Showing posts with label Cara de Espelho. Show all posts
Showing posts with label Cara de Espelho. Show all posts

10 April 2024

"Mão Na Mão"
 
(sequência daqui) Do mesmo lado da barricada, Ana Lua Caiano, reconhece a afinidade com intrépidos profanadores da sacrossanta tradição como os já vetustos Gaiteiros de Lisboa e sua contemporânea descendência, em cruzamento de genes com os Deolinda, os bravíssimos Cara de Espelho: "A articulação de vozes e instrumentos dos Gaiteiros que, às vezes, chega a apoximar-se do rap, é extraordinária e os Cara de Espelho são um projecto muito entusiasmante que, de alguma forma acaba por nos inspirar também". Mesmo correndo o risco de, antes de desfrutar plenamente do presente, se pretender enxergar ansiosamente o futuro, é praticamente invevitável perguntar a Ana Lua se faz alguma ideia do horizonte para onde a música que faz se encaminhará ou se se tratará apenas de um muito natural desdobramento do que até aqui chegou. Aguardemos, então: "Como nunca parei de compor diariamente, será necessariamente um desdobramento. Haverá certamente diferenças mas que só deverão decorrer de um processo natural, mas não muito racional - quando componho não consigo ser muito analítica. Mas se, porventura, ensaiasse outro tipo de estratégias, isso nunca poderia ser nada forçado".

04 March 2024


Hoje e amanhã - Teatro Maria Matos, Lisboa; 16 de Março - Casa da Música, Porto

09 February 2024

 
(sequência daqui) Se Gaiteiros de Lisboa, Deolinda ou Naifa "foram laboratórios muito importantes, chegámos aqui com a mochila bem carregada" para a construção do álbum, passo a passo, peça a peça, houve, inevitavelmente, que ajustar hábitos e métodos, procurando pontos de equilíbrio entre ditadura sanguinária e democracia radical. "Nos Gaiteiros mando eu, aqui, não mando nada. Limitei-me a entregar as minhas coisas que, depois, foram escolhidas por eles. Há uma confiança artística entre nós", confessa Carlos Guerreiro, detalhando a seguir os mistérios ocultos da composição: "Nos Gaiteiros, eu não faço canções. Na verdade, não sei o que é que faço. Tentei encarar aquilo como canções e não conseguia. De facto, são mais... exercícios sonoro-musicais do que propriamente canções. As únicas canções foram aquelas que o José Manuel David compôs sobre letras da Amélia Muge. É o que mais se assemelha a canções". E, recuando muito até ao lugar das origens, "Começámos por divinizar a música tradicional. O Michel Giacometti era um deus, era todo um universo, um manancial a descobrir, era a minha música. Ouvi aquilo tudo em pescadinha, sabia tudo de cor. Chegávamos a reproduzir as imperfeições da recolha. Foi um processo que acabou por atingir um impasse. Quando chegou a altura dos Gaiteiros, eu já tinha perdido o respeitinho pela música portuguesa mas, ao mesmo tempo, sentia-me mais rico porque aquilo tinha-se ido transformando dentro de mim. A consequência disso foi ter ganhado uma grande liberdade e ter começado a sentir a necessidade de criar sons. E isso passaram a ser os meus instrumentos. Depois de samplados, passei a tê-los num teclado". Se, algures no Big Bang que desencadeou todo este processo, se encontrava presente José Mário Branco tutelando a gestação dos Gaiteiros, é, agora, altura de escutar Sérgio Godinho que sobre os Cara de Espelho lança publicamenteo seu selo de aprovação: "Coloca-se a fasquia alta, sem medos de falhar, de ser apenas uma vírgula no tempo. E se for, não valerá ela por si mesma, pelo prazer comum de criar algo de perene num momento, de partilhar entre si e entre nós o simples prazer da música, o entusiasmo da música, a cadência, a inventividade, outra forma de energia? Como se cumpre então as expectativas? Precisamente cumprindo. Parece uma redundância, mas é apenas o pôr em prática de uma realidade moderna e já antiga. Ver a nossa cara particular no espelho comum. Missão desde logo bem executada, digo eu. E nisso estou de acordo comigo, como por certo muita gente estará".

07 February 2024

 
(sequência daqui) Do outro lado do intercâmbio, Pedro traduz o modo como esse condicionamento aconteceu: "A partir do momento em que recebi aquele convite, comecei a pensar no que faria sentido acontecer com aquelas três peças - o Carlos, o Sérgio, o Luis - e comecei a escrever canções com estes ingredientes. Quando estou a compor gosto de ter todas as peças em cima da mesa. O que acabou por desbloquear isto tudo foi a Mitó com aquela voz, aquela personalidade. O lugar onde a voz dela se situa não pode ser uma qualquer canção. Houve canções que escrevi antes de existir a voz da Mitó que pura e simplesmente não resultaram com a voz dela". E Luís Martins alarga a perspectiva: "De repente, em canções que já estavam muito preenchidas, tivemos de encontrar espaço excluindo algumas coisas. Foi uma forma completamente diferente de trabalhar". Da qual resultou uma dúzia de canções impuríssimamente híbridas tanto do ponto de vista musical como do painel gloriosamente mestiço cuja imagem se reflecte no espelho: "Separando o africano do cigano/ Do chinês, do indiano, ucraniano,/ muçulmano, do romeno ou tirolês/ Como vês/ Sobra muito, muito pouco português, ó pá/ Separando o cristão do taoista,/ do judeu do islamita, do ateu ou do budista,/ do baptista mirandês/ Como vês/ Sobra muito, muito pouco português, ó pá/ (...) Ora tenta separar o teu genoma/ Tu tеns tanto de Lisboa como de Rabat ou Doha/ Tudo soma no que és/ Como vês/ Sobra muito, muito pouco português, ó pá". Ou - tal como o anterior "Corridinho Português", também com eloquentíssimo vídeo de Joana Brandão -, a figura de Nosferatu do mui conhecido "Político Antropófago" que “Crava a unha, carne, pele e osso/ Ferra o dente sedente no pescoço/ O político antropófago/ Na tv, o banquete no palanque/ Na régie, querem sangue, pedem sangue/ E em casa num sarcófago”. (segue para aqui)

