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26 January 2026

"Thrown Away" 
 
(sequência daqui) Segundo o comunicado de imprensa, de tudo isto resultaria Live At the Horse Hospital, "um exemplo de como as coisas devem ser feitas. Gloriosamente desprovido das pretensões e da exaltação da personalidade do rock'n'roll, este álbum é um vibrante apelo à liberdade. Oiçam-no por vossa conta e risco!". Na verdade, dir-se-ia tratar-se quase só de uma obstinada persistência, um acto de rebeldia, um desafio às convenções da música e da performance. A voz de Libertine, fragmentada e primitiva, rasga por entre a dissonância sussurrada e a guturalidade abrasiva. Leblanc, por seu lado, oferece um cenário sonoro minimalista e inquietante de paisagens sonoras voláteis — eletrónica distorcida, field recordings e ritmos desconcertantes que se fundem com a crueza da voz de Libertine, estridente e confrontacional. Desta vez, não se prevê que sejam levados a tribunal por blasfémia e obscenidade como há 40 e tal anos.

24 January 2026

COMO AS COISAS DEVEM SER FEITAS

Originalmente construído por James Burton, em 1797, como estábulo para cavalos de trabalho doentes, The Horse Hospital, em Bloomsbury, Londres, converter-se-ia, mais de 2 séculos depois, num espaço artístico independente cuja actividade se concentraria em histórias sub-culturais, contra-culturais, de arte marginal e emergente assim como na organização de projecções cinematográficas underground e exposições. Fundado em 1992 por Roger K. Burton, iniciou actividades, em 1993, com "Vive Le Punk!", uma retrospectiva do design punk de Vivienne Westwood. Em Abril de 2024, durante a Crass Art Exhibition, seria aí apresentada a obra original de Gee Vaucher (bem como cenários e outros artefactos punk), dos lendários Crass. A exposição na galeria incluiu projecções, sessões de perguntas e respostas e actuações. Entre estas, Eve Libertine - outro elemento primordial dos Crass - apresentou-se com a guitarrista experimental chilena Eva Leblanc. (daqui; segue para aqui)

30 November 2025

CRASS: THE SOUND OF FREE SPEECH
"Crass took the DIY ethic of punk to its extreme, controlling every aspect of their art and lives" – George Berger, author of The Story of Crass Celebratory, shocking and raw, this film is as close to the story of the anarcho-punk band as you're going to get... Crass were an art collective and punk band that formed in Essex in 1977, and disbanded in 1984. They promoted anarchism and a movement of resistance that awakened and appealed to many. 
 
Directed by Brandon Spivey 
Music by Crass Featuring: Penny Rimbaud, Mike Duffield, Annie Bandez, Steve Ignorant, Ben Ponton, Pete Wright"

03 January 2021

A TRAVESSIA DO HORROR
A batalha de Verdun, travada em 1916 entre França e Alemanha durante a primeira Guerra Mundial, durou 302 dias e teve um custo de 714 231 vidas humanas. Num cenário aterrador de lama, cadáveres e destroços, um oficial francês escreveria no seu diário: “A humanidade enlouqueceu. Só por loucura poderá isto estar a acontecer. Que massacre! Que cenas de horror e carnificina! O inferno não pode ser tão terrível”. O infame título da mais longa e uma das mais sangrentas batalhas da História pertence-lhe. Teve lugar 25 anos após a morte de Arthur Rimbaud. O que não impediu Jeremy John Ratter – aliás, Penny Rimbaud, "elder statesman" do anarco-punk britânico com currículo lavrado à frente dos Crass – de, em Arthur Rimbaud In Verdun, se ficcionar ao lado do iluminado poeta francês nos campos da morte da Frente Ocidental. (daqui; segue aqui; ver também aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui)

 

