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06 November 2022

23 January 2018

JUNTAR PEÇAS

  
Em 1967, Philip Larkin escrevia “Sexual intercourse began in nineteen sixty-three (which was rather late for me), between the end of the ‘Chatterley’ ban and the Beatles' first LP”. Embora já umas quantas décadas mais tarde, um miúdo belga de treze anos, ao passar os olhos por Lady Chatterley’s Lover, de Lawrence, também não evitou deter-se numa passagem da carta de Oliver Mellors a Connie: “My soul softly flaps in the little Pentecost flame with you, like the peace of fucking. We fucked a flame into being. Even the flowers are fucked into being between the sun and the earth”. E ficou com a certeza de que aquela frase – “We fucked a flame into being” – poderia ser a semente para um disco. Dezasseis anos depois, Maarten Devoldere, a bordo de um rebocador de Ghent, criaria We Fucked A Flame Into Being, primeiro álbum do quase "nom de plume", Warhaus. “Tinha o título antes de ter a música”, recordou ele, em 2016, quando a gravação foi publicada. 



E, agora que Warhaus se converteu igualmente em título do segundo volume desta discografia paralela (supostamente, o "day job" de Devoldere será os Balthazar), ele alonga-se em explicações acerca de como aquela peculiar colisão de Serge Gainsbourg, Leonard Cohen, Nick Cave e outras férteis moléculas inspiradoras é encaminhada para a sua música: “Não sei se pode chamar-se compor ao que faço. Vou juntando peças e tento que soe como se eu controlasse tudo mas, se escutarem com atenção, estou completamente perdido... Gosto de compor enquanto faço 'jogging'. Gravo as ideias no meu iPhone e saem muito ofegantes. Fica bem um pouco de drama, aqui e ali. Levo 4 semanas para aprender um acorde novo na guitarra. Fiz as contas e imagino que precisarei de 23 anos para dominar todos os acordes de jazz. Tenho tempo, tenciono viver até tarde. Fujo das drogas e do ioga”. E, ponto de partida: “Se existirem três discos de que gostemos mesmo muito, é o suficiente para formar uma banda. Quatro já é demasiado complicado para um espírito criativo lidar com tanta informação”. Talvez. Mas a verdade é que, aos princípios activos já identificados, poderia facilmente acrescentar-se alguma ferruginosa estridência de Tom Waits ou um John Barry arábico filtrado pelo antiquíssimo trip hop. A dividir pelas vozes de Maarten e Sylvie Kreusch, a Birkin/Anita Lane deste Gainsbourg/Cave. 

11 February 2015

24 February 2014

07 March 2009

1995, ANO GAINSBOURG


Anita Lane - "The World's A Girl"


Mick Harvey (featuring Anita Lane) - Intoxicated Man

No primeiro álbum de Anita Lane, Dirty Pearl, já se podia escutar "The World's A Girl", que dá título ao seu novo single. Mas o que, aqui, realmente conta é a faixa que, de certo modo, assinala a consagração do quase ano-Gainsbourg em que, inesperadamente, 1995 se está a converter. Depois da versão "oculta" de "Bonnie and Clyde" pelos Luna e Laetitia Sadier (Stereolab) em Penthouse, neste CD-single, Lane e Nick Cave procedem à troca de fluídos corporais ao som de "Je T'Aime, Moi Non Plus" convertido em "I Love You, Nor Do I", exercício de tantrismo existencialista, com Lane - voz oficial e suprema da sedução - nada inferior à original Jane Birkin.



É, porém, em Intoxicated Man, que a evocação de Serge Gainsbourg ganha um fôlego maior: dezasseis canções do "presque-Bukowski" da canção francesa traduzidas para o inglês por Mick Harvey e, em considerável percentagem, "featuring Anita Lane". A afinidade entre Gainsbourg, Harvey e a seita Cave/Bad Seeds em geral não andará muito longe daquela ideia oferecida por Woody Allen numa entrevista em que alguém lhe perguntava se o sexo era uma coisa suja e ele respondia "Only if it's good". Uma outra poderia ser a que eventualmente acontece entre um conjunto de anteriores estetas do ruído branco que a evolução "natural" converteu à matriz da canção clássica condimentada pelo mergulho na vertente assombrada do mundo, e alguém como Gainsbourg que, do outro lado da Mancha, tratava esse idioma por tu.



No caso, tudo se inicia como deve por "69 Erotic Year", acelera o andamento com "Harley Davidson" e, de "Sex Shop" a "Overseas Telegram", "The Song Of Slurs", "Lemon Incest", "New York USA" e "Initials B.B.", gera o tipo de disco em que o autor (que, na capa e contracapa, nos observa através de um copo de vinho meio vazio) nunca poderá ser ascusado de "tradução" como sinónimo de "traição". Barroco - os arranjos de Bernard Burgalat fazem muito por isso - sensual e admiravelmente decadente, Intoxicated Man é fundamental e obrigatório.

