16 January 2019

A sociedade dividida em classes 
(até na pildra)

... e a imprensa "de referência" não desiste de promover tudo o que é trafulhice Karambista...
Vera Sola - "Skulls"  
(Misfits)

O Botas era junkie
 
"... estou a ver tudo turvo..."
Is Donald Trump Working For Russia?

15 January 2019

Charles Ives - "Three Places in New England" (Ensemble Intercontemporain)

VINTAGE (CDLII)

Art of Noise - "Opus 4"

DÓ MAIOR


Em O Resto é Ruído, Alex Ross conta que, fugindo ao regime nazi (que considerava a sua música “degenerada”) e emigrado nos EUA desde 1934, Arnold Schoenberg, a partir de determinado momento, “passou por aquilo a que chamou um ‘arrebatamento do desejo da tonalidade’. (...) Como professor, manteve-se muito rigoroso e exigente, mas não impunha os seus métodos aos alunos da UCLA. Ao louvar a arte sinfónica tonal de Sibelius e Shostakovich, que poderia esperar-se que deplorasse, provocava dúvidas. Quando um dos alunos começou a atacar Shostakovich, Schoenberg mandou-o calar e disse: ‘Esse homem é um compositor nato’. Uma ou duas vezes apanhou a turma de surpresa ao anunciar que ‘ainda falta escrever muito boa música em Dó maior’”. Por outras palavras, o compositor que – com Alban Berg e Anton Webern – desarticulara o sistema das hierarquias tonais que caracterizava toda a música erudita europeia anterior e a conduzira pelas vias do atonalismo e do serialismo dodecafónico, não era, afinal, visceralmente avesso a uma linguagem sonora mais tradicional. 


No último número da “Mojo”, o tema volta duas vezes â baila pelos mais improváveis atalhos. Em entrevista a Paddy McAloon (Prefab Sprout) a propósito da reedição de I Trawl The Megahertz (2003) – na qual este revela que Cinqué Lee, irmão de Spike Lee, pretende realizar um filme musical baseado nas canções dos Sprout –, a certa altura, McAloon explica que, desde o início, tinha gostos musicais muito amplos: “Recordo-me de comprar, aqui em Durham, o Pássaro de Fogo, de Stravinsky, que imaginava ser algo que os Television poderiam ter feito”. E associava isso a uma incapacidade natural para “escrever uma canção convincente utilizando ferramentas tão básicas como os acordes de Dó, Fá e Sol 7. Se escutarem ‘I Never Play Basketball Now’ (de Swoon, 1984), descobrem 50 ou 60 formas diferentes". Em síntese, “o mais difícil para mim sempre foi e continua a ser – embora já não tanto – repousar sobre um acorde de Dó maior”. Meia dúzia de páginas antes, num perfil de Trevor Horn – “the man who invented the eighties", fundador da ZTT Records, co-criador dos Art Of Noise, produtor de Malcolm McLaren e de Frankie Goes To Hollywood –, ele confessa que, quando morrer, embora não seja capaz de adivinhar como será o Além, “se tiver de ir para algum lado, gostaria de ficar a viver num acorde de Dó maior de sétima, algures. Parece-me um sítio agradável”. Que é como quem diz, um porto de abrigo seguro faz sempre falta.

08 January 2019

(mark my words): quantos anos faltarão até que os telejornais abram com as escandalosas notícias da Operação Ícaro e das primeiras detenções com ela relacionadas?

Darren Hayman - Nether Kellet, Lancashire (Thankful Villages/XXXI)
 
O MUNDO A ARDER

  
“‘The Colony’ é a história da América cantada sob a perspectiva da consciência colectiva colonial branca. Os coros funcionam como contraponto à voz principal: um coro de gente que sofreu e continua a sofrer às mãos do invasor e opressor. Vozes despojadas de linguagem e reduzidas a uivar, relegadas para um segundo plano, mas constituindo, ainda assim, os alicerces da canção e, por extensão metafórica, deste país. Trata-se, evidentemente, de uma acusação e de um hino à terra e ao povo”, diz Vera Sola, a propósito da canção que escreveu após ter participado nos protestos de Standing Rock contra a construção de um "pipeline", perigosamente próximo das águas do Missouri que abastecem a reserva índia Sioux local e que profana diversos lugares sagrados da comunidade. “I found myself a new world, sailed around its ring, I wrought myself a country and I crowned myself its king (…), I clawed myself a nation and I’ve shopped its waterways, I crack the dirt for smoking out rhymes of energy, I gouge myself a pipeline and I dig myself a mine” é a transcrição poética desse protesto que surge como segunda faixa de Shades, álbum de estreia de Vera Sola (alias, Danielle Aykroyd, filha do actor Dan Aykroyd). 


