29 August 2019

Dufay/Musica Reservata ‎– Musique à La Cour De Bourgogne

2019 - Prémio "Melo ou Ventura é só uma questão de nomenclatura"



A situação política portuguesa vista por Stanley Kubrick e Wendy Carlos

The Shining (opening sequence X) Real. Stanley Kubrick; Música Wendy Carlos; ver também aqui

27 August 2019


Opá, isso não interessa nada!... Será que ainda ninguém teve a caridade de te explicar que, se por um improvável alinhamento de planetas, chegasses a primeiro-ministro, isso iria dar origem a um tremendo problema diplomático com a Rússia?
JÁ NÃO É O MESMO RIO


Os mandalas – círculos geométricos simbólicos ou mapas rituais presentes no Hinduismo, no Budismo, no Jainismo e no Xintoismo – têm, no Budismo tibetano, uma forma de expressão particular: os "dul-tson-kyil-khor" ou mandalas de areias coloridas que, após semanas de minuciosa elaboração, uma vez concluídos, são ritualmente destruidos e a areia que os constituía lançada à água de um rio, como modo de concretização da concepção budista sobre a transitoriedade da vida material. Quando, a 29 de Agosto de 1952, John Cage entregou ao pianista David Tudor a responsabilidade de estrear os seus 4’33” de silêncio na Woodstock Artists Association – uma peça em três andamentos nos quais, sem tocar uma única nota, Tudor limitava-se a abrir e fechar o instrumento para assinalar o início e fim de cada um deles –, pretendia, essencialmente, propor três ideias: 1) o silêncio não existe (durante os 4’33” escutou-se o vento nas árvores, gotas de chuva percutindo o telhado, vozes e cochichar do público atónito); 2) música é todo o som, espontâneo ou planeado, que, em cada instante, desejarmos aceitar como tal; 3) qual "dul-tson-kyil-khor" (e sabe-se a influência determinante que as filosofias orientais exerceram sobre Cage), o universo sonoro – urbano, rural, industrial, natural, convencionalmente musical – que nos envolve não deve (nem pode) ser imobilizado nem capturado mas apenas momentaneamente acolhido.



Existirão, assim, sempre disponíveis tantos “concertos” de 4’33” (ou com outra qualquer duração) quantos quisermos, únicos e irrepetíveis. É justamente por aí que STUM433, a caixa de 5 LP com 58 “versões” (e respectivos videos) da peça de John Cage que será publicada na sequência da comemoração dos 40 anos da Mute Records (“mute”= “mudo”, “silencioso”), tropeça e falha clamorosamente o alvo: o que A Certain Ratio, A.C. Marias, Alexander Balanescu, Barry Adamson, Cabaret Voltaire, Depeche Mode, Einstürzende Neubauten, Goldfrapp, Irmin Schmidt, Laibach, Lee Ranaldo, Mark Stewart, Michael Gira, Mick Harvey, New Order, Simon Fisher Turner, Wire, e os restantes 41 artistas da editora de Daniel Miller fazem ao aceitar registar em disco as sonoridades aleatórias, "found", ambientais, mais públicas ou mais privadas, por que optaram é tão só o exacto oposto do que Cage não se cansou de explicar e que, parafraseando Heráclito, poderíamos, agora dizer “Nenhum homem se banha duas vezes na água do mesmo rio sonoro, pois já não é o mesmo rio e ele já não é o mesmo homem”.

26 August 2019


É verdade, do empreiteiro ao ex-"sit-down comedian", o que não falta são eruditos críticos de música




Maya Deren - Ensemble for Somnambulists

Edwyn Collins - "Outside"

Revista del corazón

24 August 2019

O Capelão Magistral, 4º visconde de Macieira, sacerdote secular da prelatura do Opus Dei, vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família e Cerimoniário Eclesiástico da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém, não vê com bons olhos quem diz mal do Trampas e do Fachonaro
Sob o poderoso escudo de  "um forte dispositivo policial que reúne cerca de duas centenas de militares, numa operação custeada pelo Estado", a "peregrinação" a Fátima de "vários líderes da extrema-direita" é um novo e esclarecedor capítulo na história criminal do cristianismo (custa a compreender, no entanto, a ausência do bispo Neophytos Masouras)
A cachorrada pequena fez o ensaio geral para a chegada imperial dos cães de fila (no lugar mais adequado, devidamente protegidos, sem sobressaltos nem indignações)

