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13 February 2023

"Moonstruck (Nico's Song)" (álbum integral aqui)

(sequência daqui) Ele próprio refere que, em Mercy, “houve certos parâmetros que procurei evitar, Na verdade, a maioria das canções nasceu de um certo tipo de improvisação no sentido em que eu não tinha um plano pré-determinado. Não tinha uma lista de artistas... Na altura, havia um certo número de pessoas disponíveis para gravar e procurei tirar partido delas o melhor que fui capaz. E não foi fácil”. Com a emergência pandémica a reforçar a reclusão, John Cale calcula que, nos últimos anos, terá escrito cerca de 80 canções. “Houve qualquer coisa em mim que fez clic de um modo positivo. Tive momentos de calma e também de raiva com os quais consegui lidar de uma forma que não me foi intolerável”. Esse gatilho, no entanto, tendeu a disparar sobre o eixo sombrio do mundo (“Lives do matter, lives don’t matter, wolves getting ready, they’re gonna buy more guns”, “The monster growls at you, it shakes you to your bones”), e sobre a vertiginosa aceleração do tempo à beira do desastre (“Did you realize how late it was? Later than you think”), o que determinou o modo de encarar cada instante: “Não quis realmente insistir demasiado nos aspectos de intimidação histórica. Mas vivemos um momento em que desejamos conhecer e identificar a posição de todos os malfeitores que foram surgindo e tornando as vidas de todos num inferno”
 
 
É, talvez, um contraponto com o mal em acção que, num turbilhão de electronica malsã, ele procura na evocação de Nico (“Console me, I have come to make my peace... Don’t be afraid of this light, be afraid of this light”), em "Moonstruck (Nico’s Song)", ou dos encontros com David Bowie na noite de Nova Iorque ("Night Crawling"), em contraste imediato com a liturgia de sangue, cinzas e trevas de "Story Of Blood" (“This is the story, the story of blood, it starts in the heart, it moves all around, wakes you in the morning and brings you down”) em cujo video, Cale no papel de decano oficiante e Weyes Blood/Natalie Mering enquanto vestal de rendilhado branco, encenam um episódio de pausa súbita, brevíssimo "scratch" e retorno ao curso normal da canção. Tal como, uma noite., Rimbaud sentara a Beleza sobre os joelhos e, achando-a amarga, a injuriara, Cale não suporta viver sem aquele momento no qual desfigura a harmonia perfeita.

10 February 2023

John Cale & Terry Riley ‎– Church Of Anthrax

(álbum integral)

09 February 2023


 
 
(sequência daqui) Agora que, à beira de completar 81 anos, publica Mercy (17º álbum a solo e o primeiro numa década), na companhia de Weyes Blood, Animal Collective, Sylvan Esso, Fat White Family e Laurel Halo, um coro de louvores fez-se ouvir, oriundo de diversos quadrantes e gerações.“Se fossemos apenas o produtor que ele é e foi, teríamos lugar garantido na História. Se apenas tivéssemos sido parte dos Velvet Underground, teríamos um livre trânsito para o paraíso do rock’n’roll. Mas, depois, ainda há todos os álbuns a solo para a Island, a colaboração com Brian Eno e Songs For Drella!... Aborda as coisas sempre numa perspectiva de ‘O que é que, neste momento, me parece interessante?’ em vez de o fazer numa atitude carreirista. Canções criadas assim persistem de um modo muito diferente porque foram pensadas com respeito” diria James Murphy, dos LCD Soundsystem, esquecendo-se, porém, de dar o mui devido destaque ao sobrenatural Music For a New Society (1982) que, Cale sendo Cale, em M:FANS (2016), metodicamente demoliria; “Considero uma enorme honra poder observar cada uma das pequenas decisões que ele toma. Atira-nos duas ou três frases para explicar aquilo que pretende e isso tem um significado imenso”, adianta Brian Weitz/Geologist, dos Animal Collective; “De certo modo, ele podia ser muito formal – muito erudito e clássico. Mas era também capaz de ser tão selvagem como qualquer um de nós”, acrescenta Patti Smith, de quem – numa lista que inclui igualmente os Stooges, Nico, Modern Lovers, Happy Mondays, Siouxsie & The Banshees – ele produziu o álbum de estreia, Horses (1975). (segue para aqui)

05 February 2023

"Story Of Blood" (c/ Weyes Blood)
 
(sequência daqui) Após uma troca de cartas com John Cage e Aaron Copland, conseguiria, via-Leonard Bernstein, uma bolsa de estudo para o Tanglewood Music Center, no Massachusetts. Mas, rapidamente se desentendeu com Copland que lhe fez saber que não o autorizava a tocar a sua música em Tanglewood; “Disse-me que era demasiado destrutiva e não queria que eu lhe desse cabo do piano”. Mais tarde, num dos fugazes momentos de aproximação entre ambos, Lou Reed diria “Só espero que, um belo dia, John seja reconhecido como Beethoven ou outro compositor dessa grandeza. Ele sabe muito de música apesar de ser completamente louco. Mas isso é por ser galês”. Mais amadurecidamente, Cale recordaria as hesitações iniciais; “Quando tocava com as minhas bandas, tinha tendência para acreditar que o rock não estava dentro de mim mas ao meu lado. Via-o não muito longe mas não o encarnava. Mas o rock estará sempre presente no meu trabalho, qualquer que seja o projecto em curso. Não quero nem seria capaz de lhe virar as costas”. (segue para aqui)

