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05 January 2017

Andrew Bird on his newest record, Are You Serious, and his evolving creative process


28 December 2016

O FUNDO DO COPO


O luxuoso Dorchester, com vista sobre Hyde Park, foi o hotel escolhido por David Bowie para, no domingo 16 de Julho de 1972, acolher dezenas de jornalistas americanos a quem iria apresentar Ziggy Stardust And The Spiders From Mars. Lou Reed (de unhas "bordeaux" e óculos escuros) e Iggy Pop (cabelo prateado, olhos pintados e t-shirt dos T. Rex) estavam presentes. E, conta Simon Reynolds em Shock And Awe: Glam Rock And Its Legacy (arrume-se já o assunto: ensaio pop do ano), Bowie, dirigindo-se aos convidados, declarou: “Pessoas como o Lou Reed e eu anunciam, provavelmente, o fim de uma era... e digo isto, catastroficamente. Qualquer sociedade que deixa à solta gente como nós está seriamente perdida. Somos ambos muito confusos, paranóicos, absolutos desastres ambulantes. Se somos a vanguarda de alguma coisa, não somos necessariamente a vanguarda de algo bom”. A 8 de Janeiro de 2016 – data do seu 69º aniversário e antepenúltimo dia de vida – David Bowie oferecia ao mundo uma derradeira Estrela Negra. Mas não suficientemente negra. You Want It Darker, murmurou Leonard Cohen, duas semanas antes de recusar ser testemunha do que, há muito previra (“I've seen the future, brother: it is murder”): no dia seguinte a ter “saído de jogo”, o planeta – seriamente perdido, sim – dava-se conta de que um candidato apoiado pelo Ku Klux Klan e pronto a partilhar o saque com um tirânico ex-director do KGB chegara à presidência dos EUA.


Em “30 Days 30 Songs” (que cresceria até “30 Days 50 Songs”), um site independente que, na qualidade de “artists for a Trump-free America”, entre 10 de Outubro e 8 de Novembro, juntou R.E.M., Franz Ferdinand, Aimee Mann, Andrew Bird, Moby, Lila Downs, Matt Berninger, Mirah, Ani Di Franco, Bob Mould e diversos outros, dispararam-se rajadas de agit-prop musical contra o Orange Clown e Michael Stipe espumou de fúria a propósito da utilização de "It’s the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)" num comício de Trump (“Go fuck yourselves, you sad, attention-grabbing, power-hungry little men. Do not use our music or my voice for your moronic charade of a campaign”), tal como fariam os Rolling Stones, Neil Young e Aerosmith. No centenário do Manifesto Dada, filho natural da Primeira Grande Guerra, e nos 40 anos do punk (a cujas relíquias, avaliadas em 5 milhóes de libras, o filho de Malcolm McLaren lançou fogo, em protesto contra a sua mumificação institucionalizada no UK do Brexit), nada impediria a História de, uma vez mais, recuar vertiginosamente.


Talvez não seja motivo para, nos EUA, voltar a cantar-se já, já, "Strange Fruit". Mas a crua reportagem de PJ Harvey por alguns dos lugares da peste contemporânea (Afeganistão, Kosovo, os bairros esquálidos da periferia de Washington D.C.) em paralelo com a metralha de videos de pesadelo de Nadya Tolokonnikova/Pussy Riot ("Chaika"/"Straight Outta Vagina"/"Organs"/"Make America Great Again") deixam adivinhar o renascimento de uma contracultura de protesto. E, é verdade, o artista anteriormente conhecido como um impronunciável "Love Symbol" regressou à condição do confirmadamente mortal Prince Rogers Nelson. E, valha-nos isso, Dylan ganhou o Nobel. E, tudo bem medido e avaliado, parece que, afinal, 2016 não terá sido o pior ano de sempre. Que nunca venhamos a ter saudades dele. Porque não se trata de saber se estava meio cheio ou meio vazio mas, sim, se o fundo do copo está furado ou não.