(clicar na imagem para ampliar)

21 August 2019

(repito-me) Talvez, se alguém lhes fizesse ver o essencial, a estratégia pudesse ser diferente
Jesca Hoop - "Shoulder Charge"

 



(via DT; Le détournement XXI; ver também aqui e aqui)
UM CAMELO NEGRO 


Como foi possível não termos realmente reparado? Por que estúpido motivo não teremos levado a sério um álbum cujos primeiros três minutos e meio ("That’s Just the Way That I Feel") não poderiam ser mais explicitamente claros? Onde o lugar para as dúvidas de que “Things have not been going well, this time I think I finally fucked myself (…) Day to day, I'm neck and neck with giving in, I’m the same old wreck I've always been” era uma mensagem lançada a um palmo do abismo? E acrescentar-lhe “I've been humbled by the void, much of my faith has been destroyed (…) when I try to drown my thoughts in gin, I find my worst ideas know how to swim” não bastaria? E o desfecho “The end of all wanting, is all I've been wanting, and that’s just the way that I feel” não nos abriria, enfim, os olhos? Talvez porque a perfeitíssima rima interna encharcada de negríssima ironia (“I met failure in Australia, I fell ill in Illinois, I nearly lost my genitalia to an anthill in Des Moines”) nos tenha distraído ou o tom de "honky tonk" atamancado tenha apontado para o lugar errado. 



Não seria nada de novo: quando, em 2003, David Berman tentou, pela primeira vez, o suicídio com um cocktail de álcool, crack e cocaína, fez questão de o encenar na mesma suite de hotel onde Al Gore esperou pela recontagem dos votos para a eleição presidencial (que perderia para George W Bush), proclamando: “Quero morrer onde a presidência morreu!”. Desta vez, não chegaria sequer a ser hospitalizado como, também acidamente, diria em "Random Rules" (“In 1984 I was hospitalized for approaching perfection”), de American Water (1998), embora Purple Mountains não se tenha apenas abeirado da perfeição. Neste álbum de “hello and goodbye” – parafraseando invertidamente um título do não menos danado Tim Buckley – o (des)equilíbrio entre a quase banalidade do suporte musical e as trevas profundas que o envolvem (“Housed within the song's design is the ghost the host has left behind to greet and sweep the guest inside”) dir-se-ia um deliberado gesto de desdém perante “a arte”, definitivamente ultrapassada pela urgência de não recusar o óbvio ("We're just drinking margaritas at the mall, that's what this stuff adds to after all") e justificar o inevitável (“The dead know what they’re doing when they leave this world behind”). A 7 de Agosto, David Berman/Silver Jew, recordou-se pela última vez do provérbio árabe que citara em "Nights That Won’t Happen": “Death is a black camel that kneels down so we can ride”. (entrevista aqui)

20 August 2019

... agora que "a crise" passou (?), convém recordar que a lei da requisição civil foi decretada por um governo cujo primeiro-ministro era Vasco Gonçalves e aprovada pelo PR, Costa Gomes, naquela altura em que, para a beatagem social-fascista, "as greves faziam o jogo da reacção"
NÃO ERA UM PEDIDO DE AJUDA? 




Ninguém está preparado para uma entrevista com David Berman. Fala-se com uma das figuras mais apaixonantes da música e da poesia norte-americanas mas, só por acidente, é esse o assunto da conversa. Desde o primeiro segundo, sentimo-nos no papel do psicoterapeuta involuntário que escuta o obsessivo e errático discurso do paciente, sem saber muito bem como reagir, se deve prosseguir ou parar logo ali. Pode começar até por uma chamada telefónica falhada porque David, no cubículo por cima dos escritórios da Drag City onde vive, estava a esculpir e não ouviu o toque. Só queríamos escutá-lo acerca da sua segunda vida como Purple Mountains, após o fim, há 11 anos, dos Silver Jews. Mas nunca poderíamos adivinhar que essa segunda vida estava a semanas de terminar, a 7 de Agosto. Pelas suas próprias mãos. 

