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02 January 2017

FALTAS JUSTIFICADAS


É um aborrecimento. Ninguém quer ir abrilhantar a cerimónia de inauguração da presidência de Donald Trump. Elton John escusou-se alegando que é inglês, não tem nada a ver com a política norte-americana, não joga na equipa dos Republicanos e já tinha, aliás, protestado contra a utilização da sua canção "Rocket Man" na campanha eleitoral. Com justificações várias, outras vedetas nem sequer particularmente politizadas ou militantes – Celine Dion, Andrea Bocelli, Garth Brooks – pediram dispensa. Em pânico, o "staff" de Trump, contratou Suzanne Bender (produtora de êxitos de televisão como “American Idol” e “America’s Got Talent”) para a específica missão de recrutar celebridades. O alvo eram espécimes como Justin Timberlake, Katy Perry, Beyoncé e Bruno Mars. Mas, se em relação ao apolítico Mars ainda poderiam sonhar, os restantes, sonoros apoiantes de Hillary Clinton, eram óbvios tiros na água. Nada feito: mesmo com garantia de cachets chorudos e futuras honrarias, nenhum aceitou. Um bocadinho mais humilhante foi a não comparência de uma única "marching band" das escolas públicas de Washington D.C. que haviam participado nas cinco últimas inaugurações presidenciais: aparentemente, os miúdos não manifestaram interesse em desfilar pela Pennsylvania Avenue festejando Trump. 



E, assim, indo pela cadeia alimentar das notabilidades abaixo, o elenco encontra-se reduzido à equipa B dos Beach Boys (sem Brian Wilson nem Al Jardine), a uma ex-concorrente do “America’s Got Talent”, Jackie Evancho, e ao Mormon Tabernacle Choir, essa veneranda instituição da pitoresca seita religiosa que acredita num Deus residente no planeta Kolob e apenas em 1978 se resignou a admitir negros no seu seio. A cerejinha no topo do bolo seriam, porém, as manobras de pressão para que a companhia feminina de dança do Radio City Music Hall, The Rockettes (que, curiosamente, também só integrou bailarinas afro-americanas a partir de 1987), se apresentasse ao serviço. Inicialmente pressionadas pela AGVA – o sindicato (!) dos artistas de variedades – com ameaças de despedimento, perante o protesto público de muitas (“Seria chocante actuarmos para um homem que defende tudo aquilo a que nos opomos”), ficou acordado que somente seriam convocadas aquelas que, livremente, o desejassem. O que, naturalmente, não evitou que, de imediato, se comentasse quão apropriado seria, na tomada de posse de Trump, haver um grupo de mulheres obrigadas a usar o corpo contra a sua vontade...

26 May 2016

HOOKERS 


Goffin & King. Leiber & Stoller. Holland-Dozier-Holland. Bacharach & David. Lerner & Loewe. Rodgers & Hammerstein. Os fabricantes de êxitos pop, actuando autonomamente ou no interior de linhas de montagem de feição industrial – Tin Pan Alley, Brill Building, Tamla Motown – estiveram sempre muito mais próximos do modelo-Vivaldi (aviando, por encomenda, 500 concertos, 40 cantatas, 22 óperas, e mais de 60 peças de música sacra) do que do artista romântico oitocentista, obcecado com a expressão individual de emoções e sentimentos. Mas teriam de passar ainda algumas décadas até que as "hit machines" atingissem o elevadíssimo grau de sofisticação produtiva actual que John Seabrook descreve em The Song Machine: Inside The Hit Factory. Produtividade é, de facto, a palavra-chave. 

Katy Perry - "Californis Gurls" (prod. Max Martin)

Numa época em que os lucros da indústria discográfica encolheram até menos de metade do pico em 1999, nenhum detalhe pode ser descurado: se os programadores das rádios de Top 40 garantem que um ouvinte médio apenas concede 7 segundos de atenção a um tema antes de mudar de estação, então, é indispensável que as "playlists" se apresentem como “ruas de meninas” de Amesterdão, nas quais cada canção exibe um "hook" (motivo rítmico-melódico orelhudo) na introdução, outro antes do refrão, outro no próprio refrão e ainda outro na ponte. O objectivo é publicar material “de dimensão industrial, destinado a centros comerciais, estádios, aeroportos, casinos, ginásios e ao espectáculo do intervalo do Super Bowl”. Para isso, constituem-se equipas de produtores, “topliners, beat makers, melody people, vibe people, and just lyric people”, eventualmente reunidas em "writer camps", de cujo "brainstorming" se colhe um "hook" aqui, uma sequência de acordes ali, um "beat" acolá, que, após a montagem das peças soltas, terão de passar pelo processo de "comping" – o moroso trabalho de edição de inúmeras "takes" vocais, compasso a compasso, palavra por palavra, sílaba a sílaba, se necessário. Atenção, enfim, ao pormenor “just lyric people”: Max Martin (sueco, dínamo-exportador de sucessos para Taylor Swift, Rihanna, Kelly Clarkson, Katy Perry ou Adele), fraco falante de inglês, quando despachou "Hit me, baby, one more time" para Britney Spears, não imaginava que a canção pudesse vir a ganhar uma aura BDSM. Na verdade, supunha que aquilo que a miúda suplicava era que o namorado lhe telefonasse outra vez.