03 February 2023

O EIXO SOMBRIO DO MUNDO


Em Superstars: Andy Warhol e os Velvet Underground (Assírio & Alvim, 1992) – extenso dossier incluindo entrevista quadripartida e dicionário sobre os VU, publicado por “Les Inrockuptibles” aquando da reunião histórica da banda para a abertura da exposição Andy Warhol System, Pub, Pop Rock, a 15 de Junho de 1990, na Fundação Cartier, em Paris – John Cale, por entre um desfile de memórias agridoces, aqui e ali, vai deixando cair uma ou outra confissão que ajudam a iluminar melhor o percurso dele e da banda. Por exemplo, logo a abrir, ele que, enquanto jovem, tocara com a National Youth Orchestra do País de Gales, estudara no Goldsmiths College, de Londres, aproximara-se de John Cage, do Fluxus e do Theatre Of Eternal Music de La Monte Young, dispara: “Não existe qualquer futilidade no rock’n’roll. Na vanguarda, sim. O rock’n’roll é demasiado urgente para ser fútil e é isso que ele tem de fantástico”. Tudo começara quando, aos 15 anos, num cinema de Gales, assistiu a Rock Around The Clock. Para ele que, até ali, “imaginara o rock’n’roll como algo semelhante à música de Stravinsky”, o choque fora tremendo: “Fiquei terrivelmente confuso: queria mesmo dedicar-me à música de vanguarda ou atirar-me ao rock’n’roll?”, conta ele, agora, ao “New York Times”. (daqui; segue para aqui)

14 November 2022

 
(sequência daqui) Em idioma folk, country, "doo wop", escutemos, então, em estado embrionário, "Heroin", "I’m Waiting For The Man" e "Pale Blue Eyes", o belíssimo pastiche trad "Men of Good Fortune" (nada a ver com a homónima de Berlin), os divertimentos "Buzz Buzz Buzz" ou "The Buttercup Song" (AKA “Never Get Emotionally Involved With A Man, Woman, Beast or Child”), os fragmentos dylanianos de "Baby, Let Me Follow You Down" e "Don’t Think Twice, It’s All Right", mas, acima de todas, os oito minutos de "Wrap Your Troubles In Dreams" – que apenas reapareceria em Chelsea Girl, de Nico (1967) –, na voz sepulcral de John Cale acompanhada por metronómica percussão sobre o corpo da guitarra. “É o momento em que se passa de Lou Reed e John Cale como duo folk para os Velvet Underground. A influência de La Monte Young e do Dream Syndicate que Cale carregava transportou-se para aquela canção crepuscular e irónica que faz pensar muito no cabaret alemão”, observa Laurie Anderson. Menos de dois anos depois, seria publicado The Velvet Underground & Nico e, embora só tardiamente se apercebesse disso, o mundo tinha mudado.

12 November 2022

 
(sequência daqui) Na altura, Lou Reed preparava-se para, após as proverbiais bandas de liceu e de faculdade (na Syracuse University), abandonar a Pickwick Records – uma editora manhosa de "covers" de êxitos do momento na qual trabalhava desde Setembro de 1964 – e desejava assegurar-se de que aquilo que gravara na bobina, enviada para a casa dos pais onde ainda vivia, era propriedade intelectual sua. Na autobiografia (escrita a meias com Victor Bockris), What’s Welsh For Zen,  John Cale – “that starving viola player from Wales”, como Reed lhe chamava – conta que Lou lhe mostrou algumas das que viriam a ser futuras canções dos Velvet Underground “como se fossem canções folk”. Voltavam a ser, finalmente, escutadas em 2017, sempre identificadas pela voz de Lou que anuncia “Words and music by Lou Reed”. Na verdade, o espectro que paira sobre várias destas faixas é o de Bob Dylan. Se, desde o início, Reed sempre vomitara ácido sobre a maioria dos seus contemporâneos – Frank Zappa era “provavelmente, a pessoa menos talentosa que alguma vez conhecera, um académico pretensioso incapaz de tocar seja o que for”; os Doors eram “dolorosamente estúpidos e pretensiosos e, quando desejavam ‘fazer arte’, eram ainda piores que o rock’n’roll mais estúpido”; os Who, “absolutamente desprovidos de talento e filosoficamente aborrecidos”; e aos Beatles - embora viesse a mudar de opinião – dirigiria o mimo “Nunca gostei dos Beatles, nunca passaram de lixo. Não estou a ser sarcástico, estou só a ser honesto. Acho que os britânicos nunca deveriam dedicar-se ao rock’n’roll. Não tenho respeito nenhum por eles. Safam-se os Stones e uma ou outra coisa de Ray Davies mas a verdade é que nunca levei o rock’n’roll britânico a sério. E continuo a não levar” –, em relação a Dylan, tratava-se de um despique entre iguais.
 