    A primeira vez que o entrevistei foi em Abril de 2006, num café em frente ao “Scala”, em Londres, horas antes do que iria ser apenas o 14º concerto dos Silver Jews. Falou-me longamente da tremenda hostilidade que existia entre si e o seu pai e de como isso e o seu envolvimento com o judaísmo eram o combustível para grande parte da sua escrita. Dois anos depois, anunciou o fim dos Silver Jews acompanhado de um violento texto de acusação contra as actividades do seu pai como lobbyista a favor de interesses que considerava malignos. Precisou de mais de uma década para resolver tudo isso? 

Nessa altura, começava a interessar-me pelo judaismo e isso deu-me força para me opor ao meu pai. Deu-me a capacidade para distinguir entre um comportamento honrado e outro que não o era. Não conversava muito com ele e isso, de facto, alimentou um fogo em mim. É típico que o judaísmo – que continuo a respeitar como religião mas de cuja fé já não partilho – me tenha proporcionado esse ímpeto para o confrontar e afastar-me. Num mundo em que o dinheiro ou a corrupção nos conduzem a virar as costas â família ou aos valores justos, é típico que tenha sido necessária a religião para me colocar do lado certo. É terrível porque, para me identificar tecnicamente como judeu de acordo com a visão ortodoxa, ao herdar o último nome do pai, herdo também todos os aspectos negativos dele. Identificando-me como judeu filho de um pai judeu e de uma mãe cristâ, senti-me sempre como um "outsider". E, durante todos aqueles anos, tive uma banda com um nome terrível que, de início, era apenas uma piada. Tornou-se um fardo pesadíssimo que tive de carregar embora tenha acabado por compreender o que significava ser um "silver jew": um judeu que não é realmente judeu, que pertence a uma categoria secundária. O meu amigo Harmony Korine que também é um judeu casado com uma mulher cristã, teve uma filha de quem eu sou padrinho. Portanto, ela também é "silver jew". Mas, voltando atrás, quanto mais me embrenhava na leitura sobre o judaísmo, mais sentia que teria de fazer parte de uma comunidade. E, para isso, teria de frequentar a sinagoga, em Nashville. A minha mulher, como muitos católicos, tem um Freddy Krueger dentro da cabeça que lhes diz não faças isto, não faças aquilo, não vires as costas a Cristo, vais parar ao inferno... e conspirou para que eu não me dedicasse ao judaísmo. Também fui vivendo cada vez mais isolado, com um turbilhão de pensamentos... agora que voltei à actividade sinto-me bastante mais feliz, aprendi muito.



    Mas, durante estes 10 anos, parou completamente de escrever e de compor? 

Sim, só recomecei a fazê-lo nos últimos dois anos e meio. Mas nunca foi muito diferente. Entre cada dois álbuns, passavam cerca de dois anos. Depois, se pegava na guitarra, as canções apareciam. Só que, desta vez, foram sete ou oito anos de pausa. Sentia-me bastante desiludido com a música que ia ouvindo à minha volta, como se toda a gente se tivesse limitado a continuar a tocar sem se interrogar de que processo faziam parte. Compreendi que sentia um grande ressentimento por ser alguém que, não tocando ao vivo, nunca se tinha verdadeiramente afirmado no mundo da música, nunca tinha conseguido estabelecer as relações necessárias. Conhecia – e ainda conheço – apenas três ou quatro músicos. Quando tentei voltar a escrever música, decidi que não iria andar à procura de uma canção mas apenas me iria sentar e tocar um único acorde, e repeti-lo indefinidamente. Quando fazemos isso, o tempo vai passando. Foi uma espécie de reacção... a minha mãe tinha morrido, andava pela casa dela, não pegava numa guitarra há sete anos. Estava por ali uma e comecei a tocá-la. Sabia perfeitamente que o fazia para ver se a vibração da madeira e das cordas era capaz de fazer algo por mim. 

    Mas ia escutando outros músicos e bandas, ia lendo? 

Entre 2009 e 2016, passei, pelo menos, 12 horas por dia na Internet. A ver o mundo mudar, prestando atenção a tudo o que ia acontecendo. A mudar não para melhor mas de uma forma assustadora. Tentei ir-me mantendo a par no Reddit. Li centenas de livros sobre políticas públicas. Procurei informar-me ao máximo sobre as áreas em que o meu pai se movimenta, o "lobbying" a favor de multinacionais do tabaco, do álcool, das armas, queria descobrir tudo acerca do modo como aquilo que ele andou a fazer nos anos 90 nos afecta hoje a nós. De como contribuiu para que fosse possível, em Washington, montar-se campanhas tremendas, por exemplo, contra os sindicatos ou algumas ONG. Ao fim de algum tempo, compreendi a sorte que tinha tido por ter conseguido fugir ao mundo dele. É o tipo de pessoa que se apossa da nossa cabeça e é difícil de expulsar. 