28 June 2016

A LIBERDADE ILUMINANDO O MUNDO


Pedro vive com 9 irmãos numa espelunca de paredes de cartão e janelas sem vidros onde o pai o espanca se ele se atreve a dizer que está cansado demais para mendigar. Pedro sonha com o dia em que será capaz de matar o velho e dedicar-se ao “dealing on the dirty boulevard”. Do outro lado, no Lincoln Center, estreia uma ópera à qual as “movie stars arrive by limousine” mas “the lights are out on the mean streets, a small kid stands by the Lincoln Tunnel selling plastic roses for a buck” e “the tv whores are calling the cops out for a suck”. E, como um fantasma cruel que paira sobre o "Dirty Boulevard" da New York (1989), de Lou Reed, escutam-se as palavras “Give me your hungry, your tired, your poor, I'll piss on 'em, that's what the Statue of Bigotry says, your poor huddled masses, let's club 'em to death and get it over with and just dump 'em on the boulevard”. Se, hoje, fosse viva, Emma Lazarus arrepiar-se-ia ao dar-se conta de como a História e o tempo obrigaram a que o seu poema, “The New Colossus”, fosse, inevitavelmente, desfigurado. Tradutora e poetisa, filha de emigrantes judeus sefarditas-ashkenazi de origem portuguesa e alemã, Emma escreveu em 1883 esse soneto com o objectivo de angariar fundos para a construção do pedestal da estátua da Liberdade, na Liberty Island, no porto de Nova Iorque.


Dedicava-se, por essa altura, ao auxílio a refugiados judeus em fuga dos "pogroms" anti-semitas na Europa de Leste. A eles dirigiu as palavras dos cinco versos finais do soneto que acabaria inscrito numa placa, na base da estátua: “Give me your tired, your poor, your huddled masses yearning to breathe free, the wretched refuse of your teeming shore. Send these, the homeless, tempest-tost to me, I lift my lamp beside the golden door!”. Irving Berlin adaptou excertos do poema no "musical" Miss Liberty (1949), no cinema, surgiria em Hold Back the Dawn (1941), um ano depois, em Saboteur, de Alfred Hitchcock, e, recitado em português, em Cristóvão Colombo – O Enigma (2007), de Manoel de Oliveira. Quando Lou Reed o repescou para "Dirty Boulevard", o acolhimento que os EUA de Ronald Reagan ofereciam às “tired, poor, huddled masses” estaria longe de ser exemplar mas seriam precisas quase três décadas até se atingir o grau supremo de selvajaria de que Donald Trump é o arauto. E, uma vez mais, “The New Colossus” foi chamado ao debate, pela mão de Andrew Bird. Em "Saints Preservus", do recente Are You Serious, acidamente, apela: “Bring me your poor and your trembling masses, bring them here, to shelter in your substructure parking lot”.

22 June 2016

AFINAL, NÃO É ESTRANHO

  
Primeiro, escuta-se uma "bent note" tocada no "gopichand" – um instrumento asiático de uma só corda – que, sem que nos apercebamos, se transforma em uivo de lobo. Após dez segundos de uma intrincada teia de universos rítmicos sobrepostos (que persistirá e se adensará até ao final), a voz canta: “Milwaukee man led a fairly decent life, made a fairly decent living, had a fairly decent wife, she killed him… ahhh, sushi knife, now they’re shopping for a fairly decent afterlife... the werewolf is coming”. E, alçada nessa metáfora do lobisomem, enquanto sopros, percussões e electrónica se preparam para ceder o lugar aos acordes de um orgão de "horror movie", mostra-nos o fim do mundo: “Life is a lottery, a lot of people lose, and the winners, the grinners, with money-colored eyes, eat all the nuggets, then they order extra fries (...) You’d better stock up on water, canned-goods off the shelves, and loot some for the old folks, can’t loot for themselves”. Acabámos de escutar o tipo que, há quase meio século, escreveu “Can you imagine us, years from today, sharing a park bench quietly? How terribly strange to be seventy”


