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25 August 2020
CHEGAVA A CONFUNDIR-SE COM ELES
Quando – buscando, talvez, elevar a auto-estima das 8 101 almas locais – alguém procurar descobrir notáveis oriundos de Princes Risborough, no Buckinghamshire, não há-de ser extraordinariamente difícil chegar ao nome de Edward Stone, pioneiro descobridor das propriedades terapêuticas da aspirina, em 1763. Uns quantos degraus abaixo e, se a intenção for encontrar figuras do mundo da música, escavando bem, poder-se-á chegar a Jay Kay, o semi-luso criador dos Jamiroquai. Mas só por uma enorme sorte se tropeçaria alguma vez nos irmãos Martin e Paul Kelly que, com Johnny Wood e Spencer Smith, primeiro como Episode Four e, depois, sob o nome de East Village, (não) colocariam Princes Risborough no mapa. Não é injusto dizer que, se não o fizeram de propósito, parece bastante.
Puristas picuinhas de uma qualquer autenticidade pop, eram o tipo de banda que, quando em busca de um baterista, achou boa ideia colocar um anúncio cifrado no “Melody Maker”: “Wanted – Zeke, De Freitas, Ruffy”. Isto é, só quem conseguisse passar o teste identificando os moços dos tambores dos Orange Juice, Echo & The Bunnymen e Aztec Camera, demonstrando assim possuir credenciais para fazer parte do clube, teria uma hipótese. Olhando, de relance, fotos da época, passariam facilmente pelos Jesus & Mary Chain e, na capa do primeiro single, "Cubans In The Bluefields" (1987), o torso de Johnny Wood surge regulamentarmente uniformizado de blusão de cabedal e abraçando uma guitarra Epiphone, símbolo do selo de aprovação-Orange Juice. Os episódios seguintes são tão curtos (quatro anos) quanto complicados, culminando, inevitavelmente, na separação, ao vivo, em palco, no preciso momento em que iriam publicar o primeiro álbum, Drop Out. Hotrod Hotel, uma compilação de singles e demos agora reeditada em vinil, mostra-os tal como eram: uma bela bandinha revisionista de guitarras que sonhava tanto com os Byrds, Buffalo Springfield et alia (“All that’s gone, all that’s pure, all that’s sacred”) que, por vezes, chegava a confundir-se com eles.
As “clearance villages” foram aldeias das Highlands escocesas que, entre 1750 e 1860, se povoaram de camponeses expulsos das terras que habitavam pelos grandes proprietários rurais, ávidos de expandir as suas quintas. Inicialmente destinados a trabalhar nas indústrias mineira e piscatória, muitos ver-se-iam forçados a emigrar, o que a “fome da batata” de meados do século XIX acentuaria ainda mais. Badbea, um pedaço de terra agreste, íngreme e escarpada, debruçada sobre o Mar do Norte na costa leste de Sutherland, foi uma dessas aldeias: criada, por volta de 1800, por 12 famílias de Langwell desterradas por Sir John Sinclair, foi abandonada pelo último residente em 1911. Hoje, restam apenas ruinas, preservadas como atracção turística e um memorial das Highland Clearances. Mas, a 8 quilómetros dali, em Helmsdale, vive e trabalha Edwyn Collins, voluntariamente removido de Londres para a Escócia natal, onde, num terreno que pertenceu ao avô, edificou os Clashnarrow Studios, considerados, há dois anos, pela BBC “um dos 10 mais espantosos lugares do mundo para criar música”.
Uma espécie de aplicação prática do lema “Rip It Up and Start Again”, a canção com que ele, em 1983, colocou os Orange Juice no mapa e, não por acaso, também um fundamental ensaio homónimo de Simon Reynolds sobre o pós-punk (2005). No quarto álbum a solo que publica após a tremenda hemorragia cerebral dupla que sofreu em 2005, Badbea está presente não apenas no título como na canção que o encerra: “Badbea, a ruined monument to life and death, Badbea, lean towards the wind, a fight for breath, hardship was the way in Badbea, desperate toil and hidden danger, tethered child, the rocks below, loss and heartbreak, never show”. Afinal, por muito que, em “Glasgow to London”, evoque o cinismo inicial – “Now I’m old I must admit I couldn’t give a fuck”, eco de ‘I Don’t Care’ (também presente em "Outside"), roubada aos Ramones nos primórdios –, a memória da “terra inóspita que a natureza devorou e por onde, em miúdo, costumava ir passear com o meu avô” não se extinguiu. A saborosa acidez cítrica de “All About You” (“The sun was a bright bikini yellow, the sky was a Wedgwood blue, the mood was unspeakably mellow, when you came and spoilt the view”) mantem-se igualmente mas, por todo o disco, paira ainda aquela espécie de optimismo mansamente desesperado de quando, há década e meia, despertou do coma e só conseguia balbuciar três palavras e uma frase: “yes”, “no”, “Grace” (o nome da mulher) e “the possibilities are endless”. Nunca serão verdadeiramente infinitas mas chegaram para mais um belo álbum acerca da ressurreição segundo Edwyn.
Louis Forster jura que não é utilizador da Go-Between Bridge, a ponte que, em Setembro de 2009, numa votação online proposta pelo City Council de Brisbane, na Austrália, foi assim baptizada em homenagem à banda de Grant McLennan e Robert Forster: “É preciso pagar uma portagem de 6 dólares, não tenho dinheiro para isso”. Aliás, Louis, filho de Robert, garante também que nunca ouviu a música dos Go-Betweens: “Às vezes, vêm ter comigo e fazem-me perguntas sobre um disco ou sobre uma determinada canção e chega a ser embaraçoso porque, de facto, nunca os escutei. Tenho sempre de pedir imensa desculpa e dizer que não faço ideia do que estão a falar”. Não é fácil acreditar: quem, sem qualquer informação sobre os autores, escutasse Up For Anything (2016) – o álbum de estreia dos Goon Sax, banda de Louis Forster, James Harrison e Riley Jones – não hesitaria em dizer que, muito provavelmente, tratar-se-ia de uma preciosa colecção de inéditos dos Go-Betweens. E se, continuando a não revelar nomes, se adiantasse tratar-se de um trio de Brisbane constituído por dois guitarristas/compositores e uma miúda baterista, as últimas dúvidas desapareceriam.
