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04 August 2023

"With this I come to a conclusion and pronounce my judgment. I condemn Christianity; I bring against the Christian church the most terrible of all the accusations that an accuser has ever had in his mouth. It is, to me, the greatest of all imaginable corruptions; it seeks to work the ultimate corruption, the worst possible corruption. The Christian church has left nothing untouched by its depravity; it has turned every value into worthlessness, and every truth into a lie, and every integrity into baseness of soul. (...) Parasitism as the only practice of the church; with its anæmic and 'holy' ideals, sucking all the blood, all the love, all the hope out of life; the beyond as the will to deny all reality; the cross as the distinguishing mark of the most subterranean conspiracy ever heard of —, against health, beauty, well-being, intellect, kindness of soul — against life itself… This eternal accusation against Christianity I shall write upon all walls, wherever walls are to be found — I have letters that even the blind will be able to see… I call Christianity the one great curse, the one great intrinsic depravity, the one great instinct of revenge, for which no means are venomous enough, or secret, subterranean and small enough —, I call it the one immortal blemish upon the human race…" (Nietzsche - O Anti-Cristo)

14 September 2022

LIMAR AS ARESTAS
 

Quando alguém se lembrou de chamar a Elizabeth Fraser “a voz de deus”, poderemos ter, enfim, ficado a conhecer o género do poder supremo mas isso nunca seria atenuante suficiente para um insulto que ela, de todo, não merecia. Porém, repetindo talvez a certidão de óbito nietzschiana de 1882, em 1997, os Cocteau Twins imobilizaram-se para sempre e “a voz de deus” calou-se. Não de forma realmente total mas apenas os de muita fé terão reparado nas meteóricas aparições – à boleia dos Massive Attack, Peter Gabriel, Sam Lee, Oneohtrix Point Never, duas ou três bandas sonoras, um ou dois singles quase confidenciais e outro realmente confidencial (e inédito: “All Flowers in Time Bend Towards the Sun”, com Jeff Buckley) – que, em 2012, passariam pelo palco do London Meltdown Festival. Com o companheiro e co-conspirador Damon Reece (Massive Attack, Spiritualized, Echo & the Bunnymen, Lupine Howl) aí apresentaria quatro quintos do que, três anos antes, ao “Guardian”, havia revelado “poder vir a ser um álbum”, embora a precisar ainda de “ser muito polido”. (daqui; segue para aqui)

"Underwater"

09 April 2019

NÃO BASTA O MUNDO


Oito cavas arcadas de violoncelo sobre um "drone" de cigarras digitais preparam o cenário para o que, em menos de dois minutos, ficará nietzscheanamente resolvido: “First of all, there is no god, ‘cause I went out and killed my god and laid his body in the dirt, I killed him clean, so it did not hurt”. Mais à frente, em registo de "lounge jazz" sideral, a necessária consequência: “Oh darling, I am a heathen, oh, evil hearted me, something lower than dirt, I hear ‘em callin’ me heathen, oh, like they think it hurts”. Quase no final, o funk cubista serve de gatilho para o disparo: “I wanna break free from my body, shaken loose my skin, 'cause I had a thought I am a god, of this I am convinced”, escuta-se em "Dope Queen Blues". Sim, blues. Por muito que Silences soe a assombrosa ópera lynchiana escrita por uma Fiona Apple urdindo uma "wall of sound" filigranada, Adia Victoria – negra, da Carolina do Sul, educada no opressivo fervor Adventista do 7º Dia ¬, ao “New York Times”, jura que se trata de blues: “Quero tornar os blues perigosos outra vez. Não é apenas uma sonoridade. Os brancos cometeram um erro crasso ao supor que lhes tinham desvendado o mistério e podiam pô-los a render. É nessa altura que aparece sempre uma negra esperta a subverter tudo de novo. E aqui estou eu”.



