Com Angela Jennifer Lambert (aliás, AJ Lambert) nada é, realmente, como se imagina. Após uma “juventude perdida” a bordo de ilustres bandas desconhecidas (ou quase) – Sleepington, Looker, Here We Go Magic –, com quem se dirigiria ela para os estúdios de Steve Albini, em Chicago, com o objectivo de gravar um EP (Lonely Songs, 2018) comemorativo dos 60 anos de Only The Lonely (1958), de Frank Sinatra? Evidentemente, Greg Ahee, dos Protomartyr, escolha instantânea de AJ que, não escondamos mais o jogo, é neta de Frank e filha de Nancy Sinatra. E, quando, aos 44 anos, se decidiu, enfim, por um percurso de cantora, para além de concertos de voz e piano em que interpretava os clássicos do avô, que reportório escolheu para si no álbum de estreia, Careful You (2019)? John Cale, Chris Bell, TV On The Radio, Spoon, Billie Holiday, e duas pepitas de Ol' Blue Eyes, de entre uma lista de candidatos onde se incluiam também Robert Wyatt, Elvis Costello e David Bowie. (daqui; segue para aqui)
"How Many"
03 January 2022
TODOS OS NEURÓNIOS ILUMINADOS
A linhagem musical e o círculo de relações dos dB’s eram imaculados: Chris Stamey, Peter Holsapple, Gene Holder e Will Rigby caminhavam nas pegadas dos Television, Big Star, Kinks e Elvis Costello mas, sobretudo, dos britânicos The Move e, em circunstâncias diversas, tinham-se cruzado ou haveriam de cruzar-se com Richard Lloyd (Television), Don Dixon (produtor dos R.E.M., Smithereens e Guadalcanal Diary), Mitch Easter (fundador dos Let’s Active e produtor dos R.E.M., Pavement e Suzanne Vega), Chris Bell (Big Star) e Scott Litt (produtor de Nirvana, R.E.M. e Liz Phair). Mas, entre a chegada a Nova Iorque, em 1978, dos quatro nativos da Carolina do Norte e a publicação – apenas no Reino Unido – dos dois primeiros (e preciosíssimos) álbuns – Stands for Decibels (1981) e Repercussion (1982) – haveria de passar-se demasiado tempo durante o qual, contudo, a banda não esteve, de modo algum, inactiva. Sob várias designações e configurações, deixaram um muito razoável baú de gravações (essencialmente, singles e registos ao vivo) do tempo em que, como conta Stamey nas suas memórias, Spy In The House Of Loud: New York Songs And Stories, imaginavam a sua música à imagem de uma máquina de flippers “quando as luzes disparam ao mesmo tempo, uma espécie de resposta cerebral instantânea, com todos os neurónios iluminados”. (daqui; segue para aqui)
SOHN - "Song To The Siren" (Tim Buckley/This Mortal Coil)
(sequência daqui) Para Simon Halliday, algures em Nova Iorque, porém, o propósito não é, essencialmente, de comemoração histórica: “O motivo para publicarmos, agora, esta compilação não foi tanto celebrar o 40º aniversário como assinalar uma espécie de mudança de pele. Não que nos tenhamos transformado numa editora diferente. Mas, quando temos tantas e tão diversas novas bandas, sentimos que devemos festejar isso. Na verdade, não há nisto nada de científico ou de calculado, apenas o prazer de continuar a descobrir música emocionante. E procurámos fazê-lo jogando com uma ideia de aleatoriedade, experimentar versões diferentes e ver até onde elas chegariam, sem qualquer plano ou previsão do que iria ocorrer”. E a referência aos This Mortal Coil é, de facto, inteiramente deliberada: “O primeiro álbum de This Mortal Coil (It’ll End In Tears, 1984), para mim, é a concretização de tudo o que era a 4AD. Pela originalidade e também por uma outra coisa: nessa altura, muita gente não sabia quem eram os Big Star ou o Tim Buckley. Eu próprio desconhecia que ‘Song To The Siren’ era uma versão de Tim Buckley, estava convencido que era uma canção da Elizabeth Fraser com os This Mortal Coil!... Fascinou-me a ideia de alguém se deixar seduzir por uma coisa sem conhecer toda a história que lhe está por trás. É aquele momento que é crucial, enquanto, noutras alturas, nos deixamos subjugar pela história. Por vezes, é bom ser punk, ignorar tudo e dizer simplesmente ‘Isto é o que fazemos!’ Todas as versões nesta compilação têm integridade, têm o seu espírito próprio”. (segue para aqui)
29 November 2010
A HERANÇA E OS HERDEIROS
Magic Kids - Memphis
All Delighted People - Sufjan Stevens
No “Guardian”, Paul Lester apresenta a questão de forma absolutamente clara: “Quem prefeririam ver – os três membros sobreviventes dos Beach Boys, de 68 anos, com um elenco de familiares, amigos e o leiteiro de passagem, a cantar canções que escreveram há quase meio século sobre miúdas adolescentes chamadas Wendy e proezas que nem por essa altura seriam capazes de realizar, ou um grupo de putos de vinte e poucos anos que oferece uma versão de baixo orçamento do mesmo?” A pergunta não é retórica porque as duas opções, de facto, existem: para o próximo ano – momento em que se comemora o 50º aniversário dos Beach Boys – Mike Love anunciou já a reunião dos elementos ainda vivos do grupo; e, como, logo um parágrafo abaixo, Lester afirma, os Magic Kids são os Beach Boys de Memphis entregues à missão de recompor até ao mais ínfimo pormenor a música dos dias de glória da banda de Brian Wilson “antes de o aventureirismo e os desconcertantes jogos de palavras de Van Dyke Parks lhe terem virado a cabeça do avesso”.
