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26 December 2024

 LIMPEZA, RESTAURO E RECONSTRUÇÃO


Não há forma de lhes fugir. Pode atribuir-se-lhes muita, pouca ou nenhuma importância mas, a partir do momento em que, mais ou menos espontaneamente, surgem, é garantido que - para além do que de valioso produzam - a indústria rapidamente fará tudo o que estiver ao seu alcance para as esterilizar, normalizar, infinitamente replicar e converter em marcas registadas. Falo, naturalmente, das inúmeras "scenes" que, numa interminável corrida de estafetas, recebem o testemunho da anterior e logo o passam à seguinte. Breve revisão: o “eixo-Liverpool/Manchester” (Joy Division, Echo & The Bunnymen, The Teardrop Explodes, Smiths); a breve mas intensa "no wave" novaiorquina; o lerdo grunge de Seattle; a coreografia química de Madchester; o "british jazz revival" de Sade, Weekend/Working Week ou Everything But The Girl; a languidez de Bristol; enfim, a cintilante polivalência da "Brooklyn scene" (Dirty Projectors, Vampire Weekend, The National, My Brightest Diamond). (daqui; segue para aqui)

Lone Justice - "Teenage Kicks"

17 March 2023

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXXXII)
 
(com a indispensável colaboração do R & R)


(clicar na imagem para ampliar)


"Soul Train" (de Compañeros - álbum integral aqui)

11 October 2017

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XXXVII)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)

14 August 2010

VINTAGE (VI)

Working Week - Venceremos (c/ Tracey Thorn e Robert Wyatt)




Working Week - "Storm Of Light" (c/ Julie Tippett/Driscoll)



(2010)

16 May 2008

YMG: DERIVAÇÃO Nº 2
 

 
Weekend - Live At Ronnie Scott’s
 
Após uma única cintilação de luz num cristal de gelo – Colossal Youth, de 1980 – os Young Marble Giants, em 1982, haviam-se já fracturado nas suas três componentes: Alison Statton, Stuart e Phil Moxham. Nenhuma viria a atingir o estatuto de paradigma absoluto do minimalismo pop que ficaria para sempre na posse dos YMG mas, nem por isso, a cada um deles, ficaríamos a dever música menor. Primeira derivação (com os Gist) da cisão, os Weekend, em La Varieté (1982), inventaram praticamente sozinhos o jazz/bossa/lounge revival britânico do início dos anos 80 do qual (com graus variáveis de relevância) emergeriam Sade, Carmel, os Everything But The Girl ou Style Council. Alison Statton, Spike e Simon Booth gravariam apenas esse álbum de estúdio (Booth transformaria a banda em Working Week e Alison e Spike comporiam a meias) e despedir-se-iam, com este Live At Ronnie Scott’s (imensamente enriquecido pela participação do pianista de jazz, Keith Tippet), originalmente um mini LP de cinco faixas e, agora, nesta reedição, magnanimamente expandido para o triplo, via “bootlegs”, gravações de rádio e faixas de 12”. Numa palavra: precioso. (2008)

15 May 2008

EM 2003 ERA ASSIM
(a propósito de Amy Winehouse que, via Rock In Rio,
promete ser a praga mediática dos próximos tempos,
só ultrapassada pelo massacre da eurobola)


Quem ouve jazz? Um vírgula muito poucos por cento acima de ninguém. Quem ouve jazz? Uns bastante confortáveis milhões desde que, muito generosamente, o jazz aceite incluir Norah Jones ou Diana Krall entre os primos afastados. Não é uma questão de opinião. São as estatísticas dos BPIs e Billboards deste mundo que assim as classificam. Aparentemente, no mesmo momento em que as vendas globais de CD descem a pique, as de jazz subiram para uns honrosíssimos (não se riam) 2%. Porquê? Porque Norah Jones e Diana Krall "são jazz" e, assim, se encarregam de fazer o "upgrade" do saguão da indústria que partilham com Charlie Parker, Miles Davis, Mingus, Ornette, Coltrane ou Ellington. Na verdade, se o rock, depois de morto, deixou de ser a causa dos rebeldes sem causa para se transformar numa terapia ocupacional dos tempos livres adolescentes, se a pop quimicamente pura passou a ser mera coreografia de hypes e starlets semestralmente renováveis, se a clássica já obriga a pré e pós-produção de imagem, porque haveria o jazz de se deixar ficar pelintramente orgulhoso da sua "integridade"? Porque não haveria de se conformar com a missão de "coffee table music" e aceitar a condição de produto de consumo, lado a lado com o Xanax, o futebol ou a leitura da "Caras"? Afinal, pelo meio dos anos 80, Sade Adu, Weekend/Working Week ou Everything But The Girl não tinham já sido empacotados como "the british jazz revival"?

