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11 September 2023

Captain Beefheart - Bat Chain Puller (na íntegra)
 
(sequência daqui) Mas também My Squelchy Life (1991), de Brian Eno (gravado e com cópias enviadas para a imprensa, acabaria substituido, à última hora, por Nerve Net, 1992, que ele descreveria como "uma jam session entre Booker T & The MGs e Iannis Xenakis numa 'warehouse rave'"); The New My Bloody Valentine Album (a longa espera que se seguiu a Isn't Anything (1988) e Loveless (1991), apenas em 2013 terminaria com mbv, "uma avassaladora experiência de sufocação por uma tempestade de areia no interior de um salão de ópio"); Electric Nebraska, de Bruce Springsteen (gravado originalmente com a E-Street Band, em 1982, Nebraska acabaria por ser publicado na versão acústica inicial das "demo tapes" que Springsteen preferiu à interpretação eléctrica); Bat Chain Puller, de Captain Beefheart (as proverbiais complicações contratuais impediram a publicação deste álbum de 1976, de Don Van Vliet; só dois anos depois, reapareceriam algumas faixas integradas em Shiny Beast); Stampede (1967), dos Buffalo Springfield (alegadamente concebido como segundo álbum da banda de Stephen Stills e Neil Young, os conflitos internos levaram a que fosse posto de lado e substituído por Buffalo Springfield Again); e o imenso legado, real ou imaginário, de Paddy McAloon, a solo ou com os Prefab Sprout (inclui, pelo menos, oito álbuns completos, duas óperas – Michael Jackson - Behind The Veil, e outra, sem título, sobre a princesa Diana –, um "cartoon musical" – Zorro - The Fox –, um álbum de "gospel flavoured spirituals", The Atomic Hymnbook, e Earth - The Story So Far, um ambicioso projecto acerca da história do mundo tendo como protagonistas Adão e Eva, Elvis Presley, os Kennedys e Neil Armstrong, para além de pouco mais do que miragens como 20th-Century Magic, Femmes Mythologiques, Jeff & Isolde e Doomed Poets Vol. 1). (segue para aqui)

09 November 2020

BEAUTIFUL LOSERS

Judy Dyble, a antecessora de Sandy Denny nos Fairport Convention, durante as canções nas quais, em concerto, não intervinha, sentava-se à boca de cena, a tricotar. Celia Humphris, cantora dos Trees, aconselhada a não se movimentar de modo demasiado exuberante no decurso das longas passagens instrumentais, optava por se deitar no palco. Uma vez, adormeceu. As peculiaridades das suas divas não são o único ponto comum entre as duas bandas. De facto, não disparatando demasiado, quase poderia dizer-se que uma foi a continuação da outra que ainda não desaparecera (nem, com as mais diversas formações, até hoje, desapareceria). Em 1969, enquanto os Fairports publicavam a trilogia de ouro What We Did In Our Holidays, Unhalfbricking e Liege & Lief e, de caminho, inventavam o folk.rock britânico, os guitarristas David Costa e Barry Clarke convidavam o baixista Bias Boshell ("housemate" de Clark), o baterista Unwin Brown (amigo de escola de Boshell) e Celia Humphris (irmã de um colega de trabalho de Costa), para formarem uma banda. Uma coisa assim bastante caseirinha.

(On The Shore integral aqui)

Meio século depois, Boshell define-os, á “Uncut”, como “o grupo de pessoas menos ambicioso que alguma vez existiu”. Sonhavam com os Byrds, Jefferson Airplane, Buffalo Springfield e Quicksilver Messenger Service mas, porque Costa fora iniciado na tradição folk através da amizade com Martin Carthy, e "Meet On The Ledge", dos Fairports, era matéria de estudo obrigatória, os dois únicos álbuns dos Trees – The Garden Of Jane Delawney (1970) e On The Shore (1971), agora republicados em "boxset" de 4 CD – acabariam integralmente contagiados pelas marcas do género emergente. Clark era um Richard Thompson em embrião que urdia belíssimos contrapontos eléctricos com a guitarra de Costa – ainda algo imperfeitamente em "Glasgerion" e "The Great Silkie", do primeiro, e nas extensas e magníficas "Streets Of Derry", "Polly On The Shore" e "Sally Free And Easy", de On The Shore, conduziam o psicadelismo folk-rock a focos de incêndio nunca antes ateados – e Celia era uma candidata pronta a ocupar, em qualquer momento, o lugar de Sandy Denny. Havia aproximações aos (então nascentes) Steeleye Span ("Soldiers Three"), evocações medievais ("Adam’s Toon") e hinos luditas ("While The Iron Is Hot"). Durariam, sem qualquer sucesso, até 1973. Celia, após, durante anos, ter sido a voz que, nas estações do metro de Londres nos alertava “Mind the gap!”, em 2009, participaria como convidada no álbum Talking With Strangers. De Judy Dyble. (ver também aqui)

