(sequência daqui) Agora, em Nowhere and Everywhere, sob a designação Unthank : Smith, uma escapada a duo com Paul Smith (dos não demasiado memoráveis Maxïmo Park) vigiada pela produção de David Brewis (Field Music), o argumento regionalista volta a emergir: “Eu vivo em Northumberland, já vivi em Newcastle e a minha família é de Teesside. O Paul vive em Newcastle mas é de Teesside. O David é de Sunderland. Mas não concebemos o álbum como obra de um triunvirato do Nordeste, foi apenas uma coisa bastante natural”. Smith alega que a aproximação à folk decorreu da descoberta da música de Martin Carthy, Karen Dalton, Nick Drake e Bert Jansch, e ambos, sem o terem planeado, foram achando um lugar comum para as vozes que, com o suporte do clarinete de Faye MacCalman e da percussão de Alex Neilson, sob a supervisão espartanamente minimalista de Brewis, se lançaram, de sotaques e dialectos locais orgulhosamente em riste (“Sentimos que era importante não adocicar as nossas vozes”, diz Rachel), sobre histórias e lendas de marinheiros, mineiros e lendários seres marinhos enfeitiçados.
A Frísia situa-se no extremo norte da Holanda e Dokkum no extremo norte da Frísia. Sobre a Frísia podemos saber que o idioma local é a língua continental mais próxima do Old English medieval e que foi nela que a holandesa Nynke Laverman – natural de Leeuwarden, na Frísia – gravou dois álbuns de fado. Acerca de Dokkum, é esta a altura certa para travarmos conhecimento com os prodigiosos Elias Elgersma (guitarra), Jaap Van der Velde (baixo) e Erik Woudwijk (bateria), aliás, The Homesick, três dos 12 500 habitantes da cidade onde São Bonifácio, no século VIII, após ter tentado em vão converter os frísios ao cristianismo, por mais que, segundo a lenda, se defendesse brandindo uma Bíblia, não evitou ser assassinado. Seria infinitamente justo que, a partir de agora, o mundo, em vez do bonifacial episódio, passasse a recordar-se de Dokkum pelos bravos feitos de Elgersma, Van der Velde e Woudwijk: The Big Exercise – segundo álbum do trio depois da estreia, Youth Hunt (2017) – é o tipo de proeza musical ao alcance de muito poucos.
Eles juram que não seriam o que são se não tivessem escutado Meredith Monk e Joan La Barbara e encaram o título do disco, retirado de uma passagem da biografia de Scott Walker, Deep Shade Of Blue, como uma vénia perante o mestre. Mas a verdade é que, neles, tudo soa muito mais a reinvenção e enérgica dilatação da veia sonora antes explorada pelos XTC, Wire, Animal Collective e Field Music: o microscópico trabalho de relojoaria das guinadas harmónicas, rítmicas e melódicas, o enlace e desenlace de nós cegos, da estridência para o pós-punk de câmara, as piruetas dos hoquetus vocais para os vertiginosos riffs em movimento circular, o pano de fundo tão barrocamente exuberante quanto disciplinadamente austero, o incansável dínamo da bateria de Woudwijk, tudo aponta nesse sentido. Ou, então, como eles dizem, será apenas uma questão de conduzir o experimentalismo tão longe quanto possível, camuflado sob a aparência de subordinação aos protocolos pop. Que continuem a fazê-lo por muito tempo.
Pelo menos desde o início deste milénio, o mundo teve já várias oportunidades de travar conhecimento com os "bons mots" oriundos da escola de pensamento presidencial norte-americana. Primeiro, via George W. Bush, coligido por Jacob Weisberg nos 5 preciosos volumes de George W. Bushisms: The Slate Book of Accidental Wit and Wisdom of Our 43rd President. Depois, Pieces of Intelligence: The Existential Poetry of Donald H. Rumsfeld (2009), no qual Hart Seely revela a poesia oculta nas declarações do Secretário de Estado da Defesa do acima referido W (“As we know, there are known knowns. There are things we know we know. We also know there are known unknowns. That is to say we know there are some things we do not know”), aliás, musicada pelo compositor Bryant Kong. Por fim, I Hope Like Heck: The Selected Poems of Sarah Palin (2011), antologia de 50 "found poems" extraídos por Michael Solomon dos emails da ex-candidata à vice-presidência, de quem, Jacob Weisberg também já publicara Palinisms: The Accidental Wit and Wisdom of Sarah Palin (2010).
