(sequência daqui) À "Mojo", explicar-se-ia ainda com mais detalhe: "Senti a necessidade de ir mais longe na descoberta do meu vocabulário sonoro. Gosto de pensar neste álbum como pop-depois-da-peste. Tem muito de inferno e de paraíso. Como se fosse escrito do ponto de vista de uma profunda ferida narcísica, com a sensação de se ser um barril de pólvora: se alguém nos olhar do modo errado, podemos facilmente explodir. É o meu disco mais intenso. É urgente e psicótico. Não tem nada de bonitinho". Puríssima verdade. "Reckless" (“Stranger come in my path, I’ll eat you up, tear you limb from limb, or I’ll fall in love”) abre como uma marcha fúnebre antes de estoirar em jorros de lava electrica; "Flea" (“Once I’m in you can’t get rid of me") é PJ Harvey esquartejada; "Violent Times" ("I fell down the well, waking up in hell") imobiliza um proto-tema bondiano de John Barry sobre o abismo; "The Power's Out" ("Ladies and gentleman, it seems we’ve got a problem, the man on my screen said, just as somebody shot him") é um suave pesadelo urbano que paira como um fantasma. Mas é, provavelmente, no reggae byrniano de "So Many Planets" que, logo nas duas primeiras linhas, tudo se deixa decifrar: “Misfiring chemicals and scary ideas, this revolution isn't fun, ma”.
Anna Calvi on scoring the music of Peaky Blinders season 5
(sequência daqui) Tendo como tema principal "Red Right Hand", de Nick Cave, muitas outras eminências da música actual - PJ Harvey, Laura Marling, Radiohead, Sam Lee, White Stripes, Sinéad O'Connor, Lisa O'Neil... - se lhe foram agregando. Nas duas últimas temporadas, foi, porém, a magnífica Anna Calvi a ocupar o lugar central, criando 37 temas agora recolhidos em Peaky Blinders: Season 5 & 6 (Original Score). Há 4 anos, aquando da publicação de Hunted, dizia-nos: “Queria ter a noção de quão profundamente seria capaz de entrar naquele imenso abismo negro do espírito do Tommy Shelby, a personagem principal. Explorar aquelas trevas e vulnerabilidade, aquela brutalidade e sensibilidade que sempre procurei na minha música, como se eu fosse ele. Uma espécie de diálogo que me conduziu a procurar inspiração na música dos 'westerns' porque Peaky Blinders é, de facto, um 'western' situado em Birmingham”. Bem-vindos ao imenso abismo negro.
(sequência daqui) Abdicando da etapa do registo inicial de maquetes, PJ gravaria directamente a voz para o telemóvel e, em estúdio – configurado para registar os resultados de improvisações espontâneas, cintilações improváveis, momentos inesperados –, sob aquilo que Flood designa como a "ditadura benévola" de Polly Jean, se esse seria o ponto de arranque por ela definido, toda a concretizção e exploração posteriores ficariam a dever-se ao colectivo. É nessa matéria sonora que se enraíza a história da jovem Ira-Abel Rawles e dos seus dolorosos ritos de passagem à idade adulta, narrados por Orlam, o olho vigilante de um cordeiro e entidade protectora de Ira, num mundo de criaturas malignas por onde a personagem fantasmática de um soldado ferido, Wyman-Elvis, espalha as palavras da salvação: "Love me tender". Aqui e ali, escutam-se ecos de Let England Shake (2011) ou White Chalk (2007), Por momentos, recordamos Is This Desire? e alguma vibração distante de "Sheela-Na-Gig" (1992) paira por ali. Mas nada disso desmente o pedido que ela fizera a Flood: "Quero ouvir algo que nunca tenha ouvido antes".
