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19 April 2010

NEBLINA ESPESSA



Holly Miranda - The Magician’s Private Library

No papel, até pareciam existir muitos dos ingredientes para uma óptima história: jovem vítima da tirania teológica de uma família fundamentalista escapa-se das masmorras domésticas, abdica de dissimular a sua preferência lésbica, chega à Brooklyn-onde-tudo acontece, e – após o obrigatório estágio punk em The Jealous Girlfriends – é acolhida, de braços abertos pelos TV On The Radio. David Sitek produz-lhe o álbum de estreia com o resto da banda na qualidade de "session musicians" privativos e elementos da Antibalas Afrobeat Orchestra a oferecer os sopros. O próprio nome – Holly Miranda – era bom e a pinta de P. J. Harvey "barely legal" ajudava. O necessário para um disco promissor é que, aparentemente, faltava: a confessada tendência de Sitek para o "overproducing" submerge todos os temas naquele tipo de espessa neblina que poderia ocorrer se Angelo Badalamenti e os Cocteau Twins soprassem, em simultâneo, sobre o Hudson, e a pesada quadratura rítmica liquida qualquer hipótese que Holly poderia ter de sonhar com o estatuto de suplente de Hope Sandoval. Na realidade, descobri-la e às canções por entre cenário tão sobrecarregado é missão praticamente impossível.

(2010)

10 May 2008

MORTAL À RETAGUARDA



Foals - Antidotes

É total, absoluta e integralmente derivativo. O mortal à retaguarda abarca uma portentosa distância de vinte e tal anos. Mas, nessa específica modalidade de pastiche e colagem de marcas sonoras cujo copyright é propriedade definitivamente alheia, o quinteto britânico de Oxford, Foals, em álbum de estreia, é, seguramente, dos mais capazes de demonstrar a outros – como, por exemplo, os !!! – onde se situa o “state of the art”.



Accione-se, pois, o “rewind” na direcção dos explicitamente reinvindicados Steve Reich e Glenn Branca, considerem-se igualmente as hipóteses Arthur Russell, A Certain Ratio, Liquid Liquid, Pop Group e PigBag, passe-se Fela Kuti pela lixívia dos Talking Heads iniciais e, com a participação episódica do destacamento de sopros novaiorquino Antibalas, obter-se-à um bem interessante cocktail de referências em vertiginoso remoinho que, para ascender a um plano francamente superior, apenas precisaria de dar folga à voz de Yannis Philippakis (mais um dispensável e inexplicável clone de Robert Smith), corpo estranho e alergeno sonoro numa gravação que ganharia tudo se fosse exclusivamente instrumental.



Não é certo que a matéria dê para segundo álbum viável mas este até é eminentemente consumível. (2008)