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17 April 2018

GÉNERO


"She’s Funny That Way" é uma canção de Neil Moret e Richard Whiting, composta para o filme Gems Of M-G-M (1929) e aí interpretada por Marion Harris, uma das primeiras cantoras brancas a cantar jazz e blues. Moret, Whiting e Harris eram heterossexuais. "My Girl", primeiro grande êxito dos Temptations (1964), foi escrita por Smokey Robinson e Ronald White (elementos dos Miracles) e inspirada por Claudette Rogers Robinson, mulher de Smokey."Then He Kissed Me" (1963), um dos maiores sucessos das Crystals, emblemático "girl group" da década de 60, teve como autores Phil Spector, Ellie Greenwich e Jeff Barry, norte-americanos heterossexuais, de ascendência judaica e dois deles – Spector e Greenwich – com origem russa. "I Need A Man To Love", publicada no álbum Cheap Thrills (1968), dos Big Brother & The Holding Company, tinha assinatura do guitarrista Sam Andrew, heterossexual, e de Janis Joplin, bissexual. Quinta faixa de A Hard Day’s Night (1964), "And I Love Her" deve-se, essencialmente, a Paul McCartney, heterosexual, tendo John Lennon – segundo a viúva, Yoko Ono, tendencialmente bissexual – contribuído com a “ponte”. "Mad About The Boy" integrava a "revue" Words And Music (1932) e era da autoria de Noël Coward, homossexual. 



Estão as seis reunidas, agora, no EP Universal Love: Wedding Songs Reimagined mas todas submetidas a um subtil desvio de género: Bob Dylan canta "He’s Funny That Way"; Kele Okereke (cantor dos Bloc Party), "My Guy"; St. Vincent, "Then She Kissed Me"; Kesha, "I Need a Woman To Love"; Ben Gibbard, (de Death Cab For Cutie), "And I Love Him"; e Valerie June, "Mad About The Girl". O objectivo, fundamentalmente político, é a criação de um reportório musical para casamentos entre pessoas do mesmo sexo – e as versões de Dylan e St. Vincent são, sem dúvida, valiosas – mas, no contexto das febris polémicas identitárias em curso, deverá ser encarado como um magnífico exercício de "détournement" (XIX) de raiz Situacionista ou enquanto reprovável acto de “apropriação cultural” que confunde orientações sexuais de autores e intérpretes e legitima a captura de elementos da cultura de uma comunidade por outra? Tardará muito até podermos ler que já bastava haver grupos de raparigas negras a cantar música de americanos brancos descendentes de judeus russos, para termos ainda que escutar Bob Dylan em modo gay? Pelo menos, o eterno debate da escrita feminina vs escrita masculina parece resolvido: mudar o género de pronomes, substantivos e adjectivos é o suficiente.

08 February 2010

THE HOUR THAT THE SHIP COMES IN



"Bob Dylan and Joan Baez will both play Washington later this week almost 50 years after they first sang during the Martin Luther King-led Jobs and Freedom March in 1963. In Performance at the White House: A Celebration of Music from the Civil Rights Movement, is set to take place on Wednesday (February 10) and will see the pair join a bill that already includes Smokey Robinson and John Mellencamp. Reports that Dylan and Baez will perform together currently remain unconfirmed. The concert will be streamed live via whitehouse.gov." (aqui)

(2010)

19 October 2008

TEATRO RETRO



She & Him - Volume One

Começou muito bem: em 2006, durante a rodagem de The Go-Getter, o realizador Martin Hynes sugeriu a Matt Ward (que se ocupava da banda sonora) a ideia de, para o genérico final, ele e a actriz principal, Zooey Deschanel, gravarem uma versão de “When I Get To The Border”, de Richard & Linda Thompson. O proverbial “marriage made in heaven” musical – com os melhores padrinhos – estava encontrado. Volume One é apenas a sequência natural (e quase inevitável) desse episódio inicial onde a luminária “alt./country/folk” Ward actua como catalisador e eminência parda da beldade “indie” e lhe oferece o cenário ideal para que o seu talento de actriz floresça.



Sim, porque, neste requintado exercício de retro-pop/country, Deschanel vai desempenhando sucessivamente os papéis de Tammy Wynette, Linda Ronstadt, Carole King, das Ronettes ou de Karen Carpenter, num desfile de modelos que cobrem todo o espectro que vai de Phil Spector à Motown e de Tin Pan Alley a Nashville. Acrescente-se que o argumento é também dela: dez das doze canções são suas (uma a meias com o actor Jason Schwartzman) e as duas restantes dos Beatles e de Smokey Robinson.

(2008)