15 July 2023
(sequência daqui) Não é impossível que, por essa altura, PJ Harvey estivesse já a caminho de dar resposta a esse anseio. Acompanhada pelos fidelíssimos John Parish e Flood, entraria em estúdio para prolongar e aprofundar o método de "composição colaborativa" que experimentara no último The Hope Six Demolition Project(2016). Mas, desta vez, em I Inside the Old Year Dying, tendo como ponto de partida o esquema narrativo de Orlam, circunstância que, à "Uncut", Flood deixa transparentemente clara: "Uma vez que todas as canções são, de facto, poemas que ela foi escrevendo nos últimos 8 anos, isso tornou-se absolutamente central para o conceito de todo o álbum. Obrigou a que nos concentrássemos em averiguar se um texto é um poema ou se um poema pode transformar-se em texto de canção. Os textos provêm directamente dos poemas de Dorset, daí, por vezes soarem estranhos. É a beleza deles. Não é necessário cantar em inglês. É possível criar uma emoção a partir de quaisquer palavras, sons ou linguagem". (segue para aqui)
(sequência daqui) PJ, falando publicamente pela primeira vez desde há 10 anos, explicava ao "Observer": "Os dialectos são uma óptima ferramenta para a poesia porque as palavras ganham diferentes conotações. Quando acabo de ler um grande poema, tenho de respirar fundo, Nos meus poemas não pretendo dizer às pessoas como devem sentir-se. Pretendo, sim, abrir a porta para que o possam descobrir por si". E contava como, enquanto escrevia, "transportava as paisagens do livro comigo, como se habitasse um universo paralelo. Em todas as horas do dia, corriam ao meu lado. Estava completamente envolvida naquela jornada. Orientava-me em tudo o que fazia, tudo o que via tinha adquirido as cores daquele mundo no qual havia entrado". Mais importante ainda: apercebera-se da diferença entre escrever textos para canções e escrever poemas. "A poesia necessita de criar um mundo integral na página sem acompanhamento musical, através da forma, da rima, da métrica e da tonalidade. O texto de uma canção pode ser uma pincelada muito ligeira porque a música proporciona emoção e atmosfera e auxilia o texto a ganhar relevo". E, contudo, em Abril do ano passado, Liz Berry escrevia no "Guardian": "A articulação intelectual de dialecto, folclore, imaginário bíblico e rima podem empurrar os poemas para o arcaísmo, fazendo-os assemelhar-se a canções folk foragidas. Na verdade, canções tanto antigas como novas, desabrocham por Orlam como flores silvestres e nós ansiamos pelas melodias que as poderiam ter acompanhado". (segue para aqui)
(sequência daqui) Outra memória de Dorset que lhe ficou agarrada à pele foi o dialecto local, essa antiquíssima descendência saxónica, variante do Old English, quase totalmente dizimada no século XX em consequência da chegada do caminho de ferro mas ainda vestigial nalgumas aldeias e, em particular, no vale de Blackmore, cenário de Tess of the d'Urbervilles, de Thomas Hardy. Foi nesse universo vocal de "h" ausentes e "r" farpados que Polly Jean, durante oito anos, foi escrevendo Orlam, um poema narrativo em variante britânica do realismo mágico, sob o olhar atento do poeta e amgo escocês, Don Paterson: "Era muito claro que a Polly estava determinada a escrever no seu dialecto nativo. Encorajei-a a fazê-lo sem hesitar. Leu todos os livros de William Barnes, o grande poeta da West Country, bem como o seu dicionário do dialecto de Dorset. Devorou aquilo tudo. Acabou por escrever Orlam que é, na realidade, a primeira obra escrita no dialecto de Dorset desde há um século. No fundo, é apenas mais uma parcela de um movimento geral através do Reino Unido. Podemos observar as mais variadas formas de celebrar a nossa dupla herança. Imensa gente escreve tanto em inglês-padrão como nos seus dialectos locais". (segue para aqui)
05 July 2023
AS CORES DAQUELE MUNDO