Afinal, não tem nada de estranho e, à beira dos 75 anos, Paul Simon (ele, perante quem Andrew Bird, Vampire Weekend, Dirty Projectors e Merrill Garbus/tUnE-yArDs ajoelham), muito longe de enganar as horas em bancos de jardim, ocupou-se a criar um dos mais ricos e audaciosos álbuns da sua discografia. A companhia (Nico Muhly, yMusic, Jack DeJohnette, Vincent Nguini, Cristiano Crisci/Clap! Clap!) foi inspiradora e as fontes de alimentação (Harry Partch, Laurie Anderson, a história e a política americanas) suficientemente estimulantes para que Stranger To Stranger se deixasse construir enquanto assombroso objecto multifacetado que tanto devora um "sample" do Golden Gate Quartet e compõe em torno dele como autoriza que uma balada sofisticadamente simoniana seja amavelmente trespassada pelos "cloud chamber bowls", "chromelodeons" e "zoomoozophones" de Partch. Apontado à terra (“The riots started slowly with the homeless and the lowly, then they spread into the heartland”) ou ao imaginário Além (“God goes fishing, and we are the fishes, he baits his lines with prayers and wishes”) mas com destinatários bem identificados: “I make my verse for the universe and my rhyme for the universities”.

15 June 2016

NÃO FICÇÃO

   
“Used to be so wilfully obtuse, or is the word abstruse? Semantics like a noose, get out your dictionaries, I’m gonna cut to the quick, this is all non-fiction, words you beat with a stick, these are my true convictions”. Considerem estas palavras da canção que dá o título a Are You Serious, último álbum de Andrew Bird, como uma hipotética autocrítica ou, talvez, uma declaração de intenções para o futuro. Traduzindo-as em entrevista à “Vinyl Me, Please”, Bird explica-se melhor: “O que procuram, realmente, as pessoas nas canções pop? Desejam alguém que sofreu de verdade, que se trate de algo autobiográfico ou existe espaço para a irreverência presente em todas as formas de arte excepto na escrita de canções?” Poder-se-lhe-ia responder imediatamente apenas com duas palavras: Stephin Merritt. Mas, na verdade, seria preciso não notarmos que, por muito não-ficcionais que elas sejam e que – tal como já no anterior Break It Yourself (2012) – o esforço de controlo do "wordplay" tenha sido titânico, Andrew dificilmente consegue escapar à sua natureza profunda. 

(noutra versão aqui)

Basta reparar, por exemplo, em "Saints Preservus", na qual, comete a proeza de citar, distorcendo, "Amazing Grace" (“I once was found but now I’m lost”), o soneto de Emma Lazarus, "The New Colossus", gravado no pedestal da estátua da Liberdade (“Bring me your poor and your trembling masses, bring them here, to shelter in your substructure parking lot”), e Stranger in a Strange Land, de Robert Heinlein (“I am a stranger in a land that’s anything but strange”). Ou, em "The New Saint Jude" – santo padroeiro das causas perdidas –, o Evangelho de Mateus (“Come on all you stand-up men, you self empowered go-getters”), transformado em pretexto para a apologia do pessimismo (“Ever since I gave up hope I’ve been feeling so much better”) e da misantropia (“Here’s a mighty revelation that’s sure to cure what ails you, that everyone’s a disappointment and everyone’s a failure”). Como sempre, mesmo que com nova equipa de músicos, a moldura sonora é detalhada, contrapontística, melodicamente rica, canções sobre a escrita de canções (a óptima "Left Handed Kisses", com Fiona Apple), o voyeurismo e a radioactividade, urdidas por quem se deixa inspirar “por lugares como a Holanda, Lisboa e Barcelona, onde os velhos observam as cidades, à janela”

