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23 February 2025

FOLK-ROCK MINIMALISTA


Se há personagem que, sem a mais ínfima molécula de dúvida, deverá ser objecto de incondicional veneração por parte da Internacional Melómana é Joe Boyd. É o mínimo devido a quem, enquanto produtor, editor, autor e "olheiro", foi um silencioso motor por trás das carreiras de Fairport Convention, Sandy Denny, Richard (& Linda) Thompson, Pink Floyd, Nick Drake, The Incredible String Band, R.E.M., John and Beverley Martyn, Kate & Anna McGarrigle, Billy Bragg, 10 000 Maniacs, Shirley Collins, Fotheringay, Albion Band, Dagmar Krause, Mary Margaret O'Hara e June Tabor. Mas também um dos fundadores do lendário UFO, clube da Londres psicadélica, o criador da etiqueta Hannibal Records (1980/1998) e autor de White Bicycles: Making Music in the 1960s (2007), segundo Brian Eno, "O melhor livro sobre música desde há muitos anos". Razões mais do que suficientes para que, quando ele se entusiasma com alguma coisa, lhe prestemos atenção. (daqui; segue para aqui)

"Logic"

13 March 2023

 A LAWLESS LEAGUE OF LONESOME BEAUTY
 
 
Alguém deverá ter-se apossado da "password" que permite o acesso aos meus subterrâneos mentais e me activa instantaneamente determinados reflexos condicionados. E, sabe-se lá como, ela terá chegado às mãos de Stephen Troussé, que, na “Uncut”, acerca de All Of This Is Chance, de Lisa O’Neill, escreveria: “Os pares deste disco poderiam ser Astral Weeks (de Van Morrison), Starsailor (de Tim Buckley), Music For A New Society (de John Cale), New Skin For The Old Ceremony (de Leonard Cohen) e, em particular, Miss America, de Mary Margaret O’Hara. Ela não estaria deslocada entre todos estes fantasmas”. Como se não bastasse, no “Guardian”, Neil Spencer, reforçaria a dose, provocando: “Como outras vozes poéticas singulares - Tom Waits, Björk, Leonard Cohen, a nenhuma das quais ela se assemelha – Lisa O’Neill sempre dividirá as opiniões”. (segue para aqui)

01 March 2013

HERÓIS DO MAR
(dedicado ao ministro Vítor Gaspar)


A 11 de Janeiro passado, o mundo tomava conhecimento de que Mohamed Abdi Hassan, aliás "Afweyne" (“desbocado”, em somali), após uma portentosa carreira de oito anos como pirata nos mares da Somália – proezas maiores: as capturas de um cargueiro ucraniano carregado de armas e de um superpetroleiro saudita que transportava dois milhões de barris de crude avaliados em cerca de 100 milhões de dólares –, retirava-se da actividade (alegando “a falta de presas devido ao reforço de segurança nos mares efectuada por forças internacionais”) e encorajava os seus camaradas a fazerem o mesmo. Anunciava ainda ter já “estabelecido contactos com o novo governo da Somália de forma a podermos abandonar este trabalho sujo”.




De facto, a pirataria contemporânea não tem boa imprensa – nada que possa comparar-se com a dos tempos heróicos narrados na General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates (1724), do enigmático capitão Charles Johnson, e modernamente glorificada por Stephen Snelders e Hakim Bey em The Devil's Anarchy (2005) – mas nem isso chegará para justificar o espanto do autor da notícia quando comentava que "Afweyne", vestido à ocidental, com camisa branca, casaco escuro, barba feita e óculos Ray-Ban, “parecia mais um homem de negócios que um pirata”. Como demasiado bem sabemos (BPN, BPP, Madoff et alia, fazem soar campainhas?), uma coisa não costuma excluir, necessariamente, a outra.




É preferível, por isso, investir mais nos piratas clássicos do que nos actuais (de várias pintas), empreendimento que, à boleia do "franchise" cinematográfico da Disney, Piratas das Caraíbas, com cais de partida em Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs And Chanteys (2006), Johnny Depp, Gore Verbinsky e Hal Willner, prosseguem, agora, com notório deleite, no novo (igualmente) duplo, Son of Rogues Gallery. O casting de corsários, no primeiro CD, é praticamente imaculado: içam-se as velas ao som do lendário bucaneiro, Shane MacGowan, em "Leaving Of Liverpool", Robyn Hitchcock, a magnífica Beth Orton e Sean Lennon mantém o rumo até os oceanos se revolverem nas profundezas com o "Shenandoah" de Tom Waits e Keith Richards e, até ao final, por entre flibusteiros de longo curso como Chuck E. Weiss, Patti Smith, Gavin Friday e outros sérios candidatos ao posto de capitão (a óptima Shilpa Ray, mas também Macy Gray, Ivan Neville, Kenny Wollesen), a bandeira negra é hasteada bem alto em "Asshole Rules The Navy" onde Iggy Pop e A Hawk And A Hacksaw filosofam sobre o que viria a ser o modelo de relacionamento futuro entre fiscais das finanças e ex-secretários de Estado portugueses.




