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21 August 2021


(sequência daqui) A primeira metade de "In The Stone", a faixa de abertura, engana. Dir-se-ia que, afinal, tudo teria permanecido sem grandes abalos. Mas, logo à frente, a liquidificação da guitarra eléctrica anuncia que novos ângulos irão ser explorados. E sê-lo-ão. Em "Tag", Riley Jones revela que se deixou voluntariamente influenciar pelos Psychic TV e Jeffrey Lee Pierce (Gun Club) e que, para "Desire", optou por Elvis, Keiji Haino e Kylie Minogue; Forster descreve "The Chance" como uma canção de Tim Hardin com um refrão das Hole e "Bathwater"enquanto vénia às Raincoats com uma batida disco e alusões aos Kiss e Blue Nile; e James Harrison fica-se por Jandek, Syd Barrett e Nick Drake. Mas, bem espiolhadas e analisadas uma a uma, encontrar-se-ão ainda vestígios – reais ou imaginários mas prontamente assumidos – de Throbbing Gristle aos "psych-rockers" japoneses dos anos 70, Les Rallizes Dénudés (famosos, entre outras proezas, por um dos seus elementos, militante da Red Army Faction, ter desviado um avião e pedido asilo político à Coreia do Norte), Royal Trux, Coil, The Stooges, Cocteau Twins, Jesus And Mary Chain, Fushitsusha, This Mortal Coil ou até (Riley, era mesmo necessário?...) a trafulhice psicanalítica de Jacques Lacan. Não resta a mais ínfima dúvida que Louis Forster, James Harrison e Riley Jones desejaram muito cortar o cordão umbilical que, para o bem e para o mal, os ligava à genealogia Go-Betweens. Essencial, então, é saber se, pelo meio da teia de referências e da utilização quase obsessiva do batalhão de sintetizadores de Geoff Barrow, das guitarras sobre-processadas e da sonoridade desmedida de percussões acústicas e electrónicas, tudo não terá resultado inutilmente sobrecarregado e excessivamente afastado da espontaneidade das "jams" na Fantasy Planet, de Brisbane, onde houve ainda tempo e espaço para, antes de chegarem às maquetes de Mirror II, gravarem um álbum “demasiado beefheartiano” e lançá-lo para o lixo.

24 November 2018

13 December 2012

08 July 2011

A MANSIDÃO E A IRA



Nick Cave - Let Love In, Murder Ballads, The Boatman’s Call, No More Shall We Part

Quando Matt Berninger, dos National, afirma que “nas nossas canções, existem, de certeza, trevas e melodrama mas também bastante humor e optimismo. Não estarão saturadas de felicidade mas isso também lá está. Descrevem-nos como lúgubres e depressivos mas temos também uma outra faceta que, por vezes, passa despercebida”, não temos razões para supor que ele não estará a dizer a verdade mas, sem dúvida, não seria exactamente aquilo que esperaríamos ouvir.



Já, no caso de Nick Cave, é preciso nunca ter escutado Murder Ballads (1996) para não duvidarmos por um segundo que, pelo meio de todo o devastador Sturm und Drang da discografia integral, fermenta um sentido de humor – negríssimo, ácido, psicótico, é verdade – que, deliberadamente, opera em sentido oposto aquele para que os primeiros indícios apontariam. É bem capaz de ser por isso que Murder Ballads nunca colheu a unanimidade dos fãs de Cave: não se admite que um soturno perfil de romantismo tardo-gótico (como em Byron, Shelley, Allan Poe ou Flannery O’Connor e não Sisters Of Mercy) tão desveladamente alimentado, possa ser assim demolido pelo próprio criador, numa épica "opera buffa gore", repleta de assombrosa violência de "cartoon" e um fabuloso elenco de 64 cadáveres (mais Kylie Minogue, no papel da Ophelia, de John Everett Millais, e PJ Harvey e Shane MacGowan e uma versão de "Death Is Not The End", de Dylan, que diz precisamente o contrário do que parece).



