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07 June 2026

Hildegard von Bingen - The Marriage of the Heavens and the Earth by Catherine Braslavsky & Joseph Rowe
 

+ The Marriage of the Heavens and the Earth (Braslavsky/Rowe), na íntegra aqui

05 June 2026

NO JARDIM DO PARAÍSO
Quando, após a Revolução Francesa de 1789, os revolucionários vitoriosos encarregaram o padre católico Henri Grégoire de estudar as línguas regionais, o seu relatório de 1794 tornar-se-ia a pedra angular das políticas que proibiam o uso de qualquer língua além do francês na vida pública, no ensino e nas escolas. Apesar disso, estas línguas continuaram a ser faladas nos bairros operários, nas fábricas, nas docas e nas zonas rurais fora de Paris. É, numa delas, o occitano, que, desde a sua formação em 2014, as Cocanha - isto é, Caroline Dufau e Lila Fraysse - têm vindo a reinventar a música da Gasconha, do Languedoc e dos Pirenéus, a partir do trabalho sobre fragmentos do repertório tradicional. E foi a partir do contacto com os Carmina Burana – essa opulenta colecção de poemas e canções de Goliardos, libérrimos monges devassos medievais – que tropeçaram na primeira referência ao País de Cocanha: uma terra imaginária de liberdade e abundância, "onde se prestava culto ao prazer e ao ócio, e o trabalho e a velhice eram desconhecidos". Algo como um jardim do paraíso pagão no qual, segundo se explica em Cocanha - A História de Um País Imaginário (de Hilário F. Júnior), "os cocanianos passam a vida a comer, beber e fazer sexo. A fundirem-se com a Natureza. Logo, a Cocanha não é uma festa qualquer, é um tipo especial, é a festa por excelência, uma orgia".  (daqui; segue para aqui)

"Diuré Samsir"

23 March 2026

Boston Camerata (dir. Joel Cohen) - "Fauvel Cogita"
(de Le Roman de Fauvel, na íntegra aqui

(sequência daqui) O incerto autor terá sido Gervais du Bus, notário da chancelaria real de França mas, poucos anos depois, Chaillou de Pestain, expandiu o texto original com seis poemas políticos de Geoffrey de Paris e outras interpolações. O Romance de Fauvel, monumental Singspiel, tornar-se-ia assim uma importante fonte de música medieval e um dos primeiros exemplos da "Ars Nova", bem como um exemplo pioneiro de arte políticamente interventiva. Desconhece-se quem acerca dele pudesse ter ousado afirmar "Temos de ficar fora da política porque, se fizermos obras que sejam declaradamente políticas, entraremos no campo da política. Nós somos o oposto da política”, como, assaz inexplicavelmente, 700 anos depois, diria Wim Wenders enquanto presidente do júri do Festival de cinema de Berlim. (segue)
(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)
Fauvel e o seu palco (I)

21 March 2026

POLÍTICA, SIM
Não recuando demasiado, entremos em Paris, pelo início do século XIV. Num palco construído em vários planos que procuram reproduzir a hierarquia social, o cavalo/asno Fauvel - cada letra do nome é a inicial de um pecado ou defeito de carácter -, insatisfeito com o seu estábulo, decide mudar-se para os aposentos do dono, escorraçando-o. Torna-se assim a figura mais poderosa do lugar. Venerado pelo clero e pela nobreza, casado com a Vanglória e tendo como convidados habituais a Inveja, a Luxúria ou o Adultério, Fauvel entrega-se à missão de procriar e multiplicar-se para que a insensatez, a corrupção e a vício possam, finalmente, levar o mundo ao seu fim. (daqui; segue para aqui)
 
Trailer de HELP (2)

16 March 2026

EDUCATIVAS EPIFANIAS


Os goblins são diminutos seres grotescos de bastante mau feitio, habitantes de zonas subterrâneas que terão emergido na cultura popular europeia durante a Idade Média, deixando-se avistar ainda hoje em filmes como Labirinto (1986), Spider Man (2002) ou nos diversos episódios das sagas de Harry Potter e O Senhor Dos Anéis. Deles, a britânica Goblin Band herdou uma certa tendência para o culto da marginalidade deliberada optando por apresentar-se exclusivamente em espaços favoráveis à sua dupla qualidade de jovens músicos folk e cidadãos queer. Alice Beadle (violino e flauta de bisel), Gwena Harman (órgão de fole e bateria), Sonny Brazil (acordeão e concertina) e Rowan Gatherer (sanfona, e flauta de bisel), descobriram-se num percurso que, da música antiga e medieval, passando por John Playford e o Compleat Dancing Master, os conduziria a uma série de educativas epifanias tais que Martin Simpson, a Albion Band, os Watersons ou Martin Carthy (que, fã instantâneo, deles diria “Eles sabem tocar, sabem cantar e são destemidos. Atiram-se a versões que nós éramos demasiado pedantes para tocar e transformam-nas em furiosas desbundas"). (daqui; segue para aqui)
 
