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04 October 2021

 
(sequência daqui) “Ele tinha o álbum completo na cabeça bem antes de ter começado a gravá-lo. Pensava nele há muito. Tinha tido imensa paciência com os Beatles. Quando chegou o momento de passar à acção, sabia exactamente o que estava a fazer. Não precisava de se dirigir a um produtor para lhe pedir uma opinião. Tinha tudo pronto”, diz Dhani Harrison, o filho que tem sido o produtor executivo de todas as reedições póstumas de All Things Must Pass, o álbum que, à época, levou Richard Williams, crítico do “Melody Maker”, a afirmar que ele representava “um choque equivalente ao dos cinéfilos de antes da guerra quando, pela primeira vez, Greta Garbo abriu a boca num filme sonoro: a Garbo fala! Harrison está livre!”. George não estaria dependente da opinião de um produtor mas, quando entrou nos estúdios da EMI a 26 de Maio de 1970, tinha um nome debaixo da língua: Phil Spector, o génio de grau máximo na categoria não-é-flor-que-se-cheire, inflexivelmente contrário a sequer admitir que "less" pudesse ser "more" – "more" era sempre "more" e quanto mais, melhor. O método seria baptizado por Andrew Loog Oldham como “The Wall of Sound” – Spector chamava-lhe “a Wagnerian approach to rock & roll: little symphonies for the kids" – e haveria de ser aplicado com grande proveito em gravações dos Righteous Brothers, Ronettes, Crystals ou Ike & Tina Turner. Dos Beach Boys aos Jesus & Mary Chain, deixaria inúmeros discípulos, entre os quais George Harrison que apreciava especialmente a pós-produção por que ele fora responsável em Let It Be (McCartney detestava-a) bem como a sua intervenção no single de Lennon e Yoko, "Instant Karma!". (segue para aqui)

05 February 2019

ABRIR PORTAS E JANELAS 


“The New Europeran” é um semanário britânico lançado a 8 de Julho de 2016 em reacção ao referendo do Brexit. Dirigido aos “remainers” – os cidadãos do Reino Unido que votaram contra a saída da UE –, intitula-se, por esse motivo, "The New Pop-up Paper For The 48%". Fazendo figas para que essa percentagem possa crescer, aplica-se a divulgar traços da História e da identidade britânicas numa perspectiva de relação aberta com o exterior político e cultural. No número de 15 de Janeiro, trazia um texto de Sophia Deboick (I) sobre “1951: a year in music and the first rock‘n’roll single”. O pano de fundo é a Britânia do imediato pós-guerra, quando se celebrava o futuro – afinal, acabavam de abrir os primeiros supermercados e surgiam as "zebra crossings" (passagens de peões)!... – mas o passado estava ainda demasiado presente: o Festival of Britain, centrado na zona de Waterloo, em Londres (década e meia depois, Ray Davies recorreria à memória da visita que lá fizera com os pais para o cenário de "Waterloo Sunset"), imaginava-se moderno com um programa de Elgar, Vaughan Williams e Haendel e as tabelas de vendas eram dominadas por Frankie Laine, Nat King Cole, Tony Bennett e "crooners" afins. 



O mundo novo, porém, estava a bater à porta: em Abril, seria publicado "Rocket 88", de Jackie Brenston & His Delta Cats (na verdade, os Kings of Rhythm, de Ike Turner), gravado no Memphis Recording Service de Sam Phillips, que, no ano seguinte, se transformaria no quartel general da Sun Records. Uma coluna do amplificador da guitarra rasgada e atamancada com papel de embrulho numa canção que glorificava o Oldsmobile 88 enquanto infalível arma de engate (“V-8 motor and this modern design, my convertible top and the gals don't mind”) fariam de "Rocket 88" a canção mais frequentemente citada como protótipo do rock’n’roll e trampolim para a etapa seguinte que, via Beatles, Stones et alia, se desenrolaria em Inglaterra. No entanto, o título de “first rock‘n’roll single” que Deboick também lhe atribui está longe de ser unânime. A lista de candidatos – de "That’s All Right" (Arthur “Big Boy” Crudup, 1946) a "Good Rockin' Tonight" (Wynonie Harris, 1948), "Guitar Boogie" (Arthur Smith, 1948), "Saturday Night Fish Fry" (Louis Jordan & The Tympany Five, 1949), "Rock Awhile" (Goree Carter, 1949), "Rock This Joint" (Jimmy Preston & His Prestonians, 1949), "The Fat Man" (Fats Domino, 1950), ou "Hound Dog" (Big Mama Thorton, 1953) – é rica e extensa. Mas, seja qual for, uma coisa é certa: abrir portas e janelas refresca sempre o ar.

