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04 November 2015

LEVEZA 


Na formidável colectânea de histórias de ódio, xenofobia, ficção-científica, violência sanguinária, pornografia e trepidante aventura que é o Antigo Testamento, nunca foi prestada a devida atenção ao facto de, logo a abrir, no Génesis, Adão e Eva terem sido proibidos de comer não uma inocente maçã (apenas a partir do século XIII, na iconografia religiosa europeia, o pecado original foi assim representado) mas sim “o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”. Isto é, o casal que (após a separação litigiosa de Adão e da primeira mulher, Lilith, devido a desentendimentos acerca da legitimidade da posição coital "girl on top" – ver Alfabeto de ben Sirach, 700/1000 EC) vivia em paradisíaco concubinato, estava contratualmente obrigado a ignorar a moral. Amoralidade essa que, sendo um dos requisitos para não ser expulso do Condomínio Éden, deveria conferir também uma maravilhosa leveza à existência.


No conto de fadas de George MacDonald, The Light Princess (1864), a protagonista lida com problema semelhante: em consequência do feitiço de uma tia malvada, desconhece a gravidade. Tanto a propriamente física – ao menor movimento, flutua no ar – como a que a impede de chorar e ver o lado sério das coisas. No suposto final feliz, é salva pelo proverbial príncipe apaixonado que a devolve às garras da maldição de Newton e, em pleno turbilhão emocional, desaba em pranto - de onde poderá, uma vez mais, concluir-se que a educação moral é, invariavelmente, causa de sarilhos e infelicidade. Já Tori Amos, autora de uma respeitável discografia (de que, no contexto em apreço, deverão destacar-se Abnormally Attracted to Sin, 2009, e a memorável estrofe “So you can make me come, that doesn't make you Jesus”), travou conhecimento com a gravidade da pior maneira, ao estatelar-se na adaptação do conto de MacDonald para o formato "musical". Desesperantemente convencional tanto no plano da composição como – a avaliar pelo que via-YouTube se pode perceber – naquilo que à produção do Royal National Theatre de Londres diz respeito, é peça a lonjura sideral, por exemplo, das colaborações de Lou Reed e Tom Waits com Bob Wilson e irmã quase gémea dos produtos da linha de montagem-Andrew Lloyd Webber. Indiscutivelmente, um pecado. Porém, nada original.

29 August 2008

ALGUÉM DISSE "INDIE"?



Sigur Rós - með suð í eyrum við spilum endalaust

Nenhuma banda que se preocupe realmente a sério com o sucesso comercial publica, sucessivamente, quatro álbuns cujas canções são vertidas num idioma imaginário que nem um só fã, de isqueirinho na mão, consegue reproduzir. Nenhuma banda com planos megalómanos de dominar o mundo e enxotar a concorrência de U2, Coldplays e quejandos cai na asneira de intitular um disco (). Nenhuma banda que sonhe trepar pelo que resta dos top-tens do universo, no exacto instante em que, mal disfarçadamente, se murmura que “desta é que vai ser”, se decide a trocar o tal linguajar exótico pelo quase tão hermético islandês e a baptizar o suposto álbum do definitivo “breakthrough” como með suð í eyrum við spilum endalaust. Muito em particular, quando se descobre que, na tradução inglesa, isso significa “with a buzz in our ears we play endlessly”, o que, no caso em apreço dos Sigur Rós, poderia muito facilmente ser uma caricatura sarcástica da identidade sonora do grupo. Claro que tudo isto faria imensamente sentido no interior de uma ética/estética “indie” ortodoxa que tivesse como objectivo último garantir a existência de uma modesta rede de células de fãs clandestinas, esparsamente alojadas entre os sótãos de Reykjavik, os albergues de juventude do Lake District e as garagens de Telheiras.



O que resultou, no entanto, de tal opção? Uma corte de fãs que inclui Brad Pitt, Madonna, Tom Cruise, Natalie Portman, David Bowie, os Metallica, Red Hot Chili Peppers, Foo Fighters, Radiohead e... Coldplay; uma auspiciosa carreira paralela como arquivo potencial de bandas sonoras, na variante-algodão doce, para cinema e televisão; e uma discografia que continha, até agora, o género de música que fundia a estética 4AD reciclada, uma espécie de My Bloodless Valentine e aquilo que se deverá ter escutado nos céus de Aqaba, quando Moisés dividiu as águas do Mar Vermelho. Alguém disse “indie”? Se disse, até pode voltar a repeti-lo agora. Porque með suð, num ensaio razoavelmente conseguido de iludir as expectativas, quase inverte a percepção que tínhamos dos Sigur Rós: muito detalhismo sonoro acústico na descendência directa do que se observava no DVD Heima, uma alma quase pop aqui e ali, a aproximação (em “Gobbledigook”) ao pequeno caos de “kindergarten” dos Animal Collective e (tinha de ser...) ainda um pouco de Moisés-no-Mar-Vermelho em “Festival” e “Ara Bátur” – um épico de nove minutos em versão “thinking man’s Andrew Lloyd Weber”. Prevê-se engarrafamento na “guest-list” de fãs “mainstream”.

(2008)