Nunca estaríamos, porém, preparados para que aquela profecia visual de Banksy em que um chimpanzé exibe um cartaz onde se lê “Laugh now but one day we’ll be in charge” se realizasse tão cedo, a 8 de Novembro de 2016. Três anos depois, não é de espantar que já existam 3 volumes de Trumpisms Day-to-Day Calendar: The Boasts, Barbs, and Bizarre Musings of the 45th President compilados por Andrews McMeel, os 11 minutos de "grindcore" de The First 100 Songs, dos Anal Trump (100 canções com a duração média de 6,6 segundos, “from the point of view of the asshole”, isto é, o único texto são trumpismos avulsos) e, agora, 45, da School of Language, actividade extra-curricular de David Brewis, metade dos óptimos Field Music. Inspirado por Fear (a aterradora visão dos bastidores da Casa Branca), de Bob Woodward, artigos da imprensa americana, e por James Brown, Prince, Sly & the Family Stone, The Meters, Otis Redding e Free, este “Donald Trump funk musical” é um exercício entre o cómico e o deprimente sobre a fanfarronice bronca do 45º presidente dos EUA, segundo o próprio e vários elementos do gang de meliantes que o rodeia. "Nobody Knows" (“Nobody respects women like I do”) poderia ser uma esclarecedora síntese mas o refrão de "Rex" – pela voz do despedido Secretário de Estado, Rex Tillerson – põe todos os pontos claramente nos “i”: “I didn’t say he was a moron, I said he was a fucking moron!”
Imagine-se uma gigantesca orgia em que participariam os Talking Heads, Peter Gabriel (pré-"world music"), XTC, Prince, Squeeze, Van Dyke Parks, Robert Fripp, os Neptunes, Nile Rogers, Gang of Four e Prefab Sprout, organizada pelos irmãos Peter e David Brewis (aliás, Field Music). Eles desejariam ter também convidado Stravinsky, Thelonious Monk, Serge Gainsbourg, os Roxy Music, Beatles, The Left Banke e The Band mas, por motivos devidamente justificados, nenhum destes pôde comparecer. O programa obrigatório consistiria de uma rigorosa execução colectiva da totalidade das posições do Kama Sutra, acrescidas daquelas inúmeras variantes acrobáticas introduzidas pelo Divino Marquês. Os orgasmos, a acontecerem, porém, teriam de ser puramente cerebrais. Não em consequência de um pré-conceito tântrico ou taoista mas, sim, exclusivamente musical. Na ausência de confirmação ou desmentido oficiais, não será demasiado especulativo supor que, daí, teria resultado Commontime, registo da intrincada geometria sonora que tais coreografias haveriam de segregar.
Aparentemente e contra todas as probabilidades, tal estratégia destinar-se-ia a tornar o sexto álbum dos Brewises – publicado quatro anos após o imaculado Plumb - mais… err… acessível (“I am okay with the word ‘accessible’” diria o Brewis, David): em vez dos habituais labirintos rítmicos, a reconfortante vulgaridade do "common time" (o banalíssimo quaternário da silva); no lugar de uma variante civilizadamente contemporânea do prog, o pezinho erudito a fugir para a chinela pop. Deverá, então, dizer-se que, nessa exacta medida, Commontime é um glorioso fracasso. É verdade que, embora continuem a predominar os deleites do pescoço para cima, aqui e ali, vai-se sentindo, agora, também, qualquer coisinha funk da cintura para baixo. Mas, de um modo geral, é (felizmente) impossível dizer que os moços se esquivaram a incluir um solo razoavelmente atonal de sax na quase "crowd pleaser", "The Noisy Days Are Over”, que a arquitectura maniacamente detalhada de "Trouble At The Lights" é coisa para ser digerida de uma vez só, que os arranjos, simultaneamente económicos e expansivos do Crude Tarmac String Quartet são matéria óbvia ou que a pasmaceira metronómica tomou o poder. Era só que faltava.
07 March 2016
Field Music - "Let's Write A Book"
31 December 2012
MÚSICA 2012 - INTERNACIONAL (II) (iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)
Não será particularmente arguto mas também não é indesculpavelmente idiota estabelecer alguma distinção entre aqueles tipos de música que nos afectam, predominantemente, do pescoço para cima ou da cintura para baixo (deixemos, por agora, de lado aquela zona que o capitão Renault, de Casablanca, quando lhe apontavam uma arma ao peito, designava como “o meu ponto menos vulnerável”). Existe, evidentemente, a que consegue carregar-nos nos botões certos de ambas as áreas e não é impossível que seja a mais estimável, apesar de esta ser matéria acerca da qual convém manter dúvidas e incertezas. Mas, concentrando-nos nos Grizzly Bear, não se há-de arriscar muito ao declarar que, na sua música – pelo menos, desde Veckatimest (2009) –, o que mais seduz é a intrincada inteligência da arquitectura de cada peça que, laboriosamente, edificam. Qualquer coisa (em não tão grandioso, claro) como o devastador orgasmo
mental que Andrew Wiles terá experimentado ao conseguir, por fim,
demonstrar o último teorema de Fermat.