24 June 2014

SEDUZIDA PELO RAPTOR 


Não deve existir quem – ateu, agnóstico ou de qualquer confissão religiosa –, à janela de um comboio que saia da estação central de Colónia, não se sinta, subitamente, sem fôlego e incapaz de articular uma sílaba perante o assombroso gigante gótico de pedra que, sobre a cobertura da Hauptbahnhof, vai, esmagadoramente, emergindo até ocupar por inteiro o campo de visão. Sim, a Hohe Domkirche St. Petrus, à beira do Reno, não será a Notre-Dame de Paris nem sequer a catedral de Amiens (à imagem da qual começou a ser construída, em 1248, para acolher as imaginárias relíquias dos não menos fantasiosos Três Reis Magos) mas não é nada difícil compreender o impulso que terá conduzido Rennie Sparks – a metade feminina do casal que, com Brett Sparks, constitui The Handsome Family – a escrever “The cathedral in Cologne looks like a spaceship, like the hand of God falling from the sky”, em "Cathedrals", quinta faixa de Through The Trees, o álbum de 1998 que logrou, ainda que só moderadamente, elevar o grau de notoriedade do duo de Chicago. 



É também essa a canção que abre Things Are Really Great Here, Sort Of..., 35 minutos de Andrew Bird relendo 10 canções da Family, justamente no ano em que "Far From Any Road" (uma variação poética "southern gothic" sobre o alucinogénico estramónio, extraída de Singing Bones, 2003), escolhida por T-Bone Burnett para o genérico da magnífica série de televisão, True Detective, lhes oferece um novo e, porventura, decisivo segundo começo. Duas décadas após o primeiro, embora tardio, não poderia ser mais merecido: a particularíssima fusão molecular de "murder ballads", sombras de Poe, imponderabilidades medievais, destemperos místicos do "deep south", pesadelos kafkianos e country primordial que Rennie e Brett confeccionam, há muito deveria ter ultrapassado o estatuto de culto para iniciados. A versão-Bird – prosseguindo a via rural-rústica de Break It Yourself e Hands Of Glory, ambos de 2012 – pertence aquela categoria em que a matéria original se deixa, literalmente, seduzir pelo raptor, a ponto de passar a considerar-se sua. A gravitas do barítono de Brett está, sem dúvida, ausente mas, por entre cascatas de pizzicatti e arcadas dramáticas em atmosfera de celeiro, o recorte neo-clássico do violino de Andrew Bird tudo transfigura.

03 February 2013

CONTINUE, SFF


















Andrew Bird - Hands Of Glory

Andrew Bird confessa sem hesitar que uma das suas actividades favoritas é estabelecer regras para si mesmo, quebrá-las, e, porque sim, voltar a aceitá-las. Porque sim, mas igualmente porque “são necessárias até para, quando isso for importante, ir contra elas”, e porque “o peso das expectativas e das inúmeras possibilidades” de que dispõe o obrigam a impor-se uma espécie de código de conduta estética que discipline minimamente o que, de outra forma, esbarraria contra o inevitável problema dos sobredotados: dispersar-se infinitamente por mil áreas e, embora falhando gloriosamente, não chegar ao fundo de nenhuma. Uma delas era “se não conseguir reproduzi-lo em palco, não vale a pena grava-lo em estúdio”. Claro que, entretanto, também já a violou e, naturalmente, regressou, agora, a ela com este Hands Of Glory (mini álbum ou EP encorpado – como se preferir – de oito temas), adenda ao excelentíssimo Break It Yourself e coisa doméstica gravada no (a caminho de lendário) celeiro do Illinois, à beira do Mississipi, à volta de um único microfone. 



O minimalismo tecnológico combina bem com a selecção do reportório, uma espécie de demonstração descontraída de como não existe qualquer incompatibilidade entre o estatuto de instrumentista e "songwriter" virtuoso, barroco e adepto da frase que exige ser reescutada e recorrer ao dicionário (caso este possa servir de apoio...) e o do fulano que, com dois ou três cúmplices, se entretém a interpretar canções de Ramblin’ Jack Elliott, Townes Van Zandt, The Handsome Family e dos Alpha Consumer (seita de Minneapolis onde exerce o companheiro de estrada, Jeremy Ylvisaker, quando não alinha com o fidelíssimo Martin Dosh em The Cloak Ox – todos aqui presentes) ou a virar do avesso uma ou duas das suas. Como ele diz, “sinto que já provei tudo o que pretendia provar e posso fazer o que me apetecer”. Continue, sff.

