Showing posts with label George W. Bush. Show all posts
Showing posts with label George W. Bush. Show all posts

30 September 2019

ESCOLA DE PENSAMENTO


Pelo menos desde o início deste milénio, o mundo teve já várias oportunidades de travar conhecimento com os "bons mots" oriundos da escola de pensamento presidencial norte-americana. Primeiro, via George W. Bush, coligido por Jacob Weisberg nos 5 preciosos volumes de George W. Bushisms: The Slate Book of Accidental Wit and Wisdom of Our 43rd President. Depois, Pieces of Intelligence: The Existential Poetry of Donald H. Rumsfeld (2009), no qual Hart Seely revela a poesia oculta nas declarações do Secretário de Estado da Defesa do acima referido W (“As we know, there are known knowns. There are things we know we know. We also know there are known unknowns. That is to say we know there are some things we do not know”), aliás, musicada pelo compositor Bryant Kong. Por fim, I Hope Like Heck: The Selected Poems of Sarah Palin (2011), antologia de 50 "found poems" extraídos por Michael Solomon dos emails da ex-candidata à vice-presidência, de quem, Jacob Weisberg também já publicara Palinisms: The Accidental Wit and Wisdom of Sarah Palin (2010). 



Nunca estaríamos, porém, preparados para que aquela profecia visual de Banksy em que um chimpanzé exibe um cartaz onde se lê “Laugh now but one day we’ll be in charge” se realizasse tão cedo, a 8 de Novembro de 2016. Três anos depois, não é de espantar que já existam 3 volumes de Trumpisms Day-to-Day Calendar: The Boasts, Barbs, and Bizarre Musings of the 45th President compilados por Andrews McMeel, os 11 minutos de "grindcore" de The First 100 Songs, dos Anal Trump (100 canções com a duração média de 6,6 segundos, “from the point of view of the asshole”, isto é, o único texto são trumpismos avulsos) e, agora, 45, da School of Language, actividade extra-curricular de David Brewis, metade dos óptimos Field Music. Inspirado por Fear (a aterradora visão dos bastidores da Casa Branca), de Bob Woodward, artigos da imprensa americana, e por James Brown, Prince, Sly & the Family Stone, The Meters, Otis Redding e Free, este “Donald Trump funk musical” é um exercício entre o cómico e o deprimente sobre a fanfarronice bronca do 45º presidente dos EUA, segundo o próprio e vários elementos do gang de meliantes que o rodeia. "Nobody Knows" (“Nobody respects women like I do”) poderia ser uma esclarecedora síntese mas o refrão de "Rex" – pela voz do despedido Secretário de Estado, Rex Tillerson – põe todos os pontos claramente nos “i”: “I didn’t say he was a moron, I said he was a fucking moron!”

21 August 2019

UM CAMELO NEGRO 


Como foi possível não termos realmente reparado? Por que estúpido motivo não teremos levado a sério um álbum cujos primeiros três minutos e meio ("That’s Just the Way That I Feel") não poderiam ser mais explicitamente claros? Onde o lugar para as dúvidas de que “Things have not been going well, this time I think I finally fucked myself (…) Day to day, I'm neck and neck with giving in, I’m the same old wreck I've always been” era uma mensagem lançada a um palmo do abismo? E acrescentar-lhe “I've been humbled by the void, much of my faith has been destroyed (…) when I try to drown my thoughts in gin, I find my worst ideas know how to swim” não bastaria? E o desfecho “The end of all wanting, is all I've been wanting, and that’s just the way that I feel” não nos abriria, enfim, os olhos? Talvez porque a perfeitíssima rima interna encharcada de negríssima ironia (“I met failure in Australia, I fell ill in Illinois, I nearly lost my genitalia to an anthill in Des Moines”) nos tenha distraído ou o tom de "honky tonk" atamancado tenha apontado para o lugar errado. 