As águas são indesejavelmente menos encapeladas no segundo disco onde verdadeiros sobressaltos apenas ocorrem com Richard Thompson ("General Taylor"), no "Rio Grande" de – quais Anne Bonny e Jack Rackham – Michael Stipe e Courtney Love, e na ébria "shanty", "The Dreadnought" (Iggy outra vez). Mas qualquer rodela de plástico que, nem que seja durante 1’51”, nos permita escutar a raríssima Mary Margaret O’Hara merece canonização instantânea. 

02 February 2010

FOUND A PENNY, PICKED IT UP



Tindersticks - Falling Down A Mountain

Acerca de um tipo que se lembra de convidar a magnífica e esquiva Mary Margaret O’Hara para um dueto só se pode dizer o melhor. E, se esse mesmo fulano já for reincidente na realização de idênticas propostas desonestas a damas como Isabella Rossellini e Lhasa de Sela, então não resta senão tirar-lhe o chapéu e genuflectir. O cavalheiro em questão dá pelo nome de Stuart Staples e, por acaso, o último álbum da sua banda – Tindersticks – recém-esfacelada pela partida do violinista Dickon Hinchliffe, do baterista Alasdair Macaulay e do baixista Mark Colwill, The Hungry Saw (2008), até nem lhe fazia augurar um futuro demasiado radioso.



Só pode, pois, ser uma óptima surpresa que o novíssimo Falling Down A Mountain não insista na ideia de repetir velhos procedimentos com novo elenco e se aventure por labirintos de libérrimo jazz (na companhia do trompetista Terry Edwards), desertos morriconianos, e batidas gingadas, do Tex-Mex à Motown, com as desejáveis lines-a-pedir-para-ser-citadas (“Found a penny, picked it up, all the day I had some luck, but that was two weeks last Tuesday, since then there’s been a sliding feeling”) simpaticamente incluídas e... miss O’Hara na tripulação para o saborosamente frívolo "Peanuts".

(2010)

30 June 2008

MARY MARGARET O'HARA




Capturada aqui e porque voltou a ser, recentemente, referida aqui. Apenas pretextos. Completamente desnecessários. (2008)

28 June 2008

ACADEMIA: ART & SOUL



My Brightest Diamond - A Thousand Shark’s Teeth




Joan As Police Woman - To Survive

Quando, há dois anos, foi publicado Bring Me The Workhorse, de Shara Worden/My Brightest Diamond, e, em simultâneo, Begin To Hope, de Regina Spektor, os pontos comuns da biografia de ambas permitiram que, sem esticar demasiado a lógica, os dois álbuns fossem tratados no mesmo texto. Uma e outra provinham de famílias musicais e, com currículo académico de conservatório (estudo da música de Purcell e Debussy na University of North Texas e aulas de canto operático em Nova Iorque para Worden, e, da Moscovo natal aos Purchase College e Manhattan School Of Music, uma licenciatura em piano, no caso de Spektor), tinham acabado por se dedicar a variantes distintas do idioma pop/rock, demonstrando como não é uma fatalidade que a atmosfera erudita das salas de aula conduza à amputação de uma criatividade menos universitariamente configurada.



Também por essa altura, em 2006, era editado Real Life, o álbum de estreia de Joan Wasser (aliás, Joan As Police Woman), outra ilustre frequentadora daquelas instituições cujas paredes transpiram a tradição clássica europeia: aulas de piano desde os seis anos e de violino a partir dos oito, prosseguidas na Universidade de Boston (sob a orientação de Yuri Mazurkevich, discípulo de David Oistrakh) onde, naturalmente, integrou a Boston University Symphony Orchestra. É, portanto, quase inevitável que, agora que My Brightest Diamond e Joan As Police Woman chegam aos respectivos segundos álbuns, estes, exactamente pelos mesmos motivos, voltem a ser igualmente emparelhados. O mais interessante, no entanto, é que, tal como já sucedia com Worden e Spektor, sejam bastante mais significativas as diferenças entre eles do que qualquer hipotético elo espiritual “académico” que os reunisse.