25 August 2020

CHEGAVA A CONFUNDIR-SE COM ELES
 

Quando – buscando, talvez, elevar a auto-estima das 8 101 almas locais – alguém procurar descobrir notáveis oriundos de Princes Risborough, no Buckinghamshire, não há-de ser extraordinariamente difícil chegar ao nome de Edward Stone, pioneiro descobridor das propriedades terapêuticas da aspirina, em 1763. Uns quantos degraus abaixo e, se a intenção for encontrar figuras do mundo da música, escavando bem, poder-se-á chegar a Jay Kay, o semi-luso criador dos Jamiroquai. Mas só por uma enorme sorte se tropeçaria alguma vez nos irmãos Martin e Paul Kelly que, com Johnny Wood e Spencer Smith, primeiro como Episode Four e, depois, sob o nome de East Village, (não) colocariam Princes Risborough no mapa. Não é injusto dizer que, se não o fizeram de propósito, parece bastante.

(álbum integral aqui)

Puristas picuinhas de uma qualquer autenticidade pop, eram o tipo de banda que, quando em busca de um baterista, achou boa ideia colocar um anúncio cifrado no “Melody Maker”: “Wanted – Zeke, De Freitas, Ruffy”. Isto é, só quem conseguisse passar o teste identificando os moços dos tambores dos Orange Juice, Echo & The Bunnymen e Aztec Camera, demonstrando assim possuir credenciais para fazer parte do clube, teria uma hipótese. Olhando, de relance, fotos da época, passariam facilmente pelos Jesus & Mary Chain e, na capa do primeiro single, "Cubans In The Bluefields" (1987), o torso de Johnny Wood surge regulamentarmente uniformizado de blusão de cabedal e abraçando uma guitarra Epiphone, símbolo do selo de aprovação-Orange Juice. Os episódios seguintes são tão curtos (quatro anos) quanto complicados, culminando, inevitavelmente, na separação, ao vivo, em palco, no preciso momento em que iriam publicar o primeiro álbum, Drop Out. Hotrod Hotel, uma compilação de singles e demos agora reeditada em vinil, mostra-os tal como eram: uma bela bandinha revisionista de guitarras que sonhava tanto com os Byrds, Buffalo Springfield et alia (“All that’s gone, all that’s pure, all that’s sacred”) que, por vezes, chegava a confundir-se com eles.

25 April 2017

CICLONE 


“1000 Days, 1000 Songs” – uma por cada dia útil do mandato presidencial de Donald Trump, caso ele chegue ao fim – constitui o desenvolvimento natural de “30 Days, 30 Songs”, primeiro site/movimento musical organizado de protesto anti-Trump surgido durante o último mês da campanha eleitoral, e agora, após a consumação do desastre, inevitavelmente ampliado. Ultrapassada a primeira centena, há, no entanto, uma tendência (quase inexistente entre Outubro e Novembro passados) que parece acentuar-se: a promessa de incluir “original tracks, unreleased live versions, remixes, covers, and previously released but relevant songs” tem vindo a ser afunilada, concentrando-se exclusivamente nas “previously released but relevant”. Um compêndio da canção politicamente activa (de Nina Simone a Sly & The Family Stone, Hüsker Dü, Temptations, John Coltrane, Odetta, Ani Di Franco, John Lennon, Public Enemy, Rolling Stones, Chi-Lites, Buffalo Springfield, Woody Guthrie, Springsteen e dezenas de outros) é sempre bem-vindo e educativo mas, assim apresentado, deixa a pairar a inquietante ideia de que, na actualidade, não existiria descendência. 



A verdade, porém é que, só nos primeiros três meses deste ano, poderiam ter sido extraídas belíssimas contribuições de The Navigator (Alynda Segarra/Hurray For The Riff Raff), de English Tapas (Sleaford Mods), e "They're Killing Children Over There", dos Magnetic Fields, também ficaria muito bem no retrato. Mas, para lá da menor dúvida, apenas o título de Just Say No To The Psycho Right-Wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine – dificilmente alguma vez se exterminaram tantas ervas daninhas de um só golpe... –, dos Gnod, seria mais do que suficiente para funcionar como manifesto, programa e bandeira. Não apontando, obviamente, para Trump como único alvo, haverá que louvar incondicionalmente a largueza de vistas da banda de Salford/Manchester: secar o caldo de cultura onde germinam todos os agentes patogénicos contemporâneos é medida higiénica da máxima urgência; fazê-lo no interior de um gigantesco caldeirão de lava sonora incandescente alimentado por uma trupe de psiconautas com um ciclone no lugar do cérebro e “Don’t wanna be a cog in the machine, I wanna be a stick in the wheel” como palavra de ordem é empreendimento infinitamente mais entusiasmante e de dimensão incomparavelmente superior.

