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16 January 2013

SALTOS DE PRANCHA 
















O Experimentar - 2: Sagrado e Profano

Para quem leva religiosamente a sério as proverbiais listas e balanços de fim de ano (que fique assente, de uma vez por todas: nunca são organizadas de ânimo leve mas, se em vez de terem ficado definitivamente estabelecidas numa sexta-feira à tarde, sob temperatura de 14ºC, isso tivesse acontecido noutro dia e a outras horas e temperatura, é assaz provável que não fossem exactamente iguais), convém dizer já que, se 2: Sagrado e Profano não constou da que, no que à música portuguesa diz respeito, poderia, facilmente, tê-lo sido. Tal como – e uma vez que de deambulações pelos trilhos das músicas tradicionais se trata – os volumes 2 e 3 das “diversões” das Unthanks, The Unthanks With Brighouse And Rastrick Brass Band e Songs From The Shipyards (desgraçadamente não distribuídos por cá), não precisariam de qualquer tipo de lobbying para assegurar lugar na lista internacional. Não porque qualquer deles necessitasse, verdadeiramente, de tal legitimação.


2: Sagrado e Profano, em particular, segunda encarnação do que, antes, se designava por O Experimentar Na M'Incomoda, é uma magnífica descendência do que a Banda do Casaco, Chuchurumel, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Campanula Herminii e, muito em especial, a Sétima Legião de O Sexto Sentido (para referências exteriores, procurar em Hedningarna, Transglobal Underground ou Loop Guru), foram inventando tomando a tradição popular como potente prancha de salto. No caso, a da música dos Açores, partindo de matéria-prima sonora previamente recolhida e, entre Copenhaga, Lisboa e o Faial, transfigurada por Pedro Lucas e cúmplices (Carlos Medeiros, Zeca Medeiros, Pedro Gaspar, Miguel Machete, Nicolaj Høj) em algo de, simultaneamente, arcaico e contemporâneo, local e fulgurantemente global. 

07 February 2011

TOCAM CAMPAINHAS



Campanula Herminii - Cumeada




César Prata - Canções de Cordel

A tese de Brian Eno segundo a qual a arte seria uma máquina de simulação das infinitas possibilidades da vida real – das mais inócuas às radicalmente extremistas – mas resguardada da hipótese irremediável de tragédia, é sedutora porém, naturalmente, não esgota a matéria-prima especulável. Com epicentro na cidade da Guarda, considerem, então, a concepção de que a actividade artística constitui um aparelho de amplificação e ramificação da realidade. Duas palavras: “campanula herminii”. Primeira derivação: trata-se de uma espécie botânica endémica na Península Ibérica, entre a Sierra Nevada e a Serra da Estrela. Segunda derivação: arte de grandes segredos, o fabrico de campainhas de bronze na aldeia de Maçainhas, na Guarda, era praticado em fundições familiares, nas quais – para manter ocultos técnicas e procedimentos – apenas o professor e o padre da aldeia podiam entrar; hoje, apenas dois artesãos persistem em Maçainhas.


Campanula Herminii - "Ladeira Acima"

Terceira derivação: Campanula Herminii, aliás Marcos Cavaleiro, Miguel Cordeiro, Pedro Lucas e Mário Costa, grupo de percussões, electrónica e timbres associados (bandoneon, concertina, marimba, banjo, melódica, serrote e trompete) de convidados vários, cuja música – espécie de essência floral laboriosamente ultradiluída – parte do som das campainhas de bronze de Maçainhas, reimagina cenários serranos e rotas de transumância e enxerta-os em memórias imaginárias e espaços de atmosferas translúcidas que, facilmente, diríamos acolherem esboços de Steve Reich para uma Penguin Cafe Orchestra tão monasticamente austera quanto a ordem do convento do abade devasso, Brian Eno (ei-lo que reentra na conversa, o também perfumista de Neroli), o determinaria. O Teatro Municipal da Guarda co-produziu e publicou Cumeada e, com redobrado mérito, reincidiu em Canções De Cordel, de César Prata, ele dos mui excelentes Chuchurumel, do posterior Assobio e do anterior capítulo Canções Do Ceguinho (2003), primeiro tomo do projecto agora retomado.