Não sendo, aparentemente, um caso de disputa familiar – Robert Forster, há 2 anos, abençoou publicamente a obra da descendência –, só uma tentativa de esquivar-se à maldição dos "sons of" (numa já razoável lista de crias de famosos, apenas Jeff Buckley se mostrou à altura da ilustre paternidade) poderia explicar a recusa da óbvia linhagem. Ou, então, teremos entre mãos uma extraordinária prova da existência de ADN musical que caberá à ciência investigar. Agora que We’re Not Talking, o segundo álbum, é publicado, apetece dizer que aquilo que a Forster e McLennan levou quatro gravações para atingir – o esplendorosamente orquestral Liberty Belle And The Black Diamond Express (1986) –, os Goon Sax realizaram em duas: o díptico de abertura "Make Time 4 Love" (“Let's feel nervous in your room again”) e "Love Lost" (“So I look through film stores wondering what I should read, so I forget what movie I originally wanted to see”) passaria sem suspeitas por "bonus tracks" de Liberty Belle e as restantes dez, em diversos graus de parentesco – eles, agora, erigem altares às Raincoats, aos Orange Juice ou aos Love mas, se acrescentássemos Young Marble Giants, a genealogia ficaria mais completa –, não desmentem a filiação. Um dia destes, Louis Forster ainda há-de atravessar a Go-Between Bridge.
18 September 2018
MALÍCIA
Foi já publicado há alguns meses mas, no caso, isso é absolutamente indiferente: qualquer disco dos Monochrome Set poderia ter sido gravado há 40 anos (quando Bid – "aka" Ganesh Seshadri – se reuniu com a primeira formação da banda de que, hoje, entre quase duas dezenas de baixas posteriores, é o único sobrevivente), anteontem ou algures no futuro. Complique-se um bocadinho: é tão legítimo vê-los na qualidade de herdeiros naturais dos Kinks como enquanto precursores dos Smiths, Blur, Pulp, Orange Juice ou Divine Comedy, estatuto que nenhum dos incluídos na lista repudia. Tão observadores implacáveis mas distanciados do “humano, demasiado humano”, quanto adeptos do ponto de vista de Marcel Duchamp que aconselhava a “nunca levar o mundo demasiado a sério sob pena de morrer de aborrecimento”, e exercendo a arte num inoxidável perímetro pop clássico, tiveram o seu instante de glória quando uma anónima votação "online" consagrou Strange Boutique (1980) como o 5 824º melhor álbum de sempre. Na última vez que tropecei neles – Platinum Coils (2012) –, Bid, num “musical sobre um internamento hospitalar”, divertia-se com a infinita comédia da mortalidade, a propósito da recente refrega com um aneurisma cerebral. Era também o momento em que, após 17 anos de hiato, a banda se reactivava e publicava um álbum não menos conceptual do que o actual Maisieworld.
São eles mesmos que, agora, me poupam algum trabalho de o apresentar: “Maisieworld é destilado a partir das flores pungentes da malícia artística e representa o apogeu da consumação sonora. Maisie, a vossa anfitriã, guiar-vos-á através de uma sucessão de canções que iluminam a natureza volátil, caprichosa e, essencialmente, instável dos Monochrome Set. Sereis cercados pelos ecos de uma era passada de perícia enquanto vos podereis recompor nestes esgotos sonoros onde as guitarras saltam como cimitarras ferrugentas (...). Vozes jocosas cantarão a vossa frágil natureza orgânica, os tristes sonhos e esperanças que alimentais (...). À saída de Maisieworld, sereis agradavelmente surpreendidos ao descobrir-vos repletos de pensamentos insólitos”. Acrescente-se que Maisie (na capa) é uma Barbie de bronze e o tema geral é algo como Dorian Gray num mundo de robôs, meio "vaudeville" vampiresco, meio "cyber-porn" de recorte espirituoso, excêntrico, absurdo e concebido por medida para um Gentlemen’s Club de frequentadores peculiares e adeptos de excitantes extravagâncias. Isto é, mais do que recomendável.
11 May 2016
HERDEIROS
Brisbane, Queensland, Austrália. Primeiro, dois rapazes (guitarras e baixo) e, mais tarde, uma rapariga (bateria). Um dos rapazes tem como apelido Forster. De que banda se trata? Quem respondeu The Go-Betweens errou. Mas merece, pelo menos, um prémio de consolação por ter andado tão perto que até assusta. A miúda (miúda mesmo, as idades do trio oscilam entre 17 e 18 anos) não é Lindy Morrison mas Riley Jones e entrou para a banda após um mês de aulas de bateria. Um dos moços não responde por Grant McLennan mas por James Harrison e o outro dá pelo nome de Louis Forster. E é aqui que a muito objectiva proximidade entre os Goon Sax e os Go-Betweens se verifica: Louis é filho de Robert, metade da dupla Forster/McLennan que, entre 1977 e 2000 (quando a banda, definitivamente, se dissolveu, após a morte de Grant), criou o formidável reportório do grupo que, há sete anos, viu o seu estatuto de lenda local confirmado com a atribuição do seu nome a uma nova ponte sobre o rio Brisbane.