27 February 2015

01 February 2015

15 February 2009

PARAR O TEMPO



M. Ward - Hold Time

Não é muito frequente que, com tanta precisão, todo o programa de um álbum se concentre completamente no título. Mas, no caso de Hold Time, há que ficar grato a M.Ward por, de tal modo, nos poupar mil palavras desnecessárias para caracterizar suficientemente a gravação que, após a aventura She & Him, em dueto com Zooey Deschanel, agora publica. Na verdade, tudo começou aí porque, tal como nesse divertimento paralelo sucedia, é de “parar o tempo” outra vez que se trata.



Exactamente na mesma época – década de sessenta e margens limítrofes – mas explorando outros filões: já não tanto o território compreendido entre a Motown, Tin Pan Alley e Nashville mas antes o que se situa num perímetro definido por Dylan, Neil Young, os Beach Boys, os Buffalo Springfield de Again e, menos concentradamente, o espírito genericamente “folk-pop-country” da atmosfera canabinóide da época. A pequena diva Zooey reaparece e vem acompanhada de Lucinda Williams, Rachel Blumberg (Decemberists) e Jason Lytle (Grandaddy), uma espécie de minisupergrupo da nomenclatura “indie” contemporânea, amável mas não indispensável.

(2009)

12 July 2008

NÃO DEIXAR DE CANTAR



Com os Buffalo Springfield e Crosby, Stills, Nash & Young, integrou a imensa maré hippie, alternativa, contra a guerra do Vietname. Mais tarde, foi apoiante de Ronald Reagan. Agora, viaja pelo mundo para promover o filme CSNY: Déjà Vu, documentário que regista o “Freedom Of Speech Tour” de 2006, momento de reunião da antiga banda, por ocasião das eleições intercalares americanas desse ano, realizado por Bernard Shakey (aliás, Neil Young, aliás, Joe Yankee, Joe Canuck, Phil Perspective, Clyde Coil, Dirigible Dan, Dr Shakes ou Shakey Deal). Nessa altura, publicara também Living With War, um militante manifesto de agitpop no qual apelava "Let's impeach the President for lyin' and misleading our country into war, abusing all the power that we gave him and shipping all our money out the door".



No final do ano passado, Chrome Dreams II como que revia todo o seu percurso pessoal e musical anterior mas, em “Ordinary People”, voltava à carga fotografando a área de catástrofe do sonho americano “They're ordinary people and they're livin' in a nightmare, hard workin' people and they don't know how they got there”. Apesar de viver nos EUA há quarenta anos, permanence cidadão canadiano mas, ao “Times Online” de 29 de Junho, declarava “I’m Canadians for Obama”, acrescentando “nenhuma canção poderá mudar o mundo. Mas isso nunca será justificação para deixar de cantar”. Precisamente aquilo que continua intensamente a fazer, agora em digressão europeia de Verão, cujos concertos têm terminado sob as labaredas de uma versão de “A Day In The Life” (dos Beatles), encore de um alinhamento que equilibra uma generosa percentagem dos seus clássicos privados com reportório mais recente.

(2008)

01 April 2007

A LENDA DOS ÁLBUNS PERDIDOS



É o Santo Graal da história pop. Poucos ou ninguém os escutou e, por aí mesmo, a lenda cresce. Antes de serem editados (ou se esquivarem ao controlo na condição de "bootlegs"), são invariavelmente obras-primas que, vá-se lá perceber porquê, artistas e editoras decidiram não publicar. Quando — e mais tarde ou mais cedo, isso acaba quase sempre por acontecer —, por fim, saem à luz do dia e o processo de avaliação começa, algo se perde irremediavelmente: a aura mitológica de coisa inatingível a que só um "inner circle" de iniciados teria muito restrito acesso. E, ao descer à terra, serão finalmente excelentes, razoáveis ou nem por isso como todos os outros que não gozaram da oportunidade de, pelo menos por algum tempo, apenas poderem ser imaginados. Exemplos? A versão "original" (isto é, sem Phil Spector) de Let It Be, dos Beatles. Após décadas de efabulação acerca de quanto a sobrecarga dos arranjos de Spector teria desfigurado os "diamantes em bruto" de Lennon e McCartney, saiu o ano passado em formato Naked.