    Consegui-lo foi um alívio para si, libertou-lhe o espírito para pensar noutras coisas? 

Nunca pensei nisso nessa forma mas é capaz de ter sido um processo de cura. Consegui remover a imagem dele que se tinha instalado em mim. Ele escolhera desonrar-se com uma enorme ousadia.

Quando esse processo terminou (se já terminou) foi quando decidiu regressar ao mundo e voltar a compor?  

Sim, tinha visto o outro lado, tinha compreendido que eu não era feito para actuar daquela forma. Sou diferente. Não sou capaz de atirar a matar e utilizar tudo o que for necessário para alcançar um objectivo. A poesia... é por isso que este álbum é muito mais aberto. Se existe um problema na minha vida, lido com ele escrevendo uma canção. Quando tomei consciência de que era isso que estava a fazer, a minha dor desaparecia. Mais valia, então, escrever a canção. 

    Foi um processo catártico de expulsão dos seus demónios... 

Sim, mas não podia permitir que as canções se transformassem numa coisa sentimental, havia frases demasiado carregadas de auto-comiseração, apesar de bem escritas. Não arriscaria ir tão longe mesmo que fossem óptimas metáforas. "All My Happiness is Gone", no contexto do disco é uma coisa mas, tomada apenas como uma canção individual, a persona que a canta é completamente desgraçada. Escutando a totalidade do disco, seria de uma grande pobreza de espírito imaginar que se tratava de um pedido de ajuda. Não me sinto nada culpado por aquilo que vai acontecendo na política e na sociedade. À excepção de "Margaritas In The Mall" que é acerca do mundo do meu pai no interior do qual todos vivemos. 



    Quando pôs fim aos Silver Jews “antes que a banda se tornasse imprestável”, disse que pensava dedicar-se ao jornalismo de investigação e à escrita de argumentos para cinema. No entanto, não o fez...  

Mas tentei. Só queria escrever o argumento para um filme, estava obcecado. Era sobre um poeta, filho de um lobbyista, que perde o emprego e a mulher e acaba numa clínica de desintoxicação. O pai oferece-lhe emprego mas, na clínica, estava também um jornalista que conhece a actividade do pai... a HBO estava interessada na ideia e ofereceu-me 100 000 dólares por ela mas pretendia que fosse alguém que não eu a escrever o argumento, provavelmente, para transformar a figura do pai numa espécie de herói à maneira dos Sopranos. Seria o maior favor que poderia fazer ao meu pai, ele iria adorar! Durante os primeiros quinze anos da banda, por várias vezes, ofereceram-me dinheiro para actuar ao vivo, dinheiro que me fazia falta. Sou uma pessoa bastante racional mas descobri que, quando nos afastamos do dinheiro e distribuímos aquele que temos, ele acaba por vir ter connosco. 

    Por último, por que motivo trocou Silver Jews por Purple Mountains, retirado do poema de Katharine Lee Bates para "America the Beautiful"? 

Não é possível ser os Silver Jews em 2019. É demasiado perigoso. Não quero carregar sobre os ombros tudo o que de negativo “ser judeu” implica, pelos motivos mais idiotas, aos olhos de muita gente. Por outro lado, substituí uma cor, "silver", por outra, "purple", que, apesar dos Deep Purple e New Riders of the Purple Sage, não é muito comum em bandas de rock. E também gostei da ideia de, numa música que é, praticamente, o hino não oficial dos EUA, o verso “For purple mountain majesties” ser quase sempre, erradamente, cantado “For purple mountains majesty”. Pode ser uma atitude cínica da minha parte mas imaginar multidões de pessoas, levantando-se, enlevadas, de mão no peito, para cantar uma canção patriótica com a letra errada é um pouco como eu que, agora, desejo fazer tudo certo, começar logo com um erro enorme.(Entrevista realizada a 24.06.2019)

16 August 2019

“O poder é logístico. Bloqueemos tudo!”

Frase de origem anónima, que não foi pronunciada pelos sindicato dos motoristas de matérias perigosas, mas poderia ter sido. 

