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15 February 2024

Anna Calvi on scoring the music of Peaky Blinders season 5
 
(sequência daqui) Tendo como tema principal "Red Right Hand", de Nick Cave, muitas outras eminências da música actual - PJ Harvey, Laura Marling, Radiohead, Sam Lee, White Stripes, Sinéad O'Connor, Lisa O'Neil... - se lhe foram agregando. Nas duas últimas temporadas, foi, porém, a magnífica Anna Calvi a ocupar o lugar central, criando 37 temas agora recolhidos em Peaky Blinders: Season 5 & 6 (Original Score). Há 4 anos, aquando da publicação de Hunted, dizia-nos: “Queria ter a noção de quão profundamente seria capaz de entrar naquele imenso abismo negro do espírito do Tommy Shelby, a personagem principal. Explorar aquelas trevas e vulnerabilidade, aquela brutalidade e sensibilidade que sempre procurei na minha música, como se eu fosse ele. Uma espécie de diálogo que me conduziu a procurar inspiração na música dos 'westerns' porque Peaky Blinders é, de facto, um 'western' situado em Birmingham”. Bem-vindos ao imenso abismo negro.

25 January 2024


(sequência daqui) Se o álbum gravado com o compositor/produtor catalão Refree era, decididamente, uma obra a quatro mãos, Fado Camões apresenta-se como peça em nome próprio ainda que com um fortíssimo braço direito oferecido por Justin Adams (guitarrista e produtor, personagem da intimidade de Jah Wobble, Tinariwen, Robert Plant, Sinéad O'Connor, Brian Eno e figurões vários da "world music" afro-mediterrânica), a quem se juntaram Pedro Viana (guitarra portuguesa), John Baggott (Massive Attack, Portishead, Robert Plant) e Ianina Khmelik (violino). Aparentando buscar um ponto de equilíbrio entre o abstraccionismo radical de Lina_Raul Refree e uma abordagem mais imediatamente reconhecível do fado - "Não se tratou de olhar para trás mas de trazer aquilo que aprendi e que continua a fazer todo o sentido para mim: os espaços entre a voz e instrumentos, os silencios, a criação de maior lugar para a respiração das palavras, e o trabalho sobre todas aquelas texturas que determinam atitudes diferentes de introspecção. Voltei a beber um bocadinho dessa fonte e de tudo aquilo com que me identifiquei bastante no anterior" -, tudo se centrou, afinal, na delicadíssima tarefa de articular os poemas de Camões com a estrutura dos fados tradicionais. Com o mar Atlântico em frente dos olhos, Lina confessa que "Trazer o Camões para o fado não é propriamente uma coisa fácil. Tive uma enorme ajuda da Amélia Muge que participou no trabalho sobre os textos deste projecto e acreditou que eu seria capaz de levá-lo a bom porto. Foi uma longa jornada até ter conseguido identificar quais os poemas do Camões sobre os quais iria trabalhar musicalmente durante duas semanas em estúdio". (segue para aqui)

25 October 2016

Pussy Riot - "Straight Outta Vagina" 
(feat. Desi Mo & Leikeli47)
 
"Pussy Riot celebrate the vagina in lyrical riposte to Trump"

Does your vagina have a brand?
Let your vagina start a band
If your vagina lands in prison
Then the world is gonna listen

My vagina is tough and dangerous
Shaking up the major labels
Vagina gonna take the stage
Cuz vagina’s got a lot to say

Don’t play stupid
Don’t play dumb
Vagina’s where you’re really from
(Where you from?)
(Where you from?)

Vagina gonna win the race
Vagina gonna play in space
Vagina gonna top the charts
Vaginas fill your shopping carts

Vaginas in the art museum
And people buying tickets just to see ‘em
Put your pussy on a diet
Then paparazzi gonna start a riot

Don’t play stupid...

