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18 December 2023

 
(sequência daqui) E sobre que deseja, afinal, Peter Gabriel falar-nos? Está praticamente tudo sintetizado em "i/o", a faixa-título: "So we think we really live apart, because we’ve got two legs, a brain, and a heart, we all belong to everything, to the octopus' suckers and the buzzard’s wing, to the elephant’s trunk and buzzing bee’s sting, stuff coming out, stuff going in, I'm just a part of everything, I’ll be laid to rest in a proper place, in the roots of an old oak tree, where life can move freely in and out of me". Uma espécie de panteísmo pagão serenamente eco-militante que, no vídeo que a apresenta no site oficial de Gabriel, ele desenvolve como se tivesse acabado de ler L'Extase Matérielle, de Le Clézio: "Imagino que, quanto mais velho me tornei, não terei ficado, provavelmente, mais esperto. Mas aprendi algumas coisas prestando atenção ao que escuto e observo. E, para mim, faz todo o sentido pensar que não somos aquelas ilhas independentes que julgamos ser. Somos parte de um todo. Nascemos, num piscar de olhos, do encontro entre um espermatozóide e um óvulo mas, essencialmente, somos apenas uma colecção de átomos e moléculas que absorvem e expulsam matéria. Intelectualmente também. Quando morremos, estes átomos não desaparecem, serão encaminhados para outros fins. É uma forma suave de nos encararmos como indivíduos certamente confusos mas, ainda assim, parte de um todo. Penso que o futuro tem ecos no presente e, por vezes, se estivermos atentos, identificamo-los". Em "So Much", sobre melodia e arranjo limpidamente clássicos, reflecte sobre o limitado prazo de validade de gentes e planeta ("So much unfinished business, all sticky with desire, raking through the empty shells, of all the rockets we fired, set the navigation for the Earth all warm and wet, and as the longing drops away, the compass is reset, oh, there’s so much to live for, so much left to give, this edition is limited") e "The Court" disseca o cadáver da justiça ("We lost the line between the good and bad, we lost the line between the sane and the mad, used to draw the line across the writing pad, the line of conscience that we never have had, and the court will rise, while the pillars all fall"). A linguagem é sempre elegantemente poliglota - música de câmara, art-pop, minimalista, cinemática, R&B, experimental, impressionista -, (im)puríssimo Gabriel vintage.

11 October 2008

JEAN-MARIE GUSTAVE LE CLÉZIO



Já por aqui tinha deixado pegadas.

(2008)

18 January 2008

O ÊXTASE MATERIAL



"Quando eu não tinha ainda nascido, quando o anel da minha vida ainda não se tinha fechado e o que nunca iria poder ser apagado ainda não tinha começado a ser inscrito; quando eu ainda não pertencia a nada do que existe e não tinha ainda sido concebido nem era concebível e esse acaso feito de precisões infinitamente minúsculas não tinha iniciado a sua acção; quando eu não pertencia ao passado, ao presente nem, sobretudo, ao futuro; quando eu não existia; quando eu não podia existir; pormenor que não se podia perceber, semente por entre a semente, simples possibilidade que um nada poderia desviar do seu caminho. Eu ou os outros. Homem, mulher, ou cavalo, ou pinheiro, ou estafilococo dourado. Quando eu não era mesmo nada, uma vez que não era a negação de coisa nenhuma, nem sequer uma ausência, nem mesmo uma imaginação. Quando a minha semente errava sem forma e sem futuro. Idêntica na imensa noite às outras sementes que não eclodiram. Quando eu era aquele de que nos alimentamos e não o que se alimenta, o que compõe e não aquele que é composto. Eu não estava morto. Eu não estava vivo. Existia apenas no corpo dos outros e só podia através do poder dos outros. O destino não era o meu destino. Por abalos microscópicos, ao longo dos tempos, o que era substância oscilava tomando vias diversas. Em que momento o drama se iniciou para mim? Em que corpo de homem ou de mulher, em que planta, em que pedaço de rocha, comecei a corrida em direcção ao meu rosto?" (J.M.G. Le Clézio in L'Extase Matérielle - trad. JL)

(2008)