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19 January 2026

"Gun in Every Home" (versão integral de Nebraska '82: Expanded Edition aqui)
 
(sequência daqui) Como é hábito acontecer com todas as relíquias, o mito é frequentemente desmontado pela realidade: a decisão de abdicar das versões com a E Street Band gravadas na Power Station de Nova Iorque, no final de Abril de 1982, demonstrou estar certa. "É impossível compreender por que motivo uma gravação parece estar a falar no idioma certo e outra não", reflecte Springsteen na "Mojo". “Mas eu sabia, sem sombra de dúvida, que naquele momento da minha vida, as gravações caseiras das canções de 'Nebraska' eram as certas. Não havia outra opção. Eram melhores que as versões elétricas? Essa questão nem se colocava. As gravações caseiras mexiam comigo de uma forma que nenhuma outra versão das canções parecia conseguir. Essa era a única medida que podia considerar”.

15 January 2026

 
(sequência daquiA verdade, porém, é que, embora as oito faixas gravadas com a E Street Band constituam um documento histórico fascinante, quando, em 1998, Springsteen afirmou: "Entrei no estúdio, trouxe a banda, regravámos, remisturámos e conseguimos tornar tudo ainda pior", não só não estava a ser inteiramente auto-depreciativo como a versão definitiva (e "oficial") de Nebraska continuaria a ser a que gravou em casa, em Colts Neck, em Janeiro de 1982, com uma guitarra acústica, um TASCAM PortaStudio e um Echoplex. O disco Electric Nebraska contém versões da faixa-título de Nebraska, bem como de "Atlantic City", "Mansion on the Hill"', "Johnny 99", "Open All Night" e "Reason to Believe". Também estão incluídas as canções "Downbound Train"  e "Born in the USA", em versões diferentes das do álbum Born in the USA de 1984, que marcaria o regresso de Springsteen aos estúdios de gravação e resultaria no maior sucesso da sua carreira. A "Expanded edition" inclui uma remasterização do álbum original; um disco de outtakes das sessões de Colts Neck; as lendárias sessões do "Electric Nebraska"; e novas versões das canções de Nebraska, gravadas no Count Basie Theatre, de New Jersey, na Primavera de 2025 e filmado em Blu-Ray por Thom Zimny. (segue)

13 January 2026

AFINAL EXISTE
Em Junho do ano passado, Springsteen conversou com um jornalista da "Rolling Stone", que, no final, lhe perguntou: “E novidades em relação a Electric Nebraska?” Sem pestanejar, Bruce respondeu: “Não tenho nenhuma memória de que tenha existido. E posso assegurar-lhe que não há nada no nosso arquivo que, aparentemente, lhe corresponda". A questão parecia ter ficado resolvida, até que, após a publicação da entrevista, o jornalista recebeu uma mensagem com um número de New Jersey. O texto dizia: "Aqui, Bruce Springsteen... Investiguei o nosso arquivo e afinal há um 'Electric Nebraska', embora não tenha todas as músicas!" Mais tarde, confessaria à "Mojo": "Não sabia que aquelas fitas existiam. Fiquei surpreendido quando descobri que o Electric Nebraska era real e que tínhamos ido tão longe. Mas andámos para trás e encontrámos as fitas. Foi um choque e uma surpresa para mim. E penso que também para os fãs". (daqui; segue para aqui)

22 August 2025

 
(sequência daqui) Antes, em entrevista à "Rolling Stone", havia já considerado a questão de pisar o terreno da dita "canção de protesto": "Bem, acho que me sentirei inspirado para ir por aí. Se o farei ou não, não sei, não sei. Mas é evidente que estamos a viver uma tragédia americana embora acredite que sairemos ilesos. A nossa nação não é como outras que têm um passado autoritário. Temos uma história democrática e acredito que isso voltará a acontecer. Não é uma tradição que vá desaparecer de um momento para o outro, independentemente de quem tente subvertê-la". Com a elegantíssima eloquência pela qual o resto do mundo aprendeu a identificá-lo, instantaneamente, o gorila côr de laranja, rosnou: "Nunca gostei dele. Nunca gostei da música dele. Ou da política de esquerda radical dele". Antecipando o previsível borborigmo, Bruce insistiu: "Quando os controlos de legalidade do governo falham, são os cidadãos, cada um de nós, que assumem o poder. É na união das pessoas em torno de valores comuns que reside a diferença. Agora, isso é tudo o que se interpõe entre a democracia e o autoritarismo" (segue para aqui)