Não seria nada de novo: quando, em 2003, David Berman tentou, pela primeira vez, o suicídio com um cocktail de álcool, crack e cocaína, fez questão de o encenar na mesma suite de hotel onde Al Gore esperou pela recontagem dos votos para a eleição presidencial (que perderia para George W Bush), proclamando: “Quero morrer onde a presidência morreu!”. Desta vez, não chegaria sequer a ser hospitalizado como, também acidamente, diria em "Random Rules" (“In 1984 I was hospitalized for approaching perfection”), de American Water (1998), embora Purple Mountains não se tenha apenas abeirado da perfeição. Neste álbum de “hello and goodbye” – parafraseando invertidamente um título do não menos danado Tim Buckley – o (des)equilíbrio entre a quase banalidade do suporte musical e as trevas profundas que o envolvem (“Housed within the song's design is the ghost the host has left behind to greet and sweep the guest inside”) dir-se-ia um deliberado gesto de desdém perante “a arte”, definitivamente ultrapassada pela urgência de não recusar o óbvio ("We're just drinking margaritas at the mall, that's what this stuff adds to after all") e justificar o inevitável (“The dead know what they’re doing when they leave this world behind”). A 7 de Agosto, David Berman/Silver Jew, recordou-se pela última vez do provérbio árabe que citara em "Nights That Won’t Happen": “Death is a black camel that kneels down so we can ride”. (entrevista aqui)

13 September 2012

O MANUAL DE ARGUMENTAÇÃO OFICIALMENTE APROVADO MANDA DIZER: SE ATIROU UM OVO, É PORQUE AINDA NÃO HÁ ASSIM TANTA FOMINHA COMO SE APREGOA - NOS PAÍSES POBREZINHOS A SÉRIO USAM-SE SAPATOS

03 September 2012

NÃO ARRISCAR


Ry Cooder  -  Election Special
   
Nas profundezas mais tenebrosamente perversas de alguns de nós, há um lugarzinho reservado para os formidáveis momentos de bom humor que os George W, Sarah Palin, e meninos guerreiros deste mundo nos garantem. Em instantes de especial desvario, sonha-se mesmo com a possibilidade de os podermos ter numa gaiolinha, na sala, onde nos animariam os dias e divertiriam as visitas com ditos de espírito e sabedoria como "norteio a minha vida pela simplicidade da procura do conhecimento permanente”. Nesta ordem de ideias, ser o feliz possuidor de um candidato à presidência dos EUA capaz de jurar que, em França, o casamento é um contrato estabelecido por períodos de 7 anos, homem para, por um descuidinho, fazer comícios eleitorais em estabelecimentos cujo proprietário é um conhecido narcotraficante, e que, em matéria de fé, avança para a Casa Branca absolutamente convicto de que Deus é um fulano de carne e osso que habita no planeta Kolob, seria puro luxo asiático. 



O problema grave é que, atrás disso, vem inevitavelmente agarrado lixo tóxico do género daquele que aprecia regressar à Idade Média arengando que mulher “legitimamente violada” não engravida. Ry Cooder prefere não arriscar e, em ano de eleições, qual Woody Guthrie ou Phil Ochs, não disfarça sequer de que lado está: desde a primeira canção, "Mutt Romney Blues", em que narra a história (verídica) de como, uma vez, o candidato mormon fez uma longa viagem com o seu setter irlandês amarrado à capota do automóvel e daí infere a idêntica sorte que poderão esperar os americanos até "Cold Cold Feeling", pretexto para pôr um Obama/T-Bone Walker a cantar “If they resegregate the White House, I’ll have to go in through the kitchen door”, o homem que trata os blues e tradições afins por tu oferece mais um belo exemplo de agitprop musicalmente superlativa.

17 May 2012

A REGRA DE TRÊS SIMPLES 
(2ª parte da entrevista com Jack White publicada na "Blitz") 


Não estava propriamente à espera de que um diálogo de vinte e cinco minutos com um dos 20 melhores guitarristas de sempre do rock’n’roll, de acordo com o ranking de 2011, da “Rolling Stone” (mais precisamente, o 17º - “the hottest new thing on six strings by celebrating the oldest tricks in the book: distortion, feedback, plantation blues, the 1960s-Michigan riff terrorism of the Stooges and the MC5”), pelo caminho, se desviasse para uma espécie de debate em torno da influência da religião no processo político norte-americano e suas peculiaridades anexas, sob o eventual alto patrocínio de Richard Dawkins. Mas tudo começou quando, em naturalíssima sequência da alegada “obscenidade da religião”, me ocorreu perguntar a Jack White o que pensava acerca do despique actualmente em curso nas primárias do Partido Republicano, travado à volta da magna questão de aferir quem é mais fanática e irremediavelmente conservador e cristão?