Mas que, não por acaso, é um dos mais indiscutivelmente excelentes álbuns de Cave & Bad Seeds, portentosa multinacional musical cujo PREC (Processo de Reedição Em Curso), entra, agora, no terceiro quarto da sua carreira – entre 1994 e 2001 –, com todos os habituais bombons para coleccionador: remasterização, faixas/versões inéditas, videoclips, raridades, filmes-colecção-de-depoimentos-abonatórios, etc. Imediatamente antes de Murder Ballads, viera Let Love In (1994), muito provavelmente, a gravação que corporiza a melhor síntese entre a fase anterior a The Good Son (1990), toda ela Inferno & Apocalipse, e a posterior reconfiguração clássica de tudo isso, em expedição de redescoberta dos contornos da canção, uma espécie de incubadora de monstros ("Red Right Hand", "Do You Love Me?", "Nobody’s Baby Now") morbidamente sedutores, da qual, haveriam de sobrar "O’ Malley’s Bar" e "Song Of Joy" para o álbum seguinte.



The Boatman’s Call (1997), resolve a disputa entre estrondo e melodia, demência e melancolia, pela vitória (sempre precária) dos mansos sobre os irados, em registo de câmara ("Into My Arms", "People Ain’t No Good", "Far From Me"), que, quatro anos depois, No More Shall We Part, repetiria com o tipo de profundidade de campo (responsável principal: o violinista Warren Ellis) que associamos a Scott Walker e Leonard Cohen. Não custa muito a entender o motivo por que, após o corrente “desvio”-Grinderman, Nick Cave comece a confessar saudades dos Bad Seeds.

(2011)

06 September 2010

A PROFESSORA BRUNA E A JULIANNE MOORE BEM PODERIAM APRESENTAR UMA PROPOSTA PARA A GEMINAÇÃO DE VENEZA E MIRANDELA



"Veneza censura nudez de Julianne Moore: Um anúncio publicitário da marca Bulgari com Julianne Moore como protagonista foi impedido de ‘ver a luz do dia’ pelo presidente da câmara de Veneza, alegadamente por ser demasiado arrojado".






Não se conhece ainda a reacção de Berlusconi mas imagina-se que esteja, muito justificadamente, chocado. Seja como for, era de não deitar a perder a hipótese de um festival de cinema em Mirandela.






E as assessorias da Kylie Minogue e da Dita Von Teese seriam sempre bem-vindas.




The Perrier Mansion (video integral aqui)

(2010)

06 April 2010

"DESCOBRI QUE AQUELA FIGURA SE CHAMAVA ELIZABETH SIDDAL"


"Foi uma paixão pela imagem, pelo quadro da 'Ofélia', do [John Everett] Millais (1851-52). Uma grande paixão, um 'coup de foudre'. Essa imagem acompanhou-me sempre. E depois [continuou] durante a vida, sempre com a minha fortíssima anglofilia a dominar sobre a minha formação românica, francesa. Tem sido sempre assim e isso é uma coisa boa que me tem acontecido: como não é uma cultura académica, é sempre uma descoberta pessoal, não vai orientada por ninguém. Aos poucos, com todo o século XIX inglês, fui descobrindo a existência de personagens. Descobri que aquela figura se chamava Elizabeth Siddal. Foi um encontro continuado que se foi aprofundando.

"Ophelia", John Everett Millais, 1851-52

Mas tenho esse encontro com muita gente, com Emily Brontë [escritora inglesa do século XIX], com Isadora Duncan [bailarina americana do final do século XIX], pessoas minhas, da minha vida, do meu dia-a-dia. Pessoas com as quais estou, muito naturalmente. Depois, à medida que fui aprofundado, a história começou a transformar-se numa história de amor extraordinária. Chegou a altura em que também, sem qualquer objectivo, por pura curiosidade, como leio todas as coisas que se referem à Inglaterra do século XIX, cheguei às biografias. Por acaso, a primeira até era uma biografia francesa do Dante Gabriel Rossetti, e deparei-me com esta história de amor lindíssima. Fui por aí fora, nos trabalhos biográficos sobre os pré-rafaelitas, que são muitos. E descobri uma segunda coisa fascinante, dava-me a impressão de que eles não percebiam nada. (...)