16 August 2025

 
(sequência daqui) Se "Electric Nebraska" seria um futuro alternativo, os temas das demos de The Rising são os menos surpreendentes, mas ainda assim emocionalmente poderosos. "Faithless", entretanto, é uma banda sonora para um filme que nunca chegaria a ser realizado, descrito como um "western espiritual", escrita e gravada num período de duas semanas na Flórida. Springsteen volta a concentrar-se no mundo exterior, mas em vez da poesia proletária de Darkness..., é a sonoridade do colapso do sonho americano que se desprende da maioria das peças em Track II, razão - que, de algum modo, se entende - para nunca terem sido editadas até agora: é demasiado sombrio, demasiado inquieto. “Twilight Hours”, irmão gémeo de Western Stars, pelo seu lado, mostra Bruce Springsteen ensaiando um estilo de escrita mais tranquilo e orquestral — próximo do romantismo de Burt Bacharach e da grandiosidade cinematográfica de Jimmy Webb. (segue para aqui)

13 August 2025


 
(sequência daquiA ideia de um "álbum perdido" de Springsteen não é nova. Os fãs têm trocado bootlegs há décadas, desde "The Ties That Bind" (uma versão alternativa do que viria a ser The River) até às sessões "Electric", de Nebraska, aos excertos de Darkness on the Edge of Town e às inúmeras versões alternativas dos anos de Born in the U.S.A. No entanto, Tracks II é diferente porque compila todas estas faixas perdidas numa linha narrativa que quase se torna tão essencial como as suas edições oficiais. É uma homenagem às opções que não foram seguidas e uma exploração de profundidade das escolhas de Springsteen. Para muitos, porém, a joia da coroa seria Electric Nebraska: há muito um mito entre os fãs, este álbum ao vivo com a participação da banda inteira, haveria de mostrar o que poderia ter sido se Springsteen tivesse autorizado a E Street Band a iluminar a escuridão do álbum. Embora inicialmente negada, Bruce acabaria por confirmar a sua existência, ainda que não chegasse a ser ser incluído em Tracks II. (segue para aqui)

08 August 2025

ESTRADAS INVISÍVEIS 

Quando, em 1998, Bruce Springsteen lançou Tracks, foi como a abertura de uma porta secreta de uma casa familiar — os quartos, de repente, pareceram maiores, mais escuros, e carregados de uma nova energia. Décadas mais tarde, Tracks II: The Lost Albums vai mais longe, oferecendo não só uma compilação de outtakes e demos, mas também a restauração completa de álbuns que Springsteen gravou e depois rejeitou ou reutilizou para outros projetos, como um vislumbre de uma realidade paralela. A influência Springsteen na música e no imaginário americanos é praticamente impossível de se exagerar. Ao longo de cinco décadas, tem sido o praticante supremo da intersecção do rock, folk, soul e de uma certa poesia vibrantemente proletária. Com Tracks II: The Lost Albums, Springsteen volta a convidar-nos a entrar na sua cave, revelando fitas carregadas de pó e e excertos de estúdio que, por um motivo ou outro, nunca foram incluídos nos seu canone. No total, 83 canções das quais, 74 inéditos, organizadas em 7 álbuns: “LA Garage Sessions ’83”, “Streets of Philadelphia Sessions”, “Faithless”, “Somewhere North of Nashville”, “Inyo”, “Twilight Hours” e “Perfect World”. Não apenas versões alternativas ou curiosidades: são peças completas, coerentes, que põem bem em evidência a fluidez e agilidade com que Springsteen se move por entre diversas identidades. (daqui; segue para aqui)

Inside Tracks II: The Lost Albums

15 September 2023

"Powderfinger" (álbum integral aqui)
 
