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10 March 2013
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11 September 2012
TECHNICOLOUR
É de esperar que a biografia de uma vida a abeirar-se dos 70 anos não seja curta. Mas, dificilmente, a de Van Dyke Parks pode ser integralmente esquadrinhada sem que amputações graves ocorram. Por isso, nada melhor do que remeter para as fontes de consulta obrigatória habituais e referir apenas os múltiplos ofícios de "singer-songwriter", produtor, arranjador, compositor (também para o cinema e televisão), escritor, actor... e não é impossível que algum outro tenha ficado esquecido.
Para que não haja escândalo, deverá acrescentar-se que o, por um instante, quase-Byrd (chegou a tocar em Fifth Dimension), durante minutos, quase Mother Of Invention (sob o nome de palco de “Pinocchio”) e "skinny kid with a unique perspective" que tinha uma "fondness for amphetamines” de que Brian Wilson fala na sua autobiografia, não apenas partilhou químicos com Wilson mas também as honras de co-autor do mais lendário "lost album" de sempre – Smile, dos Beach Boys, abortado em 1967, publicado por Brian Wilson em 2004 e, finalmente, reconstruído, a partir das matrizes originais, no ano passado – o que, praticamente, ofuscaria um CV no qual (em extensíssima lista) se descobre uma eloquente amostra da aristocracia pop/rock/folk com que colaborou, dos U2 a Frank Black, Laurie Anderson, Victoria Williams, Ry Cooder, Tim Buckley ou Saint Etienne até almas perdidas que se esforçou por salvar mas falhou gloriosamente como a Joanna Newsom de Ys.
Interessa, porém, agora, lançar a luz sobre a sua discografia a solo, cuja reedição em curso permite, antes de mais, redescobrir o extraordinário Song Cycle (1967), estreia tão fulgurante quanto comercialmente desastrosa, na qual, em amplo formato cinematográfico, projectava a sua visão da América: a de Gershwin, Copland, Randy Newman, Pynchon, Dylan, Disney e Rogers & Hammerstein mas, igualmente, a que, sobre o ombro, continuava a olhar para a Europa dos Beatles, Donovan, Mozart, Mahler ou Resnais.
Luxuriantemente orquestral e psicadelicamente fracturada, suite erudita e colecção de variedades de "vaudeville" alimentada de "bruitage" e da rebuscada “acid alliteration” de que Mike Love se queixava em Smile, é uma daquelas obras que, sempre que escutada pela primeira vez (e algumas das muitas seguintes), suscita a tão desejável interrogação “Mas de onde é que isto veio?...” Ocupados com a descoberta das músicas de Trinidad e Tobago do início do século XX e do "calypso" em geral, Discover America (1972) e Clang Of The Yankee Reaper (1975), qual documentário musicalmente encenado, contam uma história paralela dos EUA, de Roosevelt a Bing Crosby, Edgar Hoover e Jack Palance, quase integralmente construída a partir de versões de clássicos locais, transfigurados pela visão technicolour de Van Dyke Parks.
Interessa, porém, agora, lançar a luz sobre a sua discografia a solo, cuja reedição em curso permite, antes de mais, redescobrir o extraordinário Song Cycle (1967), estreia tão fulgurante quanto comercialmente desastrosa, na qual, em amplo formato cinematográfico, projectava a sua visão da América: a de Gershwin, Copland, Randy Newman, Pynchon, Dylan, Disney e Rogers & Hammerstein mas, igualmente, a que, sobre o ombro, continuava a olhar para a Europa dos Beatles, Donovan, Mozart, Mahler ou Resnais.
Luxuriantemente orquestral e psicadelicamente fracturada, suite erudita e colecção de variedades de "vaudeville" alimentada de "bruitage" e da rebuscada “acid alliteration” de que Mike Love se queixava em Smile, é uma daquelas obras que, sempre que escutada pela primeira vez (e algumas das muitas seguintes), suscita a tão desejável interrogação “Mas de onde é que isto veio?...” Ocupados com a descoberta das músicas de Trinidad e Tobago do início do século XX e do "calypso" em geral, Discover America (1972) e Clang Of The Yankee Reaper (1975), qual documentário musicalmente encenado, contam uma história paralela dos EUA, de Roosevelt a Bing Crosby, Edgar Hoover e Jack Palance, quase integralmente construída a partir de versões de clássicos locais, transfigurados pela visão technicolour de Van Dyke Parks.
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26 December 2011
SEM SE RIR

Kate Bush - 50 Words For Snow
Antes de mais: ao contrário do que o largamente disseminado mito nos pretende fazer crer, os esquimós (isto é, os Inuit) não possuem 50 palavras distintas para nomear a neve. Ficam-se por um número equivalente, por exemplo, ao do Inglês contemporâneo. É uma lenda poeticamente simpática – criada, no início do século passado, pelo linguista e antropólogo, Franz Boas, que tenderia a reforçar a ideia segundo a qual é a linguagem que cria o real – mas, infelizmente, falsa. Não seria, no entanto, por esse motivo que o último álbum de Kate Bush e a faixa que lhe oferece o título (onde Bush, citando o mito esquimó, qual Jamie Lee Curtis perante o italiano de Kevin Kline em Um Peixe Chamado Wanda, desafia Stephen Fry a inventar termos ingleses para neve) seriam melhores ou piores.
O enorme problema deste opus ártico e invernal é deixar absolutamente evidente, de uma vez por todas, que, muito mais do que alegada ascendência estética de Tori Amos ou Goldfrapp, Kate Bush é a verdadeira mãe espiritual de Joanna Newsom: quem mais, sem se rir, seria capaz de nos contar histórias de flocos de neve falantes, encontros com o Yeti, espectros aquáticos que chamam pelo cãozinho de estimação perdido e – ponto culminante – "one night stands" com bonecos de neve que (sejamos justos, isso não acontece apenas com bonecos de neve e Kate não será a primeira a queixar-se) se derretem muito antes do momento desejável? Não reparando demasiado na participação de Elton John, o design sonoro até é muito agradavelmente não-bushiano, quero dizer, nada exibicionista e barroco mas, quase sempre, minimal e rarefeito, com os mui estimáveis Danny Thompson e Steve Gadd a participarem activamente na concepção da espaçosa tundra sonora de uma hora em que se alojam sete fantasias vagamente semelhantes a canções. Assaz embaraçosas.
(2011)