Concebido ao mesmo tempo que Bring Me The Workhorse (num processo que vem desde 2002), A Thousand Shark’s Teeth deveria ter sido o segundo painel para quarteto de cordas do díptico que os dois constituiriam. Na verdade, cresceu para um elenco final de cerca de vinte elementos – secções de cordas, guitarras, vibrafones, clarinetes, corne inglês, harpa – que dá corpo orquestral às magníficas peças de Shara Worden, algures entre o que poderia ter sido uma Kate Bush imensamente menos afectada, Björk, Jeff Buckley, e tudo o que ela própria enumera como pontos de referência: Lewis Carroll, Tom Waits, os filmes de Jean Pierre Jeunet, a pintura de Anselm Kiefer, a fotografia de Robert ParkeHarrison, Maurice Ravel e Tricky (aos dois últimos, cita-os explicitamente em “Black & Costaud” e “Like A Sieve”). Se Workhorse foi uma estreia memorável, Shark’s Teeth não apenas a confirma integralmente como é, seguramente, um dos enormes álbuns deste ano.



To Survive é de outra estirpe: a dos “singer-songwriters”, na tradição de Joni Mitchell, Carole King ou Laura Nyro, uma espécie de soul branca sofisticada (pensem em Nina Simone mas também em Cat Power ou Mary Margaret O’Hara), criada por quem já pisou estúdios e palcos ao lado de Lou Reed, Tanya Donelly, Sparklehorse, Antony & The Johnsons e Rufus Wainwright (integrou as bandas de ambos). Repescar a ideia de “torch song” – despida de adereços, excesso de maquilhagem e luxo de guarda-roupa – não será demasiado despropositado num álbum de maioritariamente belas canções onde, com alguma surpresa, Wasser troca preferencialmente o violino pelo piano e David Sylvian e Rufus (discretíssimo como lhe fica melhor) contribuem vocalmente em duas faixas.

(2008)

11 August 2007

UM AR MENOS NEGRO



Não se imagina que a autora de três álbuns — Dogs, The Blackened Air e Run To Ruin — onde tão pouca luz penetra ria tão frequente e espontaneamente como acontece quando entrevistada. Nina Nastasia faz enormes pausas para pensar, deixa imensas interrogações em suspenso, semeia as respostas de "I don't know" e confessa que, embora ainda sem grande êxito, gostava de ser capaz de "aligeirar" a atmosfera das suas futuras canções. Desde que não desça a (bem elevada) fasquia dos três primeiros discos, esteja à vontade.

Suponho que, como a maioria das pessoas, conheci a sua discografia de trás para a frente: primeiro The Blackened Air e Run To Ruin e, só depois, o primeiro, Dogs, reeditado o ano passado. E pareceu-me muito invulgar alguém iniciar o seu álbum de estreia com uma canção que é apenas uma única frase "Dear Rose, I do apologize, I hope you'll think of me as someone who would do anything for you"...
Como é que isso me surgiu... (risos) soa um pouco como a abertura de uma carta, não é? Pareceu-me uma boa forma de começar. Deve ter sido isso... Mas as outras canções não seguem de todo essa lógica. Já foi há tempo demais para que me recorde, de facto, qual era a ideia... Para Dogs, gravámos uma série de canções, das quais, houve várias que nem chegaram a ser incluídas no disco. Escolhemo-las como se estivéssemos a estabelecer o alinhamento de um concerto. Não obedeceu, realmente, a nenhum conceito.

Vê-o como um álbum muito diferente dos outros dois que se seguiram?
Todos os álbuns foram escritos no mesmo período de tempo. Há diversas canções antigas em Road To Ruin. Por isso, no que à escrita das canções diz respeito, não me consigo aperceber de uma grande diferença entre eles. Embora, decerto, deva haver. Não estudei assim muito o assunto... Mas, quanto aos arranjos das canções de Dogs, como já interpretava ao vivo aquele reportório com a mesma banda há bastante tempo, quando chegámos ao estúdio, estava tudo praticamente definido. Em The Blackened Air e Run To Ruin, quando começámos a gravar, ainda estávamos a trabalhar os arranjos. O que lhes terá dado um ar um pouco mais improvisado.



Porque se decidiu por Steve Albini como produtor?
Um amigo tinha trabalhado com ele e disse-me coisas muito simpáticas sobre o Steve. Também gostava muito da sonoridade de vários álbuns que ele tinha produzido. E queríamos gravar tudo ao vivo em estúdio que é como ele prefere trabalhar.

