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10 May 2025
"Endless Tree"
(sequência daqui) Se, a propósito do anterior The Moon And Stars: Prescriptions for Dreamers (2021), ela não hesitava em reivindicar o papel de cúmplice de apropriação cultural - “Ouvi a versão dos Nirvana para ‘Where Did You Sleep Last Night’, do Leadbelly. O rapaz branco conduziu-me até aos blues. Ali estava eu à procura das minhas raízes” -, desta vez, recorre â suprema realeza funk, George Clinton, que justificava o facto de para ele redescobrir a música negra (os old blues que a mãe escutava), ter sido necessário ter como intermediários Eric Clapton e os miúdos brancos da Brit Invasion. Ou, como ele dizia,"olhá-la com outras lentes". Valerie foi-se também apoiando em Little Richard, Sister Rosetta Tharpe, Ma Rainey e Elizabeth Cotten. E, para os seus álbuns, em produtores brancos mas musicalmente poliglotas como Dan Auerbach, Jack Splash ou, agora, M. Ward, erudito recrutador de tropas com currículo nas hostes de David Lynch, Tom Waits, T Bone Burnett ou The Blind Boys Of Alabama. Capaz de encarar e resolver as necessidades de canções que, afinal, "apenas desejavam encontrar-se com outras pessoas" ou de conduzir June â infinda gratidão perante quem lhe depositou tão perfeitas canções no regaço: "Thank you for giving it to me. Thank you whoever the fuck you are!"
Sonny Boy Williamson, Muddy Waters, Lonnie Johnson, Big Joe Williams, Lightnin’ Hopkins, Sugar Pie DeSanto, Howlin’ Wolf, Big Joe Turner, and Sister Rosetta Tharpe perform in the UK
TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXVII)
"Vamos acabar todos no Exército da Salvação. Na música popular tudo se enterra para voltar a ser desenterrado mais tarde. A primeira coisa que um músico faz é espiolhar discos antigos no Exército da Salvação. Se estivermos abertos a experiências novas, descobrem-se lá coisas incríveis. É uma lição de história.
(...)
"Uma vez que tenhamos ouvido Captain Beefheart, é difícil vermo-nos livres dele. Deixa nódoas como o sangue ou o café. A música dele encorajou muito gente a meter-se num casulo e a sair de lá de dentro muito diferente de quando entrou. Mas não é só o Beefheart... Gosto de Tricky, dos Staple Singers, Sister Rosetta Tharpe, Charley Patton... Começamos por ser a soma destas partes e, a certa altura, temos de decidir quando nos tornámos numa bela sopa substancial".
1999
"Podemos sempre contar uma história no interior de uma canção. Toda a gente é capaz de escrever canções-de-saltar-à-corda. Desenvolvem-se e ficam assim com a forma de pedras ou emigram como se fossem sementes. São como moldes de plasticina, como contentores. Não sabemos como classificá-las. Mas este ofício é como outra coisa qualquer. Tem sempre de se tomar decisões acerca do que incluir e do que deixar de fora.
(...)
Sister Rosetta Tharpe - Up Above My Head
"Originalmente, as canções dos escravos eram uma forma de comunicação e continham imensa informação secreta que as pessoas que não possuíam nenhum poder nem acesso às tipografias transmitiam entre si para passar ideias e exprimir os seus sentimentos. É o caso de 'Wade In The Water' que se pensava ser acerca do ritual do baptismo. Era, de facto, assim, dissimulada, mas o que pretendia era fazer saber aos outros escravos que alguém tinha fugido: tinha cortado as grilhetas, ia pelo rio abaixo e era preciso encobri-lo. Hoje, parece-me que as canções ainda têm uma função vital, em certa medida ainda transmitem informação. Mas o que eu mais gosto nos tipos do rap é que, provavelmente, a maioria deles chumbou a inglês.
(...)
"Quando fazia as primeiras partes dos concertos do Frank Zappa, sentia-me como se me tivessem atirado para ali com o Igor Stravinsky. Ele tocava em pavilhões de hóquei com cartões no chão para que as pessoas se pudessem sentar em cima do gelo. Eu aparecia à frente de 5000 pessoas, numa floresta de crómio, e tocava durante trinta minutos. Sentia-me como um termómetro rectal. O Frank dizia-me, 'Então, como é que está o público?' e eu respondia-lhe 'É o teu público, Frank'. Eles supunham que ele queria que fizessem pouco de mim e eu era uma prenda. Era o macaquinho amestrado. Mas foi bom. Foi o meu ponto de partida. As coisas não têm que ser fáceis. Não tinha que saltar para fora da caixa, vender um milhão de discos e andar de limusine aos vinte e um anos. Foi como devia ter sido.