 V.A.G.I.N.A.
We got pussy for days
Back up, pussy don’t play
First they come and then they stay

You gon’ always gonna find it when you need it
You gone’ always come back and repeat it
Oh, cuz you know where home is
Go down like you know what dome is

Woah now man I’m losin focus
Va jay jay on hocus pocus
Don’t act like you don’t notice
Girls run it like U.S. Open
Throw a fit right now (right now)
Put up a fist right now (right now)
Cuz you the shit right now (right now)
Probably acting like a bitch right now

Don’t play stupid...

 My pussy my pussy
Is sweet just like a cookie
It goes to work
It makes the beats
It’s CEO, no rookie
From senator to bookie
We run this shit, go lookie
You can turn any page, any race, any age
From Russia to the states
We tearing up the place

I rip shit like Sinead O’Connor
I wear my vag as a badge of honor
I take pride in the way we rise
One love to Maya Angelou, the 8th world wonder
How we do it all sometimes I wonder
I could play nice so I can bring that thunder
So sad I gotta end right here
But this vagina gotta go make them numbers

Don’t play stupid...
 

21 April 2016

25 October 2015

VINTAGE (CCLXXV)

Christy Moore & Sinead O'Connor - "Sweet Thames Flow Softly" (Ewan MacColl)

21 May 2008

AS MANGAS E OS BOTÕES



Scarlett Johansson - Anywhere I Lay My Head

Com ele, nunca há garantia de se tratar da verdade ou apenas de mais uma efabulação. Mas, quando a “Pitchfork” perguntou a Tom Waits se tinha conhecimento de que Scarlett Johansson estava a gravar um álbum com versões de canções dele, a resposta foi “Sim, soube disso pelos jornais”. Sem qualquer irritação, no entanto. Bem pelo contrário, acrescentava mesmo um “more power to her” e explicava que “se escrevemos canções é para serem escutadas e reinterpretadas. É um sinal de que não são assim uma coisa tão pessoal que outros não possam abordar. Não faço ideia do que ela irá fazer, mas, se pegamos nas canções de outra pessoa, é para as fazermos nossas, não há outra solução. E isso, habitualmente, exige uma certa arte de alfaiataria: corta-se umas mangas, cose-se uns botões... cria-se sempre algo de diferente, é a tradição”. Até agora, não se conhece outra reacção de Waits a Anywhere I Lay My Head. Mas do que não pode haver dúvidas é que Scarlett Johansson e o produtor David Sitek (dos TV On The Radio) não hesitaram em usar e abusar da tesoura, da linha e das agulhas: quem apenas conheça de passagem a discografia de Tom Waits, sem esclarecimento prévio, dificilmente reconheceria nestas dez canções (mais um original – “Song For Jo” – de Johansson/Sitek) a assinatura dele. Aparentemente, o objectivo foi exactamente esse: pôr de lado o “respeitinho” e lidar sem grandes cerimónias com o reportório do mestre.


(experiência prévia)

Arredemos nós também o preconceito relativamente aos actores-que-se-lhes-meteu-na-cabeça-cantar. Desde Marlene Dietrich a Marilyn Monroe, Johnny Depp ou Nico (sim, ela era uma “singing-actress”), a questão nunca foi a de ousar pisar outro território que não “o seu” mas sim a de saber se havia perna suficiente para arriscar tal passo. Nos sítios da Net onde se discutem os temas reais que podem fazer vacilar o movimento da terra em torno do seu eixo imaginário, parece assente que Johansson mede pouco mais que um metro e cinquenta e cinco. Perna curta, portanto. Pelo que, sensatamente, Sitek optou por lhe utilizar o timbre de contralto exclusivamente como mais uma tonalidade da paleta – em dois temas, a voz de David Bowie é ainda outra – com que pinta um bizarro fresco algures entre os Cocteau Twins, Sinead O’Connor, Phil Spector, Debbie Harry a bordo dos My Bloody Valentine, ou Nico (lá está...) em part-time com os Mercury Rev. Quando falham – “I Don’t Wanna Grow Up”, por exemplo –, estatelam-se mas, nos momentos em que o alinhamento planetário é mais propício (“Fannin’ Street”, “Town With No Cheer”, “Green Grass”, “I Wish I Was In New Orleans”, “No One Knows I’m Gone”), a experiência chega a ser intrigantemente sedutora.