31 December 2012

MÚSICA 2012 - INTERNACIONAL (II)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)












David Byrne & St. Vincent - Love This Giant













Paul Buchanan - Mid Air













Dirty Projectors - Swing Lo Magellan













Efterklang - Piramida













Field Music - Plumb













Fiona Apple - The Idler Wheel...













The Monochrome Set - Platinum Coils













Scott Walker - Bish Bosch













Andrew Bird - Break It Yourself













Leonard Cohen - Old Ideas

Até que uma revisão constitucional desbloqueie a possibilidade de, como disco do ano, ser eleita uma coerente colecção de singles apenas disponível via-Net, a lista de 2012 é tal como aqui se apresenta. Entretanto, enquanto isso não sucede e para que conste, o que deveria encabeçar este top 10 seriam as sete canções/vídeos das Pussy Riot ("Kill the Sexist", "Release the Cobblestones", "Kropotkin Vodka", "Death to Prison, Freedom to Protest", "Putin Got Scared", "Mother of God, Drive Putin Away" e "Putin Lights Up the Fires"), reunidas no álbum virtual Ubey Seksista. “A única banda que realmente importa", como foi classificada por altura do julgamento-farsa estalinista de Agosto que condenou Nadejda Tolokonnikova, Maria Alekhina e Ekaterina Samutsevitch a dois anos de prisão (as duas primeiras permanecem encarceradas em dois dos mais brutais centros de detenção da Rússia), ousou desafiar o czar Putin e o mundo solidarizou-se com ela. Em Portugal, do Parlamento à Presidência, nem uma sílaba foi pronunciada. Ali em cima deve ler-se: “Liberdade para as Pussy Riot!”



* a ordem é razoavelmente arbitrária...

11 December 2012

13 November 2012

UM TECLADO CASIO NUM TÚNEL DO METRO



Andrew Bird, consumado "jongleur" do idioma pop, tal como seria de esperar de um licenciado em violino (sem equivalências) pela Northwestern University do Illinois, é uma criatura amante do conhecimento das regras e, porque as domina, da sua transgressão. Não tem feito outra coisa desde que, a solo, publicou Weather Systems (2003) e, posteriormente, prosseguiu a expedição em busca de uma admirável pop complexa mas eminentemente legível em The Mysterious Production Of Eggs (2005), Armchair Apocrypha (2007), Noble Beast (2009) e Break It Yourself (2012). Ele explica como e porquê. 
  
O que é preciso acontecer no percurso de um violinista com formação académica para que ele se transforme em "songwriter" pop? 
Eu era um estudante muito aplicado mas não era nada institucional na minha forma de pensar. Acabei por descobrir que a pop era um desafio muito maior e mais inclusivo. Sob essa designação podemos fazer praticamente tudo o que quisermos: podemos ser complexos, crus, tocar notas erradas, se nos apetecer... já o jazz também me pareceu ter-se tornado demasiado institucionalizado. Gosto de jazz e também já o toquei mas não me agrada que me digam como devo tocar. 
  
Era já o que sentia na universidade? 
Já pensava assim na universidade mas, embora ali não existisse um ambiente muito estimulante, optei por aprender a dominar o violino. Tudo era apresentado de um modo demasiado importante e inibidor, mesmo que se tratasse de coisas que eu sentia que não seria nada do outro mundo conseguir realizá-las. Mas acabou por ser um conflito saudável. Ter uma estrutura contra a qual me revoltar reforçou de um modo especialmente apaixonado o meu desejo de fazer algo pessoal.


