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13 June 2024

"Floating On A Moment" (ver aqui também)
 
(sequência daqui) Verdadeiramente importante, porém, foi a obsessão pelo trabalho de invenção de um universo sonoro único que terá começado quando, ainda um pouco perdidos acerca do que realmente buscavam, Beth tropeçou numa caixa onde guardava cortinados e declarou "Gosto deste som!" Daí, resultaria o timbre de baixo a utilizar a que se seguiriam, entre outras fontes sonoras pouco ortodoxas, Tupperwares, cordas de guitarra muito fora de prazo, cabaças percutidas debaixo de água, frigideiras de paella, cantis de couro, cordas de juta, secções de sopros com flautas de bisel e clarinetes, e "uma coisa de que ninguém sabe o nome mas que soa como um contrabaixo, é parecido com um ukulele sem trastos e com cordas de borracha que é um pesadelo para afinar". Ao contrário do que poderia supôr-se, nada disto visou alguma vez criar uma atmosfera "exótica" ou bizarra mas sim ajustar-se o mais perfeitamente possível ao surdo desespero que a voz e os textos de Beth Gibbons carregam (“Smiling with white teeth, the taste of ammonia, the need a delusion, a choice made to fail, ‘cos the dreams are for sale from afar”, canta em "For Sale" sobre fundo médio-oriental desfocado), enquanto os arranjos de James Ford sobrepõem sucessivos planos sonoros, multiplicam contrapontos e desarrumam os lugares de repouso habituais. Beth Gibbons é, alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Björk, Nico, Beth Gibbons até. (segue para aqui)

01 May 2008

PORTISHEAD, BRIXTON ACADEMY, 1997



"Is it all as it seems, so unresolved, so unredeemed?" canta Beth Gibbons no palco da Brixton Academy, em Londres, a abrir o concerto com "Humming", por entre o veludo das cordas e a fantasmagoria de um Moog disfarçado de Theremin. E logo ali se compreende instantaneamente como aquilo que os Portishead praticam não é senão a tradução contemporânea dos blues, da torch song, se quiserem, também do fado, todas essas músicas terminalmente "so unresolved, so unredeemed". A sala é magnífica: grande, antiga e ampla, esgotada até ao último milímetro quadrado (duas horas antes do concerto, a fila dava já a volta ao quarteirão) mas totalmente desadequada à intimidade que a música dos Portishead exige.



É verdade que muitos a desejam escutar ao vivo mas deveriam ser delicadamente conduzidos para pequenos espaços onde, em número sempre reduzido e por um preço astronómico, poderiam gozar do privilégio de conviver com ela à distância de uma respiração. Em Lisboa, o "Maxime" ou o velho (notem bem, o velho) "Ritz" acolhê-los-iam como uma segunda casa. Tudo começa, então, em vermelho vivo e, ao longo das quinze canções do daltónico Geoff Barrow, se desenvolve num permanente jogo cromático sobre o pano de fundo e quatro ecrãs rectangulares: lilás sobre verde, luz branca ofuscante, magenta e azul, borrões negros em movimento que alastram como fumo ou manchas de tinta, exercícios geométricos de op-art e céus estrelados, a resolverem-se num banho de azul em "Roads", o primeiro encore.



No palco, uma guitarra, um baixo (ou contrabaixo acústico), bateria, teclados, a artilharia do DJ e... A Voz. Beth Gibbons é alternadamente Billie Holiday, Eartha Kitt, Shirley Bassey, Janis Joplin, Minnie Ripperton, Björk, Beth Gibbons até. "Cowboys" revela-se como torch song sideral, "Half Day Closing" é uma mensagem emitida de um além hertziano que se dissolve em realejo de feira, "Elysium" uma espessa convulsão púrpura e turquesa a explodir num final tórrido, "Over" um electrocardiograma de Janis. O programa não contempla a "integral" dos Portishead mas também não esquece "Sour Times" (rasgado e negríssimo com desfecho apocalíptico), "Glory Box", "Mysterons" ou "Strangers". De qualquer modo, muito mais do que o necessário para que, durante hora e meia, alguns milhares tenham tido acesso directo a um outro mundo onde ainda, de certo, haverá quem permaneça. (1997)