“Os políticos, na América, utilizam a religião como a forma mais fácil para serem eleitos. As pessoas assustam-se, supõem que há quem se preocupe imenso com questões morais, mas, no fundo, é apenas o caminho mais curto que descobriram para chegar ao poder. Imagina que, se algum candidato se declarasse abertamente ateu, poderia, alguma vez, ser eleito presidente? Nunca na vida. Poderia ser mil vezes mais capaz e mais qualificado para o cargo que todos os outros mas nunca seria eleito”.

A resposta à interrogação seguinte – “posso perguntar-lhe em quem votou nas últimas presidenciais?” –, porém, foi ainda mais desconcertante:

“Em ninguém. Nunca votei para a presidência. Recuso-me a fazê-lo porque não acredito no sistema do colégio eleitoral que não respeita o voto popular. O presidente deveria ser eleito por voto directo: aquele que tivesse maior número de votos ganharia. Mas o que acontece é que é eleito pelo colégio eleitoral, uma relíquia repugnante que data do século XVIII e que permitiu, por exemplo, que George W. Bush fosse eleito sem ter alcançado a maioria dos votos. Ganhou através do colégio eleitoral e não pelo voto popular. É absolutamente ridículo, mas ninguém parece preocupar-se com isto”.

18 January 2009

HÁ QUE PREPARAR SEMPRE TODOS OS DETALHES 
DE UMA FESTA COM A DEVIDA ANTECEDÊNCIA



"GOOD BYE MY FRIEND" GIANT FOAM HAND
We know it's hard, but you have to get over it. George wouldn't want you to be sad because he's leaving. So show him how happy you are that he's hitting the road (though it's really not true) with an affectionate farewell by waving this foam hand.

Valuable advice for use: If instead of a simple goodbye, you want to give George a more explicit farewell gesture, grab some scissors and cut the index, ring and little fingers. The intensity will be the same, but the message will be slightly different.




MASKS
Choose your favorite character and become him/her during the party. They're all here! From George himself to each and every one of his lovable and cuddly friends.

Valuable advice for use: To really get a feel of what it's like to be the most powerful man on the planet, put the George W mask on for a few minutes and try pressing all the red buttons you run into: the record button on your VCR, the power-off button for the TV, the hazard lights on your car or the zit on your nephew's forehead.




HATS
Any "end-of-something-party" is not a party without the traditional cone hats that can transform you from ˜seriously cool" to "complete idiot"' in a matter of seconds.

Valuable advice for use: don't wear it in public Just the way you look and the charisma of our guest of honor will be enough to set off trouble, so watch out for incoming shoes!




GARLANDS AND BANDOLEERS
The decorations for any Bush Bye Bye Party are essential. So, replace that boring Tapies painting or that dull Verner Panton lamp with these avant-garde ornaments... you'll give your party a real George W. style.

Valuable advice for use: After the party, don't throw out the decorations. Use them to turn your boring office into one of George's favorite places: the authentic urban setting of Bagdad, the rural charm of Afghanistan or the R&R of the Guantánamo Spa&Resort.

(mais dicas e sugestões úteis para animação de festas em Bush Bye Bye Party)

(2009)

05 January 2009

UM (ÚNICO) MOMENTO DE SOLIDARIEDADE COM A FAMÍLIA BUSH


India R.I.P.

WASHINGTON – The first family leaving the White House this month will be without one of its longtime members: the Bush family's 18-year-old cat has died. The first lady's office said Monday that India, a black American shorthair named for former Texas Rangers player Ruben Sierra, died Sunday at the White House. Bush daughter Barbara, then 9, named the cat "India" after Sierra, a former major league player, whose nickname was "El Indio." President George W. Bush was a former co-owner of the Texas Rangers. When Bush daughters Barbara and Jenna went to college, the cat stayed at the White House with the president and first lady. The family affectionately called the cat "Kitty." (aqui)

(2009)

04 June 2008

MATAR UM ÁRABE
(a propósito de Albert Camus)


No Verão de 2006, os “spin-doctors” da Casa Branca puxaram os cordelinhos necessários para que chegasse ao conhecimento público que, de férias no seu rancho do Texas, George W. Bush (a quem o mundo em geral não atribui exactamente o estatuto de intelectual) tinha escolhido como leitura O Estrangeiro, de Albert Camus. Dava jeito até porque, no ano anterior, num discurso em Bruxelas, no qual enaltecia o papel da aliança entre os EUA e a União Europeia com a finalidade de “disseminar a democracia pelo mundo”, alguém lhe havia plantado no texto uma citação de Camus onde este afirmava que “a liberdade é uma corrida de longa distância”. A manobra, porém, teve o resultado oposto ao pretendido porque, inevitavelmente, houve logo quem chamasse a atenção para a passagem do livro onde o protagonista, Mersault, mata a tiro, fria e amoralmente, um árabe. 



