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22 August 2026

PSICADÉLICO IMPERIAL
Jan Emil Młynarski e Piotr Zabrodzki, conhecidos pela actividade desenvolvida nos Oberkas Travel - quarteto de músicos da cena alternativa de Varsóvia (os dois anteriores mais Piotr Domagalski, Mateusz Niwiński) - juntaram-se à cantora Joanna Sztucka (discípula da lendária Maria Siwiec) para reimaginar a música tradicional polaca. Eles tocam oberkas, uma dança popular local e, agora que regressam com o Tercet Imperial, voltam a explorar esse universo e, desta vez, rompem com a instrumentação tradicional, preservando apenas o núcleo rítmico da dança. Młynarski ocupa-se da bateria eletrónica, enquanto Zabrodzki recria o papel do violino e do acordeão através de sintetizadores que cruzam timbres psicadélicos e electrónica experimental. Młynarski faz convergir influências que vão dos ritmos angolanos às músicas da América do Sul e ao jazz, enquanto Zabrodzki oscila entre a recriação fiel das melodias tradicionais e momentos de desmedida improvisação e abandono quase free. (daqui; segue para aqui)

"Lesie"

03 May 2026

"Akhir Sarkha (The Last Scream)"
 
(sequência daqui) Entremos, então, pela magnífica "Shams", uma espiral de guitarra contaminada de flamenco que se deixa aproximar perigosamente de um espectro dos Doors, nos conduz até ao ponto no qual o perfil sonoro da canção se altera imprevisivelmente e, a seguir, os teclados de "Athar" abrem as portas a uma deriva de som e poesia praticamente sem palavras. A articulação de vertiginosas texturas rock e frases melódicas arabizantes parece inevitável, como se esta fosse a única forma de estas canções poderem existir, desde a radiação das linhas de guitarra exploratórias de Haya à inteligencia quase fisiológica do elástico baixo de Meesh até à bateria implacavelmente firme de Thing. Após a estreia internacional no final do ano passado, na Southbank londrina, "tudo nos convenceu que a nossa música não é coisa de nicho; vale por si mesma sem necessitar de explicações". Não será um acaso que este EP tenha sido publicado pela Women in CTRL Records / CTRL Music. 

29 April 2026

"(Zaman)"
 
(sequência daqui) Eis, portanto, Nora (voz), Meesh (baixo), Haya (guitarra "e muitos, muitos pedais"), e a sua baterista mascarada, "Thing", armadas de um EP, Sarab, que captura frases melódicas médio-orientais, psicadelismo calcinado pelo sol do deserto, rock de vocação noise e folk árabe, ora pulverizando-os contra uma incandescente parede de ruído, ora identificando os pontos de encaixe entre sequências musicais, found sounds animais captados em ambientes naturais e a fonética do dialecto najdi local. "No que diz respeito à produção, abordámos o som ou o pio de cada animal como se fosse um instrumento com o seu próprio timbre. Adoro design de som, por isso dediquei muito tempo a moldar as frequências, a esticar as texturas, a adicionar modulações subtis e tudo o que permitisse que o seu carácter natural conduzisse à composição" explicou Nora ao "Babystep Magazine", e Thing acrescentou: "Defrontámo-nos com as gravações em bruto, que não eram apenas 'samples', soavam como criaturas levadas ao limite, e isso era percetível nas suas respirações e gritos. Quando se ouve isso, deixa-se de pensar como músico por um segundo e tornamo-nos apenas um ser humano a ouvir algo que se extingue. Foi um projeto incrivelmente especial para nós. Os sons dos animais moldaram as guinadas da canção". (segue para aqui)

15 April 2026

Altın Gün - "Kırşehirin Gülleri"

 (do álbum On, na íntegra aqui)

14 April 2026

"Suçum Nedir"
 
(sequência daqui) Foi assim que a rica discografia de 5 álbuns, dos Altın Gün se foi constituindo e que, mesmo agora que, na banda, reduzida a quinteto, resta apenas um elemento de ascendência turca (na verdade, a maioria apenas cresceu nos bairros turcos de Amesterdão), ela continua a enriquecer-se. Até porque, desta vez, Garip ("estranho", em português) tem como fonte as canções do trovador folk ashik, Neşet Ertaş (1938–2012), cantadas com o acompanhamento de bağlama, um alaúde tradicional aqui electrificado. O perímetro sonoro Altın Gün fica assim delimitado pela ácida energia de "Neredesin Sen", o arabismo lounge de "Suçum Nedir", o chamamento de muezine lisérgico de "Zülüf Dökülmüş Yüze", o labiríntico e sepentino psicadelismo de bazar de "Gel Yanıma Gel" ou o quase Bollywood de "Gönül Dağı", cortesia da Stockholm Studio Orchestra.

11 April 2026

PSICADELIZAR-SE
As brigadas de vigilância "woke" - equivalente ocidental exactamente simétrico da Polícia da Moral Islâmica no Irão - ou têm-se visto assoberbadas com demasiadas operações de cancelamento e destruição ou o indispensável recrutamento para o reforço das hostes não andará a correr da melhor maneira. Na verdade, só algo desse género poderá explicar a desatenção sobre aquilo que, a partir de agora, designaremos como o Caso Altın Gün. Isto é, a história do holandês Jasper Verhulst que, há cerca de 8 anos, durante uma viagem à Turquia, qual junkie, foi adquirindo vinis de música local até à extinção do último cêntimo. De volta a Amesterdão, socorreu-se do Facebook enquanto agência de recrutamento de músicos turcos para constituir uma banda - Altın Gün - à qual seria confiada a missão de, inspirada pelo nacionalismo musical do início do século XX, e contaminada pelo pop/rock ocidental, deixar-se gloriosamente psicadelizar. Ou, como diriam, as milícias "woke", capitular perante a pérfida "apropriação cultural". (daqui; segue para aqui)
 
"Neredesin Sen"

21 November 2025

 
"Dissolve"
 
(sequência daqui) E, partilhando com Tom Waits uma particularidade da qual, este, há anos, falava, "Haverá, sem intenção, 'acidentes felizes' com os textos, à medida que as pessoas infundem a sua própria narrativa na minha. Gosto particularmente desta característica, pois a ideia inicial fica difusa. Gosto de coisas que corram um pouco mal e fiquem algo confusas, pois isso também é o que se passa na minha cabeça. Para que as palavras sangrem, é necessário subvertê-las de alguma forma". Crayola Lectern transforma-se assim num espaço onde céus estrelados, tardes calcinadas e falhas de memória se transformam em canções. É psicadélico, é jazz de câmara experimental, são letras singulares convertidas em confetti mental. Não foi Chris Anderson quem assim falou de Disasternoon. Talvez quem lhe chamou "melanchodelia" e louvou o alcance cinemático, a contenção minimalista, os crescendos ousados e os momentos de quietude solene, projectando sombras sob uma luz pálida.