Toquei, com a mão, na única folha que chegou até nós, do caderno que foi enterrado [Dante Gabriel Rossetti enterrou os seus versos nos cabelos de Lizzie]. (...) Isso é material altamente reservado, tal como a madeixa do cabelo de Rossetti, que está em Cambridge. Consegui que uma amiga (e os amigos não precisam de ser de grande convívio, mas de grandes gestos) do British Council, Carolina Trewinnard, escrevesse uma carta de recomendação que me deu acesso a estas relíquias absolutas: cartas, o cabelo e essa folha. Fiz toda a pesquisa com o meu namorado, uma pesquisa a dois. A recomendação da British Library foi que só uma pessoa podia folhear e sob alta vigilância. (...) É claro que não obedecemos. [risos] Vieram ralhar-nos! Nós não só mexíamos - era impossível não passar a mão -, como ainda nos deu aquela coisa de cheirar. Queríamos saber se a folha cheirava a alguma coisa. Foi aí que a senhora veio ralhar, ralhar, e praticamente fomos expulsos! Os investigadores não fazem aquelas coisas". (entrevista integral aqui)

(2010)

27 November 2008

DAQUI NINGUÉM SAI VIVO


Nick Cave & The Bad Seeds - Murder Ballads

Anjo negro dos mundos subterrâneos ou príncipe "junkie" das trevas, Nick Cave nunca dissimulou a sua predilecção pelos temas de recorte gótico, de preferência com generosa exibição de lâminas afiadas e abundante derramamento de sangue. O palco podia situar-se nos assombrados pântanos do Sul americano ou nos corredores da morte mas o argumento que alimentava cada uma das suas canções era sempre o mesmo teatro do grotesco, excessivo e, às vezes, caricatural. A personagem-Nick Cave (amplificada por uma recente biografia onde o artista-enquanto-jovem é apresentado como um dostoievskiano psicótico, solitário, heroinómano e irrascível) estava suficientemente afirmada e, mesmo após a inflexão como "crooner" apocalíptico encenada a partir de The Good Son, parecia conter as doses convenientes de dramatismo e convicção. Faltava só conhecer a devastadora componente de feroz humor negro que, nos bastidores, ia arrasando o cenário cuidadosamente montado. Na verdade, ela estava lá, desde o início, mas, em Murder Ballads, uma colecção de dez canções há muito prometida e agora publicada, dedicada ao homicídio como uma das belas-artes, revela ser não apenas o motor narrativo de um óptimo disco como a essência de um cómico irresistível.



Escrever nas paredes com o sangue de uma seringa, investir, de cabeça, em palco, contra a bateria até ela ficar vermelha de hemoglobina ou autorizar os fãs a espetarem-lhe agulhas de vudú durante os espectáculos, terão sido tanto gestos de uma catarse desatinada como variações privadas sobre o modelo do "stand-up comedian". Murder Ballads, entretanto, não deixa muitas dúvidas quanto ao facto de privilegiar esta última dimensão. Numa gloriosa paródia contemporânea sobre aquela literatura popular de cordel que não sabe viver sem os temas de faca e alguidar (no caso, a tradição anglo-americana das "murder ballads"), exige que se encare cada canção como aquilo que, neste contexto, acima de tudo, ela é: um delirante exercício de estilo carregado de sarcasmo onde as personagens resultam sempre melhor quando desenhadas a traço negro e grosso.


