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17 October 2025

Erik Satie (1866 1925)

(IV) 

Erik Satie - Parade


Parade is a ballet premiered in Paris in 1917 with music by Erik Satie, scored to a one-act scenario by Jean Cocteau with costumes and sets designed by Pablo Picasso. This new version of Parade revisits the ballet on an interdisciplinary platform featuring contemporary dance, stop motion animation, puppetry and projection dancing.

01 September 2022

OS DETALHES DO MUNDO 

Regina Spektor conhece bem aquilo de que fala: Home, Before and After. Nascida na Moscovo ainda soviética de 1980 com avós originários da Ucrânia, mal as primeiras frestas da “perestroika” se abriram autorizando a emigração de cidadãos judeus, a família Spektor – Ilya, o pai fotógrafo e violinista, Bella, a mãe professora de piano, Boruch, o irmão, e ela –, em 1989, voou para os EUA. Todas essas memórias deverão ter-lhe regressado a galope quando, no passado dia 24 de Fevereiro, em pleno início da invasão russa da Ucrânia, escreveu no Instagram: “Hoje dói-me o coração porque, por mais enormes obras de arte e de música que existam a denunciar os horrores da guerra (Guernica.... 'Masters Of War'... Vonnegut... Remarque... tantos filmes em tantas línguas...), novos senhores da guerra se vão erguendo em todas as nações, enviando novos jovens para se massacrarem mutuamente”. Mais recentemente, à “NPR”, confessaria: “É verdade, estou devastada. Não acredito que isto possa estar a acontecer. Os meus avós são da Ucrânia e combatemos todos juntos na Segunda Guerra Mundial. Cresci na Rússia soviética e não existia qualquer diferença entre os nossos familiares de Moscovo e os de Odessa. Era um lugar colectivo onde todos tínham sofrido horrores, todos tínham combatido os nazis e vivido o pesadelo de ver o nosso território invadido. Mas, agora, na Ucrânia, o que vemos são milhões de civis arrastados para uma guerra, cidades vibrantes cheias de famílias. Não consigo ver mais reportagens. Já chorei demais, já me enfureci demais. É aterrador”. (daqui segue para aqui)

"Up the Mountain"

09 July 2019

O EDIFÍCIO 6197 


Quem olha para “La Trahison des Images” (1929), de René Magritte, vê a representação realista de um cachimbo sobre fundo bege, na base da qual, em caligrafia perfeitamente desenhada, se lê “Ceci n’est pas une pipe” (“Isto não é um cachimbo”). Não se trata de uma manobra de diversão surrealista: tal como um mapa não é o território que representa e (segundo Alan Watts) “o menu não é a refeição”, a obra de Magritte é apenas a reprodução bidimensional a óleo sobre tela de um objecto tangível, a três dimensões, dotado de textura, peso, cheiro e temperatura. Van Gogh, Cézanne ou Picasso, já haviam usado o cachimbo como elemento simbólico, identitário ou enquanto adereço. Mas foi Magritte – ele que não se impediu de produzir "fakes" de Picasso, Braque, Klee, De Chirico ou Ticiano – quem (jogando ainda com o malicioso duplo sentido de “pipe”, em francês) o transformou em demonstração exemplar de uma ideia: as imagens, a representação artística são uma coisa e a realidade (seja lá isso o que for) é outra.


Não será uma comparação rigorosamente exacta mas, no que à música gravada diz respeito, as "master tapes" (as “matrizes”) são “a realidade”, a insubstituível fonte primária, e tudo o que a partir delas se edifica uma recomposição infinitamente diversa. As “matrizes” preservam tudo o que – publicado ou não –, no estúdio teve lugar: as falhas, o grão das vozes, fragmentos, esboços, a atmosfera do lugar, as múltiplas versões, que, depois, poderão ser pretexto para enciclopédicas reedições (só um exemplo: os 18 CD de The Cutting Edge 1965-1966: The Bootleg Series Volume 12 – Collector’s Edition, de Dylan), remasterizações, conversões de estéreo para mono e vice-versa, cachimbos que não são cachimbos. No dia 1 de Junho de 2008, um armazém de 2 073 metros quadrados – o edifício 6197 – do Universal Music Group, em Hollywood, foi integralmente destruído por um gigantesco incêndio e com ele arderam centenas de milhar de fitas magnéticas, preciosas "master tapes" da maior editora discográfica mundial, cobrindo todos os géneros musicais, de mais de 800 artistas. Só por si, a catástrofe seria já imensa. Bem pior foi que só 11 anos depois, há semanas, numa extensa reportagem de Jody Rosen para o “New York Times”, aquilo que os responsáveis do UMG sempre tentaram menorizar e dissimular, tenha sido, enfim, revelado em toda a sua devastadora extensão. Pelo menos, “René and Georgette Magritte With Their Dog After the War", de Paul Simon, não pertencente ao espólio do UMG, salvou-se.