(sequência daqui) Caso verdadeiramente sério, porém, é o de Neil Young: possuidor de um desmedido acervo de gravações inéditas, de estúdio e ao vivo (uma visita aos seus Archives será instantaneamente esclarecedora), muitas, desde há muito, circulando em modo corsário e, posteriormente, "oficializadas" ou não, de vez em quando, surgem enigmas e mistérios que, só à lupa se esclarece. Chrome Dreams é um exemplo típico: aludindo a um lendário homónimo de 1977 que seria preterido a favor de American Stars 'N Bars, em 2007, surgiria Chrome Dreams II, afinal a "sequela" com trinta anos de atraso de um álbum nunca publicado, constituída por temas dispersos excluídos de vários álbuns publicados (ou não) mas que, desde há bastantes anos, figuravam noutros “bootlegs” e “setlists” de concertos, acrescido de uns quantos originais recentes. Do original, não restava um único tema. É, agora, então, o momento para conhecermos o Chrome Dreams primordial. Segundo Young, estas 12 canções "poderão ter existido sob outras formas, noutros tempos, e isso faz parte do processo criativo". Notar o "poderão". E screscenta-se no site: "Esta edição que agora acontece é exactamente como Neil Young a entende e transporta um sentido de monumentalidade que lhe assegura um lugar na história". A verdade é que, sob as mais diversas formas já as conhecíamos todas, de Rust Never Sleeps, American Stars'N'Bars, Homegrown, Freedom, Hawks & Doves, Unplugged, e Comes A Time. Nada que perturbe Young. Como ele diz, "Trabalho para a minha musa. Começamos um álbum e as coisas correm umas vezes melhor, outras pior. Nunca posso dizer que tenha uma ideia exacta do que se vai passar. Muitas vezes, não há uma boa razão para um disco ter ficado perdido pelo caminho. Gravei-o, passou por mim, alguma coisa me distraíu e esqueci-me do que tinha estado a fazer antes. Acontece-me muito isso”.

11 September 2023

Captain Beefheart - Bat Chain Puller (na íntegra)
 
(sequência daqui) Mas também My Squelchy Life (1991), de Brian Eno (gravado e com cópias enviadas para a imprensa, acabaria substituido, à última hora, por Nerve Net, 1992, que ele descreveria como "uma jam session entre Booker T & The MGs e Iannis Xenakis numa 'warehouse rave'"); The New My Bloody Valentine Album (a longa espera que se seguiu a Isn't Anything (1988) e Loveless (1991), apenas em 2013 terminaria com mbv, "uma avassaladora experiência de sufocação por uma tempestade de areia no interior de um salão de ópio"); Electric Nebraska, de Bruce Springsteen (gravado originalmente com a E-Street Band, em 1982, Nebraska acabaria por ser publicado na versão acústica inicial das "demo tapes" que Springsteen preferiu à interpretação eléctrica); Bat Chain Puller, de Captain Beefheart (as proverbiais complicações contratuais impediram a publicação deste álbum de 1976, de Don Van Vliet; só dois anos depois, reapareceriam algumas faixas integradas em Shiny Beast); Stampede (1967), dos Buffalo Springfield (alegadamente concebido como segundo álbum da banda de Stephen Stills e Neil Young, os conflitos internos levaram a que fosse posto de lado e substituído por Buffalo Springfield Again); e o imenso legado, real ou imaginário, de Paddy McAloon, a solo ou com os Prefab Sprout (inclui, pelo menos, oito álbuns completos, duas óperas – Michael Jackson - Behind The Veil, e outra, sem título, sobre a princesa Diana –, um "cartoon musical" – Zorro - The Fox –, um álbum de "gospel flavoured spirituals", The Atomic Hymnbook, e Earth - The Story So Far, um ambicioso projecto acerca da história do mundo tendo como protagonistas Adão e Eva, Elvis Presley, os Kennedys e Neil Armstrong, para além de pouco mais do que miragens como 20th-Century Magic, Femmes Mythologiques, Jeff & Isolde e Doomed Poets Vol. 1). (segue para aqui)