Esta frase, grafitada nas ruas de Turim e fonte de inspiração de movimentos de insurreição recentes, serviu de título a um capítulo do livro À nos amis (2014), do auto-intitulado “Comité Invisible”. A ideia de que o verdadeiro poder não está nas instituições, mas nas infra-estruturas, na organização material – e também imaterial, cibernética - cada vez mais vulnerável da nossa vida quotidiana, pode ser facilmente verificada na greve dos motoristas de matérias perigosas. Estes homens perceberam isso muito bem e puseram em acção esse poder que não é uma força de classe, mas um poder estratégico. Não é um poder revolucionário, mas muito mais de tipo insurrecional. Contra ele, o fraco poder governamental reduz-se a nada, a não ser chamando o exército e a polícia, instaurando o estado de excepção militar que se chama, eufemisticamente, “requisição civil”. A diferença entre o que é da ordem da política e o que é da ordem da polícia, já de si tão ténue no nosso tempo, anula-se agora completamente e a sede do governo torna-se um quartel-general da cúpula governamental-policial. (AG)

TEMPOS DE VIRAGEM


Um tipo que se chama Karl Frederick em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels e cujos pais, no dia em que nasce, o inscrevem no Independent Labour Party – uma formação política da esquerda trabalhista britânica – tem, de certo modo, o destino traçado. Não foi, assim, muito surpreendente que Karl Dallas (1931 – 2016), activista pela paz desde os oito anos, enquanto jornalista, tivesse colaborado militantemente com o “Daily Worker”/”Morning Star” (jornal do Parido Comunista Britânico) e participado em inúmeras iniciativas de carácter anti-fascista. O que já não seria tão previsível é que Dallas – também "songwriter" com canções gravadas por Ewan MacColl e June Tabor – viesse a tornar-se o pai-fundador do jornalismo folk-rock britânico, essencialmente, nas páginas do “Melody Maker” (mas também no “Times” e “Independent” e nas suas próprias revistas “Folk News” e “Folk Music”) e em tomos como The Cruel Wars: 100 Soldiers' Songs From Agincourt to Ulster (1972), One Hundred Songs of Toil: 450 Years of Workers' Songs (1974) e The Electric Muse: The Story of Folk into Rock (1975). Foi a propósito da morte de Sandy Denny que, em Maio de 1978, na “Folk News”, Dallas recordou “aqueles gloriosos dias de Verão, no Soho, quando Paul Simon, Ralph McTell, Jackson C. Frank, Anne Briggs, Al Stewart, Beverley, Roy Harper, The Young Tradition, Bert Jansch, John Renbourn, (…) e um miúdo judeu chamado Dylan deambulavam pelo West End”.

Karl Dallas
 
É essa história e a imediata sequência dela que se resume em Strangers In The Room: A Journey Through The British Folk Rock Scene 1967-73 – mais um volume do precioso arquivismo histórico da Cherry Red – que, não por acaso, começa logo por citar Karl Dallas (do “Melody Maker”, Janeiro de 1970): “Há dois anos, folk rock era uma espécie de palavrão. Os adeptos da folk não compreendiam por que motivo tantos dos seus heróis electrificavam a sua música e os do rock recusavam-se a escutar tudo o que não soasse como o trovejar de uma manada. Hoje, graças aos Fairport Convention, a palavra pode tornar-se respeitável. Porque, se o que eles tocam não é folk rock, então o termo não significa nada”. Na verdade, a viragem começara um pouco mais atrás quando, em 1965, praticamente em simultâneo, os Byrds gravaram uma versão eléctrica de ‘Mr Tambourine Man’, de Bob Dylan, e este concluía as sessões de estúdio de Bringing It All Back Home, em cujo lado A era acompanhado por uma banda de rock. Duas páginas à frente no "booklet", Maddy Prior oferece a sua versão da história: “Na realidade, foi um casal americano que me fez interessar pela música inglesa. Andei a conduzi-los durante um ano por Inglaterra e, às tantas disseram-me: “Tens de parar de cantar música americana. Não tens jeito nenhum para isso. Porque é que não experimentas música inglesa?”



