30 September 2026

Revisões da matéria dada (LXII)
 
 

 

"Landlord's Demise"

(sequência daqui) Ao terceiro álbum - após The Mary Wallopers (2022) e Irish Rock N Roll (2023) - e estimulados pelo exemplo de veteranos como os Pogues, Lankum, Clancy Brothers e The Dubliners, os Mary Wallopers ousam inscrever o seu nome na tradição irlandesa assinando todas as canções. E se o mundo parece mover-se - "Na história do nosso país, somos, de certa forma, ensinados a odiarmo-nos como povo. Mas com a Internet e a maior quantidade de informação que surge, as gerações mais jovens já aprenderam sobre a realidade do que foi o genocídio da Grande Fome * e a acção nefasta do Império Britânico e da Igreja Católica" -, o discurso torna-se também cada vez mais transparente: "Do what you're told by the bosses, try not to rattle the cage, bless when you pass by the crosses, in heaven you might break your chains, when you've dropped dead at the counter, there'll be no time for an amen, somebody's already lined up there, to start the big mixer again".

29 September 2026

 
Edit (30/09) - ver aqui e rever aqui) 
 
 
(sequência daqui) Tanta e tão exaltada eloquência decorre do contacto próximo e permanente com um reportório com séculos de uma história de desigualdade e luta de classes a ressoar ainda profundamente nos dias de hoje. Da espécie de rockabilly countrificado de "The Juice" ao programa de acção - voz, bodhrán e tin whistle - de "Landlord's Demise" ("No landlord here in Ireland is the song that I will sing, run them out or burn them out, whatever is your thing, no time now for the wealthy ones who try to put us down, break the greedy structures built to keep the poor folk down"), ou à demolição dos estereótipos do "orgulho identitário" de "Crowns Of England" ("For all the crowns in England I couldn't quench my thirst, I wandered back to Dundalk town, the place that quenched it first"), Charles Hendy explica em detalhe ao "NME": "A canção fala de estar em Inglaterra e sentir-se um forasteiro no meio de todo aquele colonialismo. E fala dos irlandeses que se mudam para Londres e depois se deixam assimilar, tentando afastar-se da sua identidade irlandesa. A Inglaterra continua a ser um lugar arcaico em muitos aspectos. Ainda existe uma monarquia. Todos os pubs chamam-se 'The Crown'. Há bandeiras por todo o lado". (segue para aqui)

27 September 2026

As "ciências" da educação nunca estarão suficientemente mortas
(via OMQ) 
LUTA DE CLASSES


Com uma certa liberdade interpretativa, digamos que "paddywhackery", em português, poderia traduzir-se por "saloiice irlandesa". E remeteria para o termo que, desde o início do século XIX, foi usado para, mais acintosamente, descrever uma pessoa facilmente irritável, em particular, um "irlandês arruaceiro". Charles e Andrew Hendy, motor e alma estética dos Mary Wallopers, ao terceiro álbum, não se limitam a designá-lo por Paddywhackery, como, em entrevista à "Mojo", reivindicam essa palavra enquanto vernacular arma de combate: "A música folk ganhou a fama de ser algo insípida. Tornou-se inofensiva, o que detestamos, as canções folk não são assim. As canções são todas sobre foder, beber, enforcar senhorios e matar aqueles cabrões. São canções políticas, e até as canções de amor podem ser macabras". Alargando a esfera de acção - "É preciso haver uma voz que devolva às pessoas o lado rebelde do folk" - e invocando os padroeiros da causa, declaram: "É para isso que serve a música folk. Foi o Woody Guthrie quem o disse, são os blues, é o punk, é o hip-hop. É uma forma de expressão de pessoas que não estão satisfeitas com o que a vida lhes reservou e que percebem que isso não é justo. O mundo não é justo e não é justo porque as pessoas não querem que seja justo. Sabes, os políticos e aqueles cabrões ricos de merda, são todos uns filhos da mãe. Na verdade, deviam ser todos mortos!". (daqui; segue para aqui)
 
A malta das bófias está mesmo determinada a demonstrar que ferve de  actividade contra a malandragem
... e eles perceberam  

26 September 2026

É, evidentemente, prestigiditação eleitoral, mas, neste Lula, agora (ao contrário de outros mamíferos), até se pode votar de espírito um bocadinho mais leve 

 

"Talking Heads - Girlfriend Is Better" (from Stop Making Sense)