07 September 2023

TRABALHAR PARA A MUSA

Num daqueles momentos charneira em que, na data, se torna obrigatório passar a colocar um "antes de" e "depois de" – falo de 2004 e da finalmente concretizada restauração de Smile, de Brian Wilson/Beach Boys –, veio bastante a propósito explorar e inventariar o que restaria ainda de tesouros ocultos numa era em que a Net desvendara já muito do que (entre "bootlegs", "lost albums", pepitas de lado B e infinitas outras raridades) alimentara a imaginação de duas ou três gerações de fãs. E, por aí, foram sendo exumados projectos nunca, até então, concretizados ou ignorados. Foi o caso de Household Objects, dos Pink Floyd (1973): após o sucesso planetário de Dark Side Of The Moon, Waters, Wright, Mason e Gilmour, ocuparam-se com a gravação da sonoridade de objectos domésticos – copos de vidro, caixas de cartão, elásticos, tiras de borracha... – para o que poderia ter sido, mas nunca foi, um encontro entre rock e "musique concrète". (daqui; segue para aqui)


08 April 2021

 
(sequência daqui) “Foi como se fosse, outra vez, uma criança. Temos tendência para esquecer como é sermos principiantes. Levamos anos a estudar piano ou guitarra e, quando já os dominamos, uma boa parte do entusiamo inicial, perdeu-se. O Omnichord, apesar de ser tão simples, tinha tudo aquilo de que eu precisava. Era uma ‘one-man-band’ dentro de uma caixa pela qual tinha estado à espera toda a minha vida”, contou Lael à “Ourculture”. Havia só duas regras: imaginá-lo enquanto “lost album” descoberto, por acaso, num sótão – algo como The Story of Valerie, de Carola Baer – e apenas incluir "first takes". Na verdade, é um fascinante objecto dotado da estrutura óssea dos Young Marble Giants, da respiração de Liz Fraser (a canção-título vive a um passo de "Song To The Siren") e da bruma-Mazzy Star, onde, pelo meio do sibilo da cassete analógica, uma voz em tom de sépia murmura “How far is it to the end? Only a life, dear friend”.
 

05 March 2021

Em 2008, dando sequência a um trabalho de pesquisa e produção levado a cabo por Andy Zax, a Rhino Records propôs-se compilar e reeditar todas as gravações conhecidas de David Ackles para a Elektra Records. Em concreto: os álbuns David Ackles, Subway to the Country e American Gothic, mais oito temas inéditos e/ou versões diferentes entretanto editadas em single.


There is a River: The Elektra Recordings estava pronto. Alinhamento, booklet - incluindo textos de Elvis Costello e Bernie Taupin (este último produtor de American Gothic) –, número de catálogo atribuído (8122-74884-2). No último instante ruiu o acordo com os representantes legais do espólio de David Ackles e a edição abortou. Ao que se sabe, foram na altura distribuídas algumas cópias promocionais. Andarão por aí, algures...



09 February 2021

VINTAGE (DLIII)
 
It's Immaterial - "New Moon"


 
(sequência daqui) Porém, coincidindo a publicação com o processo de encerramento da editora Siren – uma subsidiária da Virgin que Richard Branson, por esses dias mais interessado em projectos de aviação comercial, não hesitou em sacrificar –, seria por ela praticamente ignorado, e muito poucos o ouviriam. Voltaram ao estúdio de Malcolm para iniciar a gravação do que viria a ser House For Sale até ao dia em que à companheira de John Campbell foi diagnosticado cancro e tudo parou. Durante três décadas. John foi dando aulas de arte, em Liverpool, e Jarvis fundou uma escola de música. Há cerca de 6 anos, descobertas as fitas originais, reiniciaram o trabalho interrompido. Por pouco tempo: chegaria a vez de, desgraçadamente, Campbell ter também de enfrentar o demónio oncológico. Felizmente recuperado, House For Sale ficaria, enfim, concluído, financiado através de uma plataforma de "crowdfunding"... que, na pior altura, faliu. Transposto mais esse obstáculo, no início deste ano, o lendário “lost album” estava pronto a sair para a rua. Foi, então, que a pandemia surgiu. A vida tinha sido dura mas eles continuavam vivos. E, quando já se tornava difícil acreditar que alguma vez poderíamos chegsr a escutá-lo, ei-lo disponível na admirável Burning Shed (“run by artists for artists”)! Nunca seria caso para defender que o martírio é sempre recompensado mas valeu toda a pena esperar por esta magnífica continuação das atmosferas verdadeiramente imateriais de Song, laboriosamente depurada até à essência e feita de melodias de vidro finíssimo sobre aguarelas de céu, chuva e névoa. 