A proeza dos Bear é, essencialmente, a de (como, por exemplo, também sucede com os Field Music ou Dirty Projectors) terem sido capazes de estabelecer, para além de todas as dúvidas razoáveis de uma severa "peer review", que, na linha evolutiva da música do século XX, o prog-rock não desembocou, irremediavelmente, nem beco sem saída: sim, é possível recusar o juramento-de-sangue punk e não acabar a tocar os Brandeburgueses para banda rock com a Filarmónica de Swindon. Shields – admirável pop em ocasional modo Nietzsche-zen (“No wrong or right, just do whatever you like”), tapeçaria de distorção psicadélica em harmonioso matrimónio com sinfonismo "à la" Van Dyke Parks, enoismos incidentais e sofisticação harmónica jazzy – é apenas mais uma eloquente prova disso.
19 August 2012
ÁGUA E AZEITE
Dirty Projectors - Swing
Lo Magellan
David Longstreth é o tipo que, como quem
fala do tempo, explica que a súbita aparição orquestral a meio de "Dance For
You" é apenas ele “a tentar compreender como raio o Ligeti, em Atmosphères,
conseguiu extrair aquelas texturas insanas e futuristas de uma orquestra
igualzinha às do século XIX”. E que, a seguir, revela que vêna ponte de "About To Die" “uma pobre filha
bastarda de Verklärte Nacht, do Schoenberg”, através da qual procurou atingir
a mesma sensação “macabra, mórbida e aterradora” para que também Monster, de
Kanye West, e Thriller, de Michael Jackson, contribuiram enquanto
catalizadores. Ah, e ainda em "Dance For You", a guitarra e as cordas têm uma
dívida a pagar a "Mambo Sun", dos T. Rex. Para não falar da conta calada que
deverão somar os empréstimos pedidos aos Run DMC, NWA ("Gun Has No Trigger"),
Nirvana e Lil Wayne ("Offspring Are Blank"), Peter, Paul & Mary ("Just From Chevron") e Neil Young ("Irresponsible Tune"). Estamos,
então, perante o quase perfeito protótipo de banda retromaníaca de que falava
Simon Reynolds?
Errado. Erradíssimo. Embora de forma
completamente diferente, poderá tratar-se, sim, de caso idêntico ao dos Field
Music: outro exemplo acabado de que a aventura prog não devia, inevitavelmente, ter acabado em tragédia. Só mais uma
espreitadela pelo buraco da fechadura do cérebro de Longstreth: em Abril
passado, na página online da Brown
University, de Providence, descobria-se que, a pedido de David Longstreth,
Willis Monroe e Zack Wainer, estudantes de Assiriologia, se haviam dedicado a
traduzir "Gun Has No Trigger" para acadiano, tendo Monroe gravado o texto em
escrita cuneiforme. Qual a razão? Exactamente a mesma que para o "cameo" de Ligeti em "Dance For You":
“Tenho uma enorme curiosidade em relação a imensas coisas. Sou um estudante. E
intriga-me o problema e a dificuldade da tradução para idiomas que não existiam
há milhares de anos”.
Chegámos ao ponto: aquilo de que a música
dos Dirty Projectors se ocupa é de, sob um ângulo que tem tanto de calculado
como de "stream of consciousness" – nas
melodias, nos textos, nos arranjos, na instrumentação –, traduzir para uma
linguagem ainda sem nome, inúmeros fragmentos da história sonora (mais ou
menos) recente, apostando tudo no que, por aí, se ganha e se perde, autorizando
e encorajando uma estratégia de construir edifícios aparentemente destinados ao
colapso. Como quem insiste em misturar água e azeite... e consegue. Poderia ser
outra qualquer mas a pérola "See What She Seeing" é assaz esclarecedora:
burburinho rítmico de "drum’n’bass" de
vão de escada (na verdade, caixa de guitarra acústica percutida) para um lado,
voz solista e coros daquele recorte “africano” que Paul Simon e os Vampire
Weekend preferem para outro, riff curvo para cima, secção de cordas para baixo,
e, algures, ninguém será capaz de garantir exactamente onde, aparece uma
canção. Sem esforço evidente, o fulano que escutava os álbuns dos Beatles,
primeiro, na coluna direita e, depois, na esquerda, e mais óbvio candidato a
Zappa contemporâneo com sensibilidade pop (não excluir, à cautela, a hipótese tUnE-yArDs),
salta do "high life" para o
psicadelismo à la Jefferson Airplane,
de "Strawberry Fields" para “the kind of silence that can swallow sound”, do
esgotamento nervoso sónico para erráticas canções-origami e, no processo
comandado por uma ideia – “You’d see a million colours if you really looked” –,
após o já magnífico Bitte Orca (2009), inventa
música como nunca antes a havíamos ouvido.