Kate Bush - 50 Words For Snow
Antes de mais: ao contrário do que o largamente disseminado mito nos pretende fazer crer, os esquimós (isto é, os Inuit) não possuem 50 palavras distintas para nomear a neve. Ficam-se por um número equivalente, por exemplo, ao do Inglês contemporâneo. É uma lenda poeticamente simpática – criada, no início do século passado, pelo linguista e antropólogo, Franz Boas, que tenderia a reforçar a ideia segundo a qual é a linguagem que cria o real – mas, infelizmente, falsa. Não seria, no entanto, por esse motivo que o último álbum de Kate Bush e a faixa que lhe oferece o título (onde Bush, citando o mito esquimó, qual Jamie Lee Curtis perante o italiano de Kevin Kline em Um Peixe Chamado Wanda, desafia Stephen Fry a inventar termos ingleses para neve) seriam melhores ou piores.
O enorme problema deste opus ártico e invernal é deixar absolutamente evidente, de uma vez por todas, que, muito mais do que alegada ascendência estética de Tori Amos ou Goldfrapp, Kate Bush é a verdadeira mãe espiritual de Joanna Newsom: quem mais, sem se rir, seria capaz de nos contar histórias de flocos de neve falantes, encontros com o Yeti, espectros aquáticos que chamam pelo cãozinho de estimação perdido e – ponto culminante – "one night stands" com bonecos de neve que (sejamos justos, isso não acontece apenas com bonecos de neve e Kate não será a primeira a queixar-se) se derretem muito antes do momento desejável? Não reparando demasiado na participação de Elton John, o design sonoro até é muito agradavelmente não-bushiano, quero dizer, nada exibicionista e barroco mas, quase sempre, minimal e rarefeito, com os mui estimáveis Danny Thompson e Steve Gadd a participarem activamente na concepção da espaçosa tundra sonora de uma hora em que se alojam sete fantasias vagamente semelhantes a canções. Assaz embaraçosas.
(2011)
07 June 2011
UMA TARTE DE MAÇÃ
Alela Diane & Wild Divine - Alela Diane & Wild Divine
Fleet Foxes - Helplessness Blues
Dois dias antes do 70º aniversário de Bob Dylan – celebrado no passado 24 de Maio –, o “Observer” decidiu inquirir uma série notáveis da música e outras artes acerca de qual o presente que achariam mais apropriado para lhe oferecer. As propostas foram, previsivelmente, assaz diversas: Martin Carthy (recordando um episódio ocorrido no Inverno de 1962 entre ambos) sugeriu um piano e uma espada de samurai para despedaçar o piano e o usar como lenha para a lareira nas noites frias; Isobel Campbell pensou numa camisa de seda e num par de sapatos italianos; Chrissie Hynde lembrou-se de um jogo de dardos (“por nenhuma razão especial: suponho que ele gostaria”); e Alela Diane, imaginando sensatamente que ele poderá comprar tudo aquilo que quiser, optou pelos valores básicos e seguros: uma tarte de maçã que confeccionaria segundo a infalível receita da mãe. E explicou-se: “A música folk, na sua essência mais profunda, foi criada para as pessoas conviverem à sombra do alpendre e eu associo a tarte de maçã a esse tipo de comportamento. Suponho que a vida do Bob Dylan, nestes últimos tempos, se tenha tornado muito mais simples e que, no dia de anos, lhe saiba bem sentar-se no alpendre e fazer o que lhe apetecer. Como companhia, uma tarte de maçã será tudo o que precisa”.
A música que emergiu do que foi baptizado como "new weird America" (padrinho do baptismo: David Keenan, no número de Agosto de 2003 da “Wire”), "free-folk", "psych-folk" ou "freak-folk" não foi, assim, senão um ensaio do regresso da boa velha tarte, mais ou menos condimentada com temperos psicotrópicos, e preparada de acordo com uma interpretação livre dos antiquíssimos preceitos recuperados das tradições britânica e norte-americana. Que, agora, quase dez anos depois, e após a poeira ter assentado suficientemente, permite distinguir com maior facilidade os folqueiros de fim-de-semana (aqueles que apreciavam travestir-se de descendentes híbridos de Jesse James e feiticeiros comanches com uma costela de bardo celta) dos outros que, verdadeiramente, reinventavam e retomavam o fio da história no ponto em que – sem nunca, de facto, ter sido interrompida –, há trinta e tal anos, ficara suspensa. Por motivos de proximidade geracional e geográfica, inicialmente, Alela Diane foi associada a algumas das cintilações da seita neo-hippie, caso, por exemplo, de Joanna Newsom.
Mas, com The Pirate’s Gospel (2006) e To Be Still (2009), tudo ficaria devidamente esclarecido: a ascendência poderia ter ramos comuns mas o que dela resultava era, afinal, uma novíssima e valiosa voz de songwriter bem mais afim de Neko Case ou Jolie Holland (ou, recuando até às origens, Sandy Denny) do que de míticas lambisgóias “celtas”. Alela Diane & Wild Divine (a saber: ela e banda acompanhante que, em registo de "family affair", inclui o pai e o marido), sem exibir tremendas alterações no perfil musical reconhecível, encorpa sensivelmente a sonoridade das óptimas canções – o produtor Scott Litt, com CV ao lado dos R.E.M., Nirvana e Patti Smith, terá modificado dois ou três parâmetros – e aproxima-as dos igualmente recomendáveis padrões de Neil Young ou Richard & Linda Thompson, povoadas de inquietantes recados como “death is a hard act to follow” ou “we are hopeful, we are scattered, we are dust”.
Genuína emanação da cena "freak-folk", os Fleet Foxes, pelo seu lado, mantém inalterada a faceta menos digerível da genealogia – a da chinela “poética” que os obriga a, sem se rirem, formularem portentosas interrogações do gènero de “why is the Earth moving around the sun? why is life made only for it to end?” – mas como, muito mais do que canções, o que eles criam são majestosas catedrais de remoinhos corais que ampliam desmedidamente a matriz Beach Boys-CSN&Y-Simon & Garfunkel, “Helplessness Blues” não deixa de ser uma tentadora peça de dulcíssima massagem auditiva.
(2011)
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01 December 2010
LÓGICA NO LABIRINTO?
Sufjan Stevens - The Age Of Adz
Antes de mais, agradeçamos a Sufjan Stevens ter-nos aliviado da ritual penitência de, a cada nova publicação sua – e não têm sido exactamente raras – , nos interrogarmos acerca do que se passará com a prometida série de 50 álbuns, um por cada estado norte-americano? Acabou-se. Kaput. Sete anos depois de Michigan e cinco após Illinois (não incluindo The Avalanche: Outtakes and Extras from the Illinois Album, de 2006, e The BQE, 2009, também potencialmente adicionáveis ao índice), Sufjan anuncia que tudo não passou de um devaneio que, dificilmente, alguma vez concretizaria (basta fazer as continhas: com 48 estados em falta e 35 anos de idade...) e que terá sido levado demasiado a sério. Mas, sendo ele quem é, se abdicou de um projecto megalómano, foi para mergulhar de cabeça numa crise de identidade estética, daquelas de revirar as entranhas criativas. Declarando-se tolhido pelo formato da canção pop e pelo seu modelo narrativo, confessou ter optado por se “desarmar das ferramentas que melhor domino, o que é um bocado aterrador. Não quis escrever acerca de personagens, acontecimentos ou lugares. Quis funcionar mais por instinto. Claro que sei perfeitamente que isto é um cliché e que, da criação por instinto, não surge, necessariamente, boa arte. Mas senti que tinha a obrigação de ir com isto até ao fim”.
Na verdade, tanto The BQE – painel sinfónico/cinematográfico sobre uma velha autoestrada de Nova Iorque – como o recentíssimo EP (de uma hora de duração) All Delighted People eram já sintomas desse conflito interior com os constrangimentos do idioma pop. E, no caso do último, realmente prenunciador de que o que se lhe seguiria reunia todos os elementos para projectar definitivamente Sufjan Stevens para o panteão dos génios da música americana ou... para o empurrar para um desastroso trambolhão no armazém da sucata do prog-rock e deformidades afins. Concebido como um testemunho do próprio processo de ruptura estética, The Age Of Adz “reflecte essa espécie de ansiedade e de confusão que nunca deixou de estar comigo: que é isto que eu faço? que linguagem é esta que uso? Sempre carreguei este peso porque não desempenho um papel prático na sociedade – não sou canalizador, nem engenheiro, nem biólogo, sou apenas autor de canções”.

