Showing posts with label Hugo Largo. Show all posts
Showing posts with label Hugo Largo. Show all posts

27 August 2021


(sequência daqui) O que, na voz de quem, candidamente, confessa “I haven’t aged since I was four years old”, ganha, naturalmente, muito particulares sentidos aos quais, como acontece com os filmes de David Lynch, há que permitir que nos conduzam, sem resistência nem busca de explicação racional. Por que motivo a demolição sonora de "Bull of Heaven" desagua, sem pausa, no lirismo translúcido de "Obsidian Lizard"? Como coabitam ambos em "Before a Black Tea" onde Erin incorpora a voz de Mimi Goese (Hugo Largo)? Pode, num momento, dizer-se “take me for the music, take me for a human” e, no seguinte, “I've never been a human, but I'm a good friend”? Existe matéria nesta surreal ópera noturna para a imaginar (sugestão de Erin) como episódios inéditos das Canterbury Tales criados à imagem de The Wall (Pink Floyd), Until the End of the World (Wim Wenders) e da reinvenção da arquitectura de Nova Iorque por June Jordan e Buckminster Fuller? Ela também não sabe mas isso não tem importância nenhuma.

16 July 2019

BORRÃO DE RORSCHACH

  
Diz Erin Birgy: “É fantástico ver alguém aperfeiçoar um determinado objecto de paixão. Mas o que me mantém interessada na música é precipitar-me literalmente no desconhecido. É muito mais divertido divagar do que decidir, de uma vez por todas, como uma banda irá soar, de acordo com uma perspectiva ou um desejo singular”. Divaga Erin Birgy: “A minha maior fantasia erótica era ser um cavalo negro enviado do Inferno, galopando através do mato, ao crepúsculo, como numa cena de Darby O’Gill and the Little People (um filme da Disney, de 1959)”. Recorda Erin Birgy: “Durante os últimos oito anos, a banda alargou-se e deambulou, num crescendo em direcção à liberdade musical”. Sintetiza (em "Truth In The Wild") Erin Birgy: “Energised by uncertainty, confusion, disruption, this song’s for me”. Lateralmente, uma memória antiga ajuda a compreender ainda melhor: “A minha mãe costumava levar-nos, em passeios de um dia, a explorar os diversos lugares de Washington Oriental. Uma vez, fomos a Metaline Falls e, durante cerca de uma hora, não conseguíamos ver nada do lado de fora do carro de tal modo o ar estava opaco de borboletas monarca. Isso ficou em mim para sempre”



Naturalmente, nada dispensa a escuta de Dolphine mas, daqui, podem extrair-se já algumas coordenadas para o que nos aguarda. Isto é, nada do que podemos imaginar será sequer parecido com o que iremos descobrir. Até porque este quarto álbum assinado Mega Bog – "nom de plume" de Birgy – pode servir de modo útil como uma espécie de “borrão de Rorschach”: se ela própria admite ter-se alimentado de Robert Wyatt, Laurie Anderson, Bridget St. John, Nina Simone, Marianne Faithful, Nico, a ficção de Ursula K. Le Guin e a poesia de Alice Notley, nada nos impede de, ao escutá-la, identificarmos os traços de Julia Holter, This Is The Kit, Joni Mitchell, Shara Worden, Poliça, Judee Sill, Jesca Hoop ou Hugo Largo. Uma sucessão de imprevisibilidades sonoras articuladas como peças de "puzzles" diferentes no perímetro de cada canção: ziguezagues melódicos enroscados em dissonâncias de veludo, psicadelismos subaquáticos em montanha russa "free-form", bordados folk com acabamentos "avant-pop", abstraccionismos rítmicos em coreografias reptilianas, preciosas jóias electro-acústicas que, afinal, são apenas o confessado desejo de “perpetuar aquele género de perspectiva misteriosa que, para mim, não é realmente um mistério”. Ou, encarando-o sob um ângulo mais esclarecedor: o álbum avassalador que, desde Volta, Björk procura sem encontrar.