Um tiro que, para o texano de poucas letras, no actual clima político, fez ricochete e lhe acertou, mais uma vez, no pé. Nada, porém, que não pudesse ter sido evitado se a quadrilha de assessores de Bush fosse um bocadinho mais versada em matéria de pop britânica e conhecesse, por exemplo, a teia de equívocos urdida em torno de “Killing An Arab”, o primeiro single dos Cure, de 1978, também ele inspirado no romance de Camus: desde o primeiro instante, por mais que Robert Smith se esgotasse a explicar que a canção era apenas uma tentativa de transpor para o idioma da pop a sua leitura da obra do escritor francês e que, onde se lia “árabe” (no livro e na canção), poderia estar qualquer outra etnia ou nacionalidade, isso não impediu que, a sua primeira compilação de singles, Standing On A Beach (1986), fosse obrigada a ostentar um autocolante que alertava contra a potencial utilização para fins racistas da canção, que esta fosse excluída de Greatest Hits (2001) ou que, já no pós-11 de Setembro, em diversos festivais, Smith tivesse de alterar grotescamente o texto para “kissing an arab” ou “killing another”. Invariavelmente, a iliteracia conduz ao disparate ou à censura.

(2008)

02 April 2008

NO VENTRE DA BESTA



In The Belly Of The Beast é uma assombrosa colecção de cartas de Jack Henry Abbott (encarcerado numa prisão de alta segurança) a Norman Mailer, onde reflecte acerca do que é viver o Inferno na terra. "No ventre da besta" é como Michael Stipe define a situação actual dos R.E.M., estabelecendo um paralelo entre a actividade de uma das mais populares bandas norte-americanas contemporâneas e a do cineasta Michael Moore: do lado de dentro do Inferno — os EUA —, usando os media a que têm acesso para o denunciar. O pretexto pode ser o lançamento de mais uma colecção de "greatest hits" (In Time: The Best Of R.E.M. 1988-2003) mas isso acaba por constituir apenas um elemento menor numa intensa conversa de olhos nos olhos com um artista norte-americano que tem visivelmente prazer em usar o cérebro.

Esta compilação de "greatest hits" foi realizada pela própria banda. Que critérios de escolha das canções a incluir seguiram?
Foi muito, muito fácil. Cada um de nós elaborou uma lista das canções que pretendia que figurassem no disco e, no final, as três listas eram muito semelhantes. Tínhamos as canções que foram publicadas como "singles" e aquelas para as quais foram realizados videoclips. O que, no fundo, desejámos foi conceber uma compilação que representasse bem a banda de uma forma razoavelmente exaustiva. Havia canções que foram grandes êxitos como "Shiny Happy People" mas também outras que tiveram menos sucesso como "Nightswimming" e que ajudam melhor a compreender a nossa faceta enquanto banda de "singles".

Vêem-se principalmente como banda de "singles"?
Não, não! Somos essencialmente uma banda de álbuns. Como vê, somos bastante antiquados nesse aspecto (risos). Mas gosto da ideia dos "singles". Não escrevemos canções a pensar se vão ser editadas em "single" ou se vão passar na rádio. É bastante embaraçoso esforçar-se para escrever algo não muito bom mas pensado como "single" e que, afinal, não resulta. Prefiro escrever canções que se apoderem da imaginação dos tipos das rádios e do público mas que não sejam nada óbvias. "Losing My Religion" é um óptimo exemplo: é indiscutivelmente a nossa canção de maior sucesso mas por um puro golpe de sorte! Não é sequer uma canção "como deve ser", dura cinco minutos, tem um bandolim como instrumento principal e não tem refrão! Como é que uma coisa assim se transforma na "canção do ano"? Nada disto se pode prever nem programar.