Goblin Band perform 15th century folk song 'The Bitter Withy'

03 May 2025

Gregorio Paniagua - Fons vitae / Dementia praecox angelorum / Supra solfamirevt

(do álbum La Foiia, na íntegra aqui)

07 April 2025

CRU, REAL E SEM LIMITES
Discretamente embrenhada no trio Hack-Poets Guild - abrigo de notabilidades da folk britânica e suas audaciosas extensões contemporâneas - foi, porém, aí mesmo que, há dois anos, ao lado de Marry Waterson e Nathaniel Mann, nos apercebemos da existência de Lisa Knapp. Era o momento de publicação de Blackletter Garland, etapa final de um processo que começara pela exploração do espólio de "broadside ballads" da Bodleian Library de Oxford e conduzira ao registo de Blackletter Garland, uma perfeitíssima viagem temporal, da Idade Média ao insondável futuro, numa vertigem de vozes, "drones" e destroços sonoros à deriva. Os Stick in The Wheel já se haviam aproximado das fronteiras deste território mas Blackletter Garden arrombar-lhe-ia os portões. E, agora, Hinterland (explica-nos o dicionário: "uma área situada para além do que é visível ou conhecido"), pelas mãos de Lisa Knapp e Gerry Diver, começa a cartografá-lo palmo a palmo. "Desejámos criar algo cru, real e sem limites. Algo que pudéssemos atirar â cara de quem insiste em afirmar que a folk é uma forma estática" diria Diver à "Klofmag". (daqui; segue para aqui)

"Hawk & Crow"

25 November 2023

26 October 2023

Volta, Idade Média, tudo te está perdoado
 
"We are raining hellfire on Hamas!"
 

07 May 2023

Heinali - "Beatrice"
(do álbum Madrigals, na íntegra aqui)
 
"It was my deep love of Late Medieval and Renaissance polyphony that inspired this album. It is based on generative counterpoint — several independent self-playing melodies performed at the same time on a modular synth. I've been working on the patch since late 2017. After I had enough of recorded improvisations I contacted musicians who specialize in Early Music to look if we could combine period instruments with electronic polyphony on a modular system. On Beatrice, you can hear a brilliant violist Igor Zavgorodnii, from Kyiv, improvising on a baroque viola. Initially, I thought it to be the easiest piece to record but it proved to be much more difficult. At some point, I even considered discarding the piece altogether and changing the material. What helped, I think, was the mythology that gradually and miraculously emerged during several years I spent working on the patch. Generative voices turned into bird-like creatures inhabiting electric gardens of polyphony. One is tiny and full of vigour. It loves to sing high during the day but at night it dives deep under the water, where it hums her deep whale song. Another bird is a shadow. It flew into the garden straight from Elizabethan England, bringing melancholy, a fashionable malady, in its beak. Igor's task was to imagine himself as a different kind of bird in this unfamiliar garden, a caged one. His song dissents, he plays an old, period instrument, a baroque viola, but the microtonal technique he is applying comes straight from the 20th century. It is something that he improvised on the spot during the rehearsals and we just decided to go with it during our recording session".

05 May 2023


(sequência daqui) Aí, em conjunto com outros músicos, organizaria uma série de "live streams" musicais com o duplo objectivo de angariação de fundos e de elevar o ânimo da resistência. “Mas, à medida que os alarmes de ataques aéreos se tornaram mais frequentes, tivemos de cancelá-los até decidirmos que o próximo seria realizado a partir de um abrigo anti-aéreo próximo”. Tomaria como ponto de partida uma das peças que trabalhava para um álbum que a guerra interrompera – “Organa”, uma reconfiguração das polifonias da École de Notre Dame de Paris, dos séculos XII e XIII, em sintetizador modular. “Sem dúvida, uma justaposição bizarra dadas as circunstâncias. Mas, assim que comecei a tocar, senti que, pela primeira vez desde a invasão, redescobrira a ligação com uma parte de mim que julgava desaparecida para sempre. Naquela noite, regressei a casa e ouvi as notícias. Era o massacre de Bucha. Aquilo que pensava ter reencontrado dissipou-se ao aperceber-me que cada uma daquelas pessoas era eu. E elas eram todos nós”. (Live From A Bomb Shelter in Ukraine publicado em simultâneo com Kyiv Eternal - ver também aqui)

26 April 2023

Ensemble Gamut! - "Piispa Henrikin Surmavirsi"

 (daqui; álbum integral aqui)