05 February 2024

 
(sequência daqui) Uma pequena correcção: dos armários não sairam apenas as guitarras mas, principalmente, aquilo a que, carinhosamente, Carlos Guerreiro chama "os meus trecos". A saber, entidades sonoras do Além que dão pelos nomes de caixofone, turuta, carretofone, cadeireta, canarion, cabeçadecompressorofone, tubarões, sanfonocello, serpentalho e túbaros de Orfeu, saídas da sua mente de "luthier" de Belzebu. Como, sem um pingo de modéstia fingida, ele explica, "O que fez aqui a grande diferença foi a introdução dos meus trecos - só de olhar para eles, ninguém dá nada por aquilo, parecem lixo - em música a sério. Isto é um velho sonho: quando comecei a construir os primeiros instrumentos com os Gaiteiros, na altura, lançámo-nos a fazer as primeiras partes dos concertos da Setima Legião. O Ricardo Camacho adorava aqueles instrumentos e passava a vida a dizer-me 'Sampla isso!' Aquela proposta para mim era um ultrage: nunca na vida, porque eu queria... 'a verdade do destempero'! Acabei por deixar-me convencer e fiz imensos 'samples'. A coisa que me deu mais gozo foi perceber que aquilo, timbricamente, muda um bocado a temperatura das coisas e isso condicionou todo o processo". (segue para aqui)

03 February 2024

Cara de Espelho - "Corridinho Português" (daqui)
 
(sequência daqui) O trio chamado a depor (Carlos, Pedro e Luís), exploradores de longo curso dos atalhos, curvas e contracurvas de géneros, eras e blasfémias várias, recorda como, já antes, haviam dado sinais de que uma convergência de energias poderia vir a acontecer: "Em Novembro de 2013, no S. Jorge, os Gaiteiros e os Delinda já tinham tocado em conjunto num concerto do Misty Fest. Foi uma coisa histórica, aconteceu mesmo uma fusão das nossas linguagens: a troca era perfeita, todas as combinações foram possíveis. Poderia, facilmente, ter-se prolongado numa digressão nacional. Mas essa possibilidade acabaria por ser absurdamente abortada". Porém, desta vez, as forças do bem estavam atentas e, conta Pedro Martins, "A partir do momento em que o Carlos me contactou, disse-lhe que escreveria as canções mas queria participar nessa banda. O Luis também desejava participar, e o Serginho lembrou-se logo da voz da Mitó. Já toda a gente tinha mais ou menos arrumado as botas e, de repente, fomos todos buscar as guitarras aos armários e limpar-lhes o pó". (segue para aqui)

01 February 2024

TRANSFUSÃO DE SANGUE

Título: Cara de Espelho; Personagens: Pedro da Silva Martins (autor e compositor dos Deolinda, mas também para António Zambujo), Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa, José Afonso, Fausto, GAC), Nuno Prata (baixista dos Ornatos Violeta), Luís J. Martins (Deolinda, António Zambujo, Cristina Branco), Sérgio Nascimento (das bandas de Sérgio Godinho e David Fonseca, antes dos Peste & Sida, um dos membros dos Humanos) e Mitó (voz de A Naifa e Señoritas); Sinopse (feita, de um fôlego, por Carlos Guerreiro): "Um dia, ia a passar à porta dos correios da Av de Roma e encontrei o Sérgio Nascimento que já não via há algum tempo. Estivemos a falar e tal, e adeus. À noite, telefona-me e desafia-me para fazermos alguma coisa em conjunto. Uma daquelas conversas que se tem muitas vezes e depois não dão em nada. Não sei se foi ele que sugeriu que falássemos com o Pedro Martins (o Pedro é, como o Zeca Afonso chamava ao Vitorino, "uma vaca parideira"). A partir daí, a coisa fugiu-nos do controlo e ganhou vida pópria". Neste ponto, é indispensável esclarecer que, em causa, está um álbum - Cara de Espelho, também o nome adoptado pelo sexteto - capaz de, logo no primeiro mês do ano, actuar como poderosa transfusão de sangue destinada a fortalecer a assaz anémica música portuguesa dos últimos tempos. (daqui; segue para aqui)

"Dr. Coisinho" (ver também aqui, aqui e aqui)