Sejamos justos: nos oceanos surfados por Wilson, irmãos & associados, já inúmeros outros – mais ou menos recentemente, mais ou menos explicitamente – igualmente navegaram, dos Concretes, Camera Obscura, Beach House, She & Him, Grizzly Bear, Animal Collective ou Fleet Foxes aos vetustos Big Star e Association ou aos oficiosamente reconhecidos Wondermints, cujo perito em assuntos-BB, Darian Sahanaja, actuou, em 2004, como braço direito (e, eventualmente também, esquerdo...) de Brian Wilson na reconstituição do lendário Smile. Por outro lado, nem é indispensável ouvir Memphis com demasiada atenção para se reparar como a ementa dos moços é algo mais variada do que uma exclusiva monodieta californiana: eles também escutaram os Seekers (olha o ostinato de piano de "Georgy Girl" em "Hey Boy"!), os Herman’s Hermits ("I’m Into Something Good" a espreitar à transparência de "Phone"), os ELO, os Turtles, as Ronettes e os Lovin’ Spoonful, têm um fraquinho por Jack Nitzsche e não dizem que não a uns saldos catitas de Phil Spector. Sim, nada de novo debaixo dos céus, mas um fresquíssimo aperitivo confeccionado com matérias-primas de boa qualidade.
Sejamos ainda mais justos: herdeiro verdadeiramente legítimo de Brian Wilson, actualmente, existe apenas um e chama-se Sufjan Stevens. E "herdeiro" no mais desejável sentido de quem, sem lhe macaquear os tiques, continua e enriquece uma peculiar visão musical da América, trabalha sobre os mesmos planos de complexidade vocal e orquestral e, higienicamente, presta bastante pouca atenção às tendências do momento. Colocado para "download" no seu site da Net, All Delighted People é um EP (de 60 minutos!) que Sufjan descreve enquanto “homenagem dramática ao Apocalipse, ao 'ennui' existencial e a 'Sounds Of Silence’ de Paul Simon” e destinado a ocupar os fãs até ao próximo álbum – The Age Of Adz, gravado no estúdio dos National. Mas que – mesmo admitindo que se trata de objecto lateral e circunstancial – não deixa de ser um tanto problemático nas suas épicas e extensas incursões por opulentas orquestrações, massas corais e intermináveis deambulações de guitarra eléctrica. Aceite-se que não é de digestão fácil, dê-se-lhe o tempo necessário de maturação, mas, pelo sim, pelo não, acenda-se um sinal de alarme.
(2010)
18 March 2010
ALEX CHILTON (1950–2010)
"Alex Chilton, the mercurial if influential rock musician, whose work spanned an eclectic gamut from the soul songs of the Box Tops to the multiple incarnations of his pop band Big Star, died on Wednesday. He was 59 and was living in New Orleans". (aqui)
(2010)
26 January 2010
BONS ALUNOS
Beach House - Teen Dream
Alex Scally e Victoria Legrand, aka Beach House, têm óptima imprensa. Não falta quem esteja disposto a assegurar que eles são uma das melhores coisinhas que aconteceram à pop desde que Elvis Presley começou a ganhar peso. E, de facto, não é difícil encontrar encanto nestas canções redondas e leves como vapor de água. O problema, porém, é que tudo aquilo que é bom na música dos Beach House já foi muito melhor nas diversas fontes onde eles decidiram ir beber.