Parece-lhe que existe uma atitude comum entre músicos como o Andrew e St Vincent, Sufjan Stevens, Regina Spektor e Shara Worden, que têm trajectórias idênticas, da academia para os palcos pop?
Sim, todos tivemos experiências diferentes mas isso, provavelmente, terá a ver com esse conflito saudável de que lhe estava a falar: conhecer as regras e, depois, quebra-las com o entusiasmo que daí resulta. Comecei a sentir que, com a música clássica, se tratava sempre mais de uma exibição do que de uma actividade realmente criativa: quando interpretava um concerto, estava apenas a demonstrar a minha proficiência técnica, não me parecia que houvesse ali nenhuma demanda artística verdadeira. Mesmo que, em alguns casos, nos fosse permitido improvisar, sentia-me como que sufocado: tinha sempre que tocar as cadências que outros haviam composto. Mas, no que diz respeito à afinidade com todos esses outros músicos, suponho que todos nós temos consciência de que a nossa educação clássica não tem o menor valor no âmbito pop. 

A sério? 
Sim, sim. Por exemplo, numa situação em que possamos actuar com outra banda cujos músicos não tenham o menor treino académico e que sejam capazes de ter tanto ou mais sucesso do que nós em estabelecer contacto com o público. É esse o nivelamento que a pop estabelece. Gosto do desafio de conseguir fazer chegar a música que crio ao público sem que seja necessário que alguém lhes vá explicar o que, supostamente, é bom ou mau. Claro que não posso impedir que aquilo que estudei e aprendi transpareça. Mas não sinto que tenha alguma dívida de gratidão para com isso. É apenas um dado adquirido que ponho em uso. 

Suspeita que alguns compositores clássicos, se fossem hoje vivos, poderiam ter seguido trajectórias idênticas? 
Por volta dos meus dezanove, vinte anos, gostava muito de Ravel e, certamente, conseguimos ouvir alguma influência da música dele, por exemplo, nos Radiohead. A progressão do Bolero, é como um rebuçado que, a cada instante, promete exactamente aquilo que desejamos ouvir a seguir e cumpre a promessa, é pop por todos os lados. E, depois, a construção é muito polirrítmica, ao contrário de bastante música clássica que, na minha opinião, é ritmicamente estagnada. O desafio da música pop tem muito mais a ver com contenção: sermos capazes de dizer o máximo com o mínimo de meios. Já cheguei a impor-me o desafio de escrever uma canção apenas com dois acordes e uma melodia só com duas notas. E, mesmo com essas restrições, ela teria de ser atraente. Um pouco como se se tratasse de um tipo com um teclado Casio num túnel do Metro que conseguisse fazer-nos chorar. É o que importa. 
  
No documentário Fever Year, confessa que o pior público que existe é o microfone de um estúdio... 
Já senti mais isso no passado. Por vezes, sinto o peso das expectativas e das inúmeras possibilidades de que disponho. É por isso que me imponho restrições acerca do que posso e não posso fazer. Se não conseguir reproduzi-lo em palco, não vale a pena grava-lo em estúdio. 

É essa a sua regra?  
Já foi, depois quebrei-a e, agora, voltei a ela (risos).

Da universidade, passando pelos Squirrel Nut Zippers, até agora, foi um percurso planeado e consciente? 
Suponho que se tratou mais de ir atrás do instinto e da curiosidade e de me deixar ir tropeçando nos acontecimentos. Já fui mais e menos dogmático e religioso acerca de determinados aspectos, há coisas que umas vezes funcionam bem e, depois, já não resultam... como as restrições de que lhe falava. São necessárias até para, quando isso for importante, ir contra elas. Fui muito dogmático, por exemplo, relativamente ao purismo com que deveria abordar o "swing" dos anos 30 e, mais tarde, no que diz respeito a excluir qualquer ornamentação que infringisse a tal regra dos dois acordes ou que evocasse quaisquer referências exteriores. Actualmente, sinto que já provei tudo o que pretendia provar e que posso fazer como me apetecer. 

A sua música, parecendo extremamente pensada, dá, ao mesmo tempo, a ideia de ser resultado de um grande divertimento. Concorda? 
Claro, nem poderia ser de outra maneira. Creio que sempre me vi como músico profissional que teria de ganhar a vida através da música, por muito pouco que fosse o benefício. O que significa que tive de viver uns bons anos em circunstâncias longe das ideais. Por isso, prometi a mim mesmo que nunca haveria de me aborrecer por causa daquilo que faço e que adoro.