É bastante educativa uma viagem "à vol d'oiseau" pelo roteiro. A quase beethoveniana "Song Of Joy" inicial abre, como se impõe, com as palavras "Have mercy on me, sir, allow me to impose on you, I have no place to stay and my bones are cold right through". Logo a seguir (após o extermínio gráfico de uma família inteira à sombra de citações do Paradise Lost, de Milton), o mítico Stagger Lee, garanhão da história dos blues, renasce numa encarnação em que confessa "I'll crawl over fifty good pussies just to get to one fat boy's asshole", em saborosa inversão da lenda. Três homicídios mais tarde (e depois de afogada Kylie Minogue no lodo para comprovar que "all beauty must die"), em "The Curse Of Millhaven", Lottie, uma loira criança com uma boquinha linda escondida pela espuma do ódio, degola os habitantes da aldeia natal, inspirada pelos piedosos ensinamentos bíblicos da mamã que lhe explicara que todas as criaturas de Deus têm de morrer. Carregada de remorsos, evidentemente, quando o longo braço da lei, finalmente, a detém: "There's so much more I could have done if they'd let me!" Segue-se uma lição de moral oferecida às meninas que ninguém advertiu acerca dos perigos de acompanhar estranhos e outra história de armas fumegantes, mas nada nos poderia preparar para os épicos treze minutos de "O'Malley's Bar": mil vezes mais sanguinolento do que qualquer filme de Tarantino e com um rol de vítimas inocentes infinitamente superior, sobre uma cavalgada heróica dos Bad Seeds, desenha em cinemascópio o rasto de sangue de um "serial killer" narcisista ("Ive been known to be quite handsome, from a certain angle and in a certain light").



Por entre pólvora e disparos trovejantes, há debates filosóficos em torno do livre arbítrio, casuais conversas de vizinhos, visões de Francisco de Assis e de S. Sebastião trespassado de flechas, cabeças e tripas voando sobre pilhas de pratos sujos e, no final, um grande plano do protagonista vaidoso contando pelos dedos o número de baixas por que foi responsável, enquanto os megafones da polícia sibilam. Consideravelmente melhor que qualquer Desperado e, visualmente (proeza de tomo numa canção), muito mais eloquente, é o ponto final antes do posfácio: uma versão de "Death Is Not The End", de Bob Dylan, admissão derradeira de que, por mais amaldiçoada que tenha sido a existência (preparai-vos, profetas do suicídio!), a morte não põe fim a tudo. Se calhar, depois dela, tudo será ainda pior!... É o momento para o grande final em que aparecem ou regressam todos os convidados ilustres desta fantástica banda-desenhada inscrita na tradição folk (PJ Harvey, mais-Cave-do-que-Cave em "Henry Lee", Shane MacGowan, Anita Lane e Kylie Minogue) de onde, pela mão de Nick Cave e dos Bad Seeds e sob o omnipresente espectro de um Leonard Cohen que tivesse vendido a alma ao Diabo, ninguém, rigorosamente ninguém, sai vivo. Comédia "gore" do ano.

(1996)

26 November 2008

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (VIII)

EDIÇÃO ESPECIAL: SIX FEET UNDER EM VERSÃO INDÍGENA
(RTP-1, reportagem "A Alma do Negócio", hoje, às 21.00 h)


Monty Python - "The Meaning Of Life"

Responsável da mega-funerária Servilusa: "O funeral é um momento irrepetível e único"

Povo à saída do funeral:

"Gostei muito..."
"Então não fica para outro?"

"Gostei da reza"
"Gostou do tercinho, ontem?"
"Gostei, diz-se muito em poucas palavras, não aborrece..."

No carro funerário, a caminho do cemitério: "Depois, a seguir, o padre tem um baptizado, ali em Nogueira..."

Rita Pires, proprietária de agência funerária, em Bragança: "Era preciso cantar, era preciso rezar, eu não estava habituada... padres há poucos, comecei a comprar livros, a comprar CDs"; "eu, quando dou por mim, as lágrimas estão a correr... eu sei que é trabalho mas também tenho sentimentos".


Nick Cave, Kylie Minogue & Shane MacGowan - "Death Is Not The End"

(2008)