Na verdade, foi tudo um pouco mais complexo. Ao produtor, Aaron Dessner (The National), Adia propôs um enigma: “Como seria se Billie Holiday se perdesse no interior de uma canção dos Radiohead?...” Billie seria encontrada, encarcerada num "loop" de "Lady Sings the Blues", nos últimos 60 segundos de "The City", mas as coisas não ficariam por aí. De quem foi buscar o título do primeiro album – Beyond the Bloodhounds – ao livro de memórias de Harriet Jacobs, Incidents in the Life of a Slave Girl (1861), para Silences, recorreu à obra homónima (1978) de Tillie Olsen (sindicalista, comunista, escritora e feminista), interpretou canções de Gainsbourg, Portishead e Robert Johnson, e ajoelha perante Nina Simone, Flannery O’Connor e a poetisa surrealista Joyce Mansour, só podia aguardar-se algo à altura do que, em "Devil Is a Lie", proclama: “They say the weak shall inherit the earth, but the world was never enough”. O primeiro enorme álbum de 2019 é bastante mais alto do que isso. E só lhe fica bem ser assinado por quem não hesita em afirmar “Não acredito em música apolítica. Tomamos posição e comentamos o que se passa no mundo. Toda a música e arte são políticas”.

02 August 2016

A RECEITA DO DR. LEARY


No início de 1966, acompanhado por Paul McCartney, John Lennon entrou na Indica Books and Gallery – bastião do "underground" britânico da época onde Lennon conheceria Yoko Ono – e perguntou a Barry Miles (fundador da livraria e também do jornal contracultural “International Times”) se teria algum livro de “Nitz Ga”. Miles levou algum tempo até compreender que o que ele procurava eram obras de Nietzsche. O suficiente para, sentindo-se humilhado, Lennon se lançar numa diatribe contra “os betos universitários” que McCartney só conseguiu apaziguar explicando-lhe que Barry era um ex-"art college student" como ele. Mas, entretanto, já John se detivera sobre a prateleira onde se encontrava The Psychedelic Experience: A Manual Based On The Tibetan Book of The Dead, de Timothy Leary, Ralph Metzner e Richard Alpert, bíblia do experimentalismo lisérgico da altura. Na página 14 da introdução, leu “Whenever in doubt, turn off your mind, relax and float downstream”. Nesse instante, naturalmente, não tinha consciência disso mas, pouco depois (com ingestão de LSD incluída, seguindo à risca a receita do dr. Leary), esse seria o ponto de partida de "Tomorrow Never Knows", primeira canção a ser gravada para Revolver – publicado exactamente há 50 anos, a 5 de Agosto de 1966 –, o álbum dos Beatles que, de modo infinitamente mais radical do que Sgt. Pepper’s, mudaria o curso da música pop. 



Os 2’58” de "Tomorrow Never Knows" (assentes sobre um "drone" de tambura), em particular, implicaram o processamento da voz através de um Leslie speaker (habitualmente associado ao orgão Hammond), a gravação e montagem de "tape loops" (moléculas da 7ª sinfonia de Sibelius, curtos motivos de mellotron, sitar, piano e guitarra, em velocidade acelerada, retardada ou em "reverse") inpiradas por Stockhausen, Berio e pela "musique concrète", e a invenção do Artificial Double Tracking. Antecipando a comemoração do meio século de Revolver, há cerca de três semanas, Andrew Liles (prolífero "sound artist", colaborador, entre outros dos Nurse Wih Wound e Current 93) publicou na sua página do Mixcloud uma avassaladora e hipnótica "remix" de "Tomorrow Never Knows", de 50 minutos. Quinze dias depois, desaparecia *, “deleted by the dark powers of copyright”. No Facebook, Liles insurgiu-se como pôde: “Estou certo que, até lhe extraírem a última gotícula de valor monetário, esta canção andará por cá ainda muitos anos. ‘Close your eyes relax and float downstream”… e, quando os abrirem, tentem ignorer a fétida fossa séptica em que nos achamos a nadar”

* Nota (31.05.2017):reposta

22 July 2016

"(...) Oh, a humanidade! Essa 'velha horrível', como lhe chamou Nietzsche, no momento em que, na Gaia Ciência, proclamava: 'Nós não somos humanitários' e 'não amamos a humanidade' (...)" (AG)

24 June 2016

21 December 2013

FOLK SINGER WITH A CAT (II)