03 July 2019

Estou-me olimpicamente nas tintas para a tonta da Car Dashian * mas convém recordar que a paranoia da "apropriação cultural", para além de visceralmente reaccionária - tribal, territorial e xenófoba -, se levar a coisa mesmo a sério no que à moda diz respeito, ainda só está no princípio (entretanto, é ir pensando noutras coisas)

* a propósito: americana com ascendência arménia, holandesa, escocesa, irlandesa e inglesa, a que "tradição cultural" deve a Car Dashian fidelidade?

01 June 2019

Vai ser como em Tancos: daqui a uns meses, descobrem-nos todos - com uns Picassos e Matisses de bónus - nas traseiras da oficina de um serralheiro, na Chamusca
 
("Expresso")

05 March 2019

A CHAMA NUNCA SE EXTINGUIU


“Quando era miúdo e pedia dinheiro ao meu pai para ir comprar guloseimas na loja da esquina, ele dizia-me para procurar trocos nos bolsos do casaco. Invariavelmente, descobria um bloco de notas enquanto lhe vasculhava os bolsos. Mais tarde, se lhe pedia fósforos ou um isqueiro, nas gavetas, encontrava pilhas de papel e blocos de notas. Uma vez, perguntei-lhe se tinha 'tequilla' e disse-me para ir ver ao congelador onde dei também com um bloco de notas extraviado. Na verdade, conhecer o meu pai era (entre muitas outras coisas maravilhosas) conhecer um homem com papéis, blocos de notas, guardanapos – primorosamente manuscritos – espalhados (cuidadosamente) por todo o lado. Vinham de noites dormidas em hotéis ou de lojas de conveniência; os que eram dourados, de pele, vistosos ou mais sofisticados, nunca lhes dava uso. O meu pai preferia utensílios modestos. (...) Escrever era a sua razão de ser. Era o fogo de que cuidava, a chama mais intensa que alimentava. Nunca se extinguiu”, escreve Adam Cohen no prefácio de The Flame, recolha póstuma de textos do pai, Leonard.


Dividido em três partes – na primeira, 63 poemas inéditos escolhidos pelo próprio Leonard Cohen de um espólio de várias décadas; na segunda, os textos dos últimos três álbuns (Old Ideas, 2012, Popular Problems, 2014, You Want It Darker, 2016) e de Blue Alert, de Anjani Thomas (2006), para o qual também escreveu os textos; na terceira, uma recolha da vastíssima colecção de entradas dos "notebooks" –, o poema de abertura ("Happens To The Heart", 24 de Junho de 2016) é, de certo modo, a antecipação de tudo o que preencherá as cerca de 300 páginas: “I was always working steady/But I never called it art/I was funding my depression/Meeting Jesus reading Marx/Sure it failed my little fire/But it’s bright the dying spark/Go tell the young messiah/What happens to the heart”. Outras tantas páginas seriam necessárias para reflectir como se deve sobre estas canções a que apenas falta (mas se pressente) a melodia, a estes impulsos de sarcasmo e provocação (“Kanye West is not Picasso/I am Picasso/Kanye West is not Edison/I am Edison/I am Tesla/Jay-Z is not the Dylan of anything/I am the Dylan of anything/I am the Kanye West of Kanye West”), e de poético absurdo (“My lawyer tells me not to worry/Says that junk has killed the revolution/Leads me to the penthouse window/Tells me of his plan/ To counterfeit the moon”). Não serão 300 mas ficar por aqui seria imperdoável.

06 November 2018

Mas não se trata de uma questão de "gosto" - considerar-se algo esteticamente valioso ou não -, trata-se, sim, da cruel exibição de uma lenta tortura sanguinária e selvagem, acerca da qual não deveria estar a discutir-se a percentagem do IVA mas a proibição! (e, para o caso, quero lá saber do Picasso e do Hemingway que, em várias outras matérias, também estavam longe de ser um exemplo)

Edit (10:20): desapareceu o texto do director do "Público", Manuel Carvalho, "As touradas e o risco das ditaduras do gosto"?...