06 December 2013

TAMBÉM VÓS?
(sequência daqui


Basta o nome: Banda do Casaco. Qualquer espírito medianamente perspicaz se aperceberia que, de um grupo assim baptizado sob as febris temperaturas lusas da segunda metade dos anos 70 do século passado, dificilmente sairia algo conforme à estética “revolucionária” oficial da época. Porque o que, à sombra desse chapéu de sol – que, mais do que um colectivo fixo, designava uma ideia –, borbulhava nos tubos de ensaio de Nuno Rodrigues e António Pinho era uma gloriosa mixórdia de surrealismo popular e erudito, de passagens pedonais e aéreas entre a música tradicional portuguesa e as suas irmãs europeias, de túneis secretos a ligarem o jazz a amáveis experimentalismos vários e a enigmáticos organismos sonoros ainda por identificar (uns e outros, então, ignoravam-no mas terá sido por aqui que o Hugo se tornou Largo e Cocteau travou conhecimento com os Twins), de olhares de esguelha sobre os rumos sempre inquietantes que dez milhões de bípedes, século atrás de século, insistem em escolher.



Não eram indispensáveis poderes de vidência para compreender que tal programa – ou sucessão de 7 programas, invariavelmente distintos entre si – não estava fadado para conhecer a aprovação das massas. Mas, agora que podemos usufruir do luxo de retirar de duas bonitas caixas vermelha e negra e negra e vermelha (belíssima escolha cromática de suave ressonância anarca), um a um, Dos Benefícios Dum Vendido No Reino dos Bonifácios (1975), Coisas Do Arco Da Velha (1976), Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos (1977), Contos Da Barbearia (1978), No Jardim Da Celeste (1980), Também Eu (1982) e Com Ti Chitas (1984), acrescidos de um CD de registos da pré-história da BdC e DVD ilustrativo, quem sabe se não será desta que mais alguns indígenas surpreendidos se darão conta do que andaram a perder nos últimos 40 anos.

10 November 2013

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (X)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem)

(clicar na imagem)

04 April 2007

QUEBRAR O ESPELHO


Faun Fables - Family Album

Considerem imediatamente como um tesouro, como uma preciosidade rara, aquilo que têm nas mãos (sim, porque não tenho a menor dúvida que vão querer ter nas mãos este Family Album). Isto é o género de disco que, nos tempos que correm, praticamente não existe: música que não se parece com nada e que, ainda por cima, é sobrenaturalmente superlativa. Também não deverão conhecer muitos outros cujo texto de uma das canções ("Poem 2") seja atribuído a um fantasma ainda que isso possa colocar alguns problemas em matéria de "copyright"... Porque o que Dawn McCarthy e Nils Frykdahl aqui concretizam é uma daquelas totalmente improváveis coreografias de referências onde tudo aquilo que, por um momento, evocam, no instante seguinte deixa de se assemelhar a si próprio e se transforma em algo de definitivamente outro.

(álbum integral aqui)
 
Em primeiro lugar a(s) voz(es): Dawn McCarthy faz pensar em Mimi Goese (a solo e com os gloriosos e insubstituivelmente desaparecidos Hugo Largo com quem, aqui e ali, Faun Fables tem pontos de contacto), em Kristin Hersh, às vezes, até em Grace Slick; Frykdahl lembra uma impossível combinação do Bowie mais teatral e cabarético com Tom Waits. Não terão reparado mas, um segundo antes de ter colocado o último ponto final, já a enunciação de todos estes nomes deixou de fazer qualquer sentido. Depois a música, ela mesma: se "Rising Din" parece uma reconfiguração de "Ma Mort", de Jacques Brel, "Mouse Song" adapta uma "melodia tradicional suiça", a avassaladora "Carousel With Madonnas" traduz e reinventa sob um temporal uma canção polaca de Zygmunita Koniezcyniego e "Eternal" é a versão de um tema de Brigitte Fontaine. Antes, depois e durante, por entre flautas, violoncelos, guitarras, vibrafones, glockenspiels, orgãos e coros litúrgicos, pairam os espectros da folk-de-sessão-espírita, dos King Crimson, de vozes de crianças italianas num pátio de escola, deste mundo e, literalmente, do outro. Há duas frases de duas canções que poderiam sintetizar todo o disco: uma é "too new to be cautious or wise, falls into danger with an innocent eye", de "Preview"; a outra, "from root to belly, hair to thorn, I break the mirror to be reborn", de "Poem 2". Indiscutivelmente, um dos grandes discos do ano. (2004)