Joni Mitchell - Taming The Tiger (1998) 



"I'm a painter first, and I kind of apply painting principles to music. I think my production skills are visual. (...) Painting is my first language. (...) Poetry, what you're doing is you're stirring up thoughts. It's a stimulant of some kind. So you're watching the thought process, which is anti-Buddhism. Instead of trying to empty the thoughts out, which is meditative, with the poetry, you're making the head jump and raiding it for linguistics. I've got Irish blood so I'll go, 'Oh, the blarney's running!' All of a sudden, linguistically, there's a lot of alliteration in my thought patterns, its a good time to address a melody you're working on. But it's a jumpy head and you're going - good, better, best. With painting the head process is different. It's like meditation. It just comes down to synapses, the hum of the wires. Non-verbal. The discourse has been silenced" (Joni Mitchell à "Uncut" de Dezembro)

15 June 2011

MAS QUE MAL TE FIZ EU, LEOPARDO?



1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Existe: leio e releio, incansavelmente, a Bíblia. Em rigor, não é “um livro” mas uma colecção de 66 livros. Prefiro, claramente, o Antigo Testamento – repleto de mais sangue, violência, traição, inveja, pornografia, ficção-científica, estupro, incesto, irracionalidade e ódio do que qualquer um dos seus equivalentes cinematográficos realizados em Hollywood ou no San Fernando Valley – ao Novo, excessivamente "hippie avant la lettre" para o meu gosto (embora também tenha dois ou três belos nacos para ferrar o dente). Mas, aqui, é necessário dizer que a melhor versão da “parte que interessa” do Novo Testamento se descobre em A Vida de Brian. Sempre fui de opinião que uma correcta e massiva divulgação da Bíblia contribuiria de forma decisiva para a diminuição do número de crentes.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

O cliché do costume: Ulysses, de James Joyce.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Lido pela primeira vez numa viagem de avião de ida e volta Lisboa-Nova Iorque-Salt-Lake City. A ficção-Mormon pareceu-me encaixar-se de modo assombrosamente perfeito no remoinho narrativo do Shandy. Mil vezes que se lhe pegue, nunca é o mesmo livro.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

A Divina Comédia, Dante. Assustou-me de morte ter compreendido que, para o descodificar integralmente, precisaria de um trabalho prévio de, para aí, uma vida.

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?

O Passageiro Clandestino, primeiro capítulo de A História do Mundo Em 10 Capítulos e Meio, de Julian Barnes.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Sim. Júlio Verne. Tintim. Asterix. Mark Twain. Blake & Mortimer. Lucky Luke. As biografias de Geronimo, Carzy Horse e Buffalo Bill. Kipling. Robinson Crusoe. A Ilha do Tesouro. Walter Scott. Os Cinco. Jack London. Os Tarzans, do Rice Burroughs. Mas, aos quinze, já lhe estava a dar na Filosofia na Alcova, do Sade.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Não nasci para sofrer. Já larguei vários a meio.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Não é pergunta que se faça. Mas, reduzindo a coisa ao osso, é mais ou menos isto: Poesias, Rimbaud; Français, Encore Un Éffort Si Vous Voulez Être Républicains (o “miolo” filosofante da Alcova, do Sade); Alberto Caeiro; Nietzsche, retirado, às cegas, da prateleira; os já falados Sterne e Bíblia; Obras Completas, de Oscar Wilde; Poesias, de Rumi; A Ilha do Dia Antes, Umberto Eco.

9. Que livro estás a ler neste momento?

Lentissimamente (está quase a fazer um ano), The Inheritance Of Rome/A History Of Europe From 400 to 1000, de Chris Wickham.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:

Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Não é coisa “bíblica”, é só bom senso convivial.

