Com a vantagem adicional de exigir “um mínimo de envolvimento humano”, o que, a crer no dilúvio de publicações acerca da iminente devastação no mercado de trabalho – e a selvática violação da privacidade que “The Privacy Project”, do “New York Times”, analisa em profundidade – consequência da IA, tenderá a transformar-se no modus operandi habitual.
Em Platform (2015), Holly Herndon, apropriando-se do ponto de vista do colectivo Metahaven, autor dos videos para esse álbum – “Science fiction politics need science fiction aesthetics” –, propunha “música que reage em termos actuais sem dependência de nenhuma nostalgia do passado”. Quatro anos depois, PROTO dá um largo passo em frente e coloca Herndon literalmente a interagir com Spawn, uma “bebé”-IA treinada para aprender, interpretar, desenvolver e desfigurar a matéria vocal que lhe é proposta e, a seguir, integrar-se simbioticamente no ensemble humano. O que escutamos, então, é um fabuloso exercício de corais desencarnados, polifonias entre o êxtase e a ansiedade, a desagregação e a recomposição, até que, em “Extreme Love”, a interrogação decisiva é, enfim, formulada: “Is this how it feels like to become the mother of the next species?”
22 July 2015
PRAZER
Numa entrevista de 29 de Junho passado à revista espanhola “Sonograma”, interrogado acerca dos pontos de vista que defendeu em Retromania (2011), Simon Reynolds reconhece que, desde que escreveu o livro, houve, sem dúvida, maior atenção prestada à “música do futuro” apesar de, mesmo aí, continuar a existir um reflexo condicionado de “reciclagem de velhas ideias (dos anos 70 e 80) acerca do que é ‘futurista’”. E, tomando por exemplo Holly Herndon e o último álbum, Platform, sem deixar de dar a bênção ao conceito de “science-fiction politics” (“Pretendemos desenhar uma política nova. Todo o nosso trabalho explora o ‘extremismo visual’, o que significa que vivemos, espelhamos, digerimos e reflectimos sobre o tempo actual em vez de nos satisfazermos em ser meros figurantes ou, pior, curadores picuinhas de um falso design minimalista. Acreditamos que as ‘science-fiction politics’ necessitam de ‘science-fiction aesthetics’ e que ambas devem caminhar a par”, proclama Metahaven, o colectivo de designers holandeses responsável pelos vídeos de Platform), argumenta que não apenas padecerá do mal de “encarar o futuro como um género” mas também, apesar de “impressionante do ponto de vista composicional e do design sonoro, não estou certo de poder descrever como prazer a sensação que me provoca”.
Não será necessário trazer à conversa as práticas BDSM para densificar um bocadinho o conceito de “prazer”. Basta evocar Metal Machine Music, de Lou Reed, a trilogia Tilt/The Drift/Bish Bosh, de Scott Walker, ou The Litanies Of Satan, de Diamanda Galás, e – rejeitando-os ou aceitando-os – facilmente se compreenderá que proporcionar prazer anda longe de ser missão única e obrigatória da música: não é pouca aquela que se ouve com admiração, espanto, curiosidade intelectual ou quase violação auditiva mais do que com prazer. E, já agora, Simon, por maiores reticências que lhe possamos colocar, há que saudar tudo o que contribua para que a música contemporânea não se assemelhe cada vez mais à Mrs Sheryl C. de que fala Oliver Sacks, em Musicophilia: uma infeliz senhora de 70 anos, praticamente surda, mas que sofria da alucinação auditiva de possuir um jukebox intracraniano que reproduzia interminavelmente as memórias musicais do seu passado.
08 July 2015
Holly Herndon/Metahaven - Call
(com som aqui)
METAHAVEN: Our work wants to stretch the expressive vocabulary of progressive or "science fiction politics" far beyond mere language or leftover tropes from the 1960s (as in, sit-ins and hand-painted signage). We have now seen decades of the Left trying to look, successively, as in like the Centre-Right, from the 1960s, or completely undesigned so as to appear grassroots. We want to design a new politics and a liberation from their visual dogma. All our work explores and works with “visual extremism,” which means that we intensively live through, mirror, digest, and reflect our current age in our design work, instead of being its mere bystanders or, worse, cherry-picking “curators” of an idealized, faux-minimalist design hotel.
It is our belief that science fiction politics need science fiction aesthetics, and that the two belong together; we find the same belief in Holly’s music. For example, the first visual piece we did for Holly was Call, a series of animated gifs that each have a nine-second music track embedded that plays on mouseover. Each Call gif works with different notions of landscape, portrait, and interface, recycling online portraits of Holly and placing her in a new setting. These gifs are ultra-short music videos that introduce themes of autonomy, dystopia, exit, hope, resistance, which would later become powerful tropes in the album. The video for "Home" is a veil of NSA graphics that becomes a torrent of emoji. The minute we discussed "Home," we figured out that it should be about these strange logos that appeared in NSA PowerPoint presentations leaked by Edward Snowden. Ironically, these icons of the surveillance state somehow look very much like emoji when applied as a pattern.