Corscombe é uma pequena aldeia de 445 almas do condado de Dorset, no Sudoeste de Inglaterra, sobre a costa do English Channel. Após os três primeiros curtos parágrafos que a Wikipedia lhe dedica, no quarto e último de uma única linha, lê-se: "The musician Polly Jean Harvey is a former resident". Na verdade, tornou-se apenas o polo de residência que alterna com Londres e, de modo algum, perdeu a importância de casulo no interior do qual se formaria PJ Harvey. Crescendo no meio de ovelhas, vacas, galinhas e cães na pequena quinta dos pais, contava no ano passado ao "Guardian": "Era maravilhoso – o meu irmão e eu tínhamos toda a liberdade de vaguear e brincar por lá. Vivíamos na nossa imaginação. E os nossos fantásticos pais encorajavam-nos a fazê-lo". Aproximando mais a memória, "Desde muito cedo, tivemos consciência do ciclo da vida e da morte e rapidamente aprendemos esse ritmo. Dorset é luminoso e escuro, o êxtase e a melancolia. Se estivermos no cume de Eggardon Hill, sentimos o coração abrir-se à beleza. Mas, se andarmos por um vale sem muita luz, apercebemo-nos de uma lindíssima melancolia. A natureza é crucial para a regeneração do meu espírito".(daqui; segue para aqui)
"PJ Harvey and Egyptian recording artist Ramy Essam have come together to write and record ‘The Camp’ which they hope will raise awareness and much needed support towards the health and educational well-being of displaced children in the Bekaa Valley of Lebanon. The artists will donate all net profits from the track to Beyond Association in the Bekaa Valley, a national Lebanese non-Governmental Organisation. Beyond Association provides services such as access to education, healthcare, and psycho-social support mainly through art therapy, neuro-physiotherapy, and recreational activities. 'It is hard to comprehend the scale of the crisis in Lebanon, a country of 4 million now hosting over 1 million Syrian refugees', states photo-journalist Giles Duley whose arresting photographs feature in the official music video, edited by Rick Holbrook. 'The infrastructure of the country is pushed to its limit, and nowhere is that situation more desperate than in the Bekaa Valley. However, there are some amazing organisations doing incredible, effective, and selfless work on the ground there, and of all the NGOs I have documented, none have impressed me more than Beyond. To visit their schools and witness their programs is to see hope - and that is something we have to support'. The following is an excerpt from Ramy Essam's verse of "The Camp", translated from Egyptian to English: "I wish I had wings to fly away, far away. Meet smiley faces who never ask where I came from; not to ask about colour, race, or religion. What difference does it make if we're all humans? No wars, no limits, no borders. Earth is everyone's right.”
19 October 2022
"My Blood"
(sequência daqui) “Para mim, é tudo exactamente igual a quando Alan Lomax andava por todo o mundo a descobrir as músicas locais. As canções estão aí para ser colhidas”, dizia ela à WNYC. Isto, enquanto, com Greg Ahee e Michael Wallace, alimentava a fogueira dos Bloodslide, trio pós-punk de incandescências elétricas. Agora, em Dirt! Soda!, continuando rodeada de gente dos círculos privados de Bill Laswell, Julia Holter, Yves Tumor e Joan As Policewoman, à excepção de "Strings of Nashville", dos Pavement, e "Broken Hearted Wine", dos Codeine (fundidas numa liga metálica única), e de "Then You Can Tell Me Goodbye", de The Casinos, AJ assina todos os outros temas. E o que se escuta é coisa hipnótica de essência medularmente lynchiana, traduzida e expandida para o vocabulário já antes, em várias tonalidades, ensaiado por Julee Cruise, PJ Harvey, Nick Cave, Kate Bush ou Chrysta Bell.
(sequência daqui) A escolha de Gullick não foi um acaso e, se pudesse escutar, Polly Jean, aprovaria certamente o que dali estava prestes a sair. Tal como, provavelmente, o fariam Dylan e Tom Waits, outras das abertamente reivindicadas divindades presentes na improvisada galeria. Gravado durante dois anos encolhidos para um período útil de três meses em consequência dos altos e baixos pandémicos, Reeling é uma redescoberta da turbulência primordial do rock, músculo, osso e nervo eléctricos, ruidosos disparos de veneno ácido (“My words like bullets through your heart, but I will keep on trying, cause I like to watch you dying”) e o insolente contralto de Lia a abrir crateras (“Everybody thinks I should say sorry, others think I’m the life of the party, I don’t know, I think I’m just horny”).