Quando começou a escrever canções?
Há cerca de catorze anos, quando vim para Nova Iorque. Desde miúda gostava de escrever poemas, contos. Tinha um amigo "songwriter" que, de certa maneira, me inspirou a fazê-lo.



Para além do seu amigo, houve outros autores que a inspirassem?Sempre ouvi muita música diferente mas não sou uma grande coleccionadora de discos nem presto muita atenção a nomes e detalhes. Em casa, os meus pais ouviam muito os Beatles. Também estudei piano clássico. Pode parecer um bocado estúpido mas não me recordo de nomes nenhuns...

Então chame-me estúpido agora a mim: quando escrevi sobre os seus discos, disse como, neles, várias coisas me recordavam gente tão diversa como Sandy Denny, Nico, PJ Harvey, Velvet Underground, Cowboy Junkies, Tom Waits, Mary Margaret O'Hara, Kristin Hersh... Isto faz algum sentido?
(risos) Bom, gosto da maioria deles, aí tem. Acertou. Gosto muito da Sandy Denny, por exemplo. Mas nem conheço grande parte da obra dela. E adorei os concertos da PJ Harvey a que assisti. Mas não diria que algum deles foi uma enorme influência que eu me tenha dedicado a analisar e estudar. Inconscientemente, no entanto, devo ter interiorizado uma ou outra coisa de vários deles... provavelmente.



Pura curiosidade: o seu nome, Nina Nastasia, tem uma certa sonoridade de Europa de Leste...
Tem, não tem? (risos) Toda a gente diz isso. Mas não é, é italiano. A família do meu pai veio da Calábria.

Está a trabalhar num novo álbum?
Estou. Na verdade, estou a pensar publicar dois ao mesmo tempo. Tenho um conjunto de canções suficientes para isso mas ainda não me decidi definitivamente se o quero fazer ou não. Estou a tentar escrever canções que sejam um pouco mais "leves" do que me é habitual. Começa a aborrecer-me ser vista sempre como autora de canções graves o obscuras. Não que me esteja a sair lá muito bem disso mas estou a tentar... (2005)

08 August 2007

O FUNDO DO AR É NEGRO



Nina Nastasia - The Blackened Air

Uma Sandy Denny com a alma lunar de Nico, o grupo sanguíneo de Polly Jean Harvey, a enganadora doçura de Aimee Mann e a esquizofrenia de Mary Margaret O'Hara. Recitando litanias dispersas por entre os despojos da carcaça dos blues, o espectro esventrado da country e a assombração radiográfica da folk tal como ainda sobrevive nos desfiladeiros desertos de algumas cordilheiras. À volta, há estrondos e estampidos, lancinantes e longínquos glissandos de violino e serra friccionada, gemidos de acordeão, interferências de arranjos de cordas inesperadamente plausíveis, a sombra oblíqua dos Cowboy Junkies de Trinity Session ou uma certa marcialidade fúnebre dos primeiros Velvet Underground.



E muito, muito espaço vazio por entre o dedilhado de um bandolim, o desenho sinuoso da melodia e a ressonância de palavras como "my eyes are black as iron, I'm toppling houses, trees and towns, my crying makes everybody drown" cujas imagens se perfilam imediatamente à frente dos nossos olhos. "Ugly Face" é quase "The Part You Throw Away" de Tom Waits e isso só lhe faz bem, "In The Graveyard" parece o eco de um uivo das Apalaches, "Ocean" é uma refrega surda entre as frequências graves de um sismo, estridências ultra-agudas e o ectoplasma de uma valsa doente de Kristin Hersh, "The Same Day" é pura (in)existência virtual e todas as restantes nos impedem de pensar noutra coisa durante 44 minutos. E muito tempo depois também. (2002)

10 March 2007

QUINZE HOMENS NO COFRE DO MORTO


Vários - Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs And Chanteys

A lenda de Libertatia (ou Libertalia) — uma colónia anarquista de piratas fundada, no final do século XVII, a norte de Madagáscar, sob inspiração dos capitães James Misson, Thomas Tew e do "padre devasso", ateu e comunista, Caraccioli — teve origem na célebre General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates, publicada, em 1724, por um misterioso e nunca identificado capitão Charles Johnson e, durante bastante tempo atribuída, aparentemente sem razão, a Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoe.