Nas 60 faixas da caixa de três CD, podem descobrir-se os clássicos lendários (Steeleye Span, Fairport Convention, Sandy Denny, Pentangle, Shirley Collins, Strawbs, Incredible String Band, Matthews Southern Comfort, Albion Country Band), os imerecidamente não tão na ponta da língua (The Woods Band, Trader Horne, Michael Chapman, Trees, Mike Hart, Bill Fay, Third Ear Band, Horslips, Ralph McTell, Mr. Fox, Spirogyra, Bridget St. John) e algumas pérolas obscuras (Dando Shaft, Jade, Prelude). Para um primeiro passo no conhecimento mais completo da indispensável obra dos Steeleye Span, a Cherry Red propõe outra caixa de 3 CD, All Things Are Quite Silent: Complete Recordings 1970-71 que reune a fundamental trilogia inicial Hark! The Village Wait (1970), Please To See The King e Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides Again (ambos de 1971), lugares onde a profunda erudição folk anglo-irlandesa acolhe e dilata as experiências eléctricas que Ashley Hutchings – agora acompanhado por Maddy Prior, Peter Knight, Tim Hart e uma posterior multidão de outros – havia iniciado quando ainda a bordo dos Fairport Convention, aqui elevadas a um patamar de apuro vocal e instrumental que estabeleceria o padrão face ao qual tudo o que viria a seguir haveria de ser comparado.

15 August 2019

Formas de apoiar à distância os manifestantes pró-democracia 
de Hong Kong


Doar:

Grupos que apoiam os manifestantes no terreno

612 Humanitarian Relief Fund  (PayPal: 612fund@atd.hk)
Spark Alliance HK (Paypal: hkworkxshop@gmail.com)

Grupos que apoiam jornalistas no terreno


Organizações de notícias sem fins lucrativos para que continuem a fornecer informação acerca do que se passa em Hong Kong


 ONG
  

Material para protecção durante 
intervenções policiais


(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)
Aparentemente, em Portugal, os candidatos a passageiros e tripulantes das naves para Kolob são "mais de 40 mil"; actualmente, o post deste blog que narra a formidável história desse projecto conta 51 577 visionamentos - exigimos, no mínimo, uma placa de agradecimento junto à porta de entrada do edifício-sede local da empresa! (e não vale argumentar que "foram as telenovelas e tal...")

14 August 2019

A Liberdade fazendo descer
 as trevas sobre o mundo
CRIAR UM MUNDO SONORO


Os filmes da assombrosa experimentalista ucraniano-americana Maya Deren (1917-1961) e a explosiva guitarra eléctrica de Thurston Moore (Sonic Youth) encontraram-se num palco, durante o Festival de Curtas de Vila do Conde. Horas antes, Thurston falou sobre as várias etapas desse processo, as suas dúvidas e intenções. 

    Como foi o princípio desta aventura? 
Tudo começou há dois anos, em Paris, quando o Museu do Louvre me convidou para uma série de colaborações com outros músicos. Numa das noites, foram exibidos filmes da Maya Deren enquanto eu tocava com Stephen O’Malley, dos Sunn O))). Depois, alguém teve conhecimento disso e repeti a experiência já sem o Stephen. Desta vez, não estou, realmente, a improvisar, interpreto uma peça musical previamente composta. 

    Pareceu-lhe necessário algo mais estruturado? 
A abordagem improvisada parece sempre mais interessante devido aos elementos de acaso e surpresa. Na verdade, enquanto improviso não estou a ver o filme, deixo-me levar pelos sons, e apenas paro quando me apercebo de que o filme chegou ao fim. Por vezes, perguntam-me “Quando tocou daquela forma, tinha a noção exacta de que ia acontecer aquilo? Parecia mesmo perfeitamente sincronizado...” Sim e não... 

    ... portanto, há sempre uma possibilidade de intersecção significativa entre a narrativa visual e a sonora? 
Há anos, com os Sonic Youth, criámos música para a companhia de dança de Merce Cunningham, peças baseadas em operações aleatórias nas quais não reagíamos verdadeiramente à dança mas nos guiávamos por uma partitura de John Cage. 

    E a dança reagia à música? 
A dança assentava na sua própria lógica coreográfica. 