 
Como ele dizia, em 1989, à “Rolling Stone, “Para além de Dylan, não existe muito mais. Compro sempre os álbuns dele. Ele sabe como trabalhar uma frase. Todo o resto não passa de pop sobre a qual não tenho nenhum interesse. Mas o Dylan surpreende-me sempre”. Á “Uncut”, Laurie Anderson confirma tudo: “Dylan é a resposta para a maioria das coisas em Words & Music, May 1965. A harmónica, o gemido vocal, a tonalidade. A empatia com o ‘underdog’, não a voz do heroico poeta autor de canções. De vez em quando, falávamos sobre Dylan e o Lou tinha um grande respeito por ele. Uma vez, brigaram acerca de saber qual dos dois era verdadeiramente Rimbaud. Mais do que serem cantores, eram essencialmente, escritores, autores de canções letrados, não apenas fulanos que alinhavam umas rimas. A coisa mais importante em que reparei no arquivo dele é que andava permanentemente à procura de formas de escrita diferentes. Depois do fim dos Velvet Underground, pensou dedicar-se apenas à poesia. Escreveu um livro sobre Tai Chi na mesma linguagem que utilizava nas canções”. (segue para aqui)

09 November 2022

 
(sequência daqui) Hesitaram muito quanto a abrir a encomenda que, entretanto, Laurie, já doara, com todo o resto do espólio, à New York Public Library for the Performing Arts, no Lincoln Center. Se, durante tantos anos, Lou Reed nunca desejara abri-la, teriam eles o direito de o fazer? Acabariam por ceder à curiosidade: no interior da embalagem arrumada entre vários livros de arte, numa prateleira por trás da secretária de Lou, no escritório da Sister Ray, encontrava-se uma bobina de fita magnética de 5”. Tratar-se-ia de uma espécie de talismã, uma recordação simbólica dos tempos da juventude? Mais uma vez, Laurie duvidou: sempre que houvera reedições da obra dos Velvet Underground, nunca a bobina fora mencionada ou tida em conta. Ouviram-na. O que estava perante eles era o documento que registava a primeira gravação de Lou Reed com John Cale, realizada para estabelecer aquilo que era designado como “poor man’s copyright”: aquela encomenda, datada e autenticada, provava que, naquele momento, as canções que continha existiam e pertenciam aquele autor. (segue para aqui)

17 October 2022

ESSÊNCIA LYNCHIANA

Com Angela Jennifer Lambert (aliás, AJ Lambert) nada é, realmente, como se imagina. Após uma “juventude perdida” a bordo de ilustres bandas desconhecidas (ou quase) – Sleepington, Looker, Here We Go Magic –, com quem se dirigiria ela para os estúdios de Steve Albini, em Chicago, com o objectivo de gravar um EP (Lonely Songs, 2018) comemorativo dos 60 anos de Only The Lonely (1958), de Frank Sinatra? Evidentemente, Greg Ahee, dos Protomartyr, escolha instantânea de AJ que, não escondamos mais o jogo, é neta de Frank e filha de Nancy Sinatra. E, quando, aos 44 anos, se decidiu, enfim, por um percurso de cantora, para além de concertos de voz e piano em que interpretava os clássicos do avô, que reportório escolheu para si no álbum de estreia, Careful You (2019)? John Cale, Chris Bell, TV On The Radio, Spoon, Billie Holiday, e duas pepitas de Ol' Blue Eyes, de entre uma lista de candidatos onde se incluiam também Robert Wyatt, Elvis Costello e David Bowie. (daqui; segue para aqui)

"How Many"

26 September 2022

PART-TIME
 

15 álbuns de estúdio. 10 ao vivo. Uma dúzia de singles e EP. Mais de duas dezenas de presenças em compilações e colaborações várias. Gillian Welch vê nele “o herdeiro do escuro espelho emocional de Henry Miller, do queixume de três acordes de Townes Van Zandt e do minimalismo de Lou Reed”. Beck incluiu-o num top 10 pessoal para a “Rolling Stone”. John Peel passou um álbum inteiro dele no seu programa de rádio. Kurt Wagner (Lambchop) e Jeff Tweedy (Wilco) persignam-se perante ele. Leonard Cohen, Dylan, Johnny Cash, Neil Young e John Cale são apontados como os padrões face aos quais deverá ser avaliado. Mas, 30 anos após o primeiro álbum (Umbilical Chords), Simon Joyner permanece virtualmente desconhecido e feliz, sem manager, agente ou publicista, ocupado com o seu "day job" (antes, um negócio de antiguidades, agora, em parceria com o amigo e baterista Mychal Marasco, uma loja de discos, em Omaha, Nebraska) e sem nenhuns planos de mudança. (daqui; segue para aqui)