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04 February 2020

É ASSIM QUE SOAMOS


Quando publicaram os dois primeiros e óptimos álbuns (From Here, 2015, e Follow Them True, 2018), os Stick In The Wheel deixaram bem claro ao que vinham: “A forma como, actualmente, a folk é encarada foi determinada pelos recolectores da época vitoriana, quando essa era uma ocupação das classes altas que pretendiam preservar a música das pessoas comuns do grande império. Privilegiavam as canções rurais, livres da contaminação das gentes urbanas. E dos imigrantes. Andavam à procura de 'idiots savants' e organizaram as recolhas de modo a confirmar a sua narrativa. (...) Libertar a folk do estatuto de peça de museu, teve também muito a ver com o interesse pela história do quotidiano operário, das nossas raízes. (...) Mas a relação dos ingleses com a sua cultura é estranha, complicada e carregada de perigos: o nacionalismo, o racismo, a 'political correctness'. (...) Traçando uma linha do passado até ao presente, estamos colectivamente condenados a repetir os erros do passado. É assim que soamos, recusando-nos a aceitar esse destino”.



Programa total e brilhantemente cumprido tanto na discografia “oficial” como nos dois volumes de Folk Field Recordings (2017 e 2019) e na anterior "mixtape", This And The Memory Of This (2018). Against the Loathsome Beyond – mais outra "mixtape" – recua ainda mais no tempo e, persistindo na contaminação de géneros e na instrumentação heterodoxa, agarra reportório medieval e pagão pelos colarinhos e cruzando "drones", manipulação electrónica e as contribuições do guitarrista "avant-folk", C Joynes, converte esconjuros ("Nine Herbs Charm"), aliterações em Old English (“Swarte smiths, smateryd with smoke, dryve me to deth wyth den of here dyntes, swech noys on nyghtes ne herd men never”) e "carols" assombradas em geometria de gamelãs, ragas minimalistas, pastorais de sintetizadores barrocos e, na “Child ballad”, "Georgie", quase mimetiza "A Sailor’s Life", dos Fairport Convention. Considere-se a folk definitivamente libertada do estatuto de peça de museu.

24 September 2013

CÂMARA ESCURA 



Elvis Costello não se fica por meias palavras: “Se não gostam de escutar June Tabor, melhor seria que desistissem de ouvir música”. De facto, a existirem casos em que um certo fascismo estético se justifica, June Tabor é bem capaz de ser um deles. Experimentem, por exemplo, recorrer ao vosso bom amigo YouTube e procurem “June Tabor sings Lili Marlene”. Durante os quase dois minutos iniciais (no concerto “Daughters of Albion”, da BBC4), June conta a história dessa canção. Provavelmente, não repararão de imediato mas, já aí, na articulação das palavras, nas pausas, acentuações, respirações, é de música que se trata. E, logo a seguir, desde o instante em que pronuncia “Vor der Kaserne, vor dem grossen Tor...”, por um milhão de vezes que tenhamos escutado o texto de Hans Leip musicado por Norbert Schultze, a voz que, agora, o interpreta apossa-se dele e fá-lo como se fosse a primeira. Para ela, trata-se de uma espécie de compromisso ético/estético: “Não tem a menor importância de onde provém uma canção. Desde que seja uma boa canção, tenha um texto forte e me fale directamente, é-me completamente indiferente o facto de ser muito recente ou muito antiga. Se mexer com as minhas emoções, sei que vou ser capaz de a interpretar. Porque é isso que eu faço: sou uma intérprete que procura partilhar as sensações que uma canção me proporciona. Tenham as canções seiscentos anos ou apenas dois. A melhor interpretação é a que soa como se fosse a primeira vez que estivéssemos a cantar aquela música. Se parecer ser apenas mais uma canção, é porque estamos a prestar-lhe um mau serviço”


Huw Warren (piano) e Iain Ballamy (sax soprano e tenor) que, em trio com ela, gravaram para a ECM o recente e belíssimo Quercus – na verdade, tal como já sucedera com Aleyn (1997), o registo de um concerto de 2006, no Anvil, em Basingstoke, do qual foram cirurgicamente extraídos todos os vestígios de público – e o virão apresentar no Teatro Maria Matos na próxima 4ª feira, 25 de Setembro, confessam que, de June, aprenderam a “evitar tudo o que, numa música, não tenha justificação para lá estar ou que apenas surja por motivos convencionais”, bem como a “procurar que a voz e o sax funcionem como um só, mais do que fazer solos complexos”. Não ecoam senão o que ela afirma acerca de como encara a própria voz (“Se eu quisesse, podia ornamentar uma canção até fazê-la desaparecer ou cantar soul, mas isso não me diz nada, é só técnica. Da forma como canto, prefiro ser mais directa, transmitir emoções sem as dissimular”), esse assombroso instrumento de luz e sombras, tão capaz de, qual câmara escura, revelar a natureza profunda de Richard Thompson, Ian Curtis, Lou Reed e Costello como da Idade Média, dos textos de Shakespeare ou Robert Burns ou das vetustas trevas da tradição popular britânica e europeia. Se lhe perguntarem qual o álbum que prefere, responderá que é An Echo Of Hooves (2003), colecção de baladas recolhidas por Francis James Child, no final do século XIX. Não acreditem: a verdade é que, das mais de duas dezenas das suas gravações, ninguém de bom senso se atreveria a escolher uma e a relegar todas as outras para segundo plano.

12 March 2008

MEFISTÓFELES COM ALGO DE DRUÍDA



John Jacob Niles - My Precarious Life In The Public Domain

Foi através de Bob Dylan - No Direction Home, o documentário de Martin Scorsese publicado no ano passado, que o mundo "at large" travou conhecimento com John Jacob Niles. As imagens de Woody Guthrie, Odetta ou de todos os restantes nomes lendários da folk norte-americana do século XX podiam ser impressionantes mas muito poucos estariam preparados para aquela verdadeira aparição de uma personagem de assombração, tocando dulcimer e cantando melodias tradicionais num sobrenatural falsetto. Essa boleia foi muito convenientemente aproveitada para a reedição deste conjunto de baladas (a edição original data de 1940) recolhidas pelo folclorista Francis James Child que Niles — nascido, em 1892, no Kentucky, possuía apurada formação musical académica e compôs diversas peças de música erudita — interpreta acompanhado por um dos cerca de trinta dulcimers que ele próprio construiu. Dylan chamou-lhe "a Mephistophelean character" e Henry Miller afirmava que "ele tinha uma voz que evocava memórias de Artur, Merlim e Guinevere, havia algo de druída nele". Tinham ambos razão.



(2006)