Edit (10:52): "Este editorial foi actualizado às 10h30. A versão original transcrevia erradamente as declarações da ministra Graça Fonseca, que defendeu a manutenção da actual taxa de IVA para as touradas “não por uma questão de gosto, mas de civilização”, quando no editorial original se lhe atribuía a opinião de que em causa estava uma questão de gosto e de civilização".

Foi-se, portanto, "o gosto" mas permanece a ideia de que "quando se entra em matérias como a dos valores civilizacionais, ou do gosto (mas, então, é uma questão de 'gosto' - que, aliás, continua no título - ou não é?...), arrisca-se a cair no paternalismo moralista que raramente encaixa nos preceitos de uma sociedade livre" e que "coexistir com hábitos culturais que rejeitamos é uma parte indispensável da tradição das sociedades abertas". Vivam, pois, a escravatura, a excisão genital, a Sharia e os acordãos judiciais trogloditas!!!

02 October 2017

A ARTE DE FURTAR 


Dói. Dói muito ver um dos mais proeminentes vultos da cultura lusa, condecorado com a medalha de Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres pelo governo francês, membro da comissão de honra da candidatura do edil da Grande Alface, investigador no âmbito da cardiologia poética – "Coração Vagabundo", "Pobre Do Meu Coração", "Português de Alma e Coração", "Coração Perdido", "Dois Corações Sozinhos" – e taumaturgo extraordinário (“Contaram-me que um médico de uma pessoa que estava em coma (...) pos-lhe nos ouvidos uns ‘headphones’ com uma música minha e ela começou a reagir”), ser acusado de 11 crimes de usurpação e de outros tantos de contrafacção. Mas, bem mais doloroso do que isso, é assistir ao seu acto de contrição público: "Eu não plagiei com a vontade de copiar uma canção (...) Assumi que há 20 anos (...) fiquei demasiadamente colado à canção na qual bebi e me inspirei. Eu nunca plagiei com vontade de plagiar". Gesto totalmente desnecessário, aliás!... Porque é esse, justamente, o ponto: nada há de que arrepender-se a menos que se deseje apagar nove décimos da história da música.


“Os artistas menores tomam de empréstimo mas os grandes artistas roubam”, terá dito Igor Stravinsky (embora a citação seja igualmente atribuida a Faulkner, Eliot e Picasso o que só lhe reforça a autoridade) e ele sabia bem do que falava – só para o bailado Pulcinella, apropriou-se de diversos temas de Pergolesi, Gallo, Van Wassenaer, Chelleri, Ignazio Monza e Alessandro Parisotti. Sem ser necessário elaborar inventários exaustivos nem recuar até à Idade Média, bastará, por exemplo, recordar a listinha de colegas cujas obras Haendel meteu ao bolso (Gottlieb Muffat, Johann Caspar Kerll, Corelli, Scarlatti, Telemann, Stradella, Erba, Franscesco Urio, Nicolaus Strungk, Friedrich Zachow...), a enorme “inspiração” que Michael Haydn ofereceu a várias obras de Mozart, ou a imensa sombra de Beethoven que paira sobre a Primeira Sinfonia de Brahms, a qual, por sua vez, assombra a Terceira, de Mahler, cavalheiro também nada avesso a canibalizar peças de Rott, Rossini e Liszt. O furto é, de facto, intrínseco à História da Música e bastaria que alguém tivesse dado a ler ao nosso bravo Chevalier Theft! A History Of Music, de James Boyle e Jennifer Jenkins, para que ele pudesse ter enfrentado as adversidades com outro ânimo. Está ai, "online", pronto para, digamos, ser “roubado”, ao abrigo de uma licença dos Creative Commons. Apesar das 260 paginas, sendo uma obra de BD, até não cansa muito a cabeça.

09 August 2012

(O 2º ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (XCVI)

Picasso - Dos Figuras y Un Gato (1902)

14 August 2010

THE ANSWER


Gertrude Stein - Pablo Picasso, 1906

There ain't no answer.
There ain't never going to be an answer.
There never has been an answer.
That's the answer.

(Gertrude Stein, citada por Tara Ann McFadden em Pop Wisdom: A Little Guide to Life)

(2010)

21 April 2009