E nada lhe pareceu mais apropriado para acelerar a resolução da querela íntima do que tomar como fonte de inspiração – e tema para a capa e título do álbum – a obra pictórica de Libra Patriarch Prophet Lord Archbishop Apostle Visionary Mystic Psychic Saint Royal Robertson, pintor negro de tabuletas da Louisiana, esquizofrénico, e praticante de uma variante da “outsider art” (aquilo que Jean Dubuffet designava por “art brut”), que fazia ferver no mesmo caldeirão o Apocalipse, viagens espaciais, numerologia, messianismo e a “conspiração feminina global” decorrente do alegado adultério da mulher. O resultado é (na falta de melhor definição) - assaz problemático. Assumindo que o que sobrou de canções propriamente ditas foi “como que imposto sobre sequências abstractas de som”, praticamente todo o CD parece, de facto, traduzir um imenso estado de confusão mental, num desvairado mosaico sonoro que agrega borborigmos electrónicos, passagens corais, secções orquestrais à beira de um ataque de pânico, sopros free, alusões barrocas e Auto-Tune, que culmina nos esgotantes vinte e cinco minutos finais de "Impossible Soul". Ao primeiro impacto, dir-se-ia algo que poderia ter sido assinado por Joanna Newsom sob o efeito de uma overdose de mescalina. Mas há que reservar o julgamento por algum tempo e permitir que uma mais prolongada digestão possa identificar uma lógica no labirinto.
(2010)
28 March 2010
SININHO HIPPIE

Joanna Newsom - Have One On Me
Estou perfeitamente disposto a admitir que o problema é meu. Até porque a explicação alternativa só poderia ir parar a uma teoria da conspiração à la Dan Brown, segundo a qual a Maçonaria, o Clube Bilderberg, a Trilateral, a Opus Dei e os Superiores Ocultos de Agartha, em coligação global, se teriam confabulado para que, em uníssono, todas as vozes críticas do universo, rendidas e deslumbradas, entoassem cânticos e louvores à sublime obra de Joanna Newsom. O que, à excepção de um ou outro "sniper", é exactamente o que está a acontecer. E, como se sabe, não é coisa apenas de agora: tanto The Milk Eyed Mender (2004) como Ys (2006) foram recebidos como a mais preciosa dádiva do "free/freak-folk" – o rótulo começa a entrar em desuso mas ainda ajuda a situar – à humanidade carente do Bom e do Belo e Joanna apresentada como a Sininho hippie por que todos esperávamos para lançar pó-de-estrelas sobre a pop.