Qual foi a importância de, desde Armchair Apocrypha, ter começado a trabalhar com Martin Dosh?  
Ele não é, evidentemente, apenas um baterista. Compreende-me melhor do que qualquer outra pessoa porque partilhamos o mesmo impulso de seguir o nosso rumo individual e confiar nas próprias forças, sem esquecer que a música é também uma actividade social. Encontrei-o no final da minha fase a solo e ele era a única pessoa que eu tinha a certeza de que não iria descaracterizar a minha música. Concebemos algumas formas engenhosas de fazer a música circular electronicamente entre nós: envio-lhe um "loop" que ele transforma num "loop" seu e processa para a percussão... é algo que já se converteu numa segunda natureza para nós, criámos uma linguagem só nossa. 
  
Disse, numa entrevista que “as palavras têm o poder de nos iludir, estão carregadas de subtexto; as melodias são honestas, só podem ser aquilo que são”. E, no entanto, os textos das suas canções estão repletos de palavras invulgares, jogos e associações de palavras bizarros... 
As melodias aparecem-me, todos dias, sem grande esforço. Vão e vêm, capturo-as e alojo-as nas canções. Com as palavras, é mais difícil começar: cada uma tem de ser especificamente para uma determinada melodia. Mas, uma vez iniciado o processo, o mais difícil é parar. O meu problema com as palavras é que desejava ser reconhecido como um "songwriter" realmente bom. Mas tenho medo que isso possa ser visto como uma coisa excessivamente importante e bloqueie o lado lúdico.


Receia ser visto como uma personagem séria e respeitável? 
(risos) Sim, às vezes. Mas sei que, no que diz respeito às palavras, não ganho nada em levá-las demasiado a sério. O que não impede que as coisas e as ideias mais importantes que me preocupam acabem por aparecer nas canções. 
  
É por isso que recorre tanto ao assobio, para aligeirar essa seriedade? 
Não, assobiar é apenas muito eficaz. E muito portátil. Na maioria das vezes, é a melhor forma de desenhar uma melodia. E as minhas mãos estão sempre demasiado ocupadas com outras coisas. Para mim, até já seria bizarro não assobiar em palco.

12 November 2012

LES PORTUGAIS SONT TOUJOURS GAIS (XXXVIII)

O Andrew Bird é um santo e lá conseguiu dar a volta a quem lhe suplicava por "qualquer coisinha de português" (parte V)

26 April 2012

FRACTURA ESQUIZÓIDE 



No programa da secção IndieMusic da actual edição do IndieLisboa, existe uma espécie de fractura esquizofrénica entre filmes – mais ou menos valiosos – que justificam a sua inclusão num acontecimento que ocorre apenas uma vez por ano e aqueles cuja selecção dificilmente se compreende e permite afirmar que, muito provavelmente, usurparam vagas preciosas que outros mereceriam muito mais. Grandma Lo-Fi: The Basement Tapes of Sigrídur Níelsdóttir, de Orri Jónsson, Kristín Björk Kristjánsdóttir e Ingibjörg Birgisdóttir (2011), é, de certeza, um óptimo exemplo de como o conceito "indie", conduzido às últimas consequências de celebração da excentricidade por nenhum motivo razoável, pode descambar facilmente para a mais patética infantilização: Sigrídur, simpática personagem de anciã islandesa de origem dinamarquesa, começou uma carreira musical aos 70 anos (morreria, no ano passado, com 81). Na cozinha, com um teclado rudimentar, melódicas, harmónicas, jogos de sinos, xilofones e objectos avulsos vários, inventava canções (respeitemos a memória da senhora...) "naïves", a que colava ruídos de passarinhos, do vento ou da água. Publicou cerca de cinco dezenas de cassetes e CD e, pela extravagância da coisa, aparentemente, tornou-se uma pequena celebridade local. Mas, de matéria para nota de rodapé em suplementos de curiosidades, eis que, no filme (decorativamente “enriquecido” com animações também convenientemente ingénuas), a vemos erigida em ícone simultâneo do minimalismo lo-fi – com citações de John Cage e tudo – e do combate contra a perversidade das editoras.