Em poucas palavras: a indústria descobriu um filão. E ele, hoje (para além de Krall ou Jones), dá pelos nomes de Peter Cincotti, Katie Melua, Jamie Cullum, Michael Bublé e Amy Winehouse. Aspiram ao estatuto de "novos Sinatras" ou "novas Peggy Lee/Julie London/Ella Fitzgerald" e são todos muito jovens e bem apessoados. Cincotti, por exemplo: 20 anos, americano, nº1 na tabela de jazz da Billboard com o álbum homónimo de estreia, também terceiro mais vendido de 2003 na categoria, estreia cinematográfica anunciada em Spider Man 2 e Beyond The Sea, de Kevin Spacey. Como é, então, o "jazz wunderkind" ungido como messias pela "Vanity Fair"? "Good looks" de modelo masculino em versão BCBG, voz banalmente "flat" que até arrepia citar no mesmo fôlego que Sinatra, pianista competente como milhares de outros em actividade nos bares de Nova Iorque, arranjos e interpretações "not quite pop, not quite jazz" para quatro originais descartáveis e um reportório de "standards" que vai dos Beatles a Blood Sweat And Tears e Fats Waller. A competição directa por este nicho do jazz ultra-light vem de Michael Bublé (25 anos, canadiano) e Jamie Cullum (24 anos, inglês). O primeiro (em registo também homónimo) investe na mimetização fiel dos tiques da era do swing e não lhe parece mal atirar-se a canções dos Bee Gees com a participação dos próprios, ao mesmo tempo que assume a pose de crooner de casino delicodoce, doravante indispensável no lobby dos melhores hoteis. Cullum (Twentysomething, dupla platina em Inglaterra), esse, faz o género de "enfant terrible", mais copos-gajas-e-terra-nas-unhas do que luva branca, que não desdenha dar cabo de Hendrix, Jeff Buckley, Radiohead e Who por entre versões igualmente pedestres de clássicos de Cole Porter e Lerner/Loewe e composições próprias. O Algonquin Hotel de Nova Iorque já lhe abriu as portas pelo que se prevê uma disputa renhida pelo título de rei do "dinner jazz". Pelo menos tão renhida como a do torneio feminino Krall/Jones, com Katie Melua (19 anos, origem russa e residência britânica) e Amy Winehouse (19 anos, inglesa) na qualidade de "outsiders most likely". Frank, de Winehouse — suposta discípula de Ella, Dinah, Sarah e Ray Charles, várias nomeações para os Brit Awards —, tem a virtude de tanto beber da velha tradição jazz quanto da "nova" funk/soul/hip hop e, por aí e por alguma individualidade menos oriunda "de fábrica" (ainda que a léguas do almejado modelo Erykah Badu), fugir um pouco ao estereótipo lounge-nostálgico. No qual, Melua e Call Off The Search (1º lugar do top inglês) mergulham de cabeça mas, esbracejando pelo galardão de Norah-Jones-de-Holiday Inn, provam, contudo, a existência de um público ávido das suaves insignificâncias da "mood music". (2003)

13 July 2007

ARQUITECTURA
 
  
    
The Gist - Embrace The Herd 
 
Se me fizessem um daqueles pedidos invariavelmente absurdos para escolher os meus três discos dos anos 80, depois de meditar séria e longamente durante um segundo, provavelmente responderia Colossal Youth, dos Young Marble Giants, La Varieté, dos Weekend, e Embrace The Herd, dos Gist. Uma hora depois, diria, de certeza, qualquer outra coisa diferente mas, em cada dez oportunidades, nove iriam inevitavelmente parar aí. Tem, indiscutivelmente, a vantagem da coerência familiar. Foi dos Young Marble Giants que descenderam os Weekend (e, posteriormente, os Working Week) e os Gist e, em todos eles, estava presente aquela especialíssima disciplina espartana que os amarrava a, nunca por nunca, dizer mais do que o estrita e absolutamente necessário mesmo que, para isso, fosse necessário correr o risco de serem acusados de infantilismo musical. Os Gist (dos irmãos Stuart e Phil Moxham) foram a consequência directa dos YMG após a dissolução do grupo-pai. Enquanto Alison Statton descobria o sol e os trópicos na companhia dos Weekend, com Embrace The Herd, os manos galeses - em rigor: Stuart, com episódico apoio de Phil - prosseguiam a aventura de nunca escrever uma canção com seis acordes se três chegavam perfeitamente, limitar a paleta instrumental a lacónicas guitarras, baixo, percussão invisível e um tecladozeco analógico e, a partir daí, reinventar a pop a partir dos despojos que, anos atrás, os seus antepassados punk, tinham deixado no terreiro de batalha depois de pôr as tripas de fora ao esclerótico "establishment" musical da época. O que ficou em mais um disco único (em todos os sentidos) foram, então, doze fascinantes exercícios de pura geometria minimalista onde nenhuma peça pode ser deslocada sem modificar drasticamente a lógica do conjunto — quer isto dizer que nenhum destes temas admite a menor possibilidade de versões embora o conceito de "remix" já seja admissível — nem abalar a consistência do edifício sonoro. Pura inteligência ao serviço da arquitectura da canção (estou até intimamente convencido que a ideia irá mais longe: à excepção de mim, todos os fãs dos YMG/Gist foram mesmo arquitectos "et pour cause") que ainda hoje ecoa, quer eles saibam ou não, nos Stereolab e em certo trip-hop mais descarnado. E, a propósito, "Love At First Sight" (aqui no registo original e na encarnação "demo" incluida nas quatro "bonus tracks") é uma das grandes canções pop de sempre. (1999)