    Podiam estar, então, em salas diferentes? 
Podíamos, claro! Foi uma experiência de que gostei imenso e me permitiu compreender como John Cage e Merce Cunningham colaboravam. Mas, aqui, em Vila do Conde, não gostaria que as pessoas imaginassem que estou a improvisar, é uma composição de uma hora para guitarra eléctrica de 12 cordas que não concebi em função das imagens mas que tocarei durante a projecção. No "soundcheck", procurei ir estando atento à forma como algumas sequências de acordes correspondiam ao que se passava no ecrâ. E correspondiam, de facto! Isso incomoda-me: não desejo que o filme me influencie! Por outro lado, tratando-se de 4 filmes, preciso de saber quando termina um e começa o seguinte. No fundo, não interessa: poderia perfeitamente tocar de olhos vendados! (risos) 

Meshes of the Afternoon (música: Two Whole Quails)

    Numa das “bíblias” da film music – Unheard Melodies, de Claudia Gorbman – uma das ideias fundamentais é a de que qualquer sequência musical aplicada a qualquer sequência de imagens faz sempre um sentido. E conta como Jean Cocteau encomendava a George Auric música para as cenas A, B ou C de um filme e, depois – apostando na “sincronização acidental” – usava a música “errada” nas cenas “erradas”...  
É realmente fascinante como todo esse processo afecta a nossa sensibilidade e a leitura que fazemos de um filme, por vezes, reforçando e sublinhando literalmente ambientes mais melancólicos ou eufóricos... 

    .... ou funcionando exactamente ao contrário como na sequência de abertura de The Shining em que a música nos “mostra” o oposto do que estamos a ver... 
É verdade. Gostaria muito de ter mais oportunidades de compor música para filmes. Os Sonic Youth colaboraram com o Olivier Assayas (Demonlover), também no primeiro filme do James Mangold (Heavy)... mas é algo de que tenho saudades e vontade de continuar a fazer. 

    Mas não se preocupa demasiado com a história da "film music"... 
Não passo o tempo a ler acerca disso, desconhecia, por exemplo, esse livro de que falou. Mas tenho alguma noção da história do cinema e sempre tive muita curiosidade por aqueles realizadores que recorrem sempre aos mesmos compositores... 

A Study in Coreogrphy for Camera (música: Tomas Friberg)

    Como os Coen com Carter Burwell... 
Conheci-o em Nova Iorque, no início dos anos 80... 

    Ou David Lynch com Badalamenti, ou Hitchcock com Herrmann... 
Estava a pensar também em Claire Denis que, em todos os filmes, seja qual for a natureza deles, tem banda sonora dos Tindersticks. Vejo muitos filmes e a minha percepção do modo como a música neles actua é muito aguda. Conheço a forma como tudo se estrutura numa banda sonora. Não me interessa é trabalhar desse modo. Foi muito interessante quando trabalhámos com o Olivier Assayas: pedia-nos que lhe enviássemos música e, ao escutá-la, isso determinava a forma como iria filmar uma determinada cena, contribuía para lhe definir melhor as ideias. 

    Exactamente como aconteceu com a banda sonora de Morricone para Once Upon a Time in the West que o Sergio Leone fazia ouvir no "set" durante as filmagens. 
Há tempos, vi no British Film Institute um filme mudo francês dos anos 20 com um pianista que o acompanhava ao vivo. Tinha interiorizado por completo as mudanças de atmosfera e de intensidade do filme, reagia instantaneamente às deixas visuais. Foi óptimo mas, no fim, fiquei com a sensação de não terem, realmente, acontecido surpresas. Gosto mais, por exemplo, quando o Gus Van Sant, em filmes acerca de adolescentes americanos, usa música electrónica e "musique concrète" e, através dela, cria uma sensação de alienação, de não saber onde nos encontramos exactamente. 

The Witch’s Cradle (música: Enric Chalaux)

    Nos casos em que improvisa o acompanhamento musical para um filme que já conhece, mesmo não estando a olhar para o ecrã, as imagens que recorda determinam aquilo que vai tocar? 
Se estou a improvisar, posso perfeitamente estar a ver o filme e ir tocando ao mesmo tempo. Mas isso tende a tornar-se um pouco óbvio, será sempre apenas um resultado da minha reacção ao que acontece no ecrã. 

    E sempre um segundo em atraso... 
Exacto.