(2008)

08 May 2007

FREAK SHOW TIME!



Numa cena do filme de Carl Reiner de 1979, The Jerk, Steve Martin, o filho adoptivo branco de uma família negra pobre do Deep South dos EUA, jaz à noite na cama, lamentando melancolicamente o seu fraco sentido rítmico que o discrimina perante os seus irmãos de côr. De súbito, porém, a sua vida muda: nas ondas do velho rádio decrépito da avó, soam os acordes xaroposos de uma música-de-supermercado que o fulminam como um raio. "Eis, finalmente, a música que fala ao meu coração!", exclama, "a música que me devolve à vida e me ordena que seja alguém!". Ali mesmo, ele acabava de descobrir os "blues do homem branco", esse pano de fundo sonoro que decora a existência quotidiana dos cidadãos do planeta, dos centros comerciais às salas de espera de aeroportos e foyers de hotéis.
 
Boa parte dele (pelo menos, na Europa) tem origem nessa venerável instituição que, desde os anos sessenta, abastece de reportório as cadeias estereofónicas dos espaços urbanos: o Festival da Eurovisão, fonte inesgotável de melodias fáceis e imagens coloridas que se infiltram na memória e que, mesmo em quem as rejeita, deixam marcas indeléveis. Com boas razões para isso, aliás. Pois existe lá mais alguma oportunidade para se escutar canções com títulos tão pitorescos como "Mia Krifti Evaisthissia", "A Holnap Mar Nem Lesz Szomorn", "Neka Mi Ne Svane", "Ne Zori Zoro" ou o quase urológico "To Takie Prosta"?



E que outro festival de música se pode gabar de ameaçar a estabilidade de coligações governamentais como aconteceu agora em Israel, com a extrema-direita judaica a ulular de fúria e a ameaçar com as labaredas do Inferno a propósito da participação (coroada de vitória) do muito warholiano transsexual Dana International? A verdade é que não há Eurovisão a mais mas sim Eurovisão a menos. E só é de lamentar que a famigerada globalização ainda não tenha proporcionado a existência de um "Festival da Mundovisão" onde, a partir dos quatro cantos do planeta, se edificaria um monumental "freak show" musical (pense-se só nos potenciais tesouros ocultos que o Oriente nos reserva...) para deleite de milhões de "couch potatoes".
Era, pois, de prever que, mais tarde ou mais cedo, alguém pegasse no tema-Eurovisão e, à custa dele, inventasse uma nova forma de divertimento. O produtor Nick Bradshaw foi o escolhido pela Divina Providência quando, uma manhã debaixo do chuveiro, concebeu a ideia de propôr a um grupo de "credible recording artists" que fizessem versões de antigos êxitos do Festival da Eurovisão, os quais, confessa, "na minha humilde opinião, são, muitas vezes, perfeitas canções pop de excelente confecção". O projecto deu um importante passo em frente na altura em que, ao balcão de um bar, timidamente o revelou a Terry Hall (ex-Specials) e este, inesperadamente, o aprovou sorrindo, coisa por que não é particularmente famoso.
O resultado final foi o álbum A Song For Euro Trash e uma produção de televisão a ser exibida pelo Channel Four britânico no programa "Euro Trash" de Antoine de Caunes, também abençoado por Jean Paul Gaultier. O disco, evidentemente, exige ser avaliado de acordo com os critérios eurovisivos em vigor: com pontuações, classificações, polémica e escândalo, ingredientes indispensáveis no momento em que é oficial que o Festival da Eurovisão voltou a ser "cool". Pelo que o escalonamento deverá ficar organizado da seguinte forma:



"Comic Strip" (c/ Serge Gainsbourg: "St. Tropez" indisponível)

"Saint Tropez" - Brigitte Bardot: tema de abertura extra-concurso, inauguração oficial das festividades, assinado pelo histórico Francis Lai. Prémio de Carreira.