Se, em A Origem Do Fado, José Alberto Sardinha defende que “Esse fado popular, esse fado das ruas, de faca e alguidar, dos ceguinhos, não é outro senão o substracto novelesco do romanceiro tradicional, e o subsequente manancial das canções narrativas, afinal, o primitivo, o primacial, o originário fado, a fonte, a génese, o tronco primevo do nosso fado”, César Prata, em trajectória paralela, emparelha onze tradicionais “de cordel” com um tema de Frederico de Brito (estojo para a magnífica voz de Vanda Rodrigues), ornamenta-os de cavaquinho, harmónica, kazoo, melódica, guitalele, acordeão, resonator guitar e (regresso ao ponto de partida) campainhas, desmaterializa-os via-laptop e cumplicidades de Kubik e B. Riddim, e, no mesmo fôlego, bifurca o tempo entre “murder ballads” proto-fadistas e assombrações digitais egitanienses.

(2011)

05 April 2010

ALMA DANADA



Galandum Galundaina - Senhor Galandum

Muito poucas coisas serão inteiramente más ou inteiramente boas. Em si mesmas e nas consequências que delas possam decorrer. Por exemplo, o nacionalismo, essa encarnação tardia (e, supostamente, sofisticada) do tribalismo. Mais ou menos xenófobo ou "racista", de tonalidades patrioteiro-futebolísticas ou "libertadoras", combustível para massacres, desenhos de fronteiras a sangue e limpezas étnicas, devemos-lhe também, no entanto, algumas das melhores obras chocadas no viveiro dos "nacionalismos musicais" que, do início do século XIX até à actualidade, por via erudita – a dos Glinka, Mussorgsky, Bartók, Dvořák, Kodály, Copland ou Lopes Graça – ou através dos sucessivos "folk-revivals" assentes nas recolhas dos vários Lomax, A.L.Lloyd e Giacometti deste mundo, se aplicaram na busca das míticas “almas nacionais” que, por contaminação ideológica romântica, haveriam, forçosamente de residir na "pureza" dos ritmos, harmonias e melodias das gentes "simples" do campo. A invenção do conceito de "world music", em 1987, trataria, finalmente, de globalizar todos os patrimónios musicais "tradicionais" e de, nesse mesmo processo, os colocar disponíveis para mil outras reconfigurações e desejáveis esquartejamentos.



Às mãos dos Gaiteiros de Lisboa, de Amélia Muge, da Sétima Legião, dos Vai de Roda, dos Oquestrada ou dos Chuchurumel, a "alma nacional" portuguesa já foi objecto de inúmeros safanões e aditamentos nos registos de identidade, a todos tendo ficado eternamente em dívida pelo enriquecimento que daí, invariavelmente, resultou. À lista dos credores haverá de acrescentar-se, agora, o nome dos Galandum Galundaina que, após o anterior Modas i Anzonas (2005), neste Senhor Galandum propõem mais uma magnífica tradução contemporânea e sem demasiadas cerimónias "autenticistas" da música popular tradicional do nordeste raiano. Sim, a matriz é trasmontana e mirandesa, de vozes, gaitas, fraitas e tamboris, mas acolhe sem alergias as charrascas galegas, o kaval húngaro, as rabecas, a dulçaina, as sanfonas, os bendirs, as vozes de Sérgio Godinho e Uxia e a remix do DJ Hugo Correia. E, atentem bem, poderia existir tema mais vibrantemente actual do que a vida sexual do clero, exemplificada pela história do cura que emprenhou a criadita a quem nasceu “un curica com gorro i sotaina”? Ou a do outro santo clérigo, borracho e devasso – talvez compincha do "Fraile Cornudo" –, que exigiu ser enterrado no carreiro do cemitério “para ber las fraldas a las mulhieres!"?... Se isto são velharias "folclóricas", vou ali e já venho.

(2010)

15 February 2008

OS DOIS MUNDOS DA TRADIÇÃO


Mnemosyne

Mal se pronuncia a palavra “tradição”, desenha-se, instantaneamente, uma estreitíssima linha que, no entanto, separa, com clareza, dois universos: um, para o qual galopam muitos dos piores sinais de tribalismo, nacionalismo e, de um modo geral, tudo o que decorre do mais aterrador instinto de territorialidade, através do qual se legitima uma extensa agenda de barbaridades, selvajarias e atrocidades – das corridas de toiros, às limpezas étnicas e à mutilação genital feminina – que, a serem suprimidas (alegam os seus defensores), amputariam as comunidades dos seus praticantes de uma parcela insubstituível de preciosa “identidade”; e o outro que um dos casos relatados por Oliver Sacks em Musicophilia - Tales Of Music And The Brain ilustra exemplarmente: Clive Wearing, um músico e musicólogo inglês vítima de uma gravíssima encefalite que lhe induziu uma amnésia profunda, ficou reduzido a um intervalo de memória de cerca de trinta segundos e preso num interminável “agora” que apagou todo o sentido de continuidade da sua narrativa de vida. Essa, apenas regressava, fragmentariamente, quando se sentava ao piano e a interpretação de um prelúdio de Bach lhe devolvia uma semelhança de existência e lhe permitia inverter o sentido da condenação que, nos fugazes instantes de lucidez, reconhecia: “Sou completamente incapaz de pensar”.