O estado de espírito que o atravessa é de intranquila emergência – “Qualquer pessoa sensível, neste clima político, sente-se obrigada a falar. Se não o fizermos, é uma pústula que alastrará e acabará por nos matar. Se o mundo está a arder – e está –, o que temos a perder?” – mas o leque conceptual da ex-estudante de dança e piano, licenciada em literatura por Harvard, é mais vasto: “Esta é uma colecção de histórias diferentes acerca da ideia de assombração: uma relação em ruínas, um genocídio, uma série de mensagens num telemóvel, um insecto, uma extinção, uma ira, um arrependimento. Uma decadência opulenta. A degradação que decorre do poder da tecnologia e a solidão de tudo isso”. Algures entre uma folk gótica, a sombra de Leonard Cohen e uma moderna imponderabilidade que tanto poderá fazer pensar em Nico como nos Portishead hipoteticamente compondo para PJ Harvey num filme de David Lynch, é fácil entrar mas quase impossível sair destas litanias “for the lovers, for the killers, for the liars” capazes de nos fazer testemunhas da invectiva de Eva a Adão: “I am a fraction of, I am subtracted from, I am you, your derivation, I am the absence of, I am the great big hole, I am the sin dark dove, I am the dust-wrought second one”.

07 January 2019

Sempre uma inesgotável fonte de notícias, os mórmons (não esquecer: tão cristãos como os outros *, só um bocadinho mais pitorescos)


* isto é, nem a Vaticano S.A. nem quaisquer outras seitas afins são fundamentalmente diferentes
VINTAGE (CDXLVII)

The Kinks "In Koncert" (1973)

Vera Sola - "Small Minds"

"Não convidar um criminoso nazi e racista para fazer a apologia dos seus crimes e incentivar ao ódio racial, com o objetivo de levar outros a praticar crimes semelhantes é uma questão de liberdade de expressão ou de 'politicamente correto'? (...) Este é tanto um caso de liberdade de expressão como abrir-se um restaurante onde se ocultam cacos de vidro na sopa seria um caso de liberdade de estabelecimento comercial. Ou seja, não é de todo" (RT)

04 January 2019

"Que país do mundo tem Justiça do Trabalho?", pergunta o ignaro Fachonaro - pelo menos, estes (e a lista está incompleta, no mínimo, falta Portugal); mas, claro que, com o regresso da escravatura, tudo seria muito mais simples
(vendo bem, é apenas mais um querido maninho

"Se o canal apresentasse um veneno como se fosse uma bebida natural consideraríamos certamente que havia uma responsabilidade moral no caso de essa decisão resultar indiretamente no envenenamento de alguém. Como pode a TVI eximir-se de responsabilidade moral ao apresentar um criminoso racista como alguém que vale a pena ouvir sobre se precisamos de um novo ditador em Portugal?" (RT)
Bob Dylan - "You're Gonna Make Me Lonesome When You Go"

Ó santinha, tens de ir a correr avisar a gaja do imaculado pipi que "menino veste azul e menina veste rosa"!

01 January 2019

UM MUNDO EM FUGA


Beneficiando do poderoso impulso do annus mirabilis anterior, em 1968 o pop/rock continuou a ampliar limites e a fazer explodir fronteiras: White Light/White Heat (Velvet Underground), The United States of America (da banda homónima, de Joseph Byrd), A Saucerful Of Secrets (Pink Floyd), Anthem of The Sun (Grateful Dead), Odessey And Oracle (The Zombies), Mass In F Minor (The Electric Prunes), Electric Ladyland (Jimi Hendrix) e o sublime Astral Weeks (Van Morrison), foram todos publicados durante esses 12 meses em que a música manteve o ímpeto adquirido de voar sempre mais alto e mais longe. Justamente o momento escolhido por Ray Davies e os Kinks para se entregarem à confecção de um ciclo de canções dedicado à celebração nostálgica de uma Olde England paroquial, proletária e acossada pelo mundo moderno, The Kinks Are The Village Green Preservation Society. “Não vi o futuro mas suspeitava do que iria acontecer. Era acerca do tempo que fugia para a nossa sociedade e para um modo de vida que estava a chegar ao fim. Nesse momento da nossa triunfante entrada na Europa, apercebi-me de que algo iria acabar”, diz, hoje, Ray Davies à “Record Collector”, a propósito de "Time Song", uma canção concebida para Village Green – e agora incluída na reedição em "deluxe" e "super deluxe box" – mas que só seria estreada em Janeiro de 73, num concerto no Theatre Royal de Drury Lane, festejando a entrada do Reino Unido no Mercado Comum.  



Village Green era sobre uma Grã Bretanha que recusava despir-se do velho colonialismo. Foram necessárias mais algumas décadas para que se desmoronasse. Até chegarmos ao ponto em que estamos, uma altura muito apropriada para republicar o álbum”. Na verdade, nada melhor do que o desorientado UK do Brexit para reavaliar estes instantâneos de um mundo em extinção que Davies – qual Tati britânico – vinha registando desde "Autumn Almanac", "Dead End Street" ou "A Well Respected Man". Lá fora, "the times" poderiam estar "a-changin’" mas, almofadado pelas belíssimas melodias de Ray, o que se descobria era um manifesto em defesa do passado (“God save strawberry jam and all the different varieties (…) We are the Office Block Persecution Affinity, God save little shops, china cups, and virginity, God save tudor houses, antique tables and billiards”), uma colecção de instantâneos desbotados que, na última linha da última faixa ("People Take Pictures Of Each Other”), suplica “How I love things as they used to be, don't show me no more, please”.

2019