Li no "press release" que, para auxiliar na escolha, pediram opiniões também a fãs, amigos e familiares mas que excluiam automaticamente quem votasse em "Shiny Happy People". Odeiam assim tanto essa canção?
Não. Os media estão convencidos que a odiamos e não nos largam com isso mas não é verdade. É uma canção "bubblegum" e foi exactamente isso que quisémos que ela fosse quando a escrevemos. É uma canção para miúdos.

Tal como o próprio videoclip...
Claro. Mas, para mim, não cabia nesta compilação.

Mais de vinte anos após o início dos R.E.M., tem já uma perspectiva acerca da forma como o grupo evoluiu?
Sim, vejo com muita clareza as diversas fases e tendências. As intenções muitas vezes não se traduzem naquilo que realmente se passa. Eu tenho uma ideia bem definida de como desejo que seja um disco. Passa-se exactamente o mesmo com o Peter Buck. Ambas são interessantes. Juntam-se as duas e aí está aquilo que são os R.E.M.. Harmoniza-se e articula-se tudo isso e o resultado é algo francamente superior a cada um de nós três isoladamente.

É curioso porque, da geração de bandas americanas a que vocês pertencem — que incluia os Violent Femmes, Dream Syndicate, Green On Red, Long Ryders, Rain Parade, Jason & The Scorchers —, os R.E.M. foram os únicos que construiram uma carreira longa e com êxito...
Há Los Lobos, os Sonic Youth também...

Mas, de modo nenhum, ao vosso nível...
Como unidades criativas, eu diria que sim. Certamente, não de um ponto de vista de sucesso comercial. Não faço a mínima ideia por que motivo aconteceu assim. Nós sempre trabalhámos muito a sério e eu tenho uma paixão imensa por aquilo que faço. A vida é demasiado curta para não nos entregarmos totalmente a algo que desejemos muito fazer. Provavelmente, é só isso: não fazer senão aquilo em que acreditamos. Não há outra forma.



Como é que se sente hoje relativamente aquele período — de "Losing My Religion" e "Everybody Hurts", principalmente — quando os R.E.M. eram gigantescamente populares e era impossível não os escutar na rádio de cinco em cinco minutos?
Era divertido. Na verdade, não tinha muito tempo para ouvir rádio, estava constantemente a cumprimentar pessoas na rua... (risos) Reconheciam-nos constantemente. Mas o nosso estatuto actual é, para mim, muito confortável. Ainda vêm ter connosco e falar-nos de como as nossas canções foram importantes, em dado momento. Só tenho que agradecer. Em Detroit, houve um tipo que realmente me surpreendeu: dirigiu-se a mim e disse-me "obrigado por viverem o sonho". Não me podia ter dito nada melhor. A minha ideia, quando era adolescente, de fazer parte de uma banda, escrever canções, viajar pelo mundo, era, de facto, um sonho. Era uma completa fantasia que nada tem a ver como as coisas verdadeiramente são. Era incrivelmente glamoroso, havia todo um mundo para explorar. Pelo menos, parecia, até termos que passar metade da nossa vida metidos em aviões... (risos) Há partes muito pouco glamorosas naquilo que fazemos mas, no conjunto, para mim, ainda é muito excitante e um grande desafio.

O que resta então dos Twisted Kites — o primeiro nome do grupo — nos R.E.M. actuais?
O grupo tinha apenas dois meses de vida quando começámos a pensar como nos deveríamos chamar. De duas em duas horas, tínhamos um nome diferente. Twisted Kites foi só um deles. Acredite que eram às dúzias... (risos) Acabámos por nos decidir por R.E.M. porque, naquele tempo do punk e da new wave tinham todos nomes muito punk-rock e new wave. E nós não queríamos ser categorizados dessa forma. Tentámos sempre desafiar as diversas categorias, nunca nos encaixámos em nenhuma. Não somos uma banda de punk rock, não somos uma banda de hard rock, não somos sequer uma banda de rock, não somos uma banda de folk, não somos uma banda de country, não somos uma banda experimental. Somos cada uma e todas essas coisas ao mesmo tempo o que, penso, só se pode classificar como R.E.M.. Não, não somos realmente uma banda pop nem rock... Não porque sejamos extraordinariamente originais mas porque todas essas coisas influenciaram a nossa música, oiço-as todas naquilo que fazemos.