As harmonias vocais, as guitarras circulares e à beira da liquefacção, a atmosfera suavemente hipnótica, a linearidade melódica, germinaram em berços de tão maior nobreza como os dos Beach Boys, Mazzy Star, Velvet Underground, Big Star, Zombies, Talk Talk, até o dos Beatles, quando Lennon e McCartney tinham os respectivos alinhamentos astrais em consonância particularmente favorável. Alex e a sobrinha de Michel Legrand são alunos dotados, estudiosos e aplicados mas não é fácil imaginar que, algum dia, venham a ser capazes de outra coisa que não assinar o ponto no livro dos mestres. Teen Dream, no próprio título, acaba por ser desarmantemente sincero: a atitude de emulação é genuinamente adolescente. Eles é que já não o são.
Há certas afirmações que muito dificilmente poderão ser proferidas sem provocar, instantaneamente, reacções emocionadamente incandescentes. Por exemplo, esta: os Big Star (confessadamente) aprenderam tudo com os Beatles e, rapidamente, ultrapassaram os mestres. Acrescentem-lhe outra: aos Beatles, agrafaram os Byrds e Beach Boys (hipótese para tese de mestrado em musicologia pop: a importância da letra “B” na passagem da década de 60 para a de 70 e seguintes) e, em três álbuns – ainda que poucos os tenham escutado –, definiram, por muitos anos, o "state of the art" em matéria de música popular anglo-americana numa dimensão que, só, talvez, os Velvet Underground terão ultrapassado.
Mesmo tanto tempo depois, é uma declaração de guerra, claro. Tentemos enterrar os machados e escutemos, em modo remasterizado-para-salvar-o-que-resta-da-indústria, Record #1 (1972) e Radio City (1974). Onde existiu, em qualquer outro lado, antes e depois, tal concisão melódica, de mãos dadas com idêntico requinte harmónico vocal, superior bordado de guitarras eléctricas e simultâneo "punch" rock? Peter Buck, dos R.E.M, (é só um exemplo) responde por nós: em lado nenhum. Mais em filigrana, um, mais musculado, o outro (Third/Sisters Lovers, 1978, abria para outros obscuros lugares), Chris Bell e Alex Chilton inventavam um fértil futuro. Como deve dizer-se, vénia.
Stuart Staples fala como se tivesse pavor de que uma só das palavras que pronuncia pudesse deixar uma impressão errada. A voz sai-lhe segredada, quase inaudível, repete as ideias, gagueja, sorri embaraçado com algumas das perguntas mas, mesmo assim, lá consegue explicar as razões por que os Tindersticks se decidiram a editar Donkeys, uma compilação que recolhe todos os seus singles e raridades avulsas até aqui dispersas. E, depois, anuncia que o grupo se prepara para grandes mudanças ao mesmo tempo que conta como realizou a fantasia de cantar com Isabella Rosselini e não consegue encontrar outra razão para o título do álbum a não ser que "it just felt right".
Por que motivo decidiram publicar agora esta compilação de lados B e raridades que não é exactamente aquilo a que nos habituámos a chamar um "Best Of"? Suponho que porque, para nós, ele funciona como o encerramento de um capítulo. Resume todo um ciclo de canções, garantindo, ao mesmo tempo, que nada daquilo que fomos publicando fique indisponível.
Se isto encerra um ciclo de canções, como irá ser o seguinte? Ainda não sabemos bem, estamos a trabalhar para o proximo disco. Penso que vai ser muito diferente dos anteriores embora também não me espante que, depois, as pessoas não identifiquem muito bem essas diferenças. Mas estamos a descobrir uma nova forma de escrever as canções com uma ênfase muito mais nítida na totalidade do grupo e na contribuição das ideias de cada elemento.
Por que motivo esta compilação se intitula Donkeys? Só porque sentimos que ficava bem (risos). Há qualquer coisa nessa palavra que casa perfeitamente com o espírito das canções. Não houve nenhuma outra razão muito especial.
Ouvindo o disco, houve uma coisa que me chamou a atenção e em que antes nunca tinha verdadeiramente reparado: a apurada sensibilidade pop dos Tindersticks na forma como, a partir de um desenho de guitarra, de um "leitmotiv" de cordas ou da forma como cada canção cresce da estrofe para o refrão, se define o essencial... Mas nós sempre nos encarámos realmente como uma banda pop. Quando escrevemos uma canção, partimos de uma ideia inicial e procuramos conduzi-la até à sua conclusão natural. Embora isso não queira dizer que tenhamos uma fórmula secreta que nos indique exactamente como havemos de fazer as coisas.