A afinidade estética, essa, por muito subjectiva que seja, é, porém, impossível de negar: não apenas a constituição dos Goon Sax mimetiza a formação inicial dos Go-Betweens como, escutado Up To Anything – álbum de estreia –, os traços “de família” tornam-se indesmentivelmente óbvios. Mas, de uma forma de tal modo ingenuamente adolescente na transposição das marcas do passado para o presente, que nunca obriga a pensar em manhoso trabalho de copistas mas apenas numa naturalíssima – e inevitável – condição de herdeiros. Sim, "Sweaty Hands", "Boyfriend" e "Sometimes, Accidentally" (“No, I don't care about much
but one of the things I care about is you, sometimes I think about things and sometimes I accidentally think about you”) tresandam a Forster/McLennan mas, alguma vez eles, os originais, o teriam feito com tal candura? É verdade, verdadinha que "Home Haircuts" poderia ter saído intacta de Before Hollywood mas quem escreveria “I go to the barber to get shorn and I leave feeling empty and forlorn, I show them a picture of Roger McGuinn, Edwyn Collins, John Lennon, David Byrne, it seems I just can't win”?... Pensando melhor, talvez a ilustre ascendência que, no início, não era assim tão mais velha, daria tudo para que o álbum de estreia (Send Me a Lullaby, 1981), por muito promissor que fosse, pudesse ter estado à altura de Up To Anything
22 May 2015
The Apartments - "She Sings To Forget You"
(imagens de Solaris, de Andrei Tarkovsky, 1972, montadas por David McClymont/Orange Juice)
28 April 2015
HONRAR O MARQUÊS
Caso exemplar de articulação da teoria com a prática, A Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade, nos sete “diálogos” que compõem a obra, combina, de forma pedagogicamente avançada, a dissertação filosófica com a entusiástica aplicação imediata dos preceitos expostos. É no quinto capítulo desse processo de ilustração moral, política e religiosa da (por muito pouco tempo) virginal Eugénie que o Chevalier de Mirval – um dos três diligentes educadores da donzela ávida de conhecimento – se lança numa extensa e empolgada diatribe contra a religião, a monarquia e a virtude, e a favor de uma transgressiva amoralidade exuberantemente libertina que inclui tudo quanto (como, ainda hoje, ensina o sábio César das Neves) não seria suposto pensar-se, proclamar-se e, muito menos, exercer-se. Tem como título “Français, encore un effort si vous voulez être républicains” o qual, às mãos do Situacionista René Vienet, já havia sido submetido ao obrigatório "détournement" sob a forma do filme de 1977, Chinois, Encore Un Effort Pour Être Revolutionnaires, exercício de agit-prop maoísta invertida.
Em versão abreviada – Encore Un Effort – é, agora, o nome no bilhete de identidade do último álbum dos Milky Wimpshake, maravilhosas e obscuríssimas criaturas (apesar de uns bons vinte anos de árduo labor materializado em meia dúzia de CD e miudezas avulsas) de Newcastle, aliás, Pete Dale e cúmplices vários, com actividade paralela na já falecida micro-indie, Slampt Underground Organisation. De acordo com a "job description", confeccionam “love songs for punk rockers and protest tunes”, nunca esconderam a devoção por Phil Ochs, em banho "no nonsense" de Buzzcocks, Billy Bragg e Orange Juice, nem por uma certa anarco-delinquência suave (“Let me tell you that I take stuff from work, I take books and pens and machinery, no, I'm not ashamed of my thievery ‘cos I'm just taking back what was stolen from me”). No mais puro francês "geordie", "Le Revolution Politique" é capaz de derreter empedernidos corações direitistas (o dueto vocal com Sophie Evans, nesta e noutras faixas, é decisivo) e, entre outras, o hino à guerra de classes, "Coming Soon", bem como a explícita "Heterosexuality Is A Construct", nunca ofenderiam a memória de Donatien Alphonse François.
08 November 2012
OURO E PLATINA
The Monochrome Set - Platinum Coils
Não é provável que, por causa disso, os detectores de metais, nos aeroportos disparem o alarme mas a verdade é que Ganesh Seshadri (aliás, Bid, ou, segundo o próprio, O Jovem Deus de Cabeça de Elefante Que Cavalga a Serpente Cósmica), vive, desde há um ano, com espiras de platina no cérebro. Coisa normal quando se foi vítima de um aneurisma: entrando pela artéria femoral, trepando pela aorta, seguindo pela carótida e chegando, finalmente, às artérias cerebrais, pretende-se que as espiras preencham o aneurisma e o excluam da circulação, tal como, desde 1990, o Dr. Guido Guglielmi recomendou. Ou, em metáfora felina, nas palavras de Bid, “There’s a kitten on my hip, and it’s going on a trip, up a river to my head, where it’s purring, there’s a kitten in my vein, and it’s swimming to my brain, and it’s spinning out the pain, am I slurring?” Considere-se a liberdade poética como atenuante na troca de “veias” por “artérias” e franqueie-se a porta de entrada daquilo que é explicitamente apresentado como “um musical sobre um internamento hospitalar”. Sim, isso mesmo. Quem conhece os Monochrome Set não deverá achar a proposta demasiado excêntrica embora, provavelmente, duvidasse que uma reunião da banda, após dezassete anos de divórcio, pudesse escapar ao deplorável destino que a esse género de empreendimentos costuma estar reservado. Como também aconteceu, no ano passado, com os Feelies, afinal, só há boas notícias para dar.
A primeira é, evidentemente, o facto de um dos grupos mais incompreensivelmente ignorados do pós-punk britânico se reapresentar em tão excelente forma. Eles (Bid, Lester Square – na realidade, Thomas W.B. Hardy, professor de artes e primeiro vereador dos Verdes por St. Albans, em Londres – e Andy Warren, o núcleo histórico dos Monochrome Set) que são regularmente referidos como fonte de inspiração dos Smiths, R.E.M., Orange Juice ou Divine Comedy, e fabricantes de requintadíssimas jóias pop como Strange Boutique, Love Zombies (1980) ou Eligible Bachelors (1982), não ultrapassaram nunca o estatuto de micro-culto: até 1995, mais ou menos obscuramente, publicaram, entre hiatos, sete álbuns contendo pérolas avulsas e, nessa altura, puseram um ponto final na trajectória, com Bid a reinventar-se via-Scarlet’s Well. A outra boa notícia é um tanto paradoxal: qual Oliver Sacks, através do acidente neurológico, Bid compreendeu a natureza do seu processo criativo.
Tendo ficado com uma ligeira perturbação no centro da linguagem, acontece-lhe perder, momentaneamente, a capacidade de nomear objectos: “Mas, se pegar na guitarra e na caneta, as canções escrevem-se sozinhas, sem interferência consciente minha. É como num conto de fantasmas de Guy de Maupassant, ser possuído por uma entidade que acede ao meu arquivo de palavras”. A entidade é uma boa entidade, as canções são excelentes e – tal como vemos na imagem da capa (assinada por Lester Square) –, em Platinum Coils, da cabeça do involuntário autor, explodem, em jacto surreal, as imagens e personagens do seu período de internamento, do "Mein Kapitan" (“Won’t somebody read him The Critique Of Pure Reason, won’t somebody feed him peaches out of season, and if he pits them, then reclines, and assigns silly rhymes to his thought crimes”) ao "Alberto" (“With his mental pencil moustache, in a minute he’ll be here, smoking with curses, pinching the nurses’ bottoms”), em banho de ouro de pop/vaudeville só disponível nas mais requintadas ourivesarias.