O coral feminino Cramol cuida, dedicadamente, da saúde da nossa memória colectiva e fá-lo, sem interrupção, desde há quase trinta anos. A recuperação das polifonias, cantos de escatilhar, embalos, canções de trabalho, temas de religiosidade popular, esconjuros, encomendações e maldições pagãs a que, incondicionalmente, se entregam, não só impede a mumificação da música popular tradicional por entre o bolor das páginas dos cancioneiros mas – exactamente da mesma forma que os prelúdios de Bach actuavam sobre a memória residual de Clive Wearing – contribui também para que possamos continuar a pensar e a pensar-nos. Vozes de Nós, como o anterior Cramol (1996), não tem como objectivo “modernizar”, operar cruzamentos transculturais de idiomas ou inventar fogos-de-artifício vocais. Aqui, neste duplo-CD e nas várias oportunidades em que dividiu o palco com grupos de teatro, companhias de dança ou músicos como os Urban Sax, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Danças Ocultas ou Camané, o Cramol propõe-nos só a possibilidade de uma reflexão não demasiadamente simples mas decisiva: “somos isto, recordemo-nos que vimos daqui, para onde desejamos ir?”. Precisamente o género de tesouro que Wearing, na sua tragédia individual, daria tudo para possuir.



Maria Café, das Tucanas – outro colectivo feminino, neste caso de vozes, percussões e episódicos acordeão e sopros – situa-se no polo oposto: o álbum de estreia deste estilhaço distante da galáxia Rui Júnior/Tocá Rufar/Wok sonha com uma “tradição” poliglota (para a qual inventaram, expressamente, o “tucanês”) onde os diversos veios locais se confundem e a única raiz comum se alimenta da batida rítmica. Ainda não terão iniciado uma autêntica expedição de verdadeiras descobertas nem cartografado territórios inconfundivelmente novos mas o programa e desenvolvimentos futuros deverão ser seguidos com atenção.



Entre ambos, a Ronda dos Quatro Caminhos, com Sulitânia, explora as hipóteses de uma amplificação de recursos no tratamento do reportório tradicional para o que recorre aos efectivos combinados das Adufeiras de Monsanto, do grupo alentejano Coral Guadiana de Mértola, do côro Eborae Musica, do quarteto de cordas Opus 4 e dos Cantares de Évora. O ensaio de estilização e (quase) elevação ao patamar de “música de concerto” da tradição popular é, sem dúvida, conseguido, mas é impossível não reparar como, num terreno onde já muito pouco cerimoniosamente lavraram os Chuchurumel, Gaiteiros, Sétima Legião e Amélia Muge, Sulitânia resulta excessivamente engravatado e conservador.

(2008)

03 January 2008

MÚSICA 2007 - V (portugueses)



AMÉLIA MUGE - NÃO SOU DAQUI

JP Simões - 1970

Chuchurumel - Posta Restante

Clã - Cintura

Cristina Branco - Abril


(2008)

04 November 2007

NO MUNDO REAL



Chuchurumel - Posta Restante




David Fonseca - Dreams In Colour




Clã - Cintura




Jorge Palma - Voo Nocturno

Um antigo refrão da história de quase todas as coisas nacionais ensinou-nos que, de um modo geral, tudo tende a chegar a Portugal com atraso, atenuando, assim, o potencial positivo do que é bom e agravando o negativo do que é mau. Actualmente, porém, temos de reconhecer que, por efeito da mundialização instantânea da informação, o mal já nos chega na hora, embora o bem – em consequência da inércia entretanto instalada – ainda vá levando o seu tempito. Trocando por miúdos, para o que agora interessa: se o início do estertor final da indústria discográfica global, tal como nos habituámos a conhecê-la, não provocou imediatos abalos sísmicos entre nós, agora que nos aproximamos do apocalíptico desfecho, o nosso pequeno e paroquial céu está a segundos de nos cair sobre a cabeça. E, por muito pequeno que seja, vai doer.