Bom, o tresloucado Spector, afinal, fazia mesmo falta e, uma vez não é regra, "first thought, best thought"... No polo oposto, estarão as célebres Basement Tapes, de Bob Dylan com a Band ou VU, dos Velvet Underground, que, uma vez publicados, em nada desmereceram da lenda.
A verdade é que, na frenética actividade editorial de rentabilizar todo o material gravado (de lados B, a versões "live", "takes" alternativas, esboços incipientes e graçolas de estúdio às tantas da matina), já não haverá assim tantos tesouros enterrados. Mas, escavando bem e com persistência, um Indiana Jones da pop ainda poderá tropeçar numas quantas preciosidades:


Pink Floyd - Household Objects



Em 1973, após o êxito planetário de Dark Side Of The Moon, Roger Waters, Rick Wright, Nick Mason e David Gilmour, sem o saberem, pensaram em antecipar o advento do "sampling". E dedicaram-se a registar os sons de objectos domésticos (copos de vidro, caixas de cartão, elásticos, tiras de borracha) que deveriam substituir o timbre dos instrumentos convencionais. A maionnaise nunca chegou a pegar mas, algures num arquivo qualquer, existem fitas gravadas.


Neil Young - Homegrown



É apenas o caso mais notório de um inesgotável baú (outros inéditos existem como Live 1970, Chrome Dreams, 1977, Island In The Sun, 1982, Old Ways I, 1983, ou Times Square, 1989) que, desde há muito, Neil Young promete vir a revelar.
Gravado em 1975, a seguir a On The Beach, seria um álbum de recorte country supostamente baseado numa dolorosa tragédia amorosa do autor. Demasiado "pessoal", nunca veria a luz do dia.


Brian Eno - My Squelchy Life



Chegou a ser anunciado em 1991 como iminente publicação de Brian Eno. Nele terão participado o teclista de Tom Petty, Benmont Tench, a secção rítmica dos Neville Brothers e um quarteto feminino de marimbas. Acabaria por ser cancelada a sua edição e substituido por Nerve Net.


My Bloody Valentine - The New My Bloody Valentine Album



O "x" que assinala o local encontra-se nas imediações do estúdio doméstico de Kevin Shields onde o sucessor de Isn't Anything (1988) e Loveless (1991) se encontrará sepultado. O "shoegazing" continua à espera do seu Novo Testamento.


Bruce Springsteen - The Electric Nebraska



Gravado originalmente com a E-Street Band, em 1982, Nebraska acabou por ser editado sob a forma da interpretação acústica inicial das "demo tapes" que Springsteen preferiu à versão eléctrica.


Buffalo Springfield - Stampede



Deveria ter sido o segundo álbum da banda de Stephen Stills e Neil Young. Os conflitos no interior do grupo, no entanto, impediriam a sua publicação. Foi substituido, em 1967, por Buffalo Springfield Again.


Prefab Sprout



Desde Jordan - The Comeback (1990), que Paddy McAloon anuncia ter composto música suficiente para, pelo menos, oito álbuns. Explicitamente referidos, existem duas óperas, Michael Jackson - Behind The Veil, e outra, sem título, sobre a princesa Diana, um "cartoon musical", Zorro - The Fox, um álbum de "gospel flavoured spirituals", The Atomic Hymnbook e Earth - The Story So Far, um ambicioso projecto acerca da história do mundo tendo como protagonistas Adão e Eva, Elvis Presley, os Kennedys e Neil Armstrong.


Kraftwerk - Technopop



Anunciado para 1983, acabaria apenas por ser publicado três anos mais tarde, não na versão analógica original mas noutra digital sob o título de Electric Cafe.


Orange Juice - Ostrich Churchyard



É o registo original do álbum de estreia da banda escocesa que seria posteriormente regravado e editado pela Polydor, em 1981, sob o título You Can't Hide Your Love Forever.


Johnny Mathis - I Love My Lady



Produzido pelos Chic, vinha na sequência de outro projecto também abortado de Nile Rodgers e Bernard Edwards com Aretha Franklin. Previsto para 1981, nunca seria publicado.


Captain Beefheart - Bat Chain Puller



Complicações legais e contratuais várias impediram a publicação deste álbum de 1976 de Don Van Vliet. Algumas das faixas seriam regravadas e publicadas dois anos depois, integradas em Shiny Beast.


Smashing Pumpkins - Machina II/The Friends And Ennemies Of Modern Music



Deveria ser, em 2000, o tomo-gémeo de Machina: The Machines Of God, último álbum da banda de Billy Corgan e, sob forma conceptual, versaria o tema de uma "imitation rock band". Nunca comercialmente distribuido, acabaria por ser disponiblizado pelo grupo na Internet. (2004)