    Já conhecia estes filmes da Maya Deren?
Dos que vão ser apresentados aqui (Meshes of the Afternoon, 1943, At Land, 1944, Ritual in Transfigured Time, 1946, A Study in Choreography for Camera, 1945, e The Witch’s Cradle, 1943), já conhecia Meshes of The Afternoon e At Land. Este é o tipo de desafio que adoro, podem convidar-me sempre. Vou repetir este programa em Melbourne e não estou ainda certo se vou voltar a esta peça ou se vou improvisar. Ou ambas. E não sei se isso importa muito: estou a criar um mundo sonoro, mas não faço a menor ideia se a Maya Deren apreciaria as liberdades que tomo durante a exibição dos filmes... quem sabe se não o sentiria como uma agressão à sua obra... Os Sonic Youth, em 2003, realizaram um concerto de música improvisada nos Anthology Film Archives de Nova York, sobre imagens de filmes de Stan Brakhage. A maioria das pessoas gostou do concerto mas houve alguns puristas que argumentaram que o Brakhage nunca desejou que os filmes fossem sonorizados. Claro que estávamos a alterar a natureza dos filmes e, se calhar, a ir contra as intenções dele. Poderá dizer-se que levamos essa ideia longe de mais. Mas o que é longe demais? O objectivo nunca será roubar o primeiro plano aos filmes mas, sim, complementá-los.
Já aí está a estação espacial de Lisboa com voos para o planeta Kolob! (um projecto de exploração do universo com 200 anos de história)

13 August 2019




Livraria da Travessa (uma livraria que é uma livraria já é uma coisa bem rara - I)

RESPIRAR

  
“Não desejo sugar todo o ar de uma canção mas o que gosto no maximalismo da Annie é a sua linguagem densa e complexa. Por isso, a ideia era ‘Ok, tudo bem, mas preserva a respiração de cada canção’. Essa respiração pode ser variada mas as Sleater-Kinney são isso: uma possibilidade de caos, um momento em que se abre espaço. Uma expiração, uma inspiração, um grito, um suspiro, um berro – essa respiração tem de estar lá. Foi aí que o nosso trabalho com a Annie resultou realmente bem porque ela pretendia somar, somar, somar, e nós víamos a tela a ficar toda preenchida e pensávamos ‘É isso mesmo mas tem de existir aí algo escorregadio’”, disse à “Uncut” Carrie Brownstein a propósito da colaboração com Annie Clark/St. Vincent que as Sleater-Kinney elegeram como produtora de The Center Won’t Hold, publicado quatro anos após No Cities To Love (que, por sua vez, interrompera uma longa ausência de 10 anos desde The Woods). À “Mojo”, Brownstein foi mais sintética: “A Annie pretendia rearrumar a nossa caixa de ferramentas e reconfigurar a banda de uma forma que não perdesse de vista quem somos”


E, convenhamos, esse seria o mínimo exigível a alguém que se arriscasse a lidar com uma das bandas mais simbólicas (e longevas) do rock-no-feminino, herdeiras da insurreição "riot grrrl", que, na viragem do século, Greil Marcus consagraria como “America’s best rock band”. Na realidade, não foi exactamente assim: "Reach Out" ou "Ruins" poderiam, facilmente, ser incluídas num álbum de St. Vincent – e terá sido, eventualmente, essa excessiva proximidade que, concluídas as gravações, conduziu Janet Weiss a abandonar a banda –, mas, em grande medida, é obrigatório reconhecer-se que, se contaminação houve, não poderia ser mais bem-vinda. Inspirado num poema de Yeats (“The Second Coming”, 1919) alusivo à atmosfera do pós-guerra – “Things fall apart, the centre cannot hold, mere anarchy is loosed upon the world” –, o álbum é um insolente desabafo (“You know I'm unfuckable, unlovable, unlistenable, unwatchable”) lançado sobre o mundo e os seus aterradores protagonistas contemporâneos (“You’re a creature of sorrow, you’re the beast we made, you scratch at our sadness until we’re broken and frayed”), um SOS aflito (“Reach out and touch me, I’m stuck on the edge, reach out, the darkness is winning again”) e desnorteado (“I need something muddy to cover up the stain, the center won't hold”). Se St. Vincent lhe obscureceu a luz e endureceu as arestas, só teremos de ficar-lhe gratos.



11 August 2019

Darren Hayman - Herbrandston, Pembrokeshire (Thankful Villages/XXXIX)
Não resta a menor dúvida acerca da profunda decadência do Serviço Nacional de Saúde (que, se pode pagar a profissionais da superstição, também deveria cobrir as despesas das peregrinações a Fátima onde, como se sabe, ocorrem muitas "curas milagrosas")


... e a "objectividade jornalística" da imprensa "de referència" perante o karambismo chega a ser comovente