(2011)

13 April 2011

DA MANEIRA QUE ISTO ESTÁ, NÃO ME PARECE QUE FECHAR
O MIGUEL BOMBARDA TENHA SIDO A MELHOR POLÍTICA (I)
















Passos quer tirar todos os “esqueletos do armário” das finanças públicas

Passos Coelho entrega 27 perguntas a Sócrates

(há malta que não lhe fazia mal nenhum passar os olhos por aquelas linhas do Nietzsche: "se olharmos muito tempo para o abismo, o abismo acabará por olhar para nós")

Otelo: Se soubesse como o país ia ficar, não fazia a Revolução

(agora, pá, imagina lá, pá, o que não diria, pá, o D. Afonso Henriques, pá)

(2011)

20 November 2010

A FILOSOFIA VAI REGRESSAR MAS, MUITO
PROVAVELMENTE, EM VERSÃO LIGHT PARA
NÃO FAZER DORES DE CABEÇA AOS PETIZES




















"O ensino antes era muito centrado na história da Filosofia. Hoje esta já não tem tanto peso e o ensino é mais focado em problemas que os jovens sentem e que os perturbam e a Filosofia dá-lhes respostas diferentes para estes problemas" (aqui)

... ainda bem que o Bureau International des Poids et Mesures (BIPM), de Sèvres, reavaliou "o peso" da História da Filosofia. Assim, os putos vão, finalmente, poder discutir as últimas peripécias dos vampiros da Stephenie Meyer sem ter de se aborrecer com o chato do Schopenhauer ou avaliar o último golo do Ronaldo aliviados da obrigação de chamar o Nietzsche à conversa. E sempre se criam mais umas vagas de professores para ex-redactores desempregados das revistas "del corazon".

(2010)

03 October 2010

SEMIDEUSES E SACERDOTES



U2 - 360º At The Rose Bowl (DVD duplo)

Nietzsche poderá ter matado o deus judaico-cristão mas os deuses pagãos do rock’n’roll continuam, aparentemente, de óptima saúde e as catedrais onde se celebra o seu culto não são, de certeza, obras de arquitectura e engenharia inferiores aquelas que lançaram os mestres do gótico num vertiginoso despique pela construção em altura que apenas terminaria, em 1284, com o colapso das abóbadas de Beauvais. A "estação espacial" (ou "garra"), imenso coreto sci-fi, que constitui o palco/cenário da digressão "360º", dos U2, não corre, seguramente, tal risco – os prodígios de concepção e inovação tecnológica que exigiu, já testados em mais de seis dezenas de concertos antes de chegar a Coimbra, são garantia suficiente – e a intensidade do fervor das "folk masses" (Bono dixit) que aí têm lugar rivaliza, sem dúvida, com as da Idade Média. Na verdade, o melhor posto de observação será sempre o do sofá, perante a exibição do DVD: se a participação, ao vivo, no acto comunitário de fé fica reduzida a zero, a multiplicação dos ângulos e pontos de vista é incomparavelmente superior à de quem, no estádio/arena, fica circunscrito ao seu meio metro quadrado útil e condenado a acompanhar a liturgia pelo que vê projectado no ecrã (gigante e cónico mas ecrã). No fundo, a menos que o que, realmente, conte seja a comunhão fraternal de transpirações com o círculo de corpos imediatamente contíguo e a fusão das vozes nos grandes corais de recorte sonoro assaz semelhante aos do show business "desportivo" que ali, habitualmente, ocorrem, no sofá ou sufocando o relvado, tudo é identicamente virtual.



Desde a “Zoo TV Tour” (que, entre 1992 e 1993, levou o novo evangelho "cyberfiction" de Achtung Baby às massas), um concerto dos U2 nunca mais deixou de ser um ponto de encontro entre o "state of the art" tecnológico, a convenção planetariamente ecuménica de todas as confissões religiosas, o épico "overload" sensorial de agit-prop em favor das inúmeras causas de "direitos humanos", a gloriosa encenação audiovisual de uma síntese eclética da literatura de auto-ajuda e o que sobreviveu da música de um antigo quarteto punk de Dublin. Na "360º Tour”, sob os focos de luz que jorram da garra crustácea coroada por uma cúpula muçulmana/ortodoxa em cebola, simultaneamente semideuses-objecto de veneração e sacerdotes celebrantes, os U2, nas palavras de Bono, assumem, temporariamente, a pele de outras divindades: ele seria uma combinação de Schwarzenegger, Danny DeVito e Dennis Hopper, Larry Mullen encarnaria James Dean, The Edge teria raptado o corpo de Mr. Spock, e Adam Clayton (de facto, a uma certa luz, um clone quase perfeito do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos), a cara chapada de Clark Gable.