Paradoxalmente, bastante mais do que outros bem maiores. Porque, se uma das soluções para compensar a gigantesca fatia do mercado discográfico (brevemente, a totalidade) que o “download” livre de ficheiros na Internet diariamente devora se poderá encontrar no reforço, alargamento (e encarecimento) do circuito de concertos, num espaço geográfico limitado como o português, onde uma tournée “nacional” com condições e rentabilidade mínimas se esgota numa mão-cheia de datas, o futuro não augura, realmente, nada de bom. Acrescente-se ao cenário a velha e familiar “crise” que, atavicamente, faz questão de nos fazer companhia e não haverá baldes de tinta negra que cheguem para o pintar. Continuam a existir discos “de ouro” e “platina” (a “prata”, por razões de decoro, foi discreta e caridosamente eutanasiada) cunhados naquela liga metálica pouco nobre que Christopher Pinchbeck inventou, mas nem a melhor cosmética do desastre o poderá dissimilar por muito tempo. Sobra a hipótese da internacionalização que, até agora, tem estado quase exclusivamente reservada ao fado (e expressões afins, mais ou menos “étnicas”) e a algumas margens “experimentais”/”de vanguarda”. E, mesmo aí, não a todos, frequentemente, não àqueles que verdadeiramente o mereceriam e, em todos os casos, numa dimensão a muitos anos-luz de distância de um estatuto razoavelmente equiparável ao de – para dar apenas um exemplo oriundo da “liga dos pequenos e médios países” do universo musical – Björk.



Não carregando demasiado no tom aterrador de profecia bíblica, estes poderão ser alguns dos últimos discos de música portuguesa publicados segundo as regras da velha ordem editorial – tanto os que ainda se abrigam sob a sombra de “majors” em acelerado processo de retirada estratégica como os que recorrem a estruturas “independentes”. O que, especialmente em versão lusa, poderá ser a nova ordem, é tudo menos claro. Mas, enquanto não se clarifica, parece-me sensato que, caso o tenham, os músicos portugueses não larguem o seu “day job”. Posta Restante, dos Chuchurumel, por exemplo: mesmo tendo em conta que Sexto Sentido, da Sétima Legião, ou toda a discografia dos Gaiteiros de Lisboa e de Amélia Muge estabeleceram um elevado termo de comparação relativamente aos modos contemporaneos de lidar com a tradição musical popular, é um magnífico álbum onde os materiais sonoros – encarados quase como “found sounds” montados de modo sabiamente eisensteiniano ou reformulados e transfigurados tecnológicamente e no sentido de uma reavaliação propriamente musical – transportam instantaneamente para o presente as marcas de uma memória que, escutada assim, nunca nos ocorreria qualificar como “arqueológica”. Todas estas “cartas” (sob a forma de mazurkas, xotiças, romances ou cantigas de cego pedinte em registo mutante) exigem ser escutadas por ouvidos de hoje mas, como garantir-lhes a sobrevivência para além da micro-cena “folk” nacional?



Muito mais dificilmente isso acontecerá com Dreams In Colour, de David Fonseca: internamente, decerto deixará a perder de vista nas listas de vendas o disco dos Chuchurumel – e 20 mil magras cópias já inscrevem uma platina jeitosa no currículo – mas não será pelo facto de se exprimir em inglês (variante “Officer Crabtree”, de Alô, Alô, é verdade) que esta pop cada vez mais ligeira, orelhuda e próxima de uma rítmica e instrumentação de pedagogia-Orff infantil poderá dar um passo para lá de Elvas. Assobio-Primavera-Verão (que foste tu fazer, Andrew Bird?), pose “indie”-mas-sem-complexos e tudo, trata-se apenas de “produto local” e, como tal, sujeito à nova lei implacável que, actualmente, impede que um êxito como o dos Silence 4 se volte mais alguma vez a repetir.



Cintura, dos Clã – que deverão passar a ser considerados como a mais legítima descendência de Sérgio Godinho (com quem, não por acidente, já, em várias oportunidades, cruzaram caminhos) no pequeno mundo da pop lusófona – coloca a música do grupo num patamar menos tenso que o óptimo Rosa Carne (2004), areja-a e, sem abrir mão da complexidade da arquitectura anterior, teria tudo para poder, finalmente, projectar a banda de Manuela Azevedo para uma visibilidade que a sua excelente meia dúzia de álbuns já absolutamente justifica. Desde que, naturalmente, o seu núcleo de fãs assinasse uma espécie de juramento de sangue segundo o qual, nunca por nunca, cometeria o pecado de o adquirir por outros meios que não os legalmente previstos…



... justamente o mesmo tipo de pacto que Jorge Palma poderia propor aos seus (mas ele tem o terrível problema de ser transgeracional…) para que Voo Nocturno – provavelmente, a sua colecção de canções onde, de forma mais exacta e consistente, faz coincidir o sentido de textos e melodia, embora um ou outro excesso “rockista” se dispensasse – não tivesse demasiados problemas de tráfego aéreo. O que, no mundo real, não parece estar a ser tarefa simples. (2007)