10 December 2020

DEPURAÇÃO

Quando Jarvis Whitehead e John Campbell, aliás, It’s Immaterial, intitularam o álbum de estreia Life’s Hard and Then You Die (1986) não podiam adivinhar que tinham encontrado a síntese tristemente exata para (quase) tudo o que o futuro lhes reservava. Co-produzido (não sem conflitos) por Jerry Harrison, dos Talking Heads, desse peculiar lugar de encontro entre pop, jazz, "spoken word", eletrónica, os vários minimalismos e a folk resultaria um sucesso totalmente inesperado, "Driving Away from Home", que, no momento em que trepava pelas tabelas de vendas britânicas e as rádios lhe estendiam passadeiras vermelhas, a editora deixou, indesculpavelmente, esgotar. Quatro anos depois, nos Castlesound Studios do mágico Calum Malcolm — que em A Walk Across the Rooftops (1984) e Hats (1989) já elevara os Blue Nile aos céus —, os dois ex-colegas de universidade atingiriam, subitamente, a perfeição: Song era um milagre de levitação de melodias e imagens impressionistas suspensas no tempo (“Yesterday I saw you, Main Street way, looking at the empty boarding houses and closed arcades. Well it’s funny, just to think, the tides now out and there is very little story to be found in the shops and buildings here”), instantâneos translúcidos simultaneamente frios e pungentes, “uma espécie de emoção controlada que nunca se liberta. A sensação de que está sempre algo à beira de acontecer na narrativa mas nunca acontece”, diria Campbell, à época.  (daqui; segue aqui)


 

26 July 2020

O DISCO QUE LHE FUGIU


No início de Junho, Neil Young publicou no seu site, Neil Young Archives, uma versão recente de "Southern Man" (“I saw cotton and I saw black, tall white mansions and little shacks, southern man, when will you pay them back? I heard screamin' and bullwhips cracking, how long? how long?”), originalmente do álbum de 1970, After The Gold Rush. E acompanhava-a com uma mensagem que, sem nomear George Floyd, era assaz explícita: “Aqui estou eu, um velho, a cantar uma canção com 50 anos, escrita após incontáveis anos de racismo nos EUA. E olhem para nós, hoje! Estas coisas acontecem há tempo de mais. Já não se trata apenas do ‘homem do Sul’. Acontece por todos os Estados Unidos. Chegou a altura de haver mudanças autênticas, novas leis e novas regras para a polícia”.



Em Janeiro passado, pouco depois de, finalmente, ter conseguido a nacionalidade americana, apressara-se a declarar o seu apoio à candidatura presidencial de Bernie Sanders. Alguns dias após a revisitação de "Southern Man" e já consumada a desistência de Sanders, voltaria ao site para, sob o título “Hope”, nos convidar a ser testemunhas das suas novas rotinas quotidianas: “Olá, estou a lavar a loiça. Agora, faço-o todas as manhãs e começo a gostar de cuidar da nossa linda cozinha. Não era costume ocupar-me muito com isto. Adoro deixar tudo limpo e a brilhar. Quando acabo, pego num produto de limpeza de que gosto especialmente, ‘Thieves’, e limpo todas as superfícies. Segundo parece, foi inventado por ladrões (“thieves”) porque lhes permitia cometer crimes, limpar todas as áreas e remover os vestígios. Um grande produto com uma história. O que nos traz à nossa História”. E, abrindo as janelas ao mundo lá fora, atirava-se ao que, verdadeiramente, importa: “Sinto que vem aí uma mudança. Sabemos que as vidas negras são importantes. O meu coração está com todas as famílias negras que foram afectadas, isto é, com todas as famílias negras através da História da América. Sou um velho branco e não me sinto ameaçsdo pelo meu irmão negro. Se o nosso presidente foi responsável por toda esta agitação, por ter atiçado as chamas e ter tentado virar-nos uns contra os outros por motivos políticos, não desistimos do combate por aquilo em que acreditamos. Não passa de um desgraçado líder que ergue muros em volta da nossa casa. Os meus irmãos e irmãs negras já sofreram que baste. A supremacia branca está a chegar ao fim mas não desaparecerá tão cedo. Pensem ou não que o irmão branco de Barack Obama irá ser capaz de lidar com esta situação, será ele, muito provavelmente, o nosso novo líder, fazendo regressar compaixão e empatia à Casa Branca. Que o Grande Espírito esteja com Joe Biden”. E concluía: “A loiça está quase no fim e é altura de limpar a bancada e deixá-la a brilhar para o dia que aí vem”.



