29 April 2026

La Niña - "Figlia d'a Tempesta"/"Guapparia"

(do álbum Furesta, na íntegra aqui)
 
"(Zaman)"
 
(sequência daqui) Eis, portanto, Nora (voz), Meesh (baixo), Haya (guitarra "e muitos, muitos pedais"), e a sua baterista mascarada, "Thing", armadas de um EP, Sarab, que captura frases melódicas médio-orientais, psicadelismo calcinado pelo sol do deserto, rock de vocação noise e folk árabe, ora pulverizando-os contra uma incandescente parede de ruído, ora identificando os pontos de encaixe entre sequências musicais, found sounds animais captados em ambientes naturais e a fonética do dialecto najdi local. "No que diz respeito à produção, abordámos o som ou o pio de cada animal como se fosse um instrumento com o seu próprio timbre. Adoro design de som, por isso dediquei muito tempo a moldar as frequências, a esticar as texturas, a adicionar modulações subtis e tudo o que permitisse que o seu carácter natural conduzisse à composição" explicou Nora ao "Babystep Magazine", e Thing acrescentou: "Defrontámo-nos com as gravações em bruto, que não eram apenas 'samples', soavam como criaturas levadas ao limite, e isso era percetível nas suas respirações e gritos. Quando se ouve isso, deixa-se de pensar como músico por um segundo e tornamo-nos apenas um ser humano a ouvir algo que se extingue. Foi um projeto incrivelmente especial para nós. Os sons dos animais moldaram as guinadas da canção". (segue para aqui)

26 April 2026

NÃO SERÁ UM ACASO

No início de 2023, aquando da publicação de Anadolu Ejderi, da turca Gaye Su Akyol, foi oportunidade para parar um pouco e reflectir sobre o imenso e maravilhoso mundo que, ao longo dos anos, fomos capazes de ir descobrindo sempre que nos demos ao trabalho de espreitar para lá dos muros do nosso quintal. Recordámos, então, a afegã Elaha Soroor, a saudita-paquistanesa Arooj Aftab e a israelo-iraniana Liraz, o - pelos piores motivos - recém-descoberto universo ucraniano (Folknery, DakhaBrakha, Torbán, Dakh Daughters, Joryj Kloc) ou o inesgotável baú das inúmeras variantes chinesas contemporâneas. Na verdade, era apenas uma actualização do que já antes, em Setembro de 2021, havia sido recenceado: preciosidades como Le Mystère des Voix Bulgares, Les Nouvelles Polyphonies Corses, Cocanha, San Salvador, Lankum, John Francis Flynn, Lisa O'Neill e Stick In The Wheel. Podemos, pois - enquanto as occitanas Cocanha não nos revelam o seu último álbum ("Flame Folclòre") e as estonteantes napolitanas La Niña não nos oferecem uma oportunidade de, ao vivo, nos fazer levitar ao som de Furèsta -, ir abrindo uma vaga para o quarteto integralmente feminino Seera, oriundo de Riade, capital da Arábia Saudita, estado islâmico no qual a condição feminina não é propriamente exemplar. (daqui: segue para aqui)

Seera - "Shams"
Candidatos a magnicida 
merecem punição severa
(ou então é tudo "fake"...) 
O taberneiro, criatura ignorante por definição, prestou uma mui sentida homenagem a Oscar Wilde

22 April 2026

 
The Last Kobzar - a portrait of Ostap Kindrachuk in Crimea

(+ aqui)
"Foreign Land" 

(sequência daqui) Marichka Marczyk - música, médica militar no 3º batalhão de tanques das forças ucranianas, jornalista e etnomusicóloga - não seria capaz de se deixar imobilizar: recorrendo a um reportório de canções populares tradicionais e "de protesto" envolvidas em polifonias vocais e ensembles de cordas e ao apoio ocasional do vocabulário pop, jazz e tango, Songs of Stolen Children pelas Daughters of Donbas (isto é, Marichka e outras co-conspiradoras) é a extensão contemporânea dos vetustos kobzars (bardos itinerantes ucranianos que cantavam acompanhados por instrumentos de cordas, como a kobza ou a bandura, preservando a história através da canção, na qualidade de guardiões da memória colectiva). "Foi precisamente por dizerem a verdade que os kobzars foram quase exterminados pelos comunistas na década de 1930" declarou Marichka à "Songlines". "E é por isso que, às vezes, somos chamadas kobzars modernos. Porque levamos a verdade, sem censura, ao mundo".

