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26 September 2025

(sequência daqui) Disco 3: É aqui que as canções que conhecemos de Five Leaves Left começam a ganhar forma. Há versões iniciais de "River Man", "Cello Song' e "Fruit Tree", algumas sem os ricos arranjos de cordas de Robert Kirby, outras com afinações diferentes. Até as canções mais conhecidas soam diferentes aqui — menos polidas, mas mais emocionalmente expostas. Testemunhamos a luta entre a visão de Drake e as limitações dos estúdios da época. 

Disco 4: O quarto e último disco é a versão remasterizada do próprio Five Leaves Left. Continua a ser um álbum de estreia notável, repleto de uma beleza melancólica. Canções como "Day Is Done", "Man In A Shed" e "Saturday Sun" não perderam nenhuma da sua força. A própria embalagem é elegante e discreta com aspecto de peça de arquivo, mas que se deixa folhear como um diário antigo, com notas manuscritas e manchas de café. Esta compilação conta uma história sem a explicar demasiado. Em vez disso, convida-nos a aproximar e ouvi-la e a descobrir o génio oculto de um miudo ainda em busca de quem era. Terminaria a jornada em 1974 por suicídio/overdose acidental nunca suficientemente esclarecidos. O produtor de Drake, Joe Boyd, descreveria a gravação de Five Leaves Left como estando repleta de "esperança e possibilidade". O que podemos ainda pressentir hoje encontra-se aqui.

19 September 2025

 
(sequência daqui) Foi pelo final dos anos 80 que a reabilitação da obra de Nick Drake teve início com ponto de partida na retrospectiva de Len Brown no "NME" (1989) que considerava Five Leaves Left"uma obra prima da melancolia britânica". Sucessivamente reinvindicada por inúmeros músicos como fonte de inspiração, este boxset de 4 CD agora publicado - The Making of Five Leaves Left -, leva-nos a mergulhar no mundo criativo inicial de Nick Drake. Oferece uma visão reveladora sobre a forma como o álbum de estreia de Drake de 1969, foi concebido, desde os esboços iniciais e as faixas descartadas até à obra final remasterizada. Descoberto por Ashley Hutchings (Fairport Convention') e contratado pela produtora Witchseason de Joe Boyd, Drake ver-se-ia confinado ao estatuto de "artista folk". Five Leaves Left, gravado com um orçamento mínimo em 1969, contava com a participação de músicos que tinham contribuído para a criação do folk rock. No entanto, o seu era um estilo de folk rock muito diferente, com uma pincelada de jazz. Cantadas em tom semi-sussurrado, as canções eram impulsionadas por aquilo que tinha atraído Boyd para Drake: o estilo de guitarra de afinação aberta, tocado de forma particular. (segue para >aqui)

25 February 2025

"Arrows"
 
(sequência daqui) Aconteceu a 21 de Novembro passado quando, na sua conta do Facebook, exclamou: "The Hank Dogs estão de volta! Uma das minhas bandas preferidas da Hannibal Records, em silêncio há quase 25 anos, têm um novo álbum - Fiveways - na Scratchy Records e é fantástico". Na verdade, os Hank Dogs haviam publicado Bareback (1998) e Half Smile (2002) pela Hannibal mas, perante o desinteresse do pouco respeitável mercado, cessariam a actividade. Antes, porém, gravariam um álbum que nunca sairia da gaveta, este agora, enfim lançado, Fiveways. O "pedigree" do trio era tudo menos previsível numa banda de raiz folk: Andy Allan fora o suplente de Sid Vicious nos Sex Pistols, Lily Ramona era filha de Allan e de uma das Slits e o pai de Allan fora o inventor do programa de TV "Ready Steady Go!". Fiveways é, contudo, puríssimo folk-rock de perfil minimalista, uma imponderável filigrana de transparências, algo como uns Pentangle severamente austeros.

23 February 2025

FOLK-ROCK MINIMALISTA


Se há personagem que, sem a mais ínfima molécula de dúvida, deverá ser objecto de incondicional veneração por parte da Internacional Melómana é Joe Boyd. É o mínimo devido a quem, enquanto produtor, editor, autor e "olheiro", foi um silencioso motor por trás das carreiras de Fairport Convention, Sandy Denny, Richard (& Linda) Thompson, Pink Floyd, Nick Drake, The Incredible String Band, R.E.M., John and Beverley Martyn, Kate & Anna McGarrigle, Billy Bragg, 10 000 Maniacs, Shirley Collins, Fotheringay, Albion Band, Dagmar Krause, Mary Margaret O'Hara e June Tabor. Mas também um dos fundadores do lendário UFO, clube da Londres psicadélica, o criador da etiqueta Hannibal Records (1980/1998) e autor de White Bicycles: Making Music in the 1960s (2007), segundo Brian Eno, "O melhor livro sobre música desde há muitos anos". Razões mais do que suficientes para que, quando ele se entusiasma com alguma coisa, lhe prestemos atenção. (daqui; segue para aqui)

"Logic"

28 August 2011

A ETIQUETA


















Kate & Anna McGarrigle - Tell My Sister

Paira sobre a folk uma espécie de aura de santidade que, desde sempre, tem muito a ver com um rosário de “bons valores” partilhados – com óptimas e péssimas razões – por um considerável número de almas no mundo inteiro: o regresso à “essencialidade” e à “pureza” mais ou menos rurais que, supostamente, as gigantescas metrópoles esqueceram e aniquilaram; a expressão verdadeiramente “autêntica” do espírito de povos e grupos sociais, esmagada pelos demónios do cosmopolitismo; e, em particular na música anglo-americana, a intervenção político-social que, desde o "folk-revival" dos anos 50/60 do século passado, na oposição à guerra do Vietname e através da participação nos movimentos dos direitos cívicos, lhe ofereceu a medalha de respeitabilidade que se conquista na luta pelas causas justas.