(sequência daqui) Também Stop Making Sense, filmado em 1983 no Pantages Theatre, em Hollywood, durante a digressão de Speaking in Tongues, ultrapassa largamente o registo de um concerto dos Talking Heads. Realizado por Jonathan Demme, transforma o palco num espaço cinematográfico onde música, movimento e imagem se fundem. David Byrne entra sozinho em cena e, aos poucos, a banda cresce à sua volta. No centro está Byrne, inquieto, excêntrico e magnético. O célebre “Grande Fato”, usado em "Girlfriend Is Better'" tornou-se uma das imagens mais icónicas da cultura pop. Os restantes três filmes — A Hard Day’s Night (1964), Summer of Soul (1969) e Purple Rain (1984) —, embora importantes nas carreiras dos seus protagonistas, não se equiparam verdadeiramente aos exemplos anteriores. O crítico do "Village Voice" que chamou ao filme de Richard Lester com os Beatles “the Citizen Kane of jukebox musicals” poupou milhares de palavras a muitos colegas de ofício. A verdade, porém, é que A Hard Day’s Night fica historicamente a considerável distância dos exemplos, bem mais interessantes, de surrealismo naïf de Magical Mystery Tour (1967) e Yellow Submarine (1968).  Summer of Soul é um documentário escorreito sobre o Harlem Cultural Festival de 1969, o chamado “Woodstock Negro”, celebrado como momento de afirmação da cultura, da música afro-americana e do orgulho negro. Durante seis semanas, no Mount Morris Park, em Nova Iorque, passaram pelo festival nomes como Stevie Wonder, Nina Simone, Sly and the Family Stone e B.B. King. As cerca de 40 horas de filmagens originais permaneceram arquivadas até serem recuperadas pelo realizador Ahmir Khalib Thompson e lançadas oficialmente em 2021, no Festival de Sundance. Meter as mãos na massa do género musical, porém, não é para todos. E se, mesmo sem ir além do patamar de Mamma Mia!, se pode construir uma bela obra, Purple Rain (1984) — que multidões de fãs de Prince continuarão a exaltar — arruma-se melhor na prateleira das telenovelas glorificadas.

25 September 2026

Fazendo jus à velha máxima, e apanhando a boleia disponível, a 4ª Internacional (em qualquer uma das suas inúmeras encarnações) não brinca em serviço

História do Irão
Homens praticando sexo anal (pintura do império Persa Safavid, 1501 - 1736)
 

Bob Dylan & The Band  – "Forever Young" | The Last Waltz (1976) 

(sequência daqui) The Last Waltz parte de uma premissa diferente, mas igualmente ambiciosa. A música da Band exigia ser escutada e analisada sob o vasto pano de fundo da História americana — não por acaso, foi Martin Scorsese quem realizou o filme. A música do grupo era feita da mesma matéria das ficções do realizador. Desde as suas origens, no final dos anos 50, quando quatro canadianos e um americano se reuniram sob o nome The Hawks para acompanhar o rock’n’roller do Arkansas, Ronnie Hawkins, transportavam consigo “os blues, o jazz, o country & western e uma multidão de verdadeiros heróis do rock’n’roll que haviam absorvido ao longo das estradas americanas”, como escreveu Greil Marcus. O filme regista o concerto realizado a 25 de novembro de 1976 no Winterland Ballroom, em São Francisco, anunciado como a despedida da Band. Perante cerca de 5000 espectadores, o grupo partilhou o palco com convidados como Bob Dylan (com quem convivera durante a gravação das célebres Basement Tapes, 1975), Joni Mitchell, Van Morrison e Neil Young, entre outros. Scorsese transformou as filmagens num documentário de 116 minutos que é muito mais do que o registo de um concerto: é um retrato da Band e, através dela, de uma América musical, cultural e histórica. (segue para aqui)

22 September 2026

 

Dylan/Don't Look Back - trailer with D.A. Pennebaker commentary

(sequência daqui) A importância fundadora de Don’t Look Back não termina aí. Articulando procedimentos do cinéma vérité com o acompanhamento quase quotidiano de uma das maiores figuras da cultura pop, foi o primeiro grande documentário pop/rock, antecedendo outros trabalhos de Pennebaker, como Monterey Pop (1968). O filme reúne ainda uma sucessão de momentos memoráveis: as arrasadoras sessões de humilhação de jornalistas, as sequências dos concertos, o achincalhamento de Donovan, então promovido a “novo Bob Dylan”, e momentos privados, como Joan Baez interpretando "Percy’s Song" e "Love Is Just a Four Letter Word" enquanto Dylan escreve concentradamente à máquina. Na versão comentada do DVD de Don’t Look Back, Pennebaker explica os propósitos que o orientaram: “Não queria um simples concert-film. Cada concerto foi filmado com uma única câmara, sem preocupação em obter material para posterior montagem, e por vezes a película chegava ao fim a meio de uma canção". O realizador queria que o público pudesse “ver para lá da música”. Por isso, acompanhou Dylan nos vários momentos do dia que antecediam os concertos, procurando mostrar também “o responsável por ela”. (segue para aqui)
Jorge Palma (1950-2026)
 
