O que esperar de um álbum cuja música foi já comparada à de Robert Wyatt, dos Gorky's Zygotic Mynci, Mercury Rev, Flaming Lips, Fred Frith, Sparklehorse ou Lalo Schifrin? Como encaixar aí o conhecimento de que o percurso anterior da personagem principal - Chris Anderson - se cruzou com os Spiritualized, Peter Buck, Go-Betweens, Sundays, Lotus Eaters e Cardiacs? E de que modo haveremos de determinar a exacta medida das variadíssimas contribuições dos que, às de Anderson (voz, piano, mellotron, sintetizadores, orgão, sax, guitarras e baixo), somaram trompete, cornet e jogo de sinos (Alistair Strachan), bateria e percussão (Damo Waters), guitarra eléctrica (Bic Hayes) e violino (Maria Marzaioli)? Chris Anderson dá uma ajuda: "Quando componho ao piano, suspendo o meu 'cérebro racional' e deixo que os dedos se movam até surgirem padrões e acasos curiosos". (daqui; segue para aqui)
Situation that rules your world (despite all you’ve said)
I would strike against it but the rule displaces...
There I burn in my own lights fuelled with flags torn out
of books, and histories of marching together…
United with heroes, we were the rage, the fire.
But I was given a different destiny - knotted in closer despair.
Calling to heroes do you have to speak that way all the time ?
Tales told by idiots in paperbacks; a play of forms
to spite my fabulous need to fight and live.
We exchange words, coins, movements - paralysed in loops
of care that we hoped could knot a world still.
Sere words, toothless, ruined now, bulldozed into brimming pits
- who has used them how? Grammar book that lies wasted:
conflux of voices rising to meet, and fall,
empty, divided, other…
Clutching at sleeves the wordless man exposes his failure:
smiling, he hurls a wine glass, describing his sadness twisted
into mere form: shattered in a glass, he’s changed…
How dare he seize the life before him and discompound it in
sulphurous confusion and give it to the air?
He’s rushing to find where there’s a word of liquid syntax
- signs let slip in a flash: “clothes of chaos are my rage!”
he shrieks in tatters, hunting the eye of his own storm.
We were born to serve you all our bloody lives
labouring tongues we give rise to soft lies:
disguised metaphors that keep us in a vast inverted silliness
twice edged with fear.
Twilight signs decompose us
High in offices we stared into the turning wheel of cities
dense and ravelled close yet separate : planned to kill all encounter.
Intricate we saw your state at work its shapes
abstracted from all human intent. With our history’s fire
we shall harrow your signs.
Now is the time to begin to go forward - advance from despair,
the darkness of solitary men - who are chained in a market they
cannot control - in the name of a freedom that hangs like a pall
on our cities. And their towers of silence we shall destroy.
Now is the time to begin to determine directions, refuse to admit
the existence of destiny’s rule. We shall seize from all heroes and
merchants our labour, our lives, and our practice of history: this,
our choice, defines the truth of all that we do.
Seize on the words that oppose us with alien force; they’re enslaved
by the power of capital’s kings who reduce them to coinage and
hollow exchange in the struggle to hold us, they’re bitterly
outlasting… Time to sweep them down from power
- deeds renew words.
Dare to take sides in the fight for freedom that is common cause
let us All be as strong and as resolute. We’re in the midst of
a universe turning in turmoil; of classes and armies of thought
making war - their contradictions clash and echo through time.
14 May 2015
POLÍTICA DO PARAÍSO
Guy Standing, professor de Economia na University of London, é o autor de The Precariat: The New Dangerous Class (2011), quase-manifesto em que, a propósito desse emergente grupo social situado entre os “indignados” espanhóis, o Den Plirono (Não Pagamos) grego e as revoltas árabes (“O precariado, classe em construção que se aproxima de uma consciência da vulnerabilidade comum, consiste de todos aqueles que sentem que a sua vida e identidade são constituídas de fragmentos dispersos a partir dos quais não são capazes de construir uma narrativa desejável ou uma carreira”), propõe a adopção de algo, pela sua própria designação, capaz de pôr os cabelos em pé aos apologistas do respeitinho pelas folhas de Excel dos donos da “realidade”: as "politics of Paradise", assentes na “reinvenção do lema progressista da liberdade, igualdade e fraternidade”.
Foi, justamente, inspirada por Standing que Holly Herndon classificou o seu terceiro álbum, Platform, como “um gesto paradisíaco”. Licenciada em música electrónica pelo Mills College, de Oakland, na Califórnia, e, actualmente, a concluir doutoramento em composição na Stanford University, bebeu o biberão do techno nos clubes de Berlim, estudou a gramática contemporânea com John Bischoff e Fred Frith, e, hoje, afirma que “o laptop possui muito mais conteúdo emocional do que qualquer violino poderia sonhar: estão lá o meu Skype, a minha conta bancária, os meus emails, as minhas relações”. Deve ser por isso que já viu a sua música qualificada como techno recuperado de uma "hard drive" que esteve demasiado tempo debaixo de água. Não é realmente verdade. Ela própria admite que, desejando criar “música que reage em termos actuais sem dependência de nenhuma nostalgia do passado”, para este fulgurante jogo de espelhos sonoro tanto contribuíram Meredith Monk, Morton Feldman e Laurie Anderson como Missy Elliot, Charles Ives, William Byrd, Thomas Tallis ou o "grime" britânico. E, acrescente-se, uma "guest list" de activistas dos microuniversos mutantes da Internet e arquipélagos afins – Claire Tolan/ASMR, Spencer Longo, Mat Dryhurst, Colin Self, Amnesia Scanner –, cúmplices e co-artífices das ruidosas utopias e paraísos digitais de que tanto carece a pobre e aterrorizada “realidade”.