A partir de certa altura, enveredaram por uma via de pop orquestral. Do vosso ponto de vista, isso constituiu um desenvolvimento inevitável? Foi uma consequência muito natural do facto do Dickon fazer parte do grupo e de ele tocar violino. A utilização de uma orquestra acabou por ser também uma forma de evitar que, para gravar as partes de cordas, ele tivesse de tocar trinta vezes a harmonia de cada canção. Parece-me, por outro lado, que essa via já deu os frutos que tinha a dar e é altura de mudarmos de rumo.
Vai ser essa, então, uma das mudanças? A mudança irá ser mais profunda. Não é uma questão de nos vermos livres disto ou daquilo em particular. Trata-se verdadeiramente de descobrir o que funciona realmente bem quando nós os seis tocamos em conjunto e ser capaz de transpôr isso que é, de facto, especial para um disco. O que, até aqui, creio que ainda não conseguimos. Esse é o objectivo mais importante.
De qualquer modo, os Tindersticks, como os Divine Comedy ou os Walkabouts integram-se numa corrente de pop orquestral que está a crescer... No caso deles, deve ter sido porque todos ouviram os nossos discos!... (risos) Claro que é muito simples decidir que se deseja escrever pop orquestral e contratar um arranjador. Como sabe, nós não funcionamos dessa forma. Connosco esse impulso veio de dentro.
Independentemente disso, no seu caso, como cantor, tem consciência de se estar a referir a uma antiga tradição de "crooners"? A verdade é que os cantores que eu admiro não vêm dessa tradição. É certo que, há cerca de dois anos, estávamos obcecados com a ideia de escrever a canção definitiva de Jimmy Webb. Mas levámos isso até onde era possível e, agora, já não vale a pena continuar por aí.
Lembro-me de ter lido que, em determinado momento, contactaram Juan Garcia Esquivel, o papa do "easy listening" mexicano para escrever para vocês... Isso foi há cerca de três anos. Foi uma daquelas coisas que nos passou pela cabeça. Admirávamos a música dele (se quiser, foi, mais uma vez, esse filão da música orquestral) e lembrámo-nos de lhe falar. Mas é como lhe digo, agora, há que seguir por outro caminho.
Como é que surgiu a ideia para o seu dueto com Isabella Rosselini em "Marriage Made In Heaven"? Pensou nela desde o primeiro momento? Essa é uma das nossas primeiras canções. Originalmente, cantei-a com a Nikki, das Huggy Bear, e editámos pouco mais de mil exemplares. Gravámo-la e misturámo-la num único dia mas era uma daquelas canções a que estávamos sempre a voltar. Quando decidimos regravá-la tínhamos um certo desejo instintivo em relação à possibilidade de o fazermos com a Isabella. Imaginámos como ela seria e fomos atrás dessa ideia para confirmar se tínhamos razão. E, de facto, encontrá-la e estar com ela confirmou as nossas fantasias.
Ela revelou-se uma cantora natural? Não. Mas os cantores naturais também não têm assim tanto interesse, pois não? Ela é uma actriz e o que faz nesta canção é representar.
Se relacionarmos esse seu dueto com a outra versão de "No More Affairs" cantada em francês, vamos ter quase directamente a Serge Gainsbourg e Jane Birkin... Espero bem que sim...(risos) Essa versão em francês tem a ver com a ideia de sempre me ter fascinado a expressão das emoções através da fonética de uma língua que não compreendo.
Na ultima linha do "press release" para este disco, é referido que os Tindersticks são vestidos por Timothy Everest, um alfaiate de cavalheiros londrino. Isso é assim uma coisa tão importante para vocês? Houve uma altura em que foi. Vestíamos uma roupa que mais ninguém usava. Tal como acontecia com as nossas canções.
Para terminar, posso-lhe pedir o seu "top ten" de discos privado? Sempre que me perguntam isso, faz-se-me uma branca no pensamento. Mas acabo sempre por falar de gente como Tim Hardin, Velvet Underground, Big Star, Al Green, Townes Van Zandt...
Na primeira vez que conversámos, disse-me que passou a juventude a ouvir os discos de Neil Diamond da sua mãe... Isso é uma velha tradição de família... Pelo Natal, ou são esses ou os do Perry Como...