20 May 2012
PIRATAS, CONFETTI & VESPAS EMBRIAGADAS
The Wave Pictures - Long
Black Cars
Há que demonstrar respeito por uma das mais
invejavelmente obscuras e ignoradas figuras da pop literata britânica que, ao
fim de uma prolífica discografia universalmente desconhecida, não hesita em
colocar tão preciosa reputação em risco declarando que “não nos faria mal
nenhum se pudéssemos contar com a ajuda de Mark Knopfler” e acrescentando “lá
porque Brothers In Arms é uma completa merda, isso não quer dizer que o
primeiro álbum dos Dire Straits não fosse óptimo”. O declarante é David
Tattersall, guitarrista e autor das canções dos Wave Pictures, a vénia surgiu a
propósito da primeira faixa de Long Black Cars – a explicativamente
intitulada "Stay Here And Take Care of The Chickens" –, alegadamente inspirada
por The Enforcer, um "noir" de 1951,
com Humphrey Bogart, e, escutada, entende-se bem porquê.
Mas, para que não
surjam equívocos, convém matizar a coisa com a observação adicional de que
quem, neste e nos anteriores álbuns dos Wave Pictures, dê por si a murmurar os
nomes de Jonathan Richman ou David Byrne, a interrogar-se se será Mo Tucker
quem espanca as peles (não é, é Jonny Helm), a duvidar se não haverá por ali
pessoal do "highlife" africano a fazer
as seis cordas sorrir (não há, é puro Tattersall), ou a pensar que raio de
disco será este em que Orange Juice e Smiths juntaram forças para homenagear os
Violent Femmes, não está, de todo, a alucinar. É mesmo assim e, como de costume,
é muito bom. E porque, de
facto, “I heard the devil’s in the details and I heard God was in there too”,
como amostra, espreitem à lupa este naco: “A pirate on a pirate ship throws
confetti to the wind, wasps fly drunkenly into the overflowing bins, a six-foot
yellow van, a hot air balloon, the whole town came to see it all this
afternoon”.
07 September 2011
UM DYLAN DE BOLSO
The Wave Pictures - Beer In The Breakers
“Termos um óptimo estúdio onde pudéssemos gravar ao vivo” era a ambição que, no ano passado, quando vieram actuar ao Santiago Alquimista, os Wave Pictures confessavam. Mas, já na altura, erguiam alguns diques à enxurrada de “valores de produção” e afins que esses sonhos podem arrastar: “Não temos nada contra aquelas bandas que gostam de tirar partido de todas as possibilidades que um estúdio oferece mas é preciso estar alerta em relação à hipótese de nos deixarmos ir atrás de demasiadas facilidades. Gostamos de gravar em estúdio mas não nos agrada muito o caminho por que optam muitas bandas que, primeiro, gravam um álbum e, depois, procuram reproduzir exactamente essa gravação ao vivo. Para dizer a verdade, não estamos nada convencidos que o som que sai dos estúdios tenha melhorado muito desde discos como ‘Hound Dog’, do Elvis Presley, ou os da Big Mama Thornton”. As reticências foram mais fortes: Beer In The Breakers acabou por ser gravado num espaço “não muito maior do que uma mesa de sala de jantar”, com equipamento emprestado pelo amigo e cúmplice Darren Hayman (dos falecidos Hefner), sem cheiro de "multitracking" e "overdubs", tudo em uma ou duas takes, “só nós três a tocar e a cantar”.
Convém, aqui, esclarecer que – embora não seja imediatamente evidente – nos encontramos perante uma das mais ilustremente desconhecidas bandas britânicas de já longo curso: David Tattersall (alma criativa, guitarra e voz), Franic Rozycki (baixo) e Jonny Helm (bateria), existem como Wave Pictures há cerca de treze anos e, entre edições de autor, singles, EP, álbuns distribuídos por independentes e colaborações avulsas, podem inscrever no CV umas respeitáveis quarenta entradas. Mas é preciso compreender que o clube de "songwriters" a que Tattersall pertence (conhecem muitos capazes de abrir uma canção com um cenário como “We ate toast cut roughly into halves with sour jam in an empty bar, large vases filled with dead flowers and carved wood mirrors to show us our faces”?) não está destinado a ser levado em ombros por hordas de fãs ululantes.
E muito menos ainda quando se trata de uma banda que, em concerto, ignora o conceito de "set-list", cujo compositor-em-chefe não tem problemas em admitir que, tal como os de vários dos seus heróis (Pavement, Dylan, Tom Verlaine), os textos de muitas das suas canções são puro "nonsense", e que, falando de matéria inspiradora (Steinbeck, D. H. Lawrence, Carver), nem pestaneja quando declara que uma ou outra foram montadas sobre colagens de frases de Bukowski escolhidas ao acaso. "Indie" é "indie" mas, longe de cenas "trendy" e com nenhuma vontade de as procurar, Tattersall e cúmplices são espécimes demasiado bizarros para até aí se acolherem.
Façam, então, o favor – com mais umas poucas centenas de outros – de conhecer o décimo primeiro álbum dos Wave Pictures, obra de uma espécie de Morrissey desleixado por demasiado convívio com Jonathan Richman (“You so ugly, you so cold, you so stupid, singing ‘I caught my baby kissing Cupid’”), recolector dos instantes esquecidos por Lou Reed tal como os Orange Juice os recuperaram ("Pale Thin Lips" é um "Pale Blue Eyes" com “purple velvet under soft orange lights”), uns descendentes britânicos dos Violent Femmes apaixonados por "high life" africano travestido de blues, um pequeno Dylan de bolso (Tattersall não faz segredo disso: “Como qualquer outro singer/songwriter, daria tudo para ser o Bob Dylan. Não ele próprio, claro, que já não lhe falta muito para morrer. Mas só para ter um bocadinho do talento dele”), perdido pelo gemido das harmónicas. E que – milagre – torna tudo isso seu.
(2011)
29 December 2010
CAÍDOS NO CHÃO DA SALA DE MONTAGEM (II) (durante o Verão)
The Drums - Album
O Verão é, oficialmente, uma estação, do ponto de vista musical, pouco exigente. Qualquer coisinha que desempenhe, a contento, o papel de gin-tónico sonoro e, se possível, traga acoplado um sistema de ar condicionado, cumpre, instantaneamente, os mínimos exigíveis para ser considerada música-de-Verão. The Drums estão nessa categoria: cópia de cópias dos Cure, New Order, Orange Juice e afins mas... fresquinha.