O problema poderá ser meu mas, entretanto, darei luta. E direi que Have One On Me consegue ser três vezes pior que Ys: porque é um triplo CD; porque, no anterior, podíamos concentrar-nos nos fabulosos arranjos de Van Dyke Parks e, com algum esforço, ignorar a existência da Newsom (e, neste, isso não acontece); porque diminuir o teor “puético” de arcaísmos patetas para o substituir por platitudes do género de “Life can be difficult and lonely but we all need love” será, talvez, um início de carreira promissor na indústria da "self-help" mas não é, propriamente, um progresso. Fica, então, só uma cada vez mais pronunciada aproximação aos maneirismos vocais de gueixa mimada de Kate Bush agrafados aos agudos estridentes da Baez-diva-folk dos primórdios, alguns traços de personalidade de uma Kristin Hersh psicótica mas fofinha e um dilúvio de harpa. Se, nas próximas semanas, eu não voltar a escrever, enviem, por favor, este texto ao Dan Brown.
(2010)

Joanna Newsom - Have One On Me
Estou perfeitamente disposto a admitir que o problema é meu. Até porque a explicação alternativa só poderia ir parar a uma teoria da conspiração à la Dan Brown, segundo a qual a Maçonaria, o Clube Bilderberg, a Trilateral, a Opus Dei e os Superiores Ocultos de Agartha, em coligação global, se teriam confabulado para que, em uníssono, todas as vozes críticas do universo, rendidas e deslumbradas, entoassem cânticos e louvores à sublime obra de Joanna Newsom. O que, à excepção de um ou outro "sniper", é exactamente o que está a acontecer. E, como se sabe, não é coisa apenas de agora: tanto The Milk Eyed Mender (2004) como Ys (2006) foram recebidos como a mais preciosa dádiva do "free/freak-folk" – o rótulo começa a entrar em desuso mas ainda ajuda a situar – à humanidade carente do Bom e do Belo e Joanna apresentada como a Sininho hippie por que todos esperávamos para lançar pó-de-estrelas sobre a pop.

O problema poderá ser meu mas, entretanto, darei luta. E direi que Have One On Me consegue ser três vezes pior que Ys: porque é um triplo CD; porque, no anterior, podíamos concentrar-nos nos fabulosos arranjos de Van Dyke Parks e, com algum esforço, ignorar a existência da Newsom (e, neste, isso não acontece); porque diminuir o teor “puético” de arcaísmos patetas para o substituir por platitudes do género de “Life can be difficult and lonely but we all need love” será, talvez, um início de carreira promissor na indústria da "self-help" mas não é, propriamente, um progresso. Fica, então, só uma cada vez mais pronunciada aproximação aos maneirismos vocais de gueixa mimada de Kate Bush agrafados aos agudos estridentes da Baez-diva-folk dos primórdios, alguns traços de personalidade de uma Kristin Hersh psicótica mas fofinha e um dilúvio de harpa. Se, nas próximas semanas, eu não voltar a escrever, enviem, por favor, este texto ao Dan Brown.
(2010)
26 July 2009
AOS ABRIGOS!

The Decemberists - The Hazards Of Love
Álbum conceptual. Ópera rock. Ópera folk. Ópera folk-rock. Riffalhagem bravia. Coros infantis. Inglês “arcaico” (exemplo: "thou unconsolable daughter, when wilt thou trouble the water?"). Donzelas seduzidas por monstros mutantes. Pérfidas e vingativas “forest queens”. Crianças-fantasma. Os mais iníquos genes dos Black Sabbath, Pink Floyd e Jethro Tull cozinhados em lume vivo com tempero – total e absolutamente treslido – do que o folk-rocker de fim-de-semana supõe terem sido os Fairport Convention. Shara Worden (My Brightest Diamond) numa imitação bastante conseguida de Grace Slick - que é ainda o melhor de The Hazards Of Love. Consegui, até aqui, evitar a expressão p**g-r**k e não será agora que caírei em tentação. Mas é de toda a conveniência que, à semelhança do que, em situações idênticas, acontece, os serviços de emergência tomem as medidas de contenção sanitária que se impõe. Porque – encaremos a besta de frente –, a seguir, virão inevitavelmente, as suites pastorais com Joanna Newsom na tripulação e ninguém está suficientemente preparado para isso. Aviso muito sério: em comparação com os Decemberists, o H1N1 é um Teletubby.
(2009)

The Decemberists - The Hazards Of Love
Álbum conceptual. Ópera rock. Ópera folk. Ópera folk-rock. Riffalhagem bravia. Coros infantis. Inglês “arcaico” (exemplo: "thou unconsolable daughter, when wilt thou trouble the water?"). Donzelas seduzidas por monstros mutantes. Pérfidas e vingativas “forest queens”. Crianças-fantasma. Os mais iníquos genes dos Black Sabbath, Pink Floyd e Jethro Tull cozinhados em lume vivo com tempero – total e absolutamente treslido – do que o folk-rocker de fim-de-semana supõe terem sido os Fairport Convention. Shara Worden (My Brightest Diamond) numa imitação bastante conseguida de Grace Slick - que é ainda o melhor de The Hazards Of Love. Consegui, até aqui, evitar a expressão p**g-r**k e não será agora que caírei em tentação. Mas é de toda a conveniência que, à semelhança do que, em situações idênticas, acontece, os serviços de emergência tomem as medidas de contenção sanitária que se impõe. Porque – encaremos a besta de frente –, a seguir, virão inevitavelmente, as suites pastorais com Joanna Newsom na tripulação e ninguém está suficientemente preparado para isso. Aviso muito sério: em comparação com os Decemberists, o H1N1 é um Teletubby.
(2009)
29 March 2009
OBRIGADO, DIVINDADE FELINA!
Alela Diane - To Be Still
Headless Heroes - The Silence Of Love
Eu já tinha obrigação de saber que a suposta sageza contida nos provérbios populares não possui, propriamente, valor científico. Mas, porque estas coisas se infiltram desde o biberão e continuam a actuar subliminarmente, desta vez, por pouco me ia deixando rasteirar por um dos clássicos do género, o universalmente repetido “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Há que conceder a atenuante de que as circunstâncias eram favoráveis ao tropeção: jovem singer-songwriter, natural de Nevada City, como Joanna Newsom, e coberta de louvores por Joanna Newsom, caminha a passos largos para a santidade "freak-folk" à custa de um álbum criado numa cabana de montanha, em Portland, na companhia de um gato. Se acabei por escutar o disco e este texto foi escrito, só pode ter sido por causa do gato, já que, pelas restantes personagens e contornos da história, o evitei cuidadosamente durante dias.
Obrigado, divindade felina: To Be Still é uma belíssima colecção de canções e, ou muito me engano, ou Alela Diane Menig rapidamente deixará na merecidíssima sombra a seita "hippy/psych" do pé descalço. Espreitem-na, no Youtube, nos três clips da série “Concerts à Emporter” de La Blogotheque – cada vez mais um lugar de atribuição de credibilidade indie através do reconhecimento “intelectual” europeu –, vagueando, de guitarra na mão, entre as pedras de Notre-Dame e a Place St. Michel. Já que aí estão, procurem também “The Rifle” (cenário de assombração flannery o'connoriana genuinamente "old weird America") e “The Pirate’s Gospel” (“While some folks pray their path to Jesus, we're gonna sing the pirate's gospel” em atmosfera de mar e trevas noturnas), do álbum anterior.
Podem, agora, passar a To Be Still e descobrir uma legítima descendente de (peso cada palavra) Sandy Denny e – muito mais obliquamente – Nico, algures, numa bissectriz mais contemporânea, entre Nina Nastasia, Kristin Hersh e Neko Case, mas (levando a utilidade do "name-dropping" às últimas consequências) com aquele teor de anacrónica excentricidade que Jolie Holland e Jesca Hoop terão de passar a partilhar com ela. No DVD que acompanha o disco, em concerto de Novembro do ano passado no Olympia de Paris, entre banjos, guitarras e bandolins, podemos, por outro lado, descobrir a personalidade de quem, em cima de um palco, parece estar com o mesmo à vontade que no alpendre do tal refúgio de Portland.
Etapa seguinte: The Silence Of Love, álbum de versões produzido por Eddie Bezalel a que Alela empresta a voz e, na companhia de gente com currículo ao lado dos R.E.M., Beck ou Red Hot Chili Peppers, reinventa temas de Nick Cave, Jesus & Mary Chain, Linda Perhacs ou Jackson C. Frank. Nos melhores momentos (“True Love Will Find You In The End”, “Just Like Honey”, “Nobody’s Baby Now”), dir-se-ia Karen Dalton a bordo dos Mazzy Star; nos outros, poderá não se voar tão alto mas também nunca há danos irreversíveis a registar. E, caso os houvesse, Alela Diane seria sempre mui justamente absolvida.
(2009)
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18 January 2009
AS MANAS DA JOANNA