+ Edit (18:08) - O Estado das Coisas:
(daqui; clicar na imagem para ampliar)

20 September 2026

Revisões da matéria dada (LX)

 No 3º e último dia das eleições parlamentares na Rússia, reposição do label  

"Pussy Riot" (148 posts)


19 September 2026

18 September 2026

OLHAR PARA TRÁS (OUTRA VEZ) 

Durante os dois próximos fins de semana, o Grande Auditório da Fundação Gulbenkian acolherá um ciclo de cinema que, entre o documentário, o musical e o videoclip, ensaia diferentes formas de cruzar música, arte, cultura popular e vanguardas artísticas. Para o abrir, dificilmente haveria melhor exemplo do que Don’t Look Back (que também dá o título ao ciclo), o filme de D. A. Pennebaker sobre a digressão britânica de Bob Dylan, em 1965. Pennebaker, provavelmente sem sequer o suspeitar, faria história logo nos primeiros 2’10”: ao som de "Subterranean Homesick Blues", (ver aqui também) numa rua de edifícios em obras, Dylan exibe e deixa cair, um a um, cartões com palavras e fragmentos manuscritos retirados do texto da canção. Com década e meia de antecedência, a sequência contém já os rudimentos da estética do videoclip, forma autónoma de micronarrativa audiovisual que só se consolidaria em 1981, com a MTV. A canção surgira em 1965 em Bringing It All Back Home, o álbum “escandaloso” no qual Dylan, acompanhado por uma banda eléctrica, abalou a ortodoxia folk. (daqui; segue para aqui)


17 September 2026

          STREET ART, GRAFFITI & ETC (CCCLIV)

Paris, França, 2026
  



 

"Materia 3"

(sequência daqui) Materia não se constroi em torno de clímaxes óbvios ou refrões instantaneamente memoráveis: uma primeira audição pode deixar a impressão de superfícies belas, mas enganosas; audições posteriores revelam quão cuidadosamente estas superfícies foram construídas. A mão de obra em acção era a mesma do álbum Something In The Room She Moves: Elizabeth Goodfellow, bateria, Devra Hoff baixo, Maia na flauta, Chris Speed no saxofone e no clarinete, Tashi Wada nos sintetizadores e Kenny Gilmore na coprodução, engenharia de som e mistura. As diversas peças começam a articular-se, e. ainda que aparentemente fragmentadas, vão revelando gradualmente uma intrincada arquitetura interna. Em última análise, Materia é um olhar curioso para o interior da oficina de uma das compositoras mais aventureiras da música contemporânea. Ao revelar o seu método e tratar as canções como conversas em curso, Holter cria uma obra complementar que se sustenta pelos seus próprios meios. É um disco no qual os fragmentos se transformam em novas formas, a experimentação permanece indissociável da emoção e até os mais pequenos gestos musicais podem conter mundos infinitos.

"The truth of things is not something I particularly like. I go more for a good story than what really happened. That's just the way I am. I'm a big liar"

13 September 2026

 
 
(sequência daqui) "My Lost One" é um conto popular inspirado em livros infantis com rimas assustadoras e sílabas sem sentido, árvores que crescem nas salas de estar e animais a fazer coisas vestidos", declarou Holter num comunicado de imprensa. "Imagino a vida selvagem a mudar-se para a minha casa. Penso num esquilo a cozinhar uma refeição no meu fogão. O que conspiramos e o que realmente ansiamos?" "My Twin", construída a partir de uma demo inédita, surge como um dos momentos mais profundamente comoventes do disco, ao longo do qual transformações subtis não dispensam uma atenção ao detalhe: ritmos, harmonias e motivos recorrentes revelam gradualmente ligações insuspeitas, conferindo ao que, inicialmente, parece difuso uma arquitectura interna cuidadosamente construída. (segue para aqui)

“'Regras claras' para proteger o lobo" 

STREET ART, GRAFFITI & ETC (CCCLII)

Paris, França, 2026