Jónsi - Go
Com os restantes Sigur Rós em sabática, Jónsi Birgisson – o cantor de timbre quase-castrato – inventa a banda sonora para uma espécie de Disneylândia imaginária. E apercebemo-nos de que a felicidade jorra como leite e mel porque Jónsi se converteu à língua da fada Sininho. Mas, caso tivéssemos dúvidas, as portentosas cavalgadas orquestrais de Nico Muhly arredá-las-iam de vez. O mundo é bom e belo e os anjos cantam.
Vários - Theme Time Radio Hour With Your Host Bob Dylan (Season 2)
A enorme riqueza das “Theme Time Radio Hours” que, entre Maio de 2006 e Abril de 2009, Bob Dylan manteve na Sirius XM Rádio, residia tanto na selecção musical como nos textos, apartes e entrevistas que Dylan incluía como separadores. Aqui, recolhem-se “apenas” 50 faixas da segunda temporada: de Captain Beefheart a Loretta Lynn, não falta quase nada. Só o humor e a sabedoria made in Zimmerman.
The White Stripes - Under Great White Northern Lights (DVD, real. Emmett Malloy)
Um pouco à maneira do que os Sigur Rós haviam realizado também em 2007 e registado no DVD Heima, os White Stripes, em digressão por palcos menos comuns (autocarros, barcos, lares de terceira idade, escolas e salões de bowling) de remotas cidades do Canadá, levantam – mas não demasiado – as cortinas sobre os bastidores e deixam-nos espreitar, em simultâneo, para alguns fragmentos dos concertos.
Los Campesinos! - Romance Is Boring
À terceira investida, Los Campesinos! (Cardiff, UK) inventam um módico de equilíbrio entre uma estética-"over the top" (cordas, sopros, guitarras frenéticas e histeria coral) e sólida filosofia pop traduzida em tiradas como “there’s future in the fucking, but there is no fucking future”, “I love the look of lust between your thighs” ou a memorável “All’s well that ends, I suppose”.
(2010)
22 February 2008
IVY LEAGUE POP
Vampire Weekend - Vampire Weekend
A Ivy League é constituída por oito universidades da Costa Leste dos EUA – Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Pennsylvania e Yale – que, em consequência do seu elevado nível de exigência académica (todas se situam no top do ranking universitário do “U.S. News & World Report”), converteram a própria expressão “Ivy League” num sinónimo de elitismo, selectividade e excelência. O Upper West Side é um bairro de Manhattan que, tendencialmente, atrai a burguesia novaiorquina afluente (o rendimento médio familiar ultrapassa largamente a média da cidade), liberal e com inclinações artísticas. Cape Cod é uma península localizada na costa do Massachusetts, estância de férias de Verão preferida de “ricos e famosos”, caso, desde há quatro gerações, da dinastia-Kennedy. Fim da lição de geografia-socio-política norte-americana e passagem de testemunho instantânea para os Vampire Weekend: Ezra Koenig (cantor e guitarrista), Chris Tomson (baterista), Chris Baio (baixista) e Rostam Batmanglij (produtor e teclista), quatro recém-graduados da “Ivy Leaguer” Columbia University – no Upper West Side –, ainda durante o tempo da faculdade, formam uma banda que, segundo eles mesmos facilmente confessam, pratica um híbrido musical que designam alternativamente como “Upper West Side Soweto”, “Cape Cod Kwassa Kwassa” ou “Campus and Oxford Comma Riddim”. Tradução: se, com os Beirut, Zach Condon se imaginou, sucessivamente, zíngaro balcânico, boémio parisiense e as duas coisas ao mesmo tempo, por que motivo não poderiam quatro moços absurdamente betos mas eruditos e de impecável gosto musical, nas suas camisas Ralph Lauren, sapatinhos de vela e polos Lacoste, inventar aquela variedade de afropop ao som do qual, numa das “short stories” de Salinger, Franny e Zooey Glass mui alegremente dançariam?
Não avancemos, porém, tão rapidamente: se, desde que o “buzz” na Internet à volta dos Vampire Weekend arrancou, não há site nem blog que não se sinta na obrigação de referir Graceland, de Paul Simon, como trampolim primordial para a música da banda (o que até é rigorosamente verdade e uma faixa como, em particular, a propriamente dita “Cape Cod Kwassa Kwassa” não engana ninguém), é preciso reparar que a paleta de cores é consideravelmente mais ampla. Eles, tal como Zach Condon se referia à música dos filmes de Kusturica e do Taraf de Haïdouks, recordam-se que tudo terá começado com a escuta de um álbum oriundo de Madagascar e acrescentam-lhe Ladysmith Black Mambazo, Kanda Bongomen, Orchestra Baobab, Beethoven, a Band, Elvis Costello e os Squeeze. Mas nós que, por estarmos de fora, ouvimos, de certeza, muito melhor do que eles, apercebemo-nos perfeitamente de que, no tubo de ensaio estético onde esta aventura sonora se gerou, outros reagentes – Talking Heads, Feelies, Orange Juice, bastante ska, highlife e pós-punk, doses homeopáticas do que de melhor conseguiram extrair dos despojos dos Police e apenas o justo q.b. de “classicismo” tal como os Arcade Fire o supõem – se encontravam em presença.
Lancem-se, pois, com inteira justificação, os foguetes: nesta impuríssima obra-prima do género “fake” (que, recuperando o formato pop ideal, não chega aos quarenta minutos de duração), por entre linhas de baixo pneumáticas, motivos de guitarra aracnídeos, violinos barrocos e sobressaltos polirrítmicos de percussão, Louis Vuitton rima com Reggaeton e Benetton, polemiza-se civilizadamente sobre correcta pronúncia e pontuação (“Who gives a fuck about an Oxford comma? I climbed to Dharamsala too, I met the highest lama, his accent sounded fine to me”), personagens que nunca respondem por nomes próprios desagradavelmente comuns como Bill ou Jack mas, sim, Blake ou Walcott melancolizam irónica e suavemente sobre as agruras da vida sentimental no “campus”, arquitectura e turismo cultural e, cereja sobre o bolo, com a elegância que seria de esperar, no refrão de “Kwassa Kwassa”, não se esquecem de exercer o imprescindível auto-sarcasmo quando cantam “But this feels so unnatural, Peter Gabriel too”. Pode não se gostar muito destes tipos? (2008)
08 May 2007
FREAK SHOW TIME!