E, correndo, caminhando, voando, sobre o duplo círculo do ora altar, ora púlpito, debruçando-se das pontes que o aproximam do fervilhante enxame lá em baixo, insufla-lhe o poder do canto para que, com ele, possam repetir que também ainda não encontraram aquilo de que andam em demanda, que já é tempo de limpar as lágrimas do rosto e, imediatamente a seguir à exortação autocrítica “Enough of the folk mass!”, salmodiar (em "Until The End Of The World") “We broke the bread, we drank the wine”. Dos altos céus e do vídeo-fogo-de-artifício, descerão também os santos: o bispo Desmond Tutu, a mártir birmanesa, Aung San Suu Kyi, o comandante Frank De Winne, da International Space Station, recitando a letra de "In A Little While", uma réplica-BD do carro de Deus/"mothership" do bíblico Ezequiel e o verde islâmico da paz. “At the altar of the dark star” e “through the stations of the cross”, depois de apelar a uma Via Láctea de telemóveis, com "Moment of Surrender", a cerimónia é dada por concluída. Ite missa est.

(2010)

27 May 2010

DENTRO DE CADA STEVE JOBS HÁ SEMPRE UM
PROFESSOR KARAMBA A ESPERNEAR PARA SAIR

(ou o humano demasiado humano)


Funcionários da Apple chegando ao emprego

Fabricante do iPhone contrata monges budistas para afastar maus espíritos

(2010)

14 March 2010

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (XL)

António Rego




Existem, sem dúvida, os escolhidos e os predestinados. Aqueles que, por algum motivo, exibem um sinal de diferença que os separa dos restantes. No próprio nome, por exemplo: António Rego não poderia ser mais contemporaneamente católico, mais explicitamente envolvido nas turbulências do século que confrontam esse rego acolhedor e profundo da fé (fulgurantemente evidente no sorriso das crianças, nunca como agora tão frequentemente tocadas pelo amor do Senhor) com a impiedade do mundo. E, simultaneamente, capaz de traduzir essa angústia para uma sublime reflexão filosófica:

"Estaremos marcados pela náusea de Sartre, o niilismo de Nietzsche, o desespero de Hamlet, a fúria de Herodes e a loucura de Hitler, ou a depressão e ansiedade dum pós modernismo insano?"

Não!... responde Rego. E contrapõe-lhe a "teoria de Jesus", aplicável a todo o humano sofredor: para agricultores e floricultores, "o desprendimento dos 'lírios do campo'"; para profissionais de cabeleireiro e seus clientes, "a providência sobre 'os cabelos da vossa cabeça'”; para os beneficiários de crédito bancário, "a certeza de que 'nada do que pedimos é em vão'"; enfim, para todos nós, consumidores de papos-secos, baguettes e vianinhas, "a confiança 'no pão que nos concede' em vez do escorpião". O "escorpião" é só para rimar com "pão". (aqui)

(2010)

04 October 2009

À PÁGINA 199 DE "O FILÓSOFO E O LOBO"


Sacha, 1998-2009, tudo menos um lobo

"Uma coisa que aprendi no último ano da vida de Brenin é que os lobos, e, já agora, os cães, conseguem passar no teste existencialista de Nietzsche de uma maneira que os humanos raramente conseguem. (...) O tempo dos lobos, suspeito, é um círculo e não uma linha. Cada momento da vida de um lobo é, em si, completo. E a felicidade para eles encontra-se sempre no eterno retorno do mesmo. Se o tempo é um círculo, não existe o nunca mais. E, por conseguinte, a existência de cada um não gira à volta da vida como um processo de perda. (...) Para um lobo, ou um cão, a morte é realmente o limite da vida. E por isso a morte não tem controlo sobre eles. Isto, gostaria de pensar, é o que é ser-se um lobo ou um cão" (Mark Rowlands em O Filósofo E O Lobo)

(2009)