Mito ou realidade, terá sido apenas uma de várias utopias de "mundo virado do avesso" a que a história da pirataria está associada — das "repúblicas" de Salé/Rabat às proezas das Fraternidades corsárias da Barbária ou das Caraíbas, do simbolismo satânico/herético da Jolly Roger (a bandeira negra da caveira sobre as duas tíbias) à ética "igualitária" e contraculturalmente hedonista ("a merry life and a short one") dos "proletários dos oceanos" — e que deixou marcas fundas na literatura e no cinema assim como no que resta de algum pensamento anarco-situacionista contemporâneo. Foi a partir da memória dessas "áreas libertadas" corsárias que Hakim Bey (aliás, Peter Lamborn Wilson, poeta, escritor e ensaísta norte-americano, proto-Sufi, neo-pagão, aventureiro dos mares psicotrópicos), no contexto do seu "anarquismo ontológico", criou o conceito das TAZ (Temporary Autonomous Zones) , enclaves autónomos de liberdade absoluta, arquipélagos virtuais, fora da lei da sociedade exterior.


Justamente o mesmo Hakim Bey, que no prefácio de The Devil's Anarchy, de Stephen Snelders (ed. Autonomedia, 2005) — relato das epopeias marítimas dos piratas holandeses Claes C. Compaen e Jan Erasmus Reyning —, acerca deles escreveu: "Rimbaud ou Gauguin teriam compreendido estes seus outros eus, talvez pouco eloquentes mas decididos na acção e no regabofe, poetas da experiência vivida mais do que da literatura ou da pintura: o sonho renascido dos bucaneiros, irmãos das costas e das ilhas, utopistas sem um 'ismo'... (...) Neste sentido, a pirataria tem menos a ver com a violência ou com a caça ao tesouro do que com o desejo sem limites e a liberdade anárquica, a 'liberté libre' de Rimbaud".


Tudo isto, entretanto, é francamente mais interessante do que o último elo cinematográfico que daí decorre, Piratas das Caraíbas - O Cofre do Homem Morto (de Gore Verbinsky), aborrecidíssimo pastelão-Disney e herdeiro muito menor de todos os Against All Flags, Captain Blood, Captain Kidd ou Treasure Island do passado. Mas ao qual, a partir de agora, por via indirecta, passamos a dever um óptimo álbum duplo — Rogue's Gallery: Pirate Ballads, Sea Songs And Chanteys —, fruto de conspiração entre Verbinsky e Johnny Depp (o "capitão Jack Sparrow" do filme) entregue nas mãos do produtor Hal Willner, de que resultou esta coleccção de quarenta e três "canções dos mares" reinterpretadas por uma verdadeira arca do tesouro da pop/rock/folk contemporânea.

Hal Willner

Willner era, sem dúvida, a escolha óbvia: desde Amarcord Nino Rota (1981) até Lost In The Stars/September Songs - The Music of Kurt Weill (1985/1995), Stay Awake: Interpretations of Vintage Disney Films (1988), Weird Nightmare: Meditations on Mingus (1992), Dead City Radio (1990, em torno dos textos de William Burroughs), The Lion For Real (1990, sobre Allen Ginsberg) ou Closed On Account Of Rabies (1997, com Edgar Poe como pretexto) que o seu modus operandi de distribuição de um tema nuclear por uma elite de notáveis deu frutos bem saborosos. A presente convocatória inclui consagrados em óptimo momento de forma (Nick Cave, Richard Thompson, o clã Carthy — Martin, Eliza e Norma Waterson —, Lucinda Williams, Van Dyke Parks, Lou Reed, Loudon Wainwright III, Bono e até os inesperadamente reanimados Sting e Bryan Ferry), luminárias "underground" e alternativas mais ou menos estimáveis (Gavin Friday, Akron Family, David Thomas, Robin Holcomb, Antony, Joseph Arthur, Jolie Holland, Bob Neuwirth, Stan Ridgway, Jarvis Cocker e a sobrenatural Mary Margaret O'Hara), acólitos de eleição (elementos da banda de Elvis Costello, Bill Frisell, Kate St. John, Warren Ellis, Kate McGarrigle, Jane Scarpantoni, Robyn Hitchcock) e assombrosas revelações como o vetusto Baby Gramps.

A pirata Anne Bonny

Mas, acima de tudo, magnífica música de embriaguês e ausência, de celebração e morte, de selvajaria e deboche, de que "The Good Ship Venus" é um significativo exemplo: "The captain's daughter Charlotte was born and bred a harlot, her thighs at night were lilly white, by morning they were scarlet". Folgava-se em grande estilo a bordo... (2006)