Falando então de influências, pareceu-me uma excelente ideia o CD-compilação que vocês organizaram para a revista "Uncut" onde incluiram coisas muito pouco previsíveis como Jimmy Smith, Ornette Coleman, fantasias para guitarra acústica sobre Carmina Burana, canções de trabalho negras para "fife and drum band", Laura Nyro...
Foi, essencialmente, trabalho do Peter. Só conheço cerca de metade delas mas há, por ali, de certeza, muitas coisas que, de uma maneira ou de outra, passaram para a nossa música. Pela minha parte, fiz uma outra lista de 21 canções para a iTunes. Podem comprá-la, para que os autores recebam dinheiro por isso. Aliás, eu próprio vou comprar a minha lista! E, por aí, se poderá descobrir toda uma faceta completamente diferente de influências: Neil Diamond, Kristin Hersh, Fleetwood Mac, Tori Amos...

Se se dispuseram a revelar as vossas influências musicais, poder-se-ia saber também quais as suas preferências em matéria de literatura, cinema...
Spike Jonze, de Being John Malkovitch, Todd Haynes, adoro o Woody Allen, John Cassavettes... O meu filme preferido actualmente é um filme francês de há cinco anos, Quem Me Amar Virá De Comboio, do Patrice Chéreau, que me faz lembrar os primeiros Dogma. Não leio muitos romances mas, quando era mais novo, devorei o Nabokov todo. Ele trabalhava com o inglês como segunda língua mas com um incrível domínio. E leio revistas, toneladas de revistas, que é de onde vem a inspiração para a maioria das músicas. E podia estar aqui até ao pôr do sol a citar-lhe nomes de fotógrafos que admiro...

Nesta compilação há uma canção, "Bad Day", que é uma explícita tomada de posição política em relação ao que é ser-se artista nos EUA sob a administração de George W. Bush...
Alguém muito sábio afirmou que, quando, na vida, as coisas ficam mesmo más, a arte tem tendência para melhorar.

Isso é uma regra?
Não, mas tem algum fundo de verdade. "Bad Day" é uma declaração política muito, muito forte. É também uma canção pop. E é situado aí mesmo que me vejo e aos R.E.M.. E também ao Michael Moore. Não estamos do lado de fora do portão, aos gritos e a atirar pedradas para tentar entrar e chamar a atenção. Estamos lá dentro, a usar os media que as pessoas reconhecem. Estamos no ventre da besta. Se for subversivo, sê-lo-à também num certo sentido populista.



É no ventre da besta que se sentem bem?
Não temos escolha. Não desejei nem planeei nada para que acontecesse assim. Mas esse é o mundo em que vivemos. É muito difícil ser um cidadão americano e não ser obrigado a reconhecer o que se passa com a actual administração. Nacional e internacionalmente.

E, quando, por exemplo, vem à Europa, não o incomoda a forma como, enquanto americano, pode ser encarado?
Acho que as pessoas reconhecem que os R.E.M. sempre tomaram atitudes políticas e sociais bastante claras. Nunca houve nenhum país na História que apoiasse os seus governantes a 100%. Ao ver-se a televisão americana, pode-se ser levado a acreditar que, neste país imensamente poderoso, a maioria das pessoas acredita que a acção do governo é positiva. Eu discordo. Há, pelo menos, metade da população que discorda também. Os EUA são um país onde as pessoas trabalham imenso, muitas têm de ter dois empregos, têm de pagar os seguros do carro (e, sem um automóvel, à excepção de Nova Iorque, não se vai a lado nenhum), da casa, de saúde, de vida, o serviço nacional de saúde não é muito bom, é preciso esforçar-se a sério para pagar a universidade dos filhos, a hipoteca da casa, é necessário haver comida na mesa, máquinas de lavar... A maioria dos americanos tem, no máximo, 45 minutos por dia para dedicar ao que se passa no resto mundo. Não que não se interessem por política. Têm é todo o tempo ocupado a assegurar que não vão ao fundo.

Parece estar a fazer um retrato do inferno...
É, de facto, um bocado infernal. Adoro o meu país e tem muitas coisas de que me orgulho. Mas uma das coisas que, muitas vezes, não se compreende é o quanto estamos separados do resto do mundo. E como isso se reflecte na nossa educação desde os primeiros anos e influencia as escolhas, os preconceitos, a forma como se vê os outros, o que sabemos e o que não sabemos. É um imenso país ingovernável. É uma pena. (2003)