Platform is a political project, an aural revolution for egalitarianism whose consequences should be reaching beyond the "music scene." Recently, in The Guardian, there was a piece by Owen Jones in which he wondered where the hell the 21st century protest songs might be, and we feel he’s just looking in the wrong direction. There is a self-politicization going on and this involves the politicization of aesthetics. The idea that beauty becomes weaponized with exit, freedom, and democracy is so much more attractive than the opposite: the beautification of weapons.
It is our belief that science fiction politics need science fiction aesthetics, and that the two belong together; we find the same belief in Holly’s music. For example, the first visual piece we did for Holly was Call, a series of animated gifs that each have a nine-second music track embedded that plays on mouseover. Each Call gif works with different notions of landscape, portrait, and interface, recycling online portraits of Holly and placing her in a new setting. These gifs are ultra-short music videos that introduce themes of autonomy, dystopia, exit, hope, resistance, which would later become powerful tropes in the album. The video for "Home" is a veil of NSA graphics that becomes a torrent of emoji. The minute we discussed "Home," we figured out that it should be about these strange logos that appeared in NSA PowerPoint presentations leaked by Edward Snowden. Ironically, these icons of the surveillance state somehow look very much like emoji when applied as a pattern.
Platform is a political project, an aural revolution for egalitarianism whose consequences should be reaching beyond the "music scene." Recently, in The Guardian, there was a piece by Owen Jones in which he wondered where the hell the 21st century protest songs might be, and we feel he’s just looking in the wrong direction. There is a self-politicization going on and this involves the politicization of aesthetics. The idea that beauty becomes weaponized with exit, freedom, and democracy is so much more attractive than the opposite: the beautification of weapons.
05 July 2015
Metahaven - City Rising
"Metahaven’s ‘City Rising’ is a homage to Constant Nieuwenhuys’s ‘New Babylon’; a utopian architectural project based on the idea of an alternative, fully automated society in which human labour has become unnecessary. The video is an exploration of the conditions of life, work, and intimacy under neoliberalism" (daqui)
14 May 2015
POLÍTICA DO PARAÍSO
Guy Standing, professor de Economia na University of London, é o autor de The Precariat: The New Dangerous Class (2011), quase-manifesto em que, a propósito desse emergente grupo social situado entre os “indignados” espanhóis, o Den Plirono (Não Pagamos) grego e as revoltas árabes (“O precariado, classe em construção que se aproxima de uma consciência da vulnerabilidade comum, consiste de todos aqueles que sentem que a sua vida e identidade são constituídas de fragmentos dispersos a partir dos quais não são capazes de construir uma narrativa desejável ou uma carreira”), propõe a adopção de algo, pela sua própria designação, capaz de pôr os cabelos em pé aos apologistas do respeitinho pelas folhas de Excel dos donos da “realidade”: as "politics of Paradise", assentes na “reinvenção do lema progressista da liberdade, igualdade e fraternidade”.
Foi, justamente, inspirada por Standing que Holly Herndon classificou o seu terceiro álbum, Platform, como “um gesto paradisíaco”. Licenciada em música electrónica pelo Mills College, de Oakland, na Califórnia, e, actualmente, a concluir doutoramento em composição na Stanford University, bebeu o biberão do techno nos clubes de Berlim, estudou a gramática contemporânea com John Bischoff e Fred Frith, e, hoje, afirma que “o laptop possui muito mais conteúdo emocional do que qualquer violino poderia sonhar: estão lá o meu Skype, a minha conta bancária, os meus emails, as minhas relações”. Deve ser por isso que já viu a sua música qualificada como techno recuperado de uma "hard drive" que esteve demasiado tempo debaixo de água. Não é realmente verdade. Ela própria admite que, desejando criar “música que reage em termos actuais sem dependência de nenhuma nostalgia do passado”, para este fulgurante jogo de espelhos sonoro tanto contribuíram Meredith Monk, Morton Feldman e Laurie Anderson como Missy Elliot, Charles Ives, William Byrd, Thomas Tallis ou o "grime" britânico. E, acrescente-se, uma "guest list" de activistas dos microuniversos mutantes da Internet e arquipélagos afins – Claire Tolan/ASMR, Spencer Longo, Mat Dryhurst, Colin Self, Amnesia Scanner –, cúmplices e co-artífices das ruidosas utopias e paraísos digitais de que tanto carece a pobre e aterrorizada “realidade”.
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