Significa isto que, independentemente da muita e excelente música (acústica e eléctrica) que, das diversas vagas folk, emergiu, foi sempre muito mais fácil dispor, à partida, de pontos-extra de credibilidade se a etiqueta folk viesse associada (de que o "hype" ainda recente do "free-folk" é esclarecedor exemplo). O que, como o caso das irmãs canadianas, Kate e Anna McGarrigle, demonstra, não é, necessariamente, sinónimo de sucesso comercial nem de relevância artística. Pequeno culto de alguns (posteriormente, algo reavivado pelo facto de Kate – falecida no ano passado – ser mãe de Rufus e Martha Wainwright) e com venerandos padrinhos e fãs da estirpe de Joe Boyd, Judy Collins, Nick Cave ou Lou Reed, a verdade é que a música das manas McGarrigle (de que, agora, se reeditam os dois primeiros álbuns - Kate & Anna McGarrigle, 1975, e Dancer With Bruised Knees, 1977 - acompanhados dos proverbiais bónus) raramente foi mais do que uma amável destilação pop/folk/country em registo de harmonias vocais de catequese, límpidas, cristalinas e, na maioria das vezes, sumamente banais e repetitivas.

(2011)

08 September 2010

MINOR-KEY, MID-TEMPO, ENIGMATIC, 
SEMI-FOLK-ROCK-BALLADISH THINGS



R.E.M. - Fables Of The Reconstruction (reedição CD duplo)

Quando uma banda de longo curso permanece suficiente tempo em actividade para atingir o estatuto – simultaneamente confortável e perigoso – tecnicamente designado por "fazer parte da mobília", pode facilmente acontecer que deixe de se lhe prestar a atenção que, justamente, merece e que apenas por reflexo nostálgico, aqui e ali, o seu nome e obra venham, episodicamente, à conversa.



Com três décadas de existência este ano celebradas, os R.E.M. não entraram ainda na categoria das respeitáveis e queridas múmias (apesar de veteranos e não exactamente marginais, a aura original de criaturas "cool" e pioneiros da cena rock-alternativa dos EUA permanece-lhes colada), mas nem toda a gente se recordará instantaneamente que, não só muito poucos outros restam da geração, deles contemporânea, que empurrou o rock norte-americano para fora dos cuidados intensivos (Long Ryders, True West, Dream Syndicate, Jason & The Scorchers, Violent Femmes, onde andam?), como, para além das duas ou três glórias que o p.o.v.o. reconhece de imediato, lhes devemos um riquíssimo baú de preciosidades sempre eminentemente revisitáveis (favorito pessoal: melhor canção com o melhor videoclip de sempre – "Imitation Of Life").



E, acima de tudo, a imaculada série dos cinco primeiros álbuns gravados – assiduamente, um por cada ano – para a IRS: Murmur (1983), Reckoning (1984), Fables Of The Reconstruction (1985), Lifes Rich Pageant (1986) e Document (1987). Uma vez interrogado acerca de como caracterizaria a música do grupo, Peter Buck respondeu: “Minor key, mid-tempo, enigmatic, semi-folk-rock-balladish things”. Ao terceiro álbum, escolhendo como produtor o lendário Joe Boyd – "sound designer" supremo do folk-rock britânico –, a música dos R.E.M., sem deixar de corresponder a essa definição, adquiria profundidade, detalhe sonoro e densidade muito superiores. A escuta do segundo CD com as demos iniciais a que Boyd daria o acabamento final serve para demonstrar isso mesmo.

(2010)

09 September 2008

MÚLTIPLO



Down The Tracks: The Music That Influenced Bob Dylan - DVD real. Steve Gammond

Os infinitos “eus” em que a personalidade de Bob Dylan se fractura – e que foram a própria matéria de I’m Not There, de Todd Haynes – parecem ser virtualmente inesgotáveis. Poder-se-ia pensar que, depois de No Direction Home, de Scorsese, do primeiro volume das suas Chronicles e de todo o dilúvio de publicações sobre Dylan que, nos últimos anos, se multiplicaram, pouco mais haveria a acrescentar no processo de decifração da personagem.


Blind Willie McTell - "Wabash Cannonball"

Down The Tracks não vem lançar nenhuma luz fulgurantemente reveladora sobre o tema – muito do material de arquivo, por ser o único que existe, já o conhecemos de outras origens – mas, através dos depoimentos e participações de músicos, produtores e autores como Lawrence Cohen, Michael Marquese, Pete Seeger, Tom Paley, Jolie Holland, Joe Boyd, Martin Carthy, Sid Griffin ou The Handsome Family, ajuda francamente a arrumar e sistematizar diversas peças soltas do puzzle da música e da cultura americanas (dos “beats” a Leadbelly, Hank Williams, Woody Guthrie, Blind Willie McTell ou à Anthology, de Harry Smith) que, com decisivas interferências externas (caso da poesia de Rimbaud), ajudaram à transformação de Robert Allen Zimmerman no múltiplo Bob Dylan.

(2008)