Todo este cenário doméstico estava já presente, desde Março, nas “Fireside Sessions” que, filmadas pela mulher, Daryl Hannah, em diversos locais do rancho de ambos no Colorado durante a imposta quarentena, contara com públicos tão especiais como os seus cães rebolando-se na neve, e, na “Barnyard Session”, uma alpaca impertinente, um cavalo desatento e um irrequieto grupo de galinhas. Coisa, obviamente, muito caseirinha e informal mas completamente de acordo com a iminente publicação de Homegrown, um dos vários e míticos “lost albums” que os arquivos de Young contêm. Gravado entre Dezembro de 1974 e Janeiro de 1975 na qualidade de legítimo sucessor do clássico Harvest (1972), acabaria por ser preterido a favor do negríssimo Tonight’s The Night (1975), assombrado pelas mortes por "overdose" do guitarrista dos Crazy Horse, Danny Whitten, e do "roadie" e amigo, Bruce Berry ("I'm sorry. You don't know these people. This means nothing to you", escrevera ele numa nota da edição original).


Se a justificação oficial para a desistência de Homegrown é, hoje, a de se tratar de uma colecção de canções demasiado impregnada pela memória da separação da actriz Carrie Snodgress – “Peço-vos desculpa. Deveriam ter podido escutar este álbum alguns anos depois de ‘Harvest’. É o lado triste de uma relação amorosa. E dos estragos que fez. Não suportava ouvi-lo. Queria andar para a frente. Por isso, guardei-o para mim, escondi-o no cofre, deixei-o na prateleira, arrumei-o na memória... mas devia tê-lo partilhado. Na verdade, é muito bonito. Foi essa a razão por que o gravei. Por vezes, a vida dói. Sabem o que quero dizer. Este foi o disco que me fugiu” –, segundo uma lenda apócrifa, a ocultação durante 45 anos terá sido decretada numa noite de libérrimo convívio alimentada por estimulantes vários no Hotel Chateau Marmont (que Jarvis Cocker e Chilly Gonzales celebrariam em Room 29) durante a qual Rick Danko, Levon Helm, Richard Manuel (da Band) e elementos dos Crazy Horse, chamados a decidir, votaram a favor de Tonight’s The Night e contra Homegrown.



È muito provável que tenham tido razão: o que quase meio século depois escutamos é, sem dúvida, um belo naco do Neil Young folk-country e (maioritariamente) acústico mas não se trata de nenhum Smile ou Basement Tapes e, muito menos, peça capaz de se elevar à crueza das trevas de Tonight’s.... "Love Is A Ros"’ entraria, facilmente, para o cânone de Young, "Kansas" é uma delicada variação mais leve do que o ar sobre o tema “Hello I love you, won’t you tell me your name (“And it’s so good to have you sleeping by my side, although I’m not so sure if I even know your name”), "White Line" (com bordado de Robbie Robertson), "Try" e "Star of Bethlehem" (ambas vaporizadas pela voz de Emmylou Harris), e "Vacancy" (a deixar infectar-se pela electricidade das guitarras) vão pelo mesmo bom caminho. Mas a faixa-título e "Little Wing" são desesperantemente banais, "We Don’t Smoke It No More" demonstra exactamente o contrário do que afirma e "Florida" – um exercício de "spoken word" sobre cordas de piano friccionadas por copos de vidro – revela Young a candidatar-se ao lugar de um JG Ballard ganzado e a falhar redondamente. Acerca de perdidos e achados idênticos, Neil Young disse, uma vez: “Trabalho para a minha musa. Começo um álbum e as coisas correm umas vezes melhor, outras pior. Muitas vezes, não há uma boa razão para um disco ter ficado perdido pelo caminho. Gravei-o, passou por mim, alguma coisa me distraíu e esqueci-me do que tinha estado a fazer antes”. Homegrown não merecia o esquecimento mas não perdia nada com um desbaste dos ramos secos.

30 June 2020

Albums That Should Exist (II): Richard & Linda Thompson - The Bottom Line, New York City, 5-18-1982 (Early & Late Shows)