13 July 2012
SINFONIETAS DE BOLSO
Field Music - Plumb
O mundo pop divide-se em duas partes:
aquela que é habitada pelas bandas e músicos que, durante uma temporada,
engarrafam todas as vias de acesso da imprensa, da rádio e da Internet, para,
na temporada seguinte, recolherem de novo à inexistência; e a outra onde, sem
nunca, verdadeiramente, gozarem do bronzeado do "hype", alguns se aplicam a escavar uma galeria de túneis na
qual vão acolhendo a pequena mas – eventualmente – crescente seita de fiéis que
lhes presta culto. Refeitas as contas, existirá, talvez, uma terceira parte
mas, porque essa é sobejamente conhecida, não autorizemos que, agora, nos
desconcentre do essencial. Que é Plumb, dos Field Music (inamovíveis cidadãos
da segunda metade do mundo), e mais recente demonstração do que o prog-rock poderia ter sido se,
realmente, tivesse corrido bem.
E que se deixa, facilmente, sintetizar numa
frase de "(I Keep Thinking About) A New Thing": “I don’t want to simplify it,
eloquence is overrated”. Exactamente: se, em cada canção de Plumb, existe um
número de ideias e pontos de vista (melódicos, rítmicos, tímbricos e
harmónicos) vastamente superior aquele sobre o qual muitos edificariam uma
discografia inteira, de um total de quinze, dez não atingem os três minutos, o
grande épico ("A New Town") queda-se pelos 3’58” e o álbum integral não avança
para lá dos 35'. Coisa precisamente no polo oposto do anterior – Field Music
(Measure), 2010 - que, em formato duplo, ia além de uma gloriosíssima hora. Não
simplificar nem carregar na verborreia. Ou experimentar uma de cada vez.
Rapidamente. Como Brian Wilson, modularmente, em Smile, santo padroeiro de
Peter e David Brewis, neste comboio de assimétricas sinfonietas de bolso.
Duvido muito que, se o começarem a escutar agora, no final do ano, o tenham já
decifrado por completo.
02 January 2011
MÚSICA 2010 - INTERNACIONAL (III) (iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)
Não existiu, de certeza, um único ano na ainda curta história da música gravada (pouco mais de um século) acerca do qual se pudesse garantir que seria impossível seleccionar, pelo menos, dez discos capazes de permanecer longamente na memória. E, ainda que, no grande plano cósmico para a música das esferas, não assinalassem nenhum momento particularmente significativo, deles houve sempre matéria sonora suficientemente estimulante a retirar para a lubrificação do canal auditivo. 2010 deixa-se, facilmente, arrumar nesta última categoria despretensiosa mas decente e honesta. O que, se repararmos que, no top-10, poderiam também ter figurado, sem cunhas, The Divine Comedy, Johnny Flynn, Elvis Costello, The Magnetic Fields, Efterklang, The Walkmen, Fanfarlo ou Bonnie “Prince” Billy, ajuda a compreender como, com crises ou sem crises, a música é sempre uma fonte de energia renovável.
*a ordem é razoavelmente arbitrária...
(2011)
23 February 2010
FIELD MUSIC - "YOU'RE NOT SUPPOSED"
(2010)
17 February 2010
DIGESTÃO ERUDITA
Field Music - (Measure)
É praticamente impossível acreditar que chegará um dia em que, de vez, a pop terá esgotado todos os seus recursos e não lhe restará senão repetir-se aborrecida e infinitamente. Porque, às periódicas temporadas de desalento – quando bandas e indústria parecem conspirar em conjunto para não oferecer senão "new waves" de "new waves" de outras "new waves" –, acabam sempre por suceder épocas de descoberta e surpresas.
As melhores são como este (Measure), dos Field Music, coisa tipo-out of nowhere (apesar dos anteriores Field Music, de 2005, e Tones Of Town, 2007): um genuíno tratado de erudição pop em formato duplo, situado no lugar onde, hoje, se poderia relocalizar aquele instante imediatamente anterior ao parto do prog-rock, para onde confluem (pausa para inspiração) os Led Zeppelin, Beatles, Zombies, XTC, Kinks, John Cage, Bela Bartók, Prince, ELO, Erik Satie, Brian Eno, CSN&Y, Blue Nile, Pierre Schaeffer, Roxy Music, Penguin Cafe Orchestra e, se quiséssemos ser verdadeiramente exaustivos, mais todo o resto que ocuparia a totalidade desta página. Integral e genialmente digerido e reconfigurado.