19 April 2026

La Niña - Full Performance 
(Live on KEXP)

A VERDADE, SEM CENSURA
Quando, a 24 de Fevereiro de 2022, as tropas do criminoso de guerra, Vladimir Putin, invadiram o território ucraniano, a máquina de desinformação e propaganda social-fascista de Moscovo fez - até hoje - grande questão em sublinhar que o que estava em curso era uma "operação militar especial" destinada a "desmilitarizar e desnazificar" a Ucrânia e, nunca por nunca, um acto de guerra. Ou seja, havia que corrigir urgentemente a visão da realidade que, à excepção da brutal clique do Kremlin, todo o mundo partilhava: a Rússia imperialista invadira violentamente a Ucrânia, empenhava-se em apagá-la do mapa enquanto entidade política distinta e em eliminar a cultura ucraniana dos registos históricos. E, como mandam as regras, começando pelo princípio. Isto é, deportando cerca de 20 000 crianças ucranianas para campos de "reeducação", na Rússia, onde deveriam converter-se em jovens cidadãos russos modelo.  (daqui; segue para aqui)

"4.5.0." (Songs of Stolen Children (2026), features the single "4.5.0."— a Ukrainian military code for "all is calm/OK"— which serves as an emotional anthem of hope and resilience)
Desta vez, parece que 
só foram precisos 3 anos...

16 April 2026

É verdade, o mundo está a ser devastado por tiranos - assunto acerca do qual a Vaticano S.A. tem uma experiência de séculos
 
Edit (18:43) - "An example of a monster being depicted for a political purpose is the Papal Ass, a supposedly real beast that had been found floating in the river Tiber. Images of the Papal Ass were used by both sides in the debate about the Reformation. Lucas Cranach the Elder (1472 - October 16, 1553), was a German Renaissance painter and printmaker in woodcut and engraving. He also produced a number of violent anti-Catholic propaganda prints, in a cruder style, directed against the Papacy and the Catholic clergy" (daqui)
 
Papal Ass, Reformation Monster 

"Caricature of the Pope by Lucas Cranach the Elder with text by Martin Luther, 1545. Caption reads: 'The pope alone can interpret scripture and cleanse wrongdoing, just as the donkey alone can play the pipes'" (ver Roman de Fauvel)
Garbage - Köln Palladium 
[April 3rd, 2005]

14 April 2026

 
 
(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)  
Como é que o JPP poderá ter imaginado que, com uma moderação absolutamente inexistente e sem regras que, à primeira interrupção, permitissem silenciar o taberneiro, poderia sair algo de diferente das habituais peixeiradas do neo-facho? (o projecto do açaime político continua por concretizar)
"Suçum Nedir"
 
(sequência daqui) Foi assim que a rica discografia de 5 álbuns, dos Altın Gün se foi constituindo e que, mesmo agora que, na banda, reduzida a quinteto, resta apenas um elemento de ascendência turca (na verdade, a maioria apenas cresceu nos bairros turcos de Amesterdão), ela continua a enriquecer-se. Até porque, desta vez, Garip ("estranho", em português) tem como fonte as canções do trovador folk ashik, Neşet Ertaş (1938–2012), cantadas com o acompanhamento de bağlama, um alaúde tradicional aqui electrificado. O perímetro sonoro Altın Gün fica assim delimitado pela ácida energia de "Neredesin Sen", o arabismo lounge de "Suçum Nedir", o chamamento de muezine lisérgico de "Zülüf Dökülmüş Yüze", o labiríntico e sepentino psicadelismo de bazar de "Gel Yanıma Gel" ou o quase Bollywood de "Gönül Dağı", cortesia da Stockholm Studio Orchestra.

13 April 2026

Ridicularizar a religião/as religiões é sempre uma justíssima missão, seja quem for a desempenhá-la. Depois, há que separar o actor da personagem e atribuir a cada um a recompensa que merecer


Edit (14/04/2026) - ... não esquecendo que, neste blog, se pratica o culto da blasfémia
"Regime de prisão semiaberto"? Mas criaturas peçonhentas não devem ser mantidas em rigoroso cativeiro?