Parenthetical Girls - Entanglements
Não será o tipo de associação que ocorre imediatamente. Mas, prestando um pouco mais de atenção, não deverão restar muitas dúvidas de que, entre Ys, de Joanna Newsom e este Entanglements, dos Parenthetical Girls, existem muito mais pontos de contacto do que se poderia supor. Em primeiro lugar, as vozes: se os miados de Newsom pressupõem um limiar de tolerância de uma generosidade sem limites, o falseto afectado de Zac Pennington constitui um teste extremo à capacidade de “anger management” de um monge zen. Depois, os textos das canções, em ambos os casos, rebuscadamente pretensiosos e a fazer uma perninha no inglês “arcaico”, ainda que, no caso dos Girls, com a atenuante de uma ou outra simpática badalhoquice (uma estrela * para elas) do género “throat red as fresh-stretched post-fuck flesh”. Acrescente-se a flatulência da ambição “conceptual” – em Ys, a mitologia bretã, aqui, um libretto de ópera trágica gay, sonhando febrilmente com o estatuto de peça “maldita”. A estrela que sobra vai, então, para os magníficos arranjos orquestrais de Matt Carlson e Jherek Bischoff que (tal como sucedia com os de Van Dyke Parks no álbum de Joanna Newsom) semeiam microcataclismos sonoros por entre labirintos circenses e inventam prodígios de cabaretismo mutante em torno de melodias nenhumas.
* (método de classificação absurdo de discos, filmes, livros e outras manifestações artísticas que tiranizou a quase totalidade dos media - falo do ponto de vista do oprimido)
(2009)

Parenthetical Girls - Entanglements
Não será o tipo de associação que ocorre imediatamente. Mas, prestando um pouco mais de atenção, não deverão restar muitas dúvidas de que, entre Ys, de Joanna Newsom e este Entanglements, dos Parenthetical Girls, existem muito mais pontos de contacto do que se poderia supor. Em primeiro lugar, as vozes: se os miados de Newsom pressupõem um limiar de tolerância de uma generosidade sem limites, o falseto afectado de Zac Pennington constitui um teste extremo à capacidade de “anger management” de um monge zen. Depois, os textos das canções, em ambos os casos, rebuscadamente pretensiosos e a fazer uma perninha no inglês “arcaico”, ainda que, no caso dos Girls, com a atenuante de uma ou outra simpática badalhoquice (uma estrela * para elas) do género “throat red as fresh-stretched post-fuck flesh”. Acrescente-se a flatulência da ambição “conceptual” – em Ys, a mitologia bretã, aqui, um libretto de ópera trágica gay, sonhando febrilmente com o estatuto de peça “maldita”. A estrela que sobra vai, então, para os magníficos arranjos orquestrais de Matt Carlson e Jherek Bischoff que (tal como sucedia com os de Van Dyke Parks no álbum de Joanna Newsom) semeiam microcataclismos sonoros por entre labirintos circenses e inventam prodígios de cabaretismo mutante em torno de melodias nenhumas.
* (método de classificação absurdo de discos, filmes, livros e outras manifestações artísticas que tiranizou a quase totalidade dos media - falo do ponto de vista do oprimido)
(2009)
04 March 2008
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XVI)

