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23 June 2014

01 June 2011

NOBRE POVO

















Os Golpes - G


















Os Velhos - Velhos

Numa daquelas releituras dos clássicos que sempre ajudam a refrescar as ideias, pode acontecer tropeçarmos numa crónica jornalística de Fernando Pessoa (para o nº6 de “O Jornal”, de 1915) em que, apelando ao cultivo da “desintegração mental como uma flor de preço” e à construção de “uma anarquia portuguesa”, depois de caracterizar o sapiens lusitano (“O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D. Sebastião em série fotográfica do Grandela”), proclamava: “Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado, Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles vêm? As poucas figuras que, de vez em quando, têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa que fazem? Organizam um partido”. E Fernando Pessoa é muito bem-vindo à conversa não apenas por aquilo de que, com os sinais vitais razoavelmente mantidos, cada um se pode, facilmente, aperceber mas, aqui, em particular, no que diz respeito a alguma música portuguesa.



Irmã teologicamente adversa da FlorCaveira, a Amor Fúria, ao surgir, em 2007, não se limitou a publicar discos: perante o universo, anunciou-se como movimento “espontâneo, total, (...) um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários. Assumem a vontade de dançar um país diferente, e das ruínas de Portugal, dos seus ícones e bandeiras, desafiam o futuro, roubam o nome a uma canção dos Heróis do Mar, para se devolverem na partida ‘em busca de um país de árvores’. Eles são os Amantes Furiosos e proclamam as palavras de Carlos Drummond de Andrade (‘Chegou um tempo em que não adianta morrer, chegou um tempo em que a vida é uma ordem, a vida apenas, sem mistificação’)”.



Aparentemente, não na totalidade mas em boa parte e, sobretudo, no espírito, Heróis do Mar e regiões limítrofes (gente, por acaso, também de inspiração inicial assaz pessoana), acabaria por ser o conceito operativo. Porque, do “exército de rapazes e raparigas” – algo como o partido musical doutrinariamente unificado de candidatos a indisciplinadores -, o que mais notoriamente emergiria, seriam Os Golpes, revisão actualizada e (reconheça-se) algo melhorada da banda de Pedro Ayres de Magalhães e Rui Pregal da Cunha. “Com Portugal encravado na espinha e no coração” e um Quinto Império no bairro, reeditam, agora, em versão expandida, um EP lançado no final do ano passado, no qual, sem surpresa, participa... Rui Pregal da Cunha e se escuta uma enérgica releitura de "Paixão", dos Heróis, navegando o total das oito canções por águas esteticamente afins onde, certamente, se identificam as ruínas dos ícones e bandeiras mas o desafio ao futuro ainda se assemelha consideravelmente ao passado. O auto-D. Sebastião de Os Velhos, por outro lado, situa-se algures entre a primeira Sétima Legião e o punk de garagem, menos trágico-marítimo e mais urbano-épico, em cenários de três acordes e textos concisamente literatos. Num e no outro caso, porém, “o início de um novo tempo” continua em atraso.

(2011)

12 January 2009

"DEVIDO AO ADIANTADO DA HORA,
ME SINTO ANTERIOR A FRONTEIRAS"




A Casa do Tom: Mundo, Monde, Mondo - DVD realização de Ana Jobim

António Carlos Jobim, em 1979, prepara-se para habitar a casa que desejou para si, no Rio de Janeiro, com o Jardim Botânico como seu quintal e, no poema “Chapadão” que costura toda a narrativa, situa-a “sob a axila do Cristo, neste sovaco cristão”. Para falar do Rio, socorre-se das palavras de Pablo Neruda: “O Rio de Janeiro é a porta delirante de uma casa vazia, o antigo pecado, a salamandra cruel, intacta no braseiro das longas dores do teu povo” e recorda a infância feliz – “se é que a gente pode ser feliz, aí, nesse mundo” – em Ipanema. Vemo-lo, a seguir, em Nova Iorque (onde a gastronomia local “sem arroz nem feijão, só batata” o atormenta), no auge da bossa-nova que ofereceria a Sinatra e ouvimo-lo justificar o nomadismo alegando que, a partir de uma certa idade, o endereço não tem importância e ecoando Drummond: “Os senhores me desculpem mas, devido ao adiantado da hora, me sinto anterior a fronteiras”.



Imagens de filhos, amigos, festas/concertos de filhos e amigos, sempre o piano (um em cada casa), pares de óculos espalhados por todo o lado, o cafezinho, a(s) música(s) e a evocação do Sítio do Poço Fundo, matriz familiar antiga do índio Jobim, onde, de pijama, ténis e sobretudo, derrama erudição acerca de urubus, enxerga o sertão em toda a parte e, amargamente, filosofa: “Deus deve ter tantos planetas assim como a Terra, com tantos Brasis dentro, que a ele talvez não faça diferença. No fim, a destruição do mundo, provará apenas a nossa enorme incompetência, que nós somos, realmente, um animal daninho”. Ana Jobim, sua segunda mulher, filma, fotografa, narra, comenta e, de caminho, inventa o docufessional, género híbrido de documentário e confessional.