18 February 2019

16 February 2019

12 February 2019

DESORDENADAMENTE



“Anarco-punk”. Procure-se onde se procurar pelos Crass (“an English art collective and punk rock band formed in 1977 who promoted anarchism as a political ideology”, informa a Wikipedia) é impossível encontrá-los descritos de outra forma que não essa. E, no entanto, hoje, Penny Rimbaud (motor estético e político da banda), a pretexto da reedição iminente da totalidade da discografia dos Crass, não hesita em declarar à “Uncut”: “Usar símbolos anarquistas foi apenas uma forma de dizermos ‘Fuck off!’ à esquerda e à direita. Nenhum de nós tinha qualquer ligação ao pensamento anarquista. Desconhecíamos e continuamos a desconhecer a teoria anarquista, nunca nos interessámos por isso. A última coisa que teríamos desejado era ser vistos como líderes do movimento anarco-punk”. Em 1976, "Anarchy In The UK" poderá ter lançado fogo ao rastilho mas o que Rimbaud e Steve Ignorant (logo depois, também Eve Libertine, Gee Vaucher, Joy De Vivre e vários outros), na comuna Dial House, no Essex, construiam era uma ponte entre a contracultura dos anos 60 e o emergente punk sobre a qual se cruzavam desordenadamente, o situacionismo, os "beats", o dadaísmo, o zen, a "performance art", Baudelaire, os "angry young men", e o existencialismo, com banda sonora a condizer – um caldeirão das bruxas onde ferviam Benjamin Britten, free jazz, Beatles, John Cage, Bowie, Stockhausen, e os Clash. 



Durante 7 anos, até 1984 (quando a banda se extinguiu), da Dial House, saíram também panfletos, filmes, expedições de grafitagem dos túneis do metro com mensagens pacifistas (ou nem tanto), feministas, anti-religiosas, de apoio a "squats" ou à duríssima greve dos mineiros. A coroa de glória dos Crass seria, no entanto, a operação Thatchergate Tape: uma tosca montagem doméstica das vozes de Margaret Thatcher e Ronald Reagan (enviada para a imprensa durante a campanha eleitoral de 1983), na qual, em conversa telefónica fictícia, discutiam a guerra das Falklands e a possibilidade de a Europa ser um alvo para as armas nucleares num conflito entre os EUA e a União Soviética. O Departamento de Estado americano e o governo britânico morderam o isco, atribuiram a divulgação da cassete ao KGB e documentos classificados chegariam aos jornais até o logro ser, enfim, descoberto. “Se fosse hoje, seríamos presos”, diz Penny Rimbaud que, 30 e tal anos mais tarde, coloca toda a esperança e optimismo no poder de higienização mental que a ciência pode trazer: “É a nova poesia. Estou muitos passos atrás de Richard Dawkins”.

21 August 2018

INGLESES LIVRES


Durante a Guerra Civil inglesa do século XVII (1642–1651), os Levellers eram perigosos radicais. Exigiam coisas impensáveis como a soberania popular, o sufrágio alargado, a igualdade perante a lei e a tolerância religiosa (quando, fiéis a velhos hábitos, os cristãos – católicos e protestantes – se matavam alegremente, uns aos outros). Não seriam tão extremistas quanto os Diggers, propagandistas da igualdade absoluta – incluindo a igualdade entre homens e mulheres – e pioneiros das preocupações ecológicas, mas o pensamento dos “ingleses livres” John Lilburn, Richard Overton, William Walwyn e Gerrard Winstanley, embora derrotado em 1650, reemergiria com a Revolução Francesa e a Declaração de Independência americana. Bastante depois, em 1988, outros Levellers apareceriam em Brighton: Mark Chadwick, Jeremy Cunningham, Charlie Heather, Jon Sevink, Simon Friend e Matt Savage, colectivo anarco-punk-folk oriundo dos "squats" locais, segundo eles mesmos, “um produto da Inglaterra de Margaret Thatcher” (flashback histórico tragicamente irónico: a 21 de Setembro de 1988, Thatcher anunciava que “se oporia com unhas e dentes a qualquer tentativa da Comunidade Europeia de se transformar numa união política em que a Grã Bretanha tivesse de ceder poderes”), inspirado pelos Crass, e porta-voz das subculturas nómadas ("travellers", "crusties", e outros neo-hippies com agenda anarquista). 



Improvavelmentee, o segundo álbum, Levelling The Land (1991) tornar-se-ia um êxito de vendas e, em 1994, no Festival de Glastonbury, actuariam perante 300 000 pessoas. Daí em diante, a projecção dos Levellers ir-se-ia atenuando e, até 2012 (quando publicaram o, até agora, último, Static on the Airwaves), gravariam um total de 10 álbuns. We The Collective, comemorando o 30º aniversário da banda, repesca 8 clássicos do grupo, acrescenta-lhes dois originais e uma versão de "Subvert", dos Zounds, gravados em Abbey Road com uma secção de cordas. O espírito primordial permanece – abundam tiradas panfletárias como “If you gotta job, you can be an agent, you can work for revolution in your place of employment, if you work in a factory, throw a spanner in the works, internal sabotage, hit them where it hurts” e “How proud you must feel as you’re cutting your deals, with arms manufacturers greasing the wheels, selling bullets and bombs to the men with guns taking lives” – mas, desta vez, tempestuosa e cinematicamente orquestral.