Josephine Foster - A Wolf In Sheep's Clothing
Ó valha-nos Zeus! Josephine Foster, a harpia/primeira dama do "free-folk" (só ameaçada no seu estatuto pela anémona uivante, Joanna Newsom), não satisfeita com os estragos que ela e a sua corte de peregrinos andrajosos vêm inflingindo ao bom nome de um outrora respeitável género musical — e, já agora, absolutamente indiferentes ao proibitivo preço do petróleo que desperdiçam em CD —, não lhe ocorreu nada mais apropriado para prosseguir a sua rota de devastação estética do universo conhecido do que abocanhar sem cerimónias nem piedade o património musical do romantismo alemão do século XIX. Sim, é duro caber-nos a missão de dar a notícia, mas às vezes, há trabalhos sujos que têm mesmo de se fazer: Brahms, Schubert, Goethe, Schumann, Möricke, Wolf, Schober, foram todos sacrificialmente entregues à trituradora vocal Foster que, não só exercita cobardemente os seus góticos e arrepiantes vocalisos sobre sete ilustres "lieder" indefesos, como não hesita em os converter num pesadelo auditivo muito pouco distante da lendária e medonha Natália de Andrade-experience!
Ed Wood - classic movie trailers
O cataclismo é exactamente dessa dimensão, não duvidem: o que resta das melodias e dos textos (e a bruxa-Foster ousa cantar em alemão!) flutua, inanimado, à superfície de um charco pestilento de guitarras acústicas-de-fogo-de-campo e "noise" eléctrico à beira da charanga de coreto, o covil inunda-se de ecos e reverberações de um terror muito Ed Wood (nesses momentos, quase chega a ter piada) e, algures nos seus túmulos onde repousavam em descanso, meia dúzia de vultos da história da música europeia abrem, arregalados, os olhos e consideram a hipótese da reencarnação para, pelas suas próprias mãos, fazerem a justiça que, há muito, deveria ter sido feita. (2006)

Josephine Foster - A Wolf In Sheep's Clothing
Ó valha-nos Zeus! Josephine Foster, a harpia/primeira dama do "free-folk" (só ameaçada no seu estatuto pela anémona uivante, Joanna Newsom), não satisfeita com os estragos que ela e a sua corte de peregrinos andrajosos vêm inflingindo ao bom nome de um outrora respeitável género musical — e, já agora, absolutamente indiferentes ao proibitivo preço do petróleo que desperdiçam em CD —, não lhe ocorreu nada mais apropriado para prosseguir a sua rota de devastação estética do universo conhecido do que abocanhar sem cerimónias nem piedade o património musical do romantismo alemão do século XIX. Sim, é duro caber-nos a missão de dar a notícia, mas às vezes, há trabalhos sujos que têm mesmo de se fazer: Brahms, Schubert, Goethe, Schumann, Möricke, Wolf, Schober, foram todos sacrificialmente entregues à trituradora vocal Foster que, não só exercita cobardemente os seus góticos e arrepiantes vocalisos sobre sete ilustres "lieder" indefesos, como não hesita em os converter num pesadelo auditivo muito pouco distante da lendária e medonha Natália de Andrade-experience!
Ed Wood - classic movie trailers
O cataclismo é exactamente dessa dimensão, não duvidem: o que resta das melodias e dos textos (e a bruxa-Foster ousa cantar em alemão!) flutua, inanimado, à superfície de um charco pestilento de guitarras acústicas-de-fogo-de-campo e "noise" eléctrico à beira da charanga de coreto, o covil inunda-se de ecos e reverberações de um terror muito Ed Wood (nesses momentos, quase chega a ter piada) e, algures nos seus túmulos onde repousavam em descanso, meia dúzia de vultos da história da música europeia abrem, arregalados, os olhos e consideram a hipótese da reencarnação para, pelas suas próprias mãos, fazerem a justiça que, há muito, deveria ter sido feita. (2006)
23 October 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XII)
OS SUSPEITOS DO COSTUME
Vashti Bunyan - Lookaftering
A história (com "h" minúsculo e maiúsculo) começa a repetir-se demasiado enjoativamente. E segue, essencialmente, este plano narrativo: 1) músico dos anos 60/70 grava álbum que, na altura, é "barbaramente" ignorado; 2) durante décadas, garantem-nos, os raros exemplares sobreviventes são ciosamente guardados por um "inner circle" de iniciados que, não só os veneram como se do próprio prepúcio de Jeshua se tratasse, mas ainda os copiam e fazem circular clandestinamente, de mão em mão, espalhando a boa nova; 3) quando, no grande desígnio cósmico, finalmente, os astros são favoráveis ao acolhimento e consagração pelo povo eleito, o álbum é reeditado e criticamente recebido por coros de "hossanas" que louvam o génio miseravelmente ignorado pelos coevos mas, agora, justamente elevado à sua merecida e transcendente dimensão. A coisa tende a passar-se na área folk e regiões limítrofes (já lá vamos) mas não lhe está necessariamente circunscrita. Decisivo mesmo é que a(s) criatura(s) em causa seja(m) irremediavelmente obscura(s) por causa da indispensável aura de "artista maldito". Aconteceu recentemente com First Utterance, dos Comus (1971), Red Hash, de Gary Higgins (1973), e também com Just Another Diamond Day, de Vashti Bunyan (1970) que é o que, agora, nos interessa.
É um típico episódio dos patéticos "golden sixties": jovem estudante de Arte é expulsa da escola e entrega-se à música; uma ou duas almas penadas qualificam-na como "a nova Marianne Faithfull" ou "o Bob Dylan feminino"; nada acontece; a jovem estudante, por intermédio do amigo Donovan (para os menos íntimos: "o Bob Dylan britânico" de então), tem notícia de que o paraíso hippie existe e está localizado na ilha de Skye; com um cão, um namorado, uma guitarra e uma carroça de ciganos, viaja até ao jardim do Éden para, à chegada, descobrir que as crianças floridas se tinham já aborrecido de tanta felicidade e regressado a Babilónia; após mais uma expedição ao Lake District (bom gosto tinha ela), grava álbum com notáveis da folk (Dave Swarbrick, Simon Nicol, Robin Williamson), produzido por Joe Boyd; nada acontece; filhos, "vida no campo" e trinta anos de solidão; 2000 — reedição do álbum e glória. Suspeitos? Os do costume: a catatua Newsom, as manas Coco, o profeta Banhart (isso, "free-folk", "psych-folk", "freak-folk", ou lá o que é). Com direito a segundo álbum — este —, aos 60 anos, e prévio EP (Prospect Hummer) com os Animal Collective. Como eram (e são, porque se mantêm exactamente iguais), então, as canções de Vashti Bunyan? O género de vestidinho de chita musical para meninas de tranças e malmequeres no cabelo, entoada por uma voz incapaz de perturbar o hálito de libélulas. Não há paciência. (2005)
28 September 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (X)
Circulus - The Lick On The Tip Of An Envelope Yet To Be Sent
A culpa é da corrente estética que, de agora em diante, será designada como "sympathy for the débil" e que nos trouxe avestruzes como Devendra Banhart, Joanna Newsom ou CocoRosie. Mas igualmente do mau hábito definitivamente instalado de não fazer os TPC. Porque, se assim não acontecesse, seria bastante simples escutar este álbum de estreia dos londrinos Circulus e, instantaneamente, identificá-los como uma versão taralhoca dos Steeleye Span, decididamente anacrónica e assaz dispensável. Segundo consta, o objectivo era criar uma "medieval progressive band" (seja lá isso o que for) e, trajados a rigor com "roupa de época", encorajar o "homo sapiens" contemporâneo "to become more like primitive man, a bit more open minded". O que isso terá a ver com a Idade Média — já agora, o que o disco vagamente contém de "early music" estropiada é bastante mais renascentista do que medieval... — não parece imediatamente evidente. Mas também nunca ninguém nos demonstrou que o uso e abuso de cogumelos mágicos conduzia em linha recta à clarividência. Ficamos, então, com uma trupe de sete maduros ataviados como os Men In Tights de Mel Brooks, em que a caricatura de Maddy Prior de serviço dá pelo nome de Lo Polidoro, os outros misturam cromornes, flautas de bisel, bongos, cistros e Moogs (é a modernidade, estúpido!) e, por entre lá-lá-lás e folk janada, todos cantam lustrosas pérolas como "banished to a distant star, they could not stand our motorcars, vanished from our woods and fields, they're waiting for the air to clear, power to the pixies!". E, não, eles não estavam a pensar em Frank Black. (2005)
21 September 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (IX)
CocoRosie - La Maison De Mon Rêve
É um daqueles típicos casos em que não se sabe se se há-de rir, se se há-de chorar ou, pura e simplesmente, ficar (um bocadinho) irritado. Mas o que se sabe de certeza é que a mais recente invenção do universo "indie/freak/alternativo" que, aparentemente, dá pelo nome de "new folk" ou "free folk" (seja lá isso o que for) não é senão a tradução contemporânea de algo que sempre teve o seu público: a estética do tolinho da aldeia, do suposto "idiot savant" que, quanto mais incoerente e apatetado, maior é o séquito de seguidores, presos de cada pérola que o "mestre", inadvertidamente, segrega. Na famigerada sequência de dementes com selo de aprovação "indie" como Daniel Johnston, Julian Cope ou Rocky Erickson, abre-se hoje um novo campo de acção que combina com rara felicidade a máxima incompetência do punk, o pataroco bucolismo hippie e o surrealismo tal como é praticado nos melhores hospitais psiquiátricos. Agora, em registo preferencialmente acústico, toscamente artesanal (deve dizer-se "lo-fi"), "poeticamente" infantil e "naïf".
Já conhecíamos Devendra Banhart, Puerto Muerto, anuncia-se Joanna Newsom, eis, então, as CocoRosie. Ou seja, as manas Bianca e Sierra Cassidy, americanas expatriadas na inevitável mansarda parisiense, entretidas a miar melodiazinhas de sol-e-dó (que, garantem-nos, se inspiram na vetusta tradição dos blues e do gospel), a tocar um ou dois acordes na guitarra, um fiozinho de sopro na flauta e a produzirem "bruitages" de fundo porque sim, porque é "cute". Não sei bem porquê mas também nos confessam coisas lindas como "all I want with my life is to be a housewife", "I once fell in love with you just because the sky turned from gray to blue" ou, quando lhes dá, digamos, para a elevação "intelectual", "every angel's terrible, said Freud and Rilke all the same, Rimbaud never paid them no mind, but Jimmi Morrison had his elevator angels". Yeah, right. Na capa elas dão beijinhos. Voltem Belle & Sebastian, tudo vos está perdoado. (2004)
26 July 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (VI)