"Save Your Kisses For Me" - Kenickie: primeiro grande candidato à vitória final, numa trepidante versão da "girl band" mais efervescente do britpop para a imortal vencedora da edição de 1976, interpretada pelo colectivo de humanistas, The Brotherhood Of Man. Derrotada, porém, no último momento pelos zero votos do júri de Israel em virtude de indesejáveis conotações com "o beijo de Judas".




"Poupée de Cire, Poupée de Son" - Dubstar & Sacha Distel: correndo por fora, jogava no prestígio algo amarfanhado de Distel e na memória da imagem de adolescente perversa de France Gall, a Lolita-da-época de Serge Gainsbourg. Apesar de ter recebido a votação maxima do júri belga, acabou por se quedar a meio da tabela.




"Ding A Dong" - Edwyn Collins: um dos três temas de poesia fonética dadaísta a concurso. O ex-Orange Juice saiu-se a contento mas o caracter demasiado vanguardista do texto impediu-o de lutar pelos primeiros lugares.




"La La La" - St. Etienne: também o dadaísmo de raiz ibérica não teve melhor sorte. Sem o "salero" original de Massiel em 1968, trinta anos depois, a loura Sarah Cracknell não repetiu o triunfo da morena castelhana. Fica impedido de concorrer na proxima edição.




"Volare" - Dean Martin: o charme etílico e a circunstância póstuma da participação valeram-lhe apenas votos de consolação.




"All Kinds Of Everything" - Terry Hall & Sinead O'Connor: na grande tradição de duos como Esther & Abi Ofarim ou Armando Gama & Valentina Torres, a sedução e o encanto infantis da melodia de Dana foram perfeitamente reconstituidos. Segunda melhor votação do júri belga.




"What's Another Year" - Shane MacGowan & The Popes: cometendo a proeza de interpretar a canção até ao final sem desfalecer, Shane MacGowan fez esquecer o imortal Johnny Logan. Prémio "Jameson" de resistência.



(indisponível qualquer testemunho dos talentos vocais de Eva Henger)

"Ooh Yeah" - Eva Henger: aceite apenas com o estatuto de "convidada especial" em virtude de ter infringido as regras (só eram permitidas canções anteriormente apresentadas nos Eurofestivais), o original erótico da discípula de Cicciolina não recebeu qualquer voto apesar dos protestos oficiais apresentados por Wladimir Jirinowski.




"A Ba Ni Bi" - Fox Force Five: ao contrário das anteriores, a poesia fonética israelita convertida ao eurodisco-xunga lutou até ao fim pela vitória. Determinante seria a fraca votação da Antiga República Jugoslava da Macedónia que preferia a Antiga Versão Original de Izhar Cohen & The Alphabeta.




"Congratulations" - Annie Christian: embora "christian" como Cliff Richard, a interpretação hard rock não teve motivos para receber parabéns. Acompanha "La La La" na descida à segunda divisão.




"Waterloo" - Bananarama: vinte e quatro anos depois, a repetição do triunfo dos ABBA com mais três "a" e menos um "b". Ou a confirmação do genial paradoxo metafórico por meio do qual Waterloo, de símbolo da derrota, se transforma em símbolo de vitória. Primeiro prémio absoluto e Prémio Especial do Júri para o Elevado Conteúdo Poético.




"Variations On Te Deum (Eurovision Theme) - 808 State e "A Song For Euro Trash" - Antoine de Caunes & Kate Robbins: encerramento pós-moderno das cerimónias e coda final em registo "naughty" à volta do tema "the world is like a bouillabaisse" depois desenvolvido no diálogo filosófico "I believe in unity/And I believe in nudity". Ou, como diria Nick Bradshaw, "Viva Europa!". (1998)