Edit (13:17) - ... mas, que diabo, também não é preciso amolgar assim as alimárias, credo...

11 April 2026

PSICADELIZAR-SE
As brigadas de vigilância "woke" - equivalente ocidental exactamente simétrico da Polícia da Moral Islâmica no Irão - ou têm-se visto assoberbadas com demasiadas operações de cancelamento e destruição ou o indispensável recrutamento para o reforço das hostes não andará a correr da melhor maneira. Na verdade, só algo desse género poderá explicar a desatenção sobre aquilo que, a partir de agora, designaremos como o Caso Altın Gün. Isto é, a história do holandês Jasper Verhulst que, há cerca de 8 anos, durante uma viagem à Turquia, qual junkie, foi adquirindo vinis de música local até à extinção do último cêntimo. De volta a Amesterdão, socorreu-se do Facebook enquanto agência de recrutamento de músicos turcos para constituir uma banda - Altın Gün - à qual seria confiada a missão de, inspirada pelo nacionalismo musical do início do século XX, e contaminada pelo pop/rock ocidental, deixar-se gloriosamente psicadelizar. Ou, como diriam, as milícias "woke", capitular perante a pérfida "apropriação cultural". (daqui; segue para aqui)
 
"Neredesin Sen"

08 April 2026

É humanamente impossível ouvir a palavra "narrativa" 3000 vezes por dia e não ceder aos piores instintos!!!...
 
Miss MaoGao Brothers
 
(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim) 
"God’s Lonely Man" (feat. Iggy Pop)
 
(sequência daqui) Em 2020, publicaria Hunted, álbum de revisão de temas de Hunter entregues a Joe Talbot (Idles), Courtney Barnett, Julia Holter e Charlotte Gainsbourg; e, em variadíssimas coordenadas espaciais e temporais, veria o seu nome associado aos de Colette, Gucci, Vogue,Fendi, Lagerfeld, Chanel ou Burberry (com EP Live For Burberry incluído, 2017); não menor cometimento seria a banda sonora para a soberba série de TV Peaky Blinders (Peaky Blinders: Season 5 & 6 (Original Score, 2024) à qual se sucede agora o EP Is This All There Is?. Apresentado como o primeiro de uma trilogia de gravações "que explora a identidade como uma metamorfose, moldada e remodelada pela experiência da paixão", o que Calvi busca - acompanhada por Matt Berninger,Laurie Anderson, Perfume Genius e Iggy Pop - é estimular a eclosão de um desdobramento de personalidades, da fria racionalidade à mais física colisão sonora.
... e lá vamos ter de ficar mais duas semanas à espera para assistir à porra do fim do mundo...

05 April 2026

MÚLTIPLA PERSONALIDADE
Desde 2011, três álbuns - Anna Calvi (2011), One Breath (2013), e Hunter (2018) - e três EP, parece produtividade assaz exígua mas, se observada com atenção, revelar-se-á exactamente o oposto, para mais entregue aos cuidados de múltiplas vozes e mãos. A saber: no 1º EP,  Strange Weather (2014), Anna Calvi convocava David Byrne e consistia da revisão de canções de Keren Ann, FKA Twigs, Connan Mockasin, Suicide, e David Bowie; em Give My Love to London (2014), de Marianne Faithfull, participaria com o tema (composto a meias) "Falling Back"; a 4 de Fevereiro de 2016, um mês após a morte de David Bowie, incluiu-se no EP Strung Out in Heaven, uma compilação de covers de David Bowie, contribuindo com voz e guitarra para a faixa "Blackstar", que, posteriormente, com Amanda Palmer, apresentaria no Radio City Music Hall, em Nova Iorque; em 2017, compôs a ópera, The Sandman, baseada num conto de E. T. A. Hoffmann e encenada por Robert Wilson, que estrearia a 3 de maio, no Festival Ruhrfestspiele, em Recklinghausen, na Alemanha. (daqui; segue para aqui)

"I See A Darkness" (feat. Perfume Genius)
Sob outra perspectiva