Joanna Newsom - Ys
Sob o pequeno alpendre da quadrilha-“free folk”, Joanna Newsom é a indisputada primeira-dama: se o álbum de estreia (The Milk-Eyed Mender) já lhe tinha rendido uma considerável vassalagem, o último, Ys, submergiu-a – como à lendária cidade bretã que dá o título ao disco – sob um dilúvio de elogios quase unânimes. É verdade que se rodeou das melhores companhias (produção de Steve Albini, misturas de Jim O’Rourke e arranjos orquestrais de Van Dyke Parks – de longe, o melhor de Ys: deveriam ser cirurgicamente extraídos, de emergência, e reeditados autonomamente) mas não é, realmente, fácil amar verdadeiramente um conjunto de canções quilométricas (comparativamente, os Himalaias de “soufflé” sonoro dos Yes são delicadas miniaturas), com recheio de inescrutável “poesia” vertida em inglês arrebicado e supostamente “arcaico” sobre tricot de harpa, encenadas em cenário pseudo-pré-Rafaelita simbolicamente sobrecarregado (o que, tecnicamente, se designa como "simbolismo aos baldes") e interpretadas por uma voz com o timbre de Lisa Simpson e o tipo de maneirismos que fazem seriamente pensar que, afinal, entre Björk e Françoise Hardy, não existem assim tão grandes diferenças. (2007)