(1995)

06 March 2009

ANITA LANE


c/ Barry Adamson - "These Boots Are Made For Walkin'"



c/ Blixa Bargeld - "Subterranean World"

(2009)

27 November 2008

DAQUI NINGUÉM SAI VIVO


Nick Cave & The Bad Seeds - Murder Ballads

Anjo negro dos mundos subterrâneos ou príncipe "junkie" das trevas, Nick Cave nunca dissimulou a sua predilecção pelos temas de recorte gótico, de preferência com generosa exibição de lâminas afiadas e abundante derramamento de sangue. O palco podia situar-se nos assombrados pântanos do Sul americano ou nos corredores da morte mas o argumento que alimentava cada uma das suas canções era sempre o mesmo teatro do grotesco, excessivo e, às vezes, caricatural. A personagem-Nick Cave (amplificada por uma recente biografia onde o artista-enquanto-jovem é apresentado como um dostoievskiano psicótico, solitário, heroinómano e irrascível) estava suficientemente afirmada e, mesmo após a inflexão como "crooner" apocalíptico encenada a partir de The Good Son, parecia conter as doses convenientes de dramatismo e convicção. Faltava só conhecer a devastadora componente de feroz humor negro que, nos bastidores, ia arrasando o cenário cuidadosamente montado. Na verdade, ela estava lá, desde o início, mas, em Murder Ballads, uma colecção de dez canções há muito prometida e agora publicada, dedicada ao homicídio como uma das belas-artes, revela ser não apenas o motor narrativo de um óptimo disco como a essência de um cómico irresistível.



Escrever nas paredes com o sangue de uma seringa, investir, de cabeça, em palco, contra a bateria até ela ficar vermelha de hemoglobina ou autorizar os fãs a espetarem-lhe agulhas de vudú durante os espectáculos, terão sido tanto gestos de uma catarse desatinada como variações privadas sobre o modelo do "stand-up comedian". Murder Ballads, entretanto, não deixa muitas dúvidas quanto ao facto de privilegiar esta última dimensão. Numa gloriosa paródia contemporânea sobre aquela literatura popular de cordel que não sabe viver sem os temas de faca e alguidar (no caso, a tradição anglo-americana das "murder ballads"), exige que se encare cada canção como aquilo que, neste contexto, acima de tudo, ela é: um delirante exercício de estilo carregado de sarcasmo onde as personagens resultam sempre melhor quando desenhadas a traço negro e grosso.


É bastante educativa uma viagem "à vol d'oiseau" pelo roteiro. A quase beethoveniana "Song Of Joy" inicial abre, como se impõe, com as palavras "Have mercy on me, sir, allow me to impose on you, I have no place to stay and my bones are cold right through". Logo a seguir (após o extermínio gráfico de uma família inteira à sombra de citações do Paradise Lost, de Milton), o mítico Stagger Lee, garanhão da história dos blues, renasce numa encarnação em que confessa "I'll crawl over fifty good pussies just to get to one fat boy's asshole", em saborosa inversão da lenda. Três homicídios mais tarde (e depois de afogada Kylie Minogue no lodo para comprovar que "all beauty must die"), em "The Curse Of Millhaven", Lottie, uma loira criança com uma boquinha linda escondida pela espuma do ódio, degola os habitantes da aldeia natal, inspirada pelos piedosos ensinamentos bíblicos da mamã que lhe explicara que todas as criaturas de Deus têm de morrer. Carregada de remorsos, evidentemente, quando o longo braço da lei, finalmente, a detém: "There's so much more I could have done if they'd let me!" Segue-se uma lição de moral oferecida às meninas que ninguém advertiu acerca dos perigos de acompanhar estranhos e outra história de armas fumegantes, mas nada nos poderia preparar para os épicos treze minutos de "O'Malley's Bar": mil vezes mais sanguinolento do que qualquer filme de Tarantino e com um rol de vítimas inocentes infinitamente superior, sobre uma cavalgada heróica dos Bad Seeds, desenha em cinemascópio o rasto de sangue de um "serial killer" narcisista ("Ive been known to be quite handsome, from a certain angle and in a certain light").



Por entre pólvora e disparos trovejantes, há debates filosóficos em torno do livre arbítrio, casuais conversas de vizinhos, visões de Francisco de Assis e de S. Sebastião trespassado de flechas, cabeças e tripas voando sobre pilhas de pratos sujos e, no final, um grande plano do protagonista vaidoso contando pelos dedos o número de baixas por que foi responsável, enquanto os megafones da polícia sibilam. Consideravelmente melhor que qualquer Desperado e, visualmente (proeza de tomo numa canção), muito mais eloquente, é o ponto final antes do posfácio: uma versão de "Death Is Not The End", de Bob Dylan, admissão derradeira de que, por mais amaldiçoada que tenha sido a existência (preparai-vos, profetas do suicídio!), a morte não põe fim a tudo. Se calhar, depois dela, tudo será ainda pior!... É o momento para o grande final em que aparecem ou regressam todos os convidados ilustres desta fantástica banda-desenhada inscrita na tradição folk (PJ Harvey, mais-Cave-do-que-Cave em "Henry Lee", Shane MacGowan, Anita Lane e Kylie Minogue) de onde, pela mão de Nick Cave e dos Bad Seeds e sob o omnipresente espectro de um Leonard Cohen que tivesse vendido a alma ao Diabo, ninguém, rigorosamente ninguém, sai vivo. Comédia "gore" do ano.

(1996)