01 April 2010

VISITA GUIADA



Get Yer Ya-Ya’s Out




Rolling Stones Live At The Max




Terrifying/The Legendary Atlantic City Concert

Breve visita guiada à história da música popular, na segunda metade do século XX: primeira paragem, Madison Square Garden, 27 e 28 de Novembro de 1969, antepenúltimos concertos dos Rolling Stones na digressão que, a 6 de Dezembro, terminaria em Altamont e, aí, extinguiria oficialmente os fumos de “paz & amor” da década. A tournée havia começado menos de três meses após o festival de Woodstock e um pouco mais depois de Armstrong e Aldrin terem caminhado sobre a Lua. Richard Nixon tinha sido eleito presidente dos EUA, um movimento radical de estudantes ocupara a universidade de Harvard e o massacre de My Lai, no Vietname, ocorrera apenas há dois meses. Nos bastidores dos concertos, circulavam Jimi Hendrix, Jerry Garcia, Janis Joplin e o yippie Abbie Hoffman que tentara ludibriar a segurança, fazendo-se passar pelo coronel Tom Parker, o famigerado empresário de Elvis Presley.



Com reportório assente em Beggars Banquet (do ano anterior) e Let It Bleed (que seria publicado uma semana depois), a digressão daria origem a Live'r Than You'll Ever Be, um dos primeiros bootlegs ao vivo, e a Get Yer Ya-Ya’s Out, o live acerca do qual Lester Bangs, um ano mais tarde, escreveria: “Numa época em que a maioria dos concertos se tornou quase embaraçosa no seu exibicionismo e excesso, Ya-Ya’s pontapeia-nos para fora da cadeira. Não o amamos apenas pelo que é mas também por aquilo que ele não é”. E, concentrando-se na última faixa, concluía: “’Street Fighting Man’ eleva o concerto a um nível de intensidade estratosférica que simplesmente se ergue acima do resto do álbum e lhe serve de síntese”. Nos últimos dias da aventura americana, Mick Jagger, aos 26 anos, resmungava “Não podemos continuar a fazer isto eternamente, estamos a ficar demasiado velhos”.



Segunda paragem: digressão "Steel Wheels/Urban Jungle" (na extensão europeia), de Agosto de 1989 a Agosto de 1990, entre os EUA, a Europa – a 10 de Junho de 90 picaria o ponto em Lisboa, no estádio de Alvalade – e o Japão, quase 120 concertos e um colossal sucesso financeiro. Filmados em Londres, Berlim e Turim, em toda a glória do sistema IMAX, os Stones actuam num gigantesco cenário disneyano, repleto de “exibicionismo e excesso”, Jagger muda de guarda-roupa entre cada duas canções, os ângulos de filmagem oscilam entre o hagiográfico e o acrobático. Três passos antes do último (a inevitável "Satisfaction"), é a vez de "Street Fighting Man", a tal canção que Jagger e Richards haviam escrito inspirados no revolucionário trotsquista Tariq Ali e nos motins parisienses de Maio de 68 (“Nessa altura, Londres era uma cidade muito pacata… Em França mas também na América, vivia-se uma época muito estranha por causa da guerra do Vietname e de todas aquelas revoltas constantes. Pareceram-me tempos óptimos, violentos. Em França quase derrubaram o governo”, diria ele, mais tarde, a Jann Wenner, da “Rolling Stone”): do lado direito do palco, um enorme dragão insuflável multicolorido contorce-se. Qual S. Jorge, Jagger investe sobre ele, de peito aberto e lança em punho, até ser, metaforicamente, devorado. O cenário de 68 virara BD, Mick Jagger tinha 47 anos e, até hoje, “demasiado velho” ou não, continuaria “a fazer aquilo”. The show must go on.



Terceira paragem: Atlantic City, New Jersey, 1989, ainda a "Steel Wheels Tour". Nem músicos com a dimensão dos Stones estão imunes a que o "business as usual", na sua versão mais rasteira, os abocanhe. Quem viu as imagens e escutou o som de Live At The Max, dificilmente acreditará que se trata da mesma banda e da mesma digressão que aqui – com os special guests John Lee Hooker, Clapton e Axl Rose - se apresenta: há DVDs domésticos de qualidade facilmente superior em todos os parâmetros de avaliação e este apenas poderá beneficiar da atenuante de, logo no título, se anunciar tal como, realmente, é – Terrifying.
Sumário: Get Yer Ya-Ya’s Out, na sua opulência de caixa contendo a gravação original, um CD de inéditos, outro (óptimo) com as participações de B. B. King e Ike & Tina Turner, um DVD (dispensável a não ser pelo carácter documental) de cinco temas e um booklet de 28 páginas (fotos, textos, memorabilia) em "hardback", é material de consulta indispensável; Live At The Max satisfaz os interessess de quem prefere os Stones maduros, em versão-Grand Guignol, e acredita piamente que eles continuam a ser "the greatest rock’n’roll band"; Terrifying, na ausência da acção directa de um qualquer grupo de "street-fighting men", é apenas um caso de polícia.

(2010)