Joanna Newsom - Ys
Sob o pequeno alpendre da quadrilha-“free folk”, Joanna Newsom é a indisputada primeira-dama: se o álbum de estreia (The Milk-Eyed Mender) já lhe tinha rendido uma considerável vassalagem, o último, Ys, submergiu-a – como à lendária cidade bretã que dá o título ao disco – sob um dilúvio de elogios quase unânimes. É verdade que se rodeou das melhores companhias (produção de Steve Albini, misturas de Jim O’Rourke e arranjos orquestrais de Van Dyke Parks – de longe, o melhor de Ys: deveriam ser cirurgicamente extraídos, de emergência, e reeditados autonomamente) mas não é, realmente, fácil amar verdadeiramente um conjunto de canções quilométricas (comparativamente, os Himalaias de “soufflé” sonoro dos Yes são delicadas miniaturas), com recheio de inescrutável “poesia” vertida em inglês arrebicado e supostamente “arcaico” sobre tricot de harpa, encenadas em cenário pseudo-pré-Rafaelita simbolicamente sobrecarregado (o que, tecnicamente, se designa como "simbolismo aos baldes") e interpretadas por uma voz com o timbre de Lisa Simpson e o tipo de maneirismos que fazem seriamente pensar que, afinal, entre Björk e Françoise Hardy, não existem assim tão grandes diferenças. (2007)
24 July 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (V)

Antony & The Johnsons - I Am A Bird Now
Imaginemos por um instante que Antony era uma personagem que não achava necessário afirmar coisas tolas e absurdas como "os transsexuais são das criaturas mais evoluídas e belas do planeta" e que não fazia da ambiguidade sexual um pretexto imperativo de afirmação. Não seria terrivelmente difícil imaginá-lo. Bastaria que não se lhe tivesse metido na cabeça a ideia de ressuscitar à viva força a atmosfera "glam" dos anos 70 e de, tarde e a más horas, supôr que o glorioso festim decadente da Factory de Andy Warhol poderia ser reencenado quarenta anos depois. Prescindindo, por exemplo, de sublinhar isso a traço muito grosso, com uma fotografia na capa da "superstar" warholiana, Candy Darling, no seu leito de morte. Imaginemos também que, para justificar a presença da voz de Julia Yasuda numa das faixas do seu álbum ("Free At Last"), não lhe parecia imprescindível partilhar connosco a informação de que "ela nasceu com cromossomas XXY, é hermafrodita". Esforcemo-nos por supôr, já agora, que Antony não tinha sido apadrinhado pela nomenklatura "neo-freak" norte-americana — Joanna Newsom, Devendra Banhart, CocoRosie — nem recebido o alto patrocínio do casal Reed/Anderson. Como se escutaria, então, I Am A Bird Now?

Muito provavelmente, apenas como um álbum de muito débeis canções, musicalmente assaz convencionais, onde se desperdiça o grande trunfo que possui (e que levou Lou Reed a convidá-lo para The Raven e digressões subsequentes): um timbre vocal de contra-tenor, algures entre Bryan Ferry, Nina Simone e Jimmy Scott, capaz de libertar da gravidade qualquer melodia. Acontece, porém, que as melodias que ele escreve de todo não o merecem. E não será por as transformar em cenário de um patético e rudimentar "peep show" sobre o sofá do psicanalista ("one day I'll grow up and be a beautiful woman, one day I'll grow up and be a beautiful girl", confessa-nos em "For Today I Am A Boy" para, pouco depois, em "Fistfull Of Love", muito pouco metaforicamente, se lamentar da aridez emocional de um episódio de "fisting" como forma de intimidade) que elas atingirão algum tipo de redenção. Nem por isso, nem pela convocatória (previsível, muito, muito previsível) para a sua guarda de honra de Boy George e Rufus Wainwright. Embora, tudo isso em conjunto, lhe garanta a quase total aclamação de quem não ousa desencadear a ira sagrada das hostes do politicamente correcto. (2005)

Antony & The Johnsons - I Am A Bird Now
Imaginemos por um instante que Antony era uma personagem que não achava necessário afirmar coisas tolas e absurdas como "os transsexuais são das criaturas mais evoluídas e belas do planeta" e que não fazia da ambiguidade sexual um pretexto imperativo de afirmação. Não seria terrivelmente difícil imaginá-lo. Bastaria que não se lhe tivesse metido na cabeça a ideia de ressuscitar à viva força a atmosfera "glam" dos anos 70 e de, tarde e a más horas, supôr que o glorioso festim decadente da Factory de Andy Warhol poderia ser reencenado quarenta anos depois. Prescindindo, por exemplo, de sublinhar isso a traço muito grosso, com uma fotografia na capa da "superstar" warholiana, Candy Darling, no seu leito de morte. Imaginemos também que, para justificar a presença da voz de Julia Yasuda numa das faixas do seu álbum ("Free At Last"), não lhe parecia imprescindível partilhar connosco a informação de que "ela nasceu com cromossomas XXY, é hermafrodita". Esforcemo-nos por supôr, já agora, que Antony não tinha sido apadrinhado pela nomenklatura "neo-freak" norte-americana — Joanna Newsom, Devendra Banhart, CocoRosie — nem recebido o alto patrocínio do casal Reed/Anderson. Como se escutaria, então, I Am A Bird Now?

Muito provavelmente, apenas como um álbum de muito débeis canções, musicalmente assaz convencionais, onde se desperdiça o grande trunfo que possui (e que levou Lou Reed a convidá-lo para The Raven e digressões subsequentes): um timbre vocal de contra-tenor, algures entre Bryan Ferry, Nina Simone e Jimmy Scott, capaz de libertar da gravidade qualquer melodia. Acontece, porém, que as melodias que ele escreve de todo não o merecem. E não será por as transformar em cenário de um patético e rudimentar "peep show" sobre o sofá do psicanalista ("one day I'll grow up and be a beautiful woman, one day I'll grow up and be a beautiful girl", confessa-nos em "For Today I Am A Boy" para, pouco depois, em "Fistfull Of Love", muito pouco metaforicamente, se lamentar da aridez emocional de um episódio de "fisting" como forma de intimidade) que elas atingirão algum tipo de redenção. Nem por isso, nem pela convocatória (previsível, muito, muito previsível) para a sua guarda de honra de Boy George e Rufus Wainwright. Embora, tudo isso em conjunto, lhe garanta a quase total aclamação de quem não ousa desencadear a ira sagrada das hostes do politicamente correcto. (2005)
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