(2009)

07 December 2008

NO BANCO DE URGÊNCIAS



Não deverá haver muita gente que, ao dirigir-se, hoje, ao CCB para o concerto de Amélia Muge intitulado “Uma autora: 202 canções”, possa ir ao engano, à espera de ouvir, de facto... 202 canções. Mesmo assim, convirá esclarecer que se trata de apontar para um reportório de canções registadas e, ao mesmo tempo, focar um pouco melhor ao microscópio uma parcela particular: “É a segunda vez que participo num projecto cujo ponto de partida é um pedido de outros. O primeiro foi o Maio Maduro Maio: nem sozinha nem acompanhada, me passaria pela cabeça fazer um disco com as canções do Zeca Afonso. Desta vez, a agência Uguru convenceu-me a suspender a trilogia que tinha em curso e entregar-me a este projecto. Trata-se de fazer um ponto da situação e dar uma ideia de percurso baseada numa coisa muito simples que são as canções. Como dizia a Rosa Ramalho das suas cerâmicas, é como se eu estendesse as minhas canções todas numa carreirinha para ver até onde cheguei. E as 202 não são as canções todas, são só as registadas na SPA. Essa ideia levou-me à das canções que escrevi para outros”.



Falha estatística (aliás, facilmente corrigível): o número de canções gravadas por Amélia é equivalente, maior ou menor do que o das que ofereceu? “Suponho que é maior mas, para dizer a verdade, não tenho a certeza... escrevi para a Mísia, Camané, Moçoilas, Ana Moura, Mafalda Arnauth, Gaiteiros de Lisboa, Cristina Branco, Pedro Moutinho, Vozes Búlgaras, Navegante, Uxia, Elena Ledda, Ester Formosa, Rui Júnior, Lucilla Galeazzi, Camerata Meiga... Isto também serve para provar que nunca se deve dizer nunca: tinha assente que nunca iria cantar canções escritas expressamente para outros, que tinham a cara dessas pessoas. Curiosamente, a primeira que me pediu um tema foi a Mísia, o 'Ainda Que Mal', do Drummond, que começou por ser um tema que eu achava que podia cantar muito bem...”. Se é perfeitamente natural que, ao reapossar-se dessas canções, Amélia Muge as queira reinventar musicalmente, a verdade é que, nela, sempre pareceu existir uma quase aversão a cantar a mesma canção, da mesma forma, com a mesma vestimenta: “Não é aversão, é uma defesa da minha sanidade mental. Nos discos, cria-se uma situação particular que nunca é possível reproduzir exactamente em palco. As pessoas, se calhar, não se apercebem de como é difícil a alguém cujo estatuto é demasiado errante para o gosto de muita gente – não é fado, não é popular, não é canção de texto – ter condições materiais para conseguir, num concerto, fazer o que ficou no disco. É preciso recriar aquele espaço, interrogando as canções à medida dos meios que se tem. Estar em palco, neste tipo de situações, é como o banco de urgências no hospital, há sempre imprevistos a que é preciso acorrer. Neste caso, foi como que uma volta ao mundo em oitenta dias, tive três meses para montar este projecto”.


Amélia Muge & Ana Moura

Mas essa reencenação permanente das canções não poderá dificultar a nitidez da percepção que o público tem de um autor? “Sim, talvez, mas acho difícil que, a partir do momento em que começo a cantar, alguém diga '’À Janela’, I presume?...' São canções muito centradas na palavra, ela é sempre um elemento poderosíssimo de identificação. Mas as canções são como as pessoas: nós também cortamos o cabelo, não andamos sempre com o mesmo fato, nuns dias andamos de sapatilhas e, noutros, de salto alto. Claro que existe a possibilidade alguém dizer 'Ah, gostei mais do livro do que do filme...'" Qual é o filme? O disco ou o concerto? Pausa. “... o filme é o concerto, pelo menos, há mais imagens...”. No processo de selecção das canções, terá havido baixas, canções que, pelo caminho, se sentiram mal e morreram, outras que foram decaíndo nos afectos? “Se calhar, só algumas coisas do Múgica... foi mais fácil recorrer a umas do que a outras. Se tivesse optado por um concerto só de voz e piano, de certeza que as canções não seriam as mesmas. Este trabalho, no entanto, acaba por retomar à ideia que tinha do Múgica como cartão de visita: de Bach aos bombos de Lavacolhos, é possível existir uma música planetária para lá daquilo que são os estilos”.

(2008)