Atitude idêntica preside a How To Act Bad (Dima Dubson, 2011), exercício de insalubre voyeurismo próprio da latrina estética dos "reality shows", que caninamente persegue e gostosamente exibe a indigente disfuncionalidade de Adam Green (misto de Daniel Johnston, Syd Barrett, Amy Winehouse e Luís Pacheco em dia mau, personagem menor do anti-folk, a solo e a bordo dos Moldy Peaches, mas também suposto artista plástico e cineasta carburando a ketamina), assim como a Vou Rifar Meu Orgulho (Ana Rieper, 2011), inexplicável defesa sócio-antropológico-estética da canção romântica “brega” brasileira e a About Canto (Ramon Gieling, 2011), hagiografia do muito tardio compositor minimal-repetitivo holandês, Simeon ten Holt, e da sua peça para quatro pianos, “Canto”, criação revestida de poderes milagrosos que terá estimulado partos, desencadeado divórcios e cuja partitura alguns devotos tatuaram no corpo.



Sobra, assim, um quarteto de filmes que, em diversos registos, observam, testemunham e comentam personagens, épocas e movimentos. Neil Young Journeys (2011) – terceira colaboração entre Young e Jonathan Demme após Neil Young: Heart of Gold (2006) e Neil Young Trunk Show (2009) –, em montagem paralela, documenta o concerto no Massey Hall, de Toronto, em Maio do ano passado (40 anos depois do lendário anterior – fixado em Live At Massey Hall 1971 –, aquando da digressão de Journey Through the Past), e em modo de travelogue, acompanha Neil, a bordo do seu Ford Crown Victoria de 1956, numa viagem pelas memórias de infância e juventude, através do Ontario e, em particular, na cidade natal de Omemee. Não é o mais belo dos filhos do matrimónio Young/Demme (esse, é ainda, sem dúvida, Heart Of Gold) mas não deixa de ser uma criatura escorreita e de bom trato.



Verdadeiramente recomendável é Fever Year (Xan Aranda, 2011), exploração de profundidade da personalidade e do processo criativo de Andrew Bird, filmada na etapa final da digressão de 2009, em que, após esgotantes 165 concertos, Bird confessa que, apesar de ter feito uma entorse num pé e não se encontrar na melhor forma física (“I’m either sweating bullets or I’m freezing all the time”), tudo isso é preferível ao “pior público que existe: os microfones de um estúdio”. Mesmo descontando o precioso bónus que é vê-lo, sobre a cama de um quarto de hotel, ensaiando uma canção com St. Vincent, esta é, seguramente, uma eloquente demonstração de como ele próprio se define: “A música devorou-me inteiro. Eu sou aquilo que faço”. Punk in Africa (Deon Maas e Keith Jones, 2011), por outro lado, revela uma faceta virtualmente desconhecida de uma atitude musical que, possivelmente, neste caso mais do que em qualquer outro, foi literalmente devorada pela política (sem que, por esse motivo, se tivesse deixado menorizar): o punk, tal como a África do Sul, o Zimbabué, Moçambique e o Quénia o conheceram, subordinado à palavra de ordem “In Africa, music cannot be for entertainment, it must be for revolution” – dos anos 70 até à actualidade. Finalmente, Wild Thing (Jérôme de Missolz, 2011), apresenta-se como uma espécie de diário íntimo do realizador que, de modo adorável, entranhada e ridiculamente francês, recapitula a sua história de vida como se de um subproduto da “transgressão” do rock se tratasse – de Chuck Berry à "no wave", passando por tudo o que lhe foi parecendo “nouveau et intéressant” – com um extenso depoimento de Iggy Pop enquanto elo de ligação de uma rica selecção de entrevistados e protagonistas da(s) época(s).