Numa cena do filme de Carl Reiner de 1979, The Jerk, Steve Martin, o filho adoptivo branco de uma família negra pobre do Deep South dos EUA, jaz à noite na cama, lamentando melancolicamente o seu fraco sentido rítmico que o discrimina perante os seus irmãos de côr. De súbito, porém, a sua vida muda: nas ondas do velho rádio decrépito da avó, soam os acordes xaroposos de uma música-de-supermercado que o fulminam como um raio. "Eis, finalmente, a música que fala ao meu coração!", exclama, "a música que me devolve à vida e me ordena que seja alguém!". Ali mesmo, ele acabava de descobrir os "blues do homem branco", esse pano de fundo sonoro que decora a existência quotidiana dos cidadãos do planeta, dos centros comerciais às salas de espera de aeroportos e foyers de hotéis.
Boa parte dele (pelo menos, na Europa) tem origem nessa venerável instituição que, desde os anos sessenta, abastece de reportório as cadeias estereofónicas dos espaços urbanos: o Festival da Eurovisão, fonte inesgotável de melodias fáceis e imagens coloridas que se infiltram na memória e que, mesmo em quem as rejeita, deixam marcas indeléveis. Com boas razões para isso, aliás. Pois existe lá mais alguma oportunidade para se escutar canções com títulos tão pitorescos como "Mia Krifti Evaisthissia", "A Holnap Mar Nem Lesz Szomorn", "Neka Mi Ne Svane", "Ne Zori Zoro" ou o quase urológico "To Takie Prosta"?
E que outro festival de música se pode gabar de ameaçar a estabilidade de coligações governamentais como aconteceu agora em Israel, com a extrema-direita judaica a ulular de fúria e a ameaçar com as labaredas do Inferno a propósito da participação (coroada de vitória) do muito warholiano transsexual Dana International? A verdade é que não há Eurovisão a mais mas sim Eurovisão a menos. E só é de lamentar que a famigerada globalização ainda não tenha proporcionado a existência de um "Festival da Mundovisão" onde, a partir dos quatro cantos do planeta, se edificaria um monumental "freak show" musical (pense-se só nos potenciais tesouros ocultos que o Oriente nos reserva...) para deleite de milhões de "couch potatoes".
Era, pois, de prever que, mais tarde ou mais cedo, alguém pegasse no tema-Eurovisão e, à custa dele, inventasse uma nova forma de divertimento. O produtor Nick Bradshaw foi o escolhido pela Divina Providência quando, uma manhã debaixo do chuveiro, concebeu a ideia de propôr a um grupo de "credible recording artists" que fizessem versões de antigos êxitos do Festival da Eurovisão, os quais, confessa, "na minha humilde opinião, são, muitas vezes, perfeitas canções pop de excelente confecção". O projecto deu um importante passo em frente na altura em que, ao balcão de um bar, timidamente o revelou a Terry Hall (ex-Specials) e este, inesperadamente, o aprovou sorrindo, coisa por que não é particularmente famoso.
O resultado final foi o álbum A Song For Euro Trash e uma produção de televisão a ser exibida pelo Channel Four britânico no programa "Euro Trash" de Antoine de Caunes, também abençoado por Jean Paul Gaultier. O disco, evidentemente, exige ser avaliado de acordo com os critérios eurovisivos em vigor: com pontuações, classificações, polémica e escândalo, ingredientes indispensáveis no momento em que é oficial que o Festival da Eurovisão voltou a ser "cool". Pelo que o escalonamento deverá ficar organizado da seguinte forma:
"Saint Tropez" - Brigitte Bardot: tema de abertura extra-concurso, inauguração oficial das festividades, assinado pelo histórico Francis Lai. Prémio de Carreira.
"Save Your Kisses For Me" - Kenickie: primeiro grande candidato à vitória final, numa trepidante versão da "girl band" mais efervescente do britpop para a imortal vencedora da edição de 1976, interpretada pelo colectivo de humanistas, The Brotherhood Of Man. Derrotada, porém, no último momento pelos zero votos do júri de Israel em virtude de indesejáveis conotações com "o beijo de Judas".
"Poupée de Cire, Poupée de Son" - Dubstar & Sacha Distel: correndo por fora, jogava no prestígio algo amarfanhado de Distel e na memória da imagem de adolescente perversa de France Gall, a Lolita-da-época de Serge Gainsbourg. Apesar de ter recebido a votação maxima do júri belga, acabou por se quedar a meio da tabela.
"Ding A Dong" - Edwyn Collins: um dos três temas de poesia fonética dadaísta a concurso. O ex-Orange Juice saiu-se a contento mas o caracter demasiado vanguardista do texto impediu-o de lutar pelos primeiros lugares.
"La La La" - St. Etienne: também o dadaísmo de raiz ibérica não teve melhor sorte. Sem o "salero" original de Massiel em 1968, trinta anos depois, a loura Sarah Cracknell não repetiu o triunfo da morena castelhana. Fica impedido de concorrer na proxima edição.
"Volare" - Dean Martin: o charme etílico e a circunstância póstuma da participação valeram-lhe apenas votos de consolação.
"All Kinds Of Everything" - Terry Hall & Sinead O'Connor: na grande tradição de duos como Esther & Abi Ofarim ou Armando Gama & Valentina Torres, a sedução e o encanto infantis da melodia de Dana foram perfeitamente reconstituidos. Segunda melhor votação do júri belga.
"What's Another Year" - Shane MacGowan & The Popes: cometendo a proeza de interpretar a canção até ao final sem desfalecer, Shane MacGowan fez esquecer o imortal Johnny Logan. Prémio "Jameson" de resistência.
(indisponível qualquer testemunho dos talentos vocais de Eva Henger)
"Ooh Yeah" - Eva Henger: aceite apenas com o estatuto de "convidada especial" em virtude de ter infringido as regras (só eram permitidas canções anteriormente apresentadas nos Eurofestivais), o original erótico da discípula de Cicciolina não recebeu qualquer voto apesar dos protestos oficiais apresentados por Wladimir Jirinowski.
"A Ba Ni Bi" - Fox Force Five: ao contrário das anteriores, a poesia fonética israelita convertida ao eurodisco-xunga lutou até ao fim pela vitória. Determinante seria a fraca votação da Antiga República Jugoslava da Macedónia que preferia a Antiga Versão Original de Izhar Cohen & The Alphabeta.
"Congratulations" - Annie Christian: embora "christian" como Cliff Richard, a interpretação hard rock não teve motivos para receber parabéns. Acompanha "La La La" na descida à segunda divisão.
"Waterloo" - Bananarama: vinte e quatro anos depois, a repetição do triunfo dos ABBA com mais três "a" e menos um "b". Ou a confirmação do genial paradoxo metafórico por meio do qual Waterloo, de símbolo da derrota, se transforma em símbolo de vitória. Primeiro prémio absoluto e Prémio Especial do Júri para o Elevado Conteúdo Poético.
"Variations On Te Deum (Eurovision Theme) - 808 State e "A Song For Euro Trash" - Antoine de Caunes & Kate Robbins: encerramento pós-moderno das cerimónias e coda final em registo "naughty" à volta do tema "the world is like a bouillabaisse" depois desenvolvido no diálogo filosófico "I believe in unity/And I believe in nudity". Ou, como diria Nick Bradshaw, "Viva Europa!". (1998)
01 April 2007
A LENDA DOS ÁLBUNS PERDIDOS
É o Santo Graal da história pop. Poucos ou ninguém os escutou e, por aí mesmo, a lenda cresce. Antes de serem editados (ou se esquivarem ao controlo na condição de "bootlegs"), são invariavelmente obras-primas que, vá-se lá perceber porquê, artistas e editoras decidiram não publicar. Quando — e mais tarde ou mais cedo, isso acaba quase sempre por acontecer —, por fim, saem à luz do dia e o processo de avaliação começa, algo se perde irremediavelmente: a aura mitológica de coisa inatingível a que só um "inner circle" de iniciados teria muito restrito acesso. E, ao descer à terra, serão finalmente excelentes, razoáveis ou nem por isso como todos os outros que não gozaram da oportunidade de, pelo menos por algum tempo, apenas poderem ser imaginados. Exemplos? A versão "original" (isto é, sem Phil Spector) de Let It Be, dos Beatles. Após décadas de efabulação acerca de quanto a sobrecarga dos arranjos de Spector teria desfigurado os "diamantes em bruto" de Lennon e McCartney, saiu o ano passado em formato Naked.
Bom, o tresloucado Spector, afinal, fazia mesmo falta e, uma vez não é regra, "first thought, best thought"... No polo oposto, estarão as célebres Basement Tapes, de Bob Dylan com a Band ou VU, dos Velvet Underground, que, uma vez publicados, em nada desmereceram da lenda. A verdade é que, na frenética actividade editorial de rentabilizar todo o material gravado (de lados B, a versões "live", "takes" alternativas, esboços incipientes e graçolas de estúdio às tantas da matina), já não haverá assim tantos tesouros enterrados. Mas, escavando bem e com persistência, um Indiana Jones da pop ainda poderá tropeçar numas quantas preciosidades:
Pink Floyd - Household Objects
Em 1973, após o êxito planetário de Dark Side Of The Moon, Roger Waters, Rick Wright, Nick Mason e David Gilmour, sem o saberem, pensaram em antecipar o advento do "sampling". E dedicaram-se a registar os sons de objectos domésticos (copos de vidro, caixas de cartão, elásticos, tiras de borracha) que deveriam substituir o timbre dos instrumentos convencionais. A maionnaise nunca chegou a pegar mas, algures num arquivo qualquer, existem fitas gravadas.
Neil Young - Homegrown
É apenas o caso mais notório de um inesgotável baú (outros inéditos existem como Live 1970, Chrome Dreams, 1977, Island In The Sun, 1982, Old Ways I, 1983, ou Times Square, 1989) que, desde há muito, Neil Young promete vir a revelar. Gravado em 1975, a seguir a On The Beach, seria um álbum de recorte country supostamente baseado numa dolorosa tragédia amorosa do autor. Demasiado "pessoal", nunca veria a luz do dia.
Brian Eno - My Squelchy Life
Chegou a ser anunciado em 1991 como iminente publicação de Brian Eno. Nele terão participado o teclista de Tom Petty, Benmont Tench, a secção rítmica dos Neville Brothers e um quarteto feminino de marimbas. Acabaria por ser cancelada a sua edição e substituido por Nerve Net.
My Bloody Valentine - The New My Bloody Valentine Album
O "x" que assinala o local encontra-se nas imediações do estúdio doméstico de Kevin Shields onde o sucessor de Isn't Anything (1988) e Loveless (1991) se encontrará sepultado. O "shoegazing" continua à espera do seu Novo Testamento.
Bruce Springsteen - The Electric Nebraska
Gravado originalmente com a E-Street Band, em 1982, Nebraska acabou por ser editado sob a forma da interpretação acústica inicial das "demo tapes" que Springsteen preferiu à versão eléctrica.
Buffalo Springfield - Stampede
Deveria ter sido o segundo álbum da banda de Stephen Stills e Neil Young. Os conflitos no interior do grupo, no entanto, impediriam a sua publicação. Foi substituido, em 1967, por Buffalo Springfield Again.
Prefab Sprout
Desde Jordan - The Comeback (1990), que Paddy McAloon anuncia ter composto música suficiente para, pelo menos, oito álbuns. Explicitamente referidos, existem duas óperas, Michael Jackson - Behind The Veil, e outra, sem título, sobre a princesa Diana, um "cartoon musical", Zorro - The Fox, um álbum de "gospel flavoured spirituals", The Atomic Hymnbook e Earth - The Story So Far, um ambicioso projecto acerca da história do mundo tendo como protagonistas Adão e Eva, Elvis Presley, os Kennedys e Neil Armstrong.
Kraftwerk - Technopop
Anunciado para 1983, acabaria apenas por ser publicado três anos mais tarde, não na versão analógica original mas noutra digital sob o título de Electric Cafe.
Orange Juice - Ostrich Churchyard
É o registo original do álbum de estreia da banda escocesa que seria posteriormente regravado e editado pela Polydor, em 1981, sob o título You Can't Hide Your Love Forever.
Johnny Mathis - I Love My Lady
Produzido pelos Chic, vinha na sequência de outro projecto também abortado de Nile Rodgers e Bernard Edwards com Aretha Franklin. Previsto para 1981, nunca seria publicado.
Captain Beefheart - Bat Chain Puller
Complicações legais e contratuais várias impediram a publicação deste álbum de 1976 de Don Van Vliet. Algumas das faixas seriam regravadas e publicadas dois anos depois, integradas em Shiny Beast.
Smashing Pumpkins - Machina II/The Friends And Ennemies Of Modern Music
Deveria ser, em 2000, o tomo-gémeo de Machina: The Machines Of God, último álbum da banda de Billy Corgan e, sob forma conceptual, versaria o tema de uma "imitation rock band". Nunca comercialmente distribuido, acabaria por ser disponiblizado pelo grupo na Internet. (2004)
13 March 2007
O PENÚLTIMO RENASCIMENTO
Em 1977, Simon Reynolds tinha catorze anos. Por isso, à excepção da chinfrineira que explodia no quarto do irmão mais velho, o punk passou-lhe completamente ao lado. Não que isso tenha sido uma tragédia: Reynolds partilha, sabiamente, da opinião minoritária segundo a qual "os movimentos revolucionários na cultura pop têm o seu impacto mais profundo depois do 'momento' ter alegadamente passado, quando as ideias alastram das elites e cliques metropolitanas e boémias que originalmente as 'detinham' e atingem os subúrbios e a província". E avança ainda outra: "1978-82, enquanto era pop cultural distinta, rivaliza com os famigerados anos entre 1963 e 1967, vulgarmente conhecidos como 'sixties'".
Orange Juice - "Rip It Up"
Rip It Up And Start Again/Postpunk 1978 - 1984 (ed. Faber and Faber) trata, então, de investigar, documentar e analisar exaustivamente em cerca de 550 páginas essa época privilegiada da cultura pop anglo-americana até ao momento (que Reynolds situa a meio da década de 80) em que as margens se deixaram absorver de novo pelo "mainstream": o modo de fazer "independente" (em termos de criação, produção e distribuição) converteu-se no género "indie", o "record collection rock" — essa infinita regurgitação do passado que, ainda hoje, persiste, em ciclos progressivamente mais curtos — ocupou a quase totalidade do espaço e o novo passou a dever ser procurado nos emergentes laboratórios do hip-hop, da electrónica, da house e do techno.
Josef K - "Sorry For Laughing"
A abrir, a identificação das "classes revolucionárias": "os jovens das classes trabalhadoras demasiado indisciplinados para uma vida de trabalho que convivem com os putos da classe média demasiado caprichosos para uma carreira de quadros empresariais". Ponto de encontro: as faculdades de belas-artes, literatura, cinema e design que "desde há muito funcionam como local de boémia subsidiado pelo Estado". Sim, porque, ao contrário da ética (pseudo) proletária do punk — desde o Verão de 1977, já uma paródia de si mesmo —, o pós-punk/no-wave e satélites estéticos afins eram, essencialmente, o prolongamento do art-rock do início de 70 mas, agora, emagrecido, revigorado, intelectualmente austero (mesmo quando, aparentemente, "anti-intelectual") e até erudito.
Cabaret Voltaire- "Crackdown"
Alfred Jarry, os Dadaístas, Situacionistas, Futuristas, Surrealistas, Brecht, Benjamin, Burroughs, Godard, Philip K. Dick, J.G. Ballard, Artaud, Céline, Genet, Duchamp, Anthony Burgess, Kafka, Beckett, Camus, Dostoievsky ou Conrad eram tanto alimento criativo como James Brown, o reggae, o dub, Captain Beefheart, o Bowie de Berlim, o disco, o funk, Brian Eno, Kraftwerk, Iggy Pop, John Cale, Lou Reed ou o "krautrock". Os subúrbios e áreas urbanas socialmente desclassificadas de Nova Iorque, Cleveland, Akron, Londres, Manchester, Sheffield, Bristol, Liverpool, Glasgow, as lojas de discos e editoras independentes (frequentemente, umas davam origem às outras) — Rough Trade, Factory, 99 Records, Postcard, Drome, SST, Cherry Red, Mute, incontáveis outras — a imprensa musical (dos fanzines aos semanários como o "NME", "Melody Maker", "Sounds" ou "Record Mirror" que, ao tempo, em conjunto, vendiam acima de 600 000 exemplares) e a rádio constituiram a rede "alternativa" que, exactamente como acontecera nos anos paralelos da década de 60, contribuiram para disseminar uma nova pop intensa, neurótica, tão socialmente "alienada" como interventiva, tão musicalmente "primitiva" quanto rica e complexa.
James Chance & The Contortions (live in NYC)
A lista dos protagonistas é, naturalmente, infinita e, irremediavelmente, incompleta: PiL, Buzzcocks, Magazine, Subway Sect, Pere Ubu, Devo, James Chance & The Contortions, Suicide, Lydia Lunch, Glenn Branca, Rhys Chatham, DNA, Mars, Lounge Lizards, Pop Group, Rip, Rig & Panic, Slits, Raincoats, Gang Of Four, Mekons, Au Pairs, Wire, This Heat, Young Marble Giants, Talking Heads, Cabaret Voltaire, Joy Division, Fall, Throbbing Gristle, Residents, Tuxedomoon, Specials, Dexy's Midnight Runners, Japan, Orange Juice, Josef K, Scritti Politti, Bush Tetras, 23 Skidoo, A Certain Ratio, Material, Liquid Liquid, Kid Creole, Banshees, Birthday Party, Bunnymen, Teardrop Explodes, Black Flag, Hüsker Dü, Test Department, Art Of Noise...
Suicide - "Ghost Rider"
Por volta de 84/85, a serpente pop começava, uma vez mais, a devorar a própria cauda. Pouco, depois, entre 86 e o final da década, Simon Reynolds (com David Stubbs), no "Melody Maker", enxergou o último renascimento da Fénix-pop, ao escutar os Young Gods, Throwing Muses, My Bloody Valentine, Saqqara Dogs, A.R. Kane... e, acerca deles, escreveu em Blissed Out (1990). O